Coração Sangrento
7 Um toque do destino
Um mês já havia se passado desde que Sir John pedira Lady Sophia em casamento, e cada dia que se passava era de dor e angústia para ela. Uma vez estando a data marcada, o tempo passara com rapidez incalculável, tornando o que tinha que fazer ainda mais difícil para ela. Nunca em sua vida tinha se afastado da família, e lhe doía, sobretudo, ter que deixar Paul. Por vezes tentara conversar com o irmão para se certificar de que ele ficaria bem em sua ausência, mas qualquer coisa em sua voz não lhe convencia daquilo. Sabia que Berith jamais o ajudaria, tão egoísta que era, e o pai estava concentrado demais em sua núpcias para notar que houvesse algum problema com o filho mais novo. Contudo, apesar de não querer se afastar para cuidar de Paul, Sophia sabia que não poderia mais voltar atrás em sua decisão.
Enquanto o pai e Sir John cuidavam dos preparativos da festa enviando convites, cuidando da decoração, fazendo ajustes e arranjando até mesmo o vestido de Sophia — tudo com o dinheiro do noivo -, a moça se preparava para a fuga. Secretamente, havia feito uma trouxa de roupas, que não eram muitas e a qual havia amarrado com um de seus lençóis mais velhos para que não dessem por sua falta, colocando junto alguns pertences que julgava serem úteis, assim como algumas joias de sua mãe, que lhes renderia um bom dinheiro para se manter em Paris enquanto Thomas não arranjava um emprego. Apesar de todas as dificuldades e de seus medos, ansiava por estar ao lado dele para sempre. Se estivessem juntos e unidos, estava certa de que poderiam vencer qualquer adversidade que a vida pudesse lhes empregar pelo caminho.
Desde que aceitara fugir, não havia mais estado com Thomas. Ambos decidiram que era arriscado demais se encontrarem naquele momento, e que quando estivesse tudo acertado, ele entraria em contato de alguma forma para colocá-la a par dos detalhes de sua partida e lhe dizer o que deveria ser feito.
Apesar disso, cada dia de espera era uma tortura. Tinha de aturar os caprichos e a arrogância de Sir John, a complacência do pai sobre tudo que dizia respeito àquele que era seu noivo e as insinuações maliciosas de Berith sobre ela e Thomas. Quando restava apenas dois dias para o casamento e ainda sem nenhuma notícia, Sophia já estava achando que Thomas havia desistido de seus planos, que tinha se apaixonado por outra ou resolvera se afastar por achar que não houvesse esperanças para ambos. Porém, na entrada da tarde, quando o sol já se encontrava bem acima no céu pálido de Saint Shadow, qual não foi sua surpresa quando o som de algo sólido a se chocar contra a janela de seu quarto a despertou de seus devaneios.
Assustada, saltou da cadeira e virou-se para localizar a origem do ruído. Um cascalho estava envolto por um pedaço de papel, caído bem próximo da janela aberta. Sophia olhou para fora, procurando por quem quer que fosse, mas não encontrou ninguém. Ao abaixar-se para apanhá-lo, sentiu que seu coração disparava ao ler o bilhete escrito por Thomas. Tomada de alívio, ela sorriu, aproximando aquele pedaço de papel amassado de sua face e o aspirando, como se assim pudesse aspirar ele próprio.
Antes, porém, que pudesse pensar em queimá-lo para não ser descoberta, ouviu Berith abrir a porta do quarto e entrar intempestiva, dando-lhe tempo apenas para esconder o bilhete no interior do missal sobre a penteadeira.
–Papai está chamando. Aquela mulher está aí de novo para fazer a última prova do seu vestido de noiva – anunciou ela com desprezo.
–Certo. Diga a ele que já estou indo.
Mas Berith apenas cruzou os braços, fuzilando-a com o olhar.
–Vá lá e diga você mesma, eu não sou um pombo correio!
–Por que é tão cruel?
–Porque não faço gosto nenhum nesse casamento.
–Sabe muito bem que não tenho culpa disso, pare de inventar desculpas para me tratar tão mal assim – tornou ela.
–É claro, irmãzinha querida – satirizou Berith com um sorriso ácido. – Mas é melhor ir logo antes que ele perca a paciência, sabe o quanto está tenso com tudo isso.
Sophia lançou um olhar apreensivo para o missal. Apesar da conversa que tiveram, se Berith descobrisse o bilhete poderia mostrá-lo ao pai, e esse seria uma prova irrefutável de seu crime. Contudo, não poderia levá-lo consigo, pois poderia parecer suspeito. A única chance que lhe restava era guardá-lo na gaveta de forma mais natural possível e sair sem demonstrar qualquer tipo de preocupação.
–Então, o que está esperando? – Apressou ela.
–Nada – respondeu Sophia, fechando a gaveta e levantando-se para sair.
Uma vez sozinha no quarto, Berith cravou seus olhos de lince na gaveta recém-fechada por Sophia.
***
O inverno chegara cedo naquele ano, e Sophia sentiu alguns flocos de neve queimarem em sua face ao cruzar a porta dos fundos da casa, a obrigando a fechar seu capuz mais apertado sob o queixo. Ao andar, tivera que ir mais devagar, pois apesar de a neve estar ainda no início, o chão tornara-se escorregadio, uma armadilha para os que tinham pressa. Sophia caminhou com cuidado, e ao chegar ao local combinado, que era um dos estábulos mais antigos da propriedade e estava já há algum tempo abandonado, Thomas a esperava inquieto.
