Coração de Vidro - Trilogia
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Capítulo 1
Porque eu sou apenas uma rachadura
Neste castelo de vidro
Não sobrou praticamente nada para você ver
Linkin Park — Castle of Glass
Cristal
O motorista saiu do carro e o contornou, abrindo minha porta logo em seguida. Felipe se remexeu em meu colo e abriu seus olhinhos castanhos, bocejando.
– Chegamos? – perguntou baixinho com sua vozinha de criança.
– Sim, meu amor. – tentei meu melhor sorriso tranquilizador.
Felipe era meu irmãozinho caçula e minha única razão para continuar sorrindo.
Tirei-o do carro e saí. Felipe ficou ao meu lado, segurando as pontas de meu dedos. Olhei para trás e vi que dois empregados já haviam se encarregado de levar nossas malas.
– Srta. Cristal? – Felipe apertou minha mão e olhei em direção a voz. – Sou Iolanda, a governanta da casa. – ela disse tranquilamente. – Seja bem-vinda.
Iolanda era uma mulher bonita, parecia ter em média uns trinta e cinco anos, seus longos cabelos negros estavam amarrados em um coque no alto da cabeça e ela vestia um terninho cinza, uma blusa de seda e um laço no pescoço. Seu sorriso parecia acolhedor e sua voz transmitia bondade.
– Queira me acompanhar – continuou. –, sua avó à espera na sala. E espero que não se incomode, mas temos visitas.
Virou-se e começou a subir as escadas da mármore que levavam a porta de entrada. Assenti em silêncio, mesmo que ela não pudesse mais ver o gesto e a segui.
Ao entrar na casa, não me impressionei ao ver os móveis e quadros caros ou o lustre no teto. Não me incomodei em olhar uma segunda vez para qualquer um daqueles itens que esbanjavam riqueza, ou sequer fixar minha atenção em algo. Muito menos me senti uma pessoa sortuda por poder chamar esse lugar de casa por agora. Tudo aquilo era muito superficial. Felipe, no entanto, parecia maravilhado. Mas é claro, comparado ao lugar onde morávamos, isso parecia um palácio, – não que fossemos pobres, mas uma mansão é exponencialmente diferente de uma casa. – sem contar que ele nunca esteve aqui antes. Eu já. E não tenho muito boas lembranças disso.
– … são tantas coisas com o que se preocupar, acho que vou acabar enlouquecendo. – dizia uma mulher loira quando entrei.
– Ou talvez você enlouqueça seu noivo primeiro. – comentou sorrindo uma garota aparentemente da minha idade, provocando o riso das outras.
– Calada, Alana. – replicou a loira.
Minha avó ergueu a cabeça ainda sorrindo, no momento em que me aproximei, e encontrou meu olhar.
– Cristal. – disse com sua voz suave. – Felipe.
Vovó era uma mulher no auge dos seus cinquenta e cinco anos. Sua pele era clara e delicada, e o tempo tinha lhe sido grato, marcando-a com poucas linhas de expressão. Seus longos cabelos lisos e grisalhos iam até a metade das costas e sua voz era a mais suave que eu já tinha ouvido na vida, com exceção apenas da de mamãe. Resumindo: Ela era uma mulher bonita que não aparentava ter a idade que tinha.
– Esther. – respondi com frieza.
– Quer dizer que você é a Cristal? – perguntou Alana alegremente. – É bom finalmente conhecê-la. Sou Alana, a propósito, sua avó fala muito de você.
É mesmo? Porque eu não lembro de receber sequer uma ligação dela nesses últimos dezessete anos. Não lembro nem ao menos de tê-la visto no funeral da própria filha e genro.
– Imagino. – comentei.
Vovó levantou-se e veio até nós.
– Felipe – perguntou abaixando-se ao nível do meu irmão que permanecia agarrado a minha mão. – como você está?
– Quero voltar para casa. – ele respondeu.
Eu amo esse garoto.
– Aqui é sua casa agora, querido. – disse ela, olhando-o com pesar.
– Se depender de mim, não por muito tempo. – Assegurei-lhe e ela me encarou com tristeza.
– Acho melhor conversarmos no seu quarto. – levantou-se e olhou para a governanta. – Iolanda, você poderia mostrar a casa ao Felipe?
– Deixe que eu faço isso. – disse uma voz grave e eu olhei em direção a escadaria de mármore. Ele estava sentado no penúltimo degrau, sorrindo e por mais que tente não consigo entender como não senti sua presença antes, pois agora que havia se pronunciado, ele era a única pessoa na qual eu conseguia prestar atenção. – Estou cansado de ouvir sobre planejamentos de casamento.
