Coração de loba
17 Adeus
Narrado por Renesmee
Os últimos dois meses haviam sido dolorosos. Mais do que eu gostaria de admitir. Mas eu segui em frente — ou, ao menos, tentei. Evitei a todo custo cruzar com Jacob. Mudei os horários na escola, ajustei minhas rotinas, e quando soube que ele e Bella estavam oficialmente juntos, entendi que meu esforço em desaparecer da vida deles era mais do que necessário... era um alívio.
Billy e Charlie fizeram um jantar para comemorar a união das famílias. Eu, claro, não fui. Os Clearwater também não. Diziam que estavam doentes. Mas todos sabiam o verdadeiro motivo.
Fui trocada com uma facilidade que ainda doía. E por ela. Por Bella.
Mas agora, enquanto arrumava minhas malas para ir embora de vez, sabia que aquilo não importava mais. Talvez em outro tempo, em outro universo, Jacob tivesse me escolhido... mas naquele, ele havia escolhido outra pessoa. E tudo bem. Ou pelo menos era isso que eu repetia pra mim.
Guardei com cuidado a caixa que minha mãe havia deixado pra mim. Era pequena, de madeira escura, e sempre teve um lugar reservado na minha estante. Ao colocá-la dentro da mala, o fundo da caixa se soltou. Um envelope escorregou entre meus dedos.
O envelope estava endereçado a Charlie. A caligrafia era da minha mãe.
Segurei o envelope contra o peito por alguns segundos. Depois, suspirei. Era a desculpa perfeita para me despedir.
A brisa fresca da tarde balançava os galhos das árvores quando estacionei minha caminhonete em frente à casa de Charlie. Respirei fundo, olhando para o envelope amassado em minhas mãos. A caligrafia suave da minha mãe ainda parecia viva ali, como se ela tivesse acabado de escrevê-la.
Desci do carro e caminhei até a porta. Hesitei por um instante, os nós no meu estômago apertando. Toquei a campainha.
A porta se abriu rápido demais.
— Renesmee? — A voz surpresa de Bella me atingiu como um tapa.
O rosto dela estava pálido, e seus olhos se arregalaram ao me ver ali. Por um segundo, pensei que ela fosse fechar a porta na minha cara.
— Oi — disse firme, engolindo minha raiva com dificuldade. — Preciso falar com o Charlie.
Ela demorou a responder, talvez considerando se deveria me deixar entrar. No fim, apenas abriu a porta um pouco mais e deu espaço.
— Ele está na sala. Entra — disse num sussurro desconfortável, já se virando para dentro da casa.
Eu a segui pelo corredor, sem intenção de me acomodar.
Charlie estava sentado em uma poltrona e franziu a testa ao me ver.
— Renesmee?
Assenti, estendendo a carta para ele.
— Minha mãe deixou isso pra você. Estou indo embora hoje. Achei que era importante entregar em mãos.
Ele pegou o envelope sem entender muito bem. A confusão estava estampada em seu rosto. Eu não disse mais nada. Só me virei e caminhei até a porta.
Mas antes que eu alcançasse o carro, ouvi a voz de Bella me chamando.
— Espera!
Virei devagar, sem esconder a exaustão no meu olhar.
— O que foi agora?
Ela pareceu nervosa, mexendo as mãos como se buscasse palavras.
— Eu... eu nunca quis que fosse assim entre a gente. Que as coisas terminassem assim.
Soltei um sorriso irônico.
— Nem eu, Bella. Mas está tudo bem. Você e o Jacob se merecem. Ele nunca prestou mesmo.
Abri a porta da caminhonete sem esperar resposta. Vi, pelo canto do olho, o rosto dela murchar com minhas palavras.
Liguei o motor e fui embora, sem olhar para trás. Deixando para trás um homem que não sabia que era meu pai... e uma mulher que destruiu o pouco que eu tinha de felicidade.
Narrado por Jacob
Eu estacionei a moto em frente à casa da Bella, ainda com o coração acelerado por causa do vento, do caminho... ou talvez pela ansiedade de vê-la. Mas assim que abri a porta, soube que algo estava errado.
— Bella? — chamei, entrando.
Ela estava sentada no sofá, encolhida, os olhos vermelhos, lágrimas correndo sem controle. Me aproximei imediatamente, ajoelhei à sua frente e toquei seu rosto com as mãos.
— O que aconteceu? — perguntei, sentindo meu peito apertar só de vê-la assim.
Bella fungou e desviou o olhar.
— Ela veio aqui… a Renesmee. — sua voz saiu baixa, quase um sussurro. — Ela trouxe uma carta… para o Charlie. Era da mãe dela.
— Carta? — franzi o cenho.
— A carta dizia que… que o Charlie é o pai dela, Jacob.
O mundo pareceu parar. Um zumbido agudo dominou meus ouvidos por um instante. Pisquei, tentando processar o que ela acabara de dizer.
— Como assim? O Charlie… é pai da Renesmee? — repeti, incrédulo.
Bella assentiu, com lágrimas escorrendo ainda mais rápido.
— Eu não sabia, Jake… eu juro. Só descobri quando ela disse. Ela entregou o envelope, ele leu e ficou em choque. Disse que precisava encontrá-la antes que fosse tarde… ela vai embora hoje.
