Coração de Gelo
7 Same Mistake
Notas iniciais
Todo o resto do caminho fazem caladas num silêncio profundo capaz de tornar audível o vento frio que passava maltratando as ruas vazias da cidade.
Caminhando atrás da morena Emma refletia sobre a existência de um ponto qualquer em que Regina fosse simplesmente despir todo aquele orgulho bobo e toda aquela mania de tentar afastá-la.
Lembrava-se da cena entre a morena e Robin no hospital. Por que com ele ela parecia entregue?
Um abraço.
Dentre todo aquele tempo nunca havia abraçado a morena e Robin conseguiu isso em tão pouco tempo.
–Chegamos. Creio que agora não preciso de guarda-costas, xerife. Está dispensada. – Regina fala séria com a voz quase metálica dando ordens como se acompanhá-la até em casa fosse um dever que Emma teve de cumprir.
A loira se assusta com o tom da outra.
–Quando você vai parar com isso?
–Com isso o quê?
–Com isso de fingir que me odeia. Você não me odeia. Se odiasse já teria arrancado meu coração e esmagado. Sei que vai dizer que não faz isso por Henry, por que não quer perder a confiança e o amor dele, mas não é verdade.
–Não entendo esse seu comportamento, xerife. – Fala dando as costas para a loira, mas, mais uma vez, Emma a faz virar.
–É Emma. Você já me chamava de Emma. Nós dividimos um filho. Eu salvei você da morte tantas vezes. Nós já fizemos magia tantas vezes juntas. Eu confio em você, acredito em você, por que você não pode confiar em mim?
–Do que você está falando?
–Por que você teima em me afastar? Por que teima em manter esse comportamento rude? Foi por que eu trouxe Marian do passado? Duvido muito que seja isso, Regina. Nós estávamos começando uma..., algo como uma amizade e, de repente, você dá as costas pra mim de novo. Não creio que isso tenha algo a ver com Marian, por que você não me odeia, eu sei disso. Você não é mais capaz de odiar eu vejo...
–A neve está afetando seu cérebro, Swan. Não faço ideia do que está falando. Eu suporto você, apenas isso.
–Me suporta? Apenas me suporta? – Pergunta nervosa se aproximando da morena. – Não parecia isso há menos de cinco minutos.
A morena estremece por dentro sem retirar do rosto a feição dura e séria. Emma também havia sentido algo com aquela aproximação e isso a assustava. Não seria motivo suficiente para se manter longe da loira? No dia em que seu coração estivera entre os dedos de Regina, ela não percebera o perigo? Pois a morena parecia ter entendido. Algo nela dizia, gritava que havia entendido. Apenas deixava tudo lá dentro enterrando cada vez mais aquela sensação confortável de ter em mãos o coração da “Savior”.
–Continuo sem entender, Emma. Por que você não me deixa em paz de uma vez. Será que sua culpa é tão grande assim?
–É. É bastante grande. Tento encontrar uma forma de reverter isso sem fazer ninguém mais sofrer.
–Alguém sempre tem que sofrer, Swan. Se geralmente sou eu, paciência. Agora se me dá licença tive um dia muito cheio hoje, ainda me sinto cansada.- Fala se dirigindo à porta da mansão.
A xerife suspira forte engolindo as muitas palavras que ainda queriam sair. A vontade de sacudir Regina e lhe mostrar que ela estava ali para ajudar era grande, mas batia de frente com sua consciência. Afinal, o que ela era para a morena? Apenas a mãe biológica de seu filho.
–Boa noite. – Emma diz antes da morena atravessar a porta. – Pode me chamar se precisar de alguma coisa.
–Boa noite, xerife. Não precisarei de nada. Pode dormir com sua consciência tranquila. – Diz de forma dura e entra batendo a porta.
Emma dá meia volta e segue pelas ruas.
Se o que viviam era um grande conto de fadas com certeza, além de grande, era também o mais confuso. Nunca quis tirar Henry de Regina, nunca quis se inimiga da morena assim como sua intenção não fora fazê-la sofrer ao trazer Marian. O mais terrível era perceber que Regina entendia sua intenção e ainda assim a ignorava. Parecia que a morena se sentia mais confortável odiando-a do que qualquer outra coisa. Ódio gratuito desde a primeira vez que se viram enquanto ela havia sim odiado a morena várias vezes: a prefeita sociopata de Strybrooke; lembra-se e sorri. Mas, mesmo nos piores momentos malignos de Regina, Emma via nos olhos castanhos uma junção extremamente misteriosa de luz e trevas. Regina Mills sempre a intrigou. Poderia dizer que gostava dela e gostava justamente por aquilo. Então por qual motivo, durante todo aquele tempo, nunca haviam se aproximado? Por que conhecia tão pouco sobre Regina enquanto todos na cidade pareciam conhecê-la tanto?