Ele parecia ter entre dezoito e vinte anos. Tinha cabelos castanhos bagunçados e olhos tão azuis quanto o céu num dia quente de verão, vestia uma camisa preta e uma calça jeans e ambas lhe caíam muito bem, mas eu tinha que admitir, o que mais me chamou atenção foi seu sorriso. Parecia ser tão calmo e natural… como o de uma criança inocente que não sabia o que era a dor.
– Está bem Lucas – disse vovó –, claro, se a Cristal não se incomodar…
Exitei por um momento, mas o olhar de Esther me dizia que eu devia confiar nele e apesar de ela não ser uma das minhas referências de pessoas mais respeitáveis no mundo, eu confiava em seu julgamento. Ao menos nesse quesito.
– Eu também posso ir. – ofereceu-se Alana levantando-se. – Adoro crianças.
– Tudo bem – falei e me ajoelhei de frente a Felipe pegando seu rostinho entre as mãos. – Querido, preciso resolver umas coisas agora, então você vai passar um tempinho com o Lucas e a Alana, tá bom?
Ele assentiu e beijou minha bochecha, correndo logo depois em direção a Lucas que me olhou com curiosidade. Voltei minha atenção a Vovó.
– Vamos pôr tudo as claras. – fui direta.
– Certo, vamos conversar com calma, lá em cima. Iolanda, pode se retirar. – virou-se para a mulher ainda sentada no sofá. – Macielly, querida, se nos dá licença…
– Sem problemas. – disse sorrindo. Pegou a bolsa e se levantou. – Já está na minha hora.
Nesse momento a música Angels de Taylor Renee ecoou pelo ambiente, e peguei meu celular para ver quem estava ligando. Não pude evitar a torrente de sentimentos que devem ter sido evidentes em meu rosto, ao ver no visor de quem se tratava. Havia apagado aquele número, mas o conhecia de cor. Talvez fosse a hora de quebrar aquele chip e comprar outro, ou então devesse continuar a ignorá-lo. Gabriel. Desliguei sem atender e caminhei em direção as escadas, ignorando os olhares que recebi de cada um no recinto.
Não consigo decidir como me sentiria ao encarar qualquer um deles. Talvez demostrasse raiva… ou talvez explodisse em lágrimas.
Lucas
Cristal me deixou intrigado.
Sempre visitávamos a casa de Esther por ela ser uma boa amiga da família, mas hoje tínhamos vindo por um motivo especial. Mariane, filha de Iolanda, estava inconsolável porque seu namorado tinha ido fazer intercâmbio nos Estados Unidos e passaria três meses fora. Ela precisava de apoio moral e foi isso que a oferecemos. Conhecer a neta de Esther foi apenas um bônus. Não sabíamos que ela chegaria naquele momento e não sei dizer o que me deixou mais surpreso: Sua atitude ou a expressão de dor e raiva que sua face mostrou quando viu quem estava ligando.
– Vocês moram aqui? – perguntou Felipe enquanto passávamos pela piscina.
Do outro lado, meu irmão Pedro, estava sentado em uma cadeira de praia de frente para Mariane, os dois conversavam seriamente. Eles sempre foram melhores amigos, mas apenas isso e Pedro sabe o quanto ela é uma garota insegura.
– Se você estiver se referindo a essa casa, a resposta é não… – disse Alana.
– … mas se estiver falando do condomínio, então sim. – completei. – Moramos na casa ao lado.
Sua boca desenhou um pequeno 'o', surpreso inicialmente, mas então ele sorriu:
– Isso é bom, eu acho. Gostei de vocês. – disse ele.
Alana sorriu, minha irmã sempre foi muitos boba com crianças – apesar de não ter nenhuma piedade dos caras de quem parte os corações. –, mas eu ainda tinha uma dúvida.
– Lipe, o que sua irmã quis dizer quando disse que, se depender dela, vocês não vão morar nessa casa por muito tempo?
A essa altura já estávamos chegando no jardim. O garotinho, que não parecia ter mais que cinco anos, me fitou com seus olhinhos castanhos, tão diferentes dos da irmã, que eram de um incrível verde-esmeralda.
– A Cris me disse que vamos morar aqui até ela fazer dezoito e então vamos voltar para nossa casa. Ela vai voltar a escola de balé da mamãe e ir para a faculdade.
Ela é bailarina. É por isso que cada passo seu transmite tanta leveza e graciosidade.
– Porque ela foi tão fria com a sua avó? – Alana perguntou, agora tão confusa quanto eu.
– Fria?
– É, por algum motivo ela parece odiar estar aqui. – explicou minha irmã. – Parece não gostar da Esther.