Sentei-me no sofá, atordoado. A irmã. Renesmee era irmã da Bella. Eu tinha me apaixonado — feito amor, sofrido, traído, desistido — da irmã da mulher com quem agora estava.
— Meu Deus… — murmurei. — Bella… ela me odeia.
Bella assentiu, os olhos brilhando de arrependimento.
— E com razão. Ela disse que nós dois nos merecemos. Que você não presta… E eu… eu tirei você da minha própria irmã, Jake.
Coloquei os dedos em seus lábios suavemente e neguei com a cabeça.
— Ei… isso não é culpa sua. Nada disso é simples, Bella. Mas agora não posso ficar. Ela vai embora e… e a imagem que ela leva de mim é a pior possível. Eu… eu não posso deixar que isso termine assim.
Bella não disse nada. Apenas assentiu, compreendendo.
Levantei, peguei minha jaqueta e atravessei a porta sem pensar duas vezes.
Subi na moto com o coração na garganta.
Espere por mim, Nessie. Só mais uma vez.
Engatei a marcha e rumei direto para Port Angeles, rezando para não ser tarde demais.
Narrado por Renesmee
A rodoviária estava cheia, barulhenta, confusa… e ainda assim, tudo ao meu redor parecia em câmera lenta. A mala estava pesada, mas não tanto quanto o que eu carregava no peito. Harry, Sue, Seth e Leah estavam comigo, tentando sorrir, tentando fingir que isso era só mais uma viagem qualquer.
— Não se esqueça de escrever, hein? — disse Sue, enxugando uma lágrima disfarçada.
— Eu vou escrever — prometi, tentando sorrir de volta.
Abracei Harry com carinho. Depois, Sue. E por fim, Leah e Seth. — Eu amo vocês — sussurrei, e percebi que minha voz falhou um pouco.
Foi quando ouvi a voz que nunca tinha me chamado assim antes:
— Renesmee!
Virei devagar. Charlie vinha se aproximando, o olhar emocionado, com o envelope amassado em mãos. Parecia que tinha corrido até ali.
— Eu... sempre desconfiei — disse ele, parando à minha frente. — A forma como Elisabeth te protegia… seus olhos... mas ela sempre negava. E eu acreditei. E agora... agora eu sei.
Eu senti um aperto na garganta, mas mantive o sorriso triste. Ele continuou, com a voz embargada:
— Me perdoa por não ter estado lá. Por não ter sido seu pai quando você mais precisou. Eu... — ele respirou fundo, e então perguntou, como se tivesse medo da resposta. — Posso te abraçar, filha?
Demorei um segundo, mas sorri. — Pode.
E então ele me abraçou. Forte. Como se quisesse recuperar cada ano perdido naquele instante. Eu fechei os olhos e me permiti sentir. Era diferente. Era real.
Depois de alguns segundos, me afastei com delicadeza. — Eu preciso ir — murmurei.
Charlie assentiu com um olhar marejado. Não disse mais nada.
Virei para o setor de embarque, respirei fundo e caminhei. Antes de cruzar a porta, olhei para trás. Eles estavam todos ali: Sue, Harry, Leah, Seth… e Charlie. Me olhando como se ainda não acreditassem que eu existia.
Eu sorri. Um sorriso que carregava dor, alívio e um fio de esperança.
Narrado por Jacob
Corri como se o tempo pudesse voltar atrás. Estacionei a moto em qualquer vaga, sem me importar com as buzinas ao redor. Saltei do banco e entrei na rodoviária, o coração martelando no peito. Ela tinha que estar aqui. Tinha que me ouvir.
— Renesmee! — chamei alto, mas só recebi olhares estranhos e passos apressados me contornando.
Foi então que o vi. Harry Clearwater. Parado como um muro no meio do caminho, os braços cruzados, a expressão mais dura que eu já tinha visto.
— Ela já foi — disse ele, sem rodeios. — Se veio atrás dela, chegou tarde demais.
Meu peito se contraiu. — Que ônibus? Talvez eu ainda—
— Você perdeu — interrompeu, ríspido. — Já se passaram trinta minutos desde que ela embarcou. Vai fazer o quê agora? Correr atrás da garota que você traiu?
— Eu preciso falar com ela... pedir perdão — murmurei, tentando controlar a angústia na minha voz.
Harry deu uma risada seca, carregada de raiva. — Perdão? Depois de tudo? Você quebrou ela, Jacob. E agora quer bancar o arrependido?
Antes que eu respondesse, Charlie se aproximou. O olhar dele era menos severo, mas carregava a mesma decepção.
— Ele já falou o que você precisava ouvir. Renesmee embarcou. E, sinceramente, talvez o melhor agora seja deixá-la em paz.
— Charlie, eu só queria dizer a ela que... que eu nunca...que eu a respeito.
Ele me olhou por um longo momento. Não havia raiva, só um cansaço profundo.
— Às vezes, Jacob... respeitar alguém também é saber sair do caminho. Talvez agora não seja a hora. — Ele se aproximou e apertou meu ombro com firmeza. — Dê a ela o tempo que você tirou. Se for pra ser, ela volta.
Sem esperar resposta, ele se virou. Harry lançou um último olhar duro antes de acompanhá-lo.
Fiquei ali. No meio daquela multidão de partidas, sentindo que eu era o único que havia ficado para trás.
— Me perdoa, Nessie... — sussurrei, para ninguém além de mim mesmo.
E então o silêncio me engoliu.
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