Regina entra em casa e logo desfaz a ruga de irritação que trazia na testa. Põe as costas contra a porta de entrada e leva ambas as mãos aos cabelos colocando uma mecha em cada lado da orelha. Sua respiração ofegava. Estava nervosa e odiava aquela sensação. A capacidade que Emma tinha de tirá-la do sério era evidente e ainda mais naquele momento. Algo começava a tomar forma no coração da morena, algo como um sentimento que a aquecia. Seus sentimentos não estavam normais. Conseguia perceber com clareza o quanto tudo era confuso. Se Gold estiver certo e a mulher com quem sonhara for realmente Elsa estaria livre de imaginar o que acabara de imaginar aos ver aquele par de olhos verdes tão de perto. Era mais fácil odiar Emma Swan.
Respira fundo e segue pelo hall de entrada até o pé da escada. Ia pôr o pé no primeiro degrau quando vê um vulto passar pelo escritório. Regina caminha até lá meio receosa. A porta estava entreaberta. Com certeza não fora ela quem deixara daquele jeito. Alguém estava lá dentro.
Escancara a porta rápida como um raio. Na mão direita uma bola de fogo preparada para qualquer surpresa desagradável. Mas de todas as surpresas que poderiam lhe aparecer naquele momento, aquela com certeza era a mais inesperada.
A mulher estava parada atrás da mesa. Parecia distraída olhando para fora da janela. O vento gelado que maltratava as cortinas não a incomodavam. Os cabelos loiros presos para trás numa longa trança. O vestido azul de um tecido tão leve com pequenos cristais de gelo que brilhavam feito diamante; pareciam ter sido feito em detalhes para uma rainha.
Regina fica parada por alguns segundos sem saber o que fazer. Lançar-lhe de inesperado uma bola de fogo nas costas ou simplesmente falar alguma coisa e esperar que ela não a transformasse numa pedra de gelo?
Antes mesmo de decidir a mulher vira-se em sua direção:
–Olá, Regina.
–O que faz aqui? O que quer? Porque invadiu minha casa?
Ela olhava a morena com seus olhos de íris azuis frios como pedras de gelo.
– Isso não é gentil de sua parte. Uma rainha de verdade deve saber receber seus convidados com delicadeza. — fala de forma irônica levantando a não direita enquanto uma fina camada de gelo ligava-se a chamava acesa na não de Regina, apagando-a.
A morena olha a própria mão tentando novamente trazer a chama de volta, esforço vão.
– O que você quer? — Pergunta de forma direta. Não conseguia compreender o motivo de Elsa estar ali e quanto mais mistério a mulher fazia, mais Regina se irritava com a situação.
– Vim falar de rainha para rainha. Preciso de sua ajuda, Regina. — Elsa fala saindo do lugar onde estava. Vai até próximo da morena e senta-se numa poltrona.
– Por qual motivo acha que eu ajudaria você? – Pergunta tesa no mesmo lugar. Não demonstrava qualquer tipo de sentimento: fosse raiva, fosse medo.
Analisava cada movimento de Elsa e se assustava com o que via. A rainha de gelo em muito lembrava a rainha má. Os mesmos olhos frios e ávidos de vingança; a voz metalizada para parecer mais forte, distante e ameaçadora.
Elsa fingia. Não tão bem, pois ela conseguia ver através da muralha de gelo grosso que ali se levantara.
– Por que ainda não sabe o motivo que me trouxe até aqui. – Diz sem tirar os olhos vítreos dos castanhos da morena.
– E que motivo seria esse?
– Tsc, tsc... . — balbucia estalando a língua nos dentes. — Está indo rápido demais querida. Por que não conversamos primeiro?
– Ótimo. Você quer conversar? — Regina pergunta impaciente sentando-se na poltrona de frente para Elsa. — Então me diz o que fez comigo? Você me jogou algum tipo de feitiço enquanto eu dormia. Você tem me vigiado, sinto sua presença. Por quê? O que quer?
–Fico feliz em saber que sente minha presença isso é no mínimo muito fofo da sua parte. – Fala pousando a ponta dos dedos no queixo da morena que rapidamente desvia o toque da outra.