– Ah. – disse o garotinho. – Não sei porque, mas ela não gosta. – ele parou de andar e olhou de mim para Alana, como se estivesse se preparando para o que vai dizer a seguir. – Mas com o vovô é diferente. – seu olhar voltou para mim. – Nunca me contaram o motivo, mas ouvi uma vez ela dizer a mamãe que odiava ele.
E pondo as mãos nos bolsos, caminhou calmamente até um chafariz ali perto, deixando a mim e a Alana com ainda mais peças desse quebra-cabeças, fora do lugar.
Cristal
– Esse quarto era da sua mãe, achei que fosse gostar dele. – comentou Esther enquanto entrávamos. – Me dei a liberdade de fazer apenas algumas modificações.
Olhei ao redor. As paredes eram cobertas por um belo papel de parede com padrão de pequenas flores de um rosa pálido e uma cortina branca que ia do chão ao teto, estava parcialmente aberta, dando caminho para uma sacada. A mobília era principalmente constituída por uma cama de casal, uma penteadeira, uma cômoda e uma mesa de computador, todos brancos. Duas portas, também brancas, levavam a outros cômodos, provavelmente o closet e o banheiro.
Algo encima da penteadeira me chamou atenção e fui até lá. Era uma caixinha de música. Abri-a e uma doce melodia preencheu o silêncio, embalando a dança da pequena bailarina de porcelana e de seu acompanhante. Meus olhos voltaram a queimar com lágrimas. Aquela música era do recital 'O Lago dos Cisnes'. Mamãe à adorava.
Controle-se, ordenei a mim mesma. Você não pode sequer cogitar chorar na frente dos outros.
Respirei fundo e tirei de meu rosto qualquer expressão que demonstrasse meu verdadeiro estado de espírito, deixando-o limpo. Frio. Do único modo que deveria continuar.
– Você me deve uma explicação – falei para Esther olhando em sua direção. Ela me encarava, como se esperasse que eu fosse cair de joelhos e começar a gritar e chorar a qualquer momento. Não mais. –, mas antes deixe-me dizer-lhe algo: Não pense que ficarei aqui por muito tempo. Não dou a mínima para o seu dinheiro, tenho uma vida lá fora e não espere que eu vá começar a tratar a você e ao Marcus como meus avós, coisa que vocês nunca foram e nunca quiseram ser até agora. Quando eu fizer dezoito, vou cair fora e levar o Lipe comigo, vocês nunca mais vão ter o desprazer de ver a cara de qualquer um de nós, então me responda apenas uma coisa: Por que pediu nossa guarda? Vocês não precisavam, não eram nossa única… – eu ia dizer família, mas seria errado. Eles não eram nossa família. Laços de sangue não são o suficiente para formar uma, o amor é. E isso foi algo que eles nunca nos deram. – … opção. Então por quê? O que vão ganhar com isso?
– Não adianta – disse ela. –, não importa o que eu disser, você vai dar um jeito de virar contra mim, vai esfregar na minha cara todo o discurso de como sou uma mulher sem coração. – seu tom ainda continuava doce e aquilo estava começando a me enjoar. – Não preciso de motivos para querer você e Felipe morando aqui, tudo isso é de vocês, são nossos únicos herdeiros, querendo você ou não. Conviva com isso. Talvez quando for embora, daqui a seis meses, tenha uma opinião bem diferente em relação a mim. Talvez queira ficar.
Dizendo isso, ela se virou e saiu do quarto, apenas o barulho de seus saltos quebravam o espesso silêncio e depois… nada.
Fechei a porta e massageando as têmporas caminhei em direção a sacada, o brilho e o calor do sol me fazendo fechar os olhos por alguns segundos, para depois voltar a abri-los. Aquele era um belo condomínio. Era o tipo de lugar em que qualquer outra pessoa gostaria de morar, mas eu?… eu preferiria estar bem longe dali.
Ao ouvir uma risada olhei para baixo e me deparei com a visão de um vasto jardim. Felipe corria de um lado para o outro com Alana tentando pegá-lo. Ver isso me provocou um sorriso. Ao menos ele poderia ser feliz aqui.
Lucas estava sentado em um banco à sombra, observando-os e parecia pensativo. Não me viu, mas seu olhar ainda estava marcado a ferro em minha mente: uma mistura de curiosidade e fascínio, como se tentasse me descifrar. Eu não queria que isso acontecesse. Não queria que ele descobrisse a menina quebrada que sou e que tento esconder ao máximo.
Desviei o olhar e me afastei, voltando para dentro do quarto. Talvez eu devesse descer e me juntar a eles. Talvez não. E talvez, só talvez… um pouco de companhia fizesse a minha estada aqui se tornar um pouco mais suportável.