Ao avistá-lo, Sophia parou e os dois fitaram-se mutuamente, olhando nos olhos um do outro de forma fixa e intensa, absorvendo demoradamente o momento do reencontro. Então Thomas percorreu a distância que faltava até ela e delicadamente puxou seu capuz para os ombros, descobrindo por completo aquele rosto que o perseguia em sonhos. Com um sorriso brando na face, Sophia sentiu o toque suave das costas de sua mão ao acariciar-lhe a pele, e logo em seguida tomou-a para si, selando seus lábios com um beijo demorado.
Quando se separaram, Sophia ainda estava corada pelo frio e pelo beijo.
–Thomas... Eu tive tanto medo... – disse devagar, enquanto seus dedos percorriam o rosto do amado.
–Medo de que? – quis saber ele, beijando sua mão.
–De que tivesse desistido de mim... De nós...
–Se fizesse isso, seria como se desistisse de mim mesmo.
–Você demorou tanto... Tantas coisas passaram pela minha cabeça...
–Eu sei, não foi fácil – desculpou-se ele. – Tive que correr contra o tempo, e tomar cuidado para que não descobrissem o que estava fazendo. Mas, no fim, deu certo – acrescentou com um sorriso maroto.
Sophia lhe sorriu de volta, em cumplicidade.
–Então me conte tudo, por favor – pediu ela.
–Venha! Vamos entrar, está fazendo muito frio aqui fora – disse, puxando-a pela mão até o interior do estábulo.
Apesar de não haver mais nenhum cavalo, o recinto estava coberto de feno, que reinava absoluto nas celas dos animais e também fora delas. Protegidos do vento e da neve, Thomas a guiou para um canto, puxando dois caixotes e os sacudindo para tirar o feno. Sophia sentou em seu banco improvisado de frente para ele e esperou que falasse.
–Antes de qualquer coisa, eu preciso ter certeza. Isso é muito importante, Lady Sophia – começou ele em tom sério.
–Certeza de que?
–Ainda está disposta a fugir? Tem certeza de que quer mesmo abandonar a terra e sua família para acompanhar um simples servo e perder todo o conforto e o luxo que poderia ter estando casada com o homem que seu pai escolheu?
Sophia olhou fundo dentro de seus olhos castanhos antes de responder.
–Agora mais do que nunca – disse com voz inabalável.
–Está certo – condescendeu ele, com um sorriso de alívio.
–Só me diga o que eu devo fazer, o casamento é depois de amanhã, ao meio dia.
–Eu sei, minha mãe me disse e foi por isso que tive que correr. Não é fácil arranjar uma diligência do dia para a noite, então inventei um trabalho em Kelso para tentar conseguir uma que nos levasse até Londres. Conversei com os comerciantes, e eles me disseram que já não havia nenhuma disponível para a data que eu precisava, mas no fim a sorte me sorriu. O condutor, sabendo da minha obstinação e tendo ouvido o que se falava de mim, disse que me concedia dois lugares no transporte se eu conseguisse curtir o couro de oitenta peças até lá para um Duque conhecido por sua excentricidade e que sempre lhe fazia pedidos estranhos. Trabalhei duro esse tempo todo, mal comia ou dormia, até que consegui terminar o serviço. Quando voltei, inventei para minha família que tinha sido assaltado durante a volta e que me levaram tudo.
–E sua família vai ficar bem? – preocupou-se Sophia.
–Espero que sim. Seu pai não pode expulsá-los da própria terra, e enquanto tiver dois braços e saúde para ficar de pé, meu pai jamais descuidará de minha mãe e de minha irmã. Eu lhes escrevi uma carta explicando tudo, mas duvido que entendam.
–Apenas não se arrependa.
–Nunca.
Sophia sorriu e Thomas sentiu-se invadido por uma onda de calor incompatível com o clima lá fora.
–Fez o que eu te pedi? – perguntou ele, tentando manter o foco da conversa.
–Sim, está tudo pronto. Coloquei também algumas joias que foram de mamãe, pelo menos não passaremos fome por um tempo.
Ele assumiu um ar de preocupação.
–Não faça isso, essas joias são de família. E eu posso nos sustentar com o suor do meu corpo, trabalho não há de faltar.
–Não seja orgulhoso, Thomas. Pelo menos até nos estabelecermos, precisaremos de uma base, e além do mais, essas joias fazem parte da minha herança, nada mais justo do que levá-las comigo e usá-las para construir nossa vida juntos.
–Está certo, pode levá-las então – concordou ele enfim. – Mas só vamos usá-las em caso de emergência.
Sophia balançou a cabeça em tom de concordância. Fá-lo-ia mudar de ideia mais tarde, quando já estivessem longe de Saint Shadow.
–E como chegaremos até Kelso para apanhar a diligência? – quis saber ela.
–Amanhã bem cedo passarei no estábulo novo para apanhar dois cavalos e os esconderei aqui. Ninguém mais passa por essas bandas, não vão desconfiar de nada. Assim que o sol se por, estarei te esperando aqui para sairmos juntos. Tome bastante cuidado, mas não demore muito – acrescentou ele, erguendo a mão para segurar o queixo da moça e mirá-la com um sorriso doce. — Só consigo me acalmar quando meus olhos se encontram com os seus.
–Thomas... – sussurrou ela com voz derretida e apaixonada.
Ele, por sua vez, plantou um beijo em sua testa. Sophia então se aconchegou em seu peito e ele a envolveu em seus