–Apenas me diga o que fez comigo.
–Eu? Não fiz nada com você. Confesso que tentei lançar uma pequena maldição enquanto você dormia, mas não tive sucesso. – Sorri de forma cínica e, continua: — Às vezes falho. Não tenho controle total da minha magia, por isso preciso da sua ajuda. Sei que pode ser uma ótima professora. – Fala num sorriso de canto de lábio.
A morena percebia que a outra sabia mais do que parecia. Talvez estivesse apenas tentando despistar seu real objetivo.
O olhar de Elsa era misterioso demais.
–Você tem me vigiado, não é? –
–Sim. Você e todos da cidade. – Confirma ainda sem tirar os olhos da morena. Elsa a olhava de forma fixa, como se quisesse escanear seus pensamentos.
–O que você quer? – Pergunta mais uma vez de forma direta. Aquele rodeio todo estava irritando-a, ainda assim sabia que deveria agir exatamente como a outra desejava, jogar o jogo da outra para descobrir o que ela realmente pretendia. Não podia ser que tivesse ido até sua casa para aulas de magia.
–Preciso de um favor e creio que seja a única pessoa capaz de fazê-lo. – Elsa fala séria tentando sempre manter uma proximidade que Regina rejeitava com insistência.
–Do que se trata? – A morena fala levantando-se da poltrona e estalando seus saltos até o outro lado da sala.
–Bem, preciso reaver meu reino e salvar minha irmã, Anna. – A rainha de gelo faz uma pausa. O nome da irmã parecia ter algum poder sobre ela, um sentimento verdadeiro talvez, ou, como pensava Regina, apenas um truque para que sentisse algum tipo de piedade. De truques desses a rainha me entendia muito bem e por isso não confiava na outra.
– Sei que você pode pensar que ela morreu depois de tantos anos congelada. Mas posso afirmar que não. Eu a sinto. Sinto sua presença. Sinto a presença de todos em quem toquei com minha magia, assim como você sente a minha. Estamos conectadas, Regina e você não pode fugir disso..., a menos...
–A menos? – Pergunta demonstrando curiosidade.
Elsa também levanta-se. Caminha lentamente até a janela na qual fora vista minutos antes. Olha para fora: a neve havia parado de cair.
–A menos que algo quebre essa conexão. – Fala parecendo distraída.
–Hum..., isso quer dizer que sou um de seus zumbis de gelo agora? – A morena pergunta debochada.
–Own, como isso é grosseiro! Não, ainda não. Já falei. Algo na minha tentativa de maldição falhou. – Diz virando-se de frente para a morena, aproximando-se cada vez mais, uma luta travada na troca de olhares: como gelo e fogo.
–O que você pretende? – Regina pergunta sem retirar os olhos castanhos dos azuis da outra. Ameaçavam-se pelo olhar.
–Já disse. Reaver Arerendelle, salvar Anna e viver feliz para sempre. – Fala e ao mesmo tempo sorri, mas em seus olhos nenhum brilho de felicidade parecia reluzir.
–Apenas isso?
–O que mais seria?
–Não sei. Algo terrivelmente maligno?
Elsa abre uma gargalhada. Afasta-se da morena. Anda até a estante mais próxima, Verifica os livros com curiosidade e então fala:
–Não sou a vilã do seu conto de fadas. Talvez eu seja sua fada madrinha, mas não a vilã.
–Fada madrinha? Duvido. Até minutos atrás você era penas um mito. Agora, paremos de rodeios, odeio isso. Como eu poderia ajudar? – Regina vai direto ao assunto. Ainda não fazia ideia do que trouxera a mulher até sua casa. Sua única certeza era saber que Elsa não estava ali para fazer amizade, muito menos para aprender qualquer coisa que fosse. A mulher iria querer algo dela e talvez esse “algo” lhe fosse muito caro.
–Me dando um coração. – Fala retirando um livro da estante. – Magia para iniciante. Interessante. – Fala irônica colocando o livro de volta.
–Um coração? Apenas isso? – Pergunta incrédula. Para ela era fácil conseguir um coração. Tinha uma coleção, não?
–Sim. Apenas isso e prometo quebrar nossa conexão. Nada farei contra você. Quanto as outras pessoas da cidade, bem..., não posso dizer o mesmo. – Elsa fala retornando pelo mesmo caminho que a levara até a estante. Para próxima da mesa grande do escritório e olha Regina. Tentava decifrar as expressões firmes da morena.