Andei de volta até a porta, oferecendo-me aquela chance, mas antes de alcançá-la, três batidas leves e abafadas se fizeram ouvir. Por favor, não seja ele… mas eu sabia que era. E quando as coisas já parecem ruins o suficiente só tendem a piorar.
– Cristal. – ele chamou. Sua voz era calma e sem emoção. Eu a odiava. – Abra a porta.
Sabendo que não poderia adiar aquilo por mais tempo, abri a porta. Marcus, o homem que eu me negava a chamar de avô, estava parado do outro lado. Vestia um terno cinza bem passado provavelmente mas caro que meu closet inteiro e sapatos pretos lustrosos. As mãos estavam atadas atrás do corpo e seu rosto era bem como eu me lembrava, afinal, era um que eu nunca mais queria ver na vida. Com seus cabelos grisalhos, olhos escuros e feições fortes, Marcus era bonito de um modo calculado e impiedoso, sempre frio e distante.
– Sua avó me disse que já tinha chegado. – comentou entrando no quarto sem qualquer convite. A casa era dele, afinal.
– Ah, é mesmo? – perguntei ironicamente, saindo do torpor que havia entrado desde o momento que ouvi sua voz chamar meu nome.
– Modere seu tom enquanto estiver falando comigo, mocinha. – seu tom não havia subido, Marcus quase nunca se exaltava. – Você já disse o que pensa a Esther e sinceramente, saber que quer ir embora foi uma das poucas boas notícias que recebi esse mês inteiro. – cerrei os punhos. – Espero que compreenda que só está aqui, porque sua avó me pediu, não, exigiu é uma escolha melhor e ela nunca me exigiu nada antes. Tenho que dizer, fiquei realmente surpreso inicialmente. – caminhava de um lado para o outro e desde que entrou, não olhou em minha cara uma única vez. – Mas já que está aqui, eu também tenho umas coisinhas para te dizer: Enquanto estiver vivendo conosco, não quero ouvir reclamações, deboche, sarcasmo ou insultos. Seja a herdeira perfeita. Trate bem as visitas. Sorria. Sobreviva. Ou posso cuidar para que sua breve estada se torne um pouco mais difícil do que seria sem minha ajuda.
– Isso é uma ameaça?
– Entenda como quiser.
Minha vontade era a de gritar. Ele queria fazer comigo o que tentou fazer com minha mãe. Transformar-me em alguém que apenas obedece sem fazer objeções. Tirar meu livre arbítrio.
Não chore na frente de ninguém!, meu subconsciente me lembrava.
– Será que você não cansa de querer ser o dono dos outros? – questionei enojada. – Tentou fazer isso com sua própria filha e agora…
– Ela não era mais minha filha. – afirmou. – Não depois que saiu pela porta dessa casa para nunca mais voltar.
– Seu hipócrita! Se ela não tivesse feito isso, provavelmente você a teria obrigado a abortar, não entende o quanto isso a teria machucado? – levei uma mão até a nuca e balancei a cabeça, tentando me acalmar. Foi um esforço vão. – Se quiser me infernizar, então que o faça, mas poderia muito bem se polpar o trabalho e me mandar embora daqui agora mesmo. Eu te odeio! Nada vai mudar isso.
Dê-lhe as costas e saí quase correndo do quarto, não parei até descer as escadas.
Vovó estava no sofá, ao lado de Iolanda e as duas conversavam baixinho, mas pararam assim que me viram. Não pude deixar de notar seus olhares de preocupação.
– Deixem-me sozinha. – murmurei com os dentes cerrados. – Por favor.
– Cristal… – tentou vovó.
Ignorando-a olhei de um lado para o outro e vi uma porta lateral de vidro e ferro, para onde me encaminhei. Sem exitar, passei por ela. A impressão era a de que eu tinha entrado em um outro mundo, pois aquele era um lugar que transmitia apenas leveza e calmaria. Mas era apenas uma estufa.
As lágrimas que prendi desde o instante em que botei o pé nessa casa, caíram silenciosamente ao longo do meu rosto. Não era apenas tristeza, era a mais pura raiva contida.
A luz do sol que transpassava o teto de vidro, banhava as flores com uma luz suave, projetando sobras no chão e pequenos corredores separavam a estufa em seções. A alguns metros a minha frente, havia uma outra porta – aberta –, levando a saída. Sentei em um dos dois bancos de ferro dispostos ali e fechei os olhos respirando fundo.
Acalme-se.
– E essa é a estufa! – me assustei ao ouvir a voz alegre de Alana, dando um pequeno pulo no banco.
Limpei minhas lágrimas o mais discretamente possível e me levantei, olhando para eles.
Os três estavam parados a porta e Alana estava de costas para mim, mas Felipe e Lucas, me encaravam abertamente.
Tanto esforço para não chorar na frente de ninguém.
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