Coração de Gelo
2 The Lonely
Notas iniciais
Joga as costas contra a porta do quarto deslizando o corpo lentamente até o chão. No rosto, o caminho das lágrimas não secavam; mal caia uma queixo abaixo outra surgia para refazer a caminhada, quase como um ritual. Leva ambas as mãos ao chão, meio tremulas e concentra-se o melhor que pode. Das palmas abertas um pequeno fio de um dourado quase transparente surge e se levanta crescendo cada vez mais, cobre toda a mansão numa barreira de isolamento, algo que devia ter feito com seu próprio coração pra que não estivesse agora sentindo aquela dor. Fica ali parada olhando o quarto vazio numa meia luz que entrava pela janela. Lá fora uma brisa fria cantava: um sussurro que fazia as cortinas dançarem levemente. Fecha os olhos apertando as pálpebras como se assim pudesse fazer as lágrimas pararem de rolar, mas era inútil. Aquela cena não saia de seus pensamentos. Fora tudo tão rápido, tão inesperado. O sorriso se desfazendo em lágrimas de forma instantânea. Sozinha naquele enorme quarto vazio, pensava, sentia e não tinha mais nada que pudesse ou quisesse fazer naquele momento.
Não era como se já estivesse completamente apaixonada por Hood, só agora podia pensar melhor sobre o real motivo que a levou a se aproximar dele, queria uma chance, apenas mais uma chance de ter o que se espera pra um final feliz; afinal, quando você faz parte de um reino mágico que te ensina desde criança a procurar a felicidade porque finais felizes realmente existem, o verdadeiro amor realmente existe, principalmente depois de já tê-lo sentido um dia, você se pergunta o motivo de estar fora da lista de pessoas felizes e ser o vilão da história. Seria justo? Mesmo depois de tudo que fizera e convenhamos, não foi nada pior que os feitos do senhor das trevas ou do pirata de Neverland, mas para eles o tão sonhado amor verdadeiro, o final feliz parecia de desenhar claramente enquanto o dela se desfazia mais uma vez.
O mais estranho de tudo isso era sentir não mais aquele ódio da primeira vez, aquele desejo de vingança, de fazer de toda sua vida uma busca pela satisfação de destruir, de quebrar alguém como agora sentia quebrada. Seria aquilo uma reação a sua mudança? Será que a temida ‘Evil Queen’ havia, definitivamente, se tornado apenas Regina Mills? A que se devia aquela mudança?
Deixa imagens mais antigas tomarem conta de seus pensamentos. Nelas, o rosto do filho aos dez anos, quando aquela história começara e ela não fazia ideia dos caminhos que tomaria. Mais uns segundos refazendo as imagens daquela época na cabeça, procurando um ponto em que pudesse ver claramente o início de sua mudança, e não tinha mais dúvidas quanto aquilo. Dos olhos verdes de seu filho saltam um par de verde esmeralda ainda mais reluzentes. Tentou afasta-la, tentou difama-la perante toda a cidade, brincou com sua paciência, seus sentimentos, sua vida da maneira que quis, tentou fazê-la Dormir com uma pocao, para que? Para salvá-la tempos depois, para entregar a ela como um presente ao melhor amigo, seu bem mais precisos. Para depois de tudo aquilo ela tirar lhe a primeira chance em anos de ter alguém consigo e não se sentir mais tão so nos trinta anos que passará em storybrooke e simplesmente não conseguia pensar em levantar daquele Chão, procurar emma swan e mais uma vez arrancar seu coração para desta vez destruí-lo sem pensar duas vezes. Não conseguia, não conseguia odiá-la e se perguntava se algum dia realmente a odiou ou apenas nunca soube lidar com a ameaça que aquela mulher causava aos seus sentimentos desde que ela lhe pôs aqueles olhos verdes na direção dos seus.

– Odeio você, Emma Swan! – Diz em voz alta, mais para tentar se convencer do que realmente pelo sentimento de ódio. Porque ela sempre se metia na sua vida? Porque parecia que pra qualquer canto que olhasse Emma estava lá olhando pra ela, discutindo, salvando sua vida? E agora aquilo. O coração dela em suas mãos. Nunca havia sido tão fácil retirar o coração de alguém antes. Percebe que as lágrimas haviam parado de cair. Seu monólogo mudo lhe tirara dos pensamentos masoquistas sobre nunca encontrar o final feliz. Quem precisa de um final feliz quando se é Regina Mills? O que fazer agora? Erguer a cabeça e fingir que nada daquilo aconteceu? Fingir que não doeu?
Ouve uma voz vinda do lado de fora da mansão. Levanta-se. Se for Emma jura para si mesma que lança uma bola de fogo em seus cabelos dourados.
Vai até a janela do quarto. Lá em baixo Tinker lhe chamava insistente. Por um segundo sentiu um certo desconcerto em pesar que Emma iria atrás dela. Porque a loira faria isso? Não havia motivo.
–Regina, pra que esse feitiço? – Pergunta tentando ultrapassar a barreira de proteção.
–Vá embora, Tinkerbell! – Regina responde sem paciência. Devia ter previsto que aquela fada intrometida a procuraria, sempre se metendo onde não é chamada. A culpa era dela se estava naquela situação.
–Vim ver se você precisa de ajuda.
–Com o quê? Não estou interessada no seu pó de pirlimpimpim, obrigada. – Fala irônica fechando a janela com mais força que o necessário.
Tinkerbell ainda chama seu nome, tenta convencer Regina a deixá-la entrar. Mas quando mais a voz da fada ecoava em pedidos em seus ouvidos, mais Regina insistia em ficar sozinha. Era isso, estava sozinha mais uma vez e agora seria definitivo. Errou em se deixar iludir que ainda havia alguma coisa pra ela, não poderia haver, não depois de Daniel.
A voz da fada cessa. Regina volta à janela. Olha para a entrada da mansão e a rua silenciosa e vazia, como se esperasse que de súbito alguém aparecesse ali e mudasse o rumo das coisas, daquela historia que mais parecia sem pé nem cabeça e cada vez se tornava mais distante do seu ponto de partida. Vingança, ódio, nada mais daquilo tinha sentido.
Um ruído mais uma vez lhe tira de seus pensamentos. Emma para na entrada da mansão. As mãos nos bolsos. Os olhos na janela, em direção à morena. Olhavam-se, comunicavam-se de forma silenciosa e de alguma forma sabiam, não era necessário dizer nada, como tantas vezes já lhes havia acontecido. Aquele era mais um daqueles momentos em que elas olham uma pra outra e uma cumplicidade invisível lhes cobria por completo. A loira mostrava um pedido de desculpas estampado nas rugas de sua testa e Regina um pedido de socorro mascarado por uma expressão dura.
–O que faz aqui, Swan. Pensei que tivesse dado o recado. – Diz mantendo a frieza da voz.
–Não tenho medo de você, se é isso que tentou mostrar.
–Muito corajosa, Savior. Mas se fosse você não me aproximaria tanto.
–Vai em frente, joga em mim todo seu ódio de novo. Eu não fui embora uma vez e não vou embora de novo. – Diz com firmeza, de alguma forma queria mostrar à morena que estava ali se precisasse dela e queria que ela precisasse, queria com todas as suas forças não sentir aquele nó de culpa no peito, um nó que jamais sentira por ninguém.
–O que você quer? – Pergunta de forma direta.
–Quero saber se está tudo bem, e...e se você precisa de alguma coisa, eu..
–Está ótimo, você me fez um grande favor. – Fala interrompendo a loira.
–E-eu? Qual? – Pergunta confusa.
–Tirou de mim uma ilusão, mas não espere que eu agradeça.
–Regina eu...- Dá um passo para frente e é impedida por uma parede invisível. – Porque...
–Vai embora Swan, ou.. – Emma olha as próprias botas, sorri e olha novamente para a janela.
–Ou o quê? – Pergunta interrompendo a mulher — Vai tentar me destruir? Mais uma vez? É sério isso, Regina? Vamos voltar aos primeiros capítulos dessa historia?
–Que historia? Não tenho nenhuma historia com você, Vai embora! – Fala raivosa fechando a janela e cobrindo-a com a cortina como se quisesse se certificar que não olharia mais para fora, que fecharia tudo ali dentro e nada sairia ou entraria dali, que estava firme e segura, quando na verdade poucas as vezes na vida havia sentido realmente segura e uma delas, estranhamente, havia sido ao lado de Emma.
Olha por detrás da cortina fina. Ela estava indo, mas de alguma forma sabia que ela voltaria. “Ela sempre volta”, pensa, “De alguma forma ela sempre volta”.

Do lado de fora, acompanhando o vendo frio, caia uma neve fina, atípica para aquela época do ano, dançava. Caía por todas as partes da cidade como se espionasse seus moradores. Ouvia as conversas, as risadas, os desejos ditos em voz alta. Conspirava.
Algo se levantava ao longe, quase na saída da cidade.
–Quanto tempo vamos esperar, minha rainha?
–Não seja tão ansioso, Olaf. – A mulher dá a volta no cômodo de um enorme castelo de cristais de gelo.
–Não conseguirá manter esse castelo invisível por muito tempo, minha rainha. Precisamos agir rápido. – Diz um homem de neve vestido com o que parecia ser uma armadura de gelo. Fazia uma referencia com a cabeça toda vez que dizia “Minha rainha”.
–Já disse, Olaf, paciência! Ainda não estou com toda minha força e minha magia está limitada. Estar presa por todos esses anos não foi nada bom, mas não se preocupe, tenho o suficiente. Por agora apenas observamos, está entendido? – Pergunta de forma séria fazendo um movimento com as mãos e a imagem de uma mansão desaparece do espelho para o qual olhava minutos antes.
A criatura abaixa a cabeça.
–Sim, minha rainha.
–Em breve retomaremos o nosso reino e tudo que me foi tomado. – Sorri com o canto da boca enquanto um brilho misterioso se formava em seus frios olhos azuis.
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