–Não me importo com ninguém dessa cidade. Por mim pode transformar todos no que quiser. Apenas deixe meu filho fora disso. – Fala de forma decidida.
–Henry? Sim. Sem problemas. – Elsa concorda ainda sem tirar os olhos da outra.
–Ótimo. Tenho uma coleção de corações. Pode escolher qualquer um amanhã. – Fala com impaciência quebrando o contato visual com a outra e tentando terminar aquele diálogo o quanto antes.
–Isso seria ótimo, mas..., existe um pequeno impasse aqui. Posso? – Pergunta apontando as maçãs pilhadas em cima de um cesto na mesa.
Regina confirma com a uma das mãos e diz logo em seguida:
–Que impasse é esse?
–Não é qualquer coração. É um coração forte o suficiente para atravessar e unificar reinos. Hum..., isso é bom. – Fala logo após mordes a maçã. –Não tínhamos isso em Arendelle. Como chama?
–Maçã.
–É um fruto saboroso. Digno de uma rainha. – Fala sorrindo com o canto dos lábios.
Regina respira fundo. O que Elsa queria com tanto rodeio? Intimidá-la?
–Porque não vamos direto ao assunto? Qual o problema com os corações que tenho?
–Eles não servem. Preciso de um coração forte que pertença aos dois mundos. Tenho certeza que conhece alguém com um desses. – Fala e morde a maçã logo em seguida.
Regina reflete por alguns segundos. Vasculhando em seus pensamentos não encontrava ninguém que tivesse um coração tão forte e capaz de magias completamente desconhecidas.
A não ser...
–Não! – Exclama negando com a cabeça e olhando assustada para Elsa. – Não pode ser esse coração. Todos, menos esse.
–Por que não? Pensei que quisesse se livrar de Emma. É grande chance. Livre-se dela e ponha a culpa em mim. Assim ninguém descobre nada.– Elsa propõe sorrindo, o que irrita Regina de imediato. Quem ela achava que era para entrar na sua casa sem ser convidada e ainda lhe dizer o que ela gostaria de fazer? Sua relação de amor e ódio com Emma não dizia respeito a mais ninguém, porque ninguém sabia, nem necessitava saber o que a morena realmente nutria pela mãe de seu filho. Porém, um pensamento martelava na sua cabeça: Elsa sabia. Sabia mais do que suas palavras diziam. Talvez ela tivesse feito aquilo. Talvez ela a tivesse fazendo sentir aquilo. Só podia ser isso.
–O coração da ‘savior’ é o mais forte desse reino. E faz parte de dois mundos. É perfeito para o que pretendo. E você vai dá-lo a mim.
–Não! Porque você mesma não retira o coração?! Não farei isso! – Nega insistente batendo seus saltos de um lado a outro do escritório.
–Porque não posso. Mas você pode, Já vi fazê-lo. – Elsa fala tranquila e sorridente. Parecia se divertir com tudo aquilo.
As expressões de Regina mudaram completamente da posição defensiva para o ataque. Não lembrava a quem, além de Henry, já fora disposta a defender com unhas e dentes. Nem entendia o motivo de tanta raiva por Elsa querer justo o coração de Emma, mas se dependesse dela a rainha de gelo não o conseguiria. Saberia que teria de lutar, talvez mais do que já lutara em toda sua vida. Não importava agora ela lutaria, mesmo quebrada por dentro, mesmo em pedaços como se encontrava, ela lutaria. Não cometeria os mesmos erros.
–Não vou fazer! Não vou! Só vai conseguir o coração de Emma passando por cima de mim e acredite, queridinha, não sou tão fácil de ser derrubada!– Fala raivosa olhando para a mulher de forma ameaçadora.
–É uma escolha sua. – Diz enquanto se aproxima de Regina. — Se não quer fazer o que peço da forma mais simples vejo que as coisas terão de ser complicadas entre nós, Regina. Admito, não queria que fosse dessa forma. Pensei que talvez pudéssemos ser amigas..., talvez mais que isso. – Elsa fala de forma provocativa criando uma enorme interrogação na cabeça da morena que esquivava de qualquer contato com a outra.
–É realmente uma pena... – A rainha de gelo fala como se realmente sentisse o que diz enquanto de suas mãos uma forte e gelada luz azul pálida começa a sair e tomar conta de todo o aposento. Regina é completamente tomada por um fio cortante, Seus olhos já não enxergavam nada além de uma imensidão de neve e um frio que lhe tomava o corpo e invadia seu coração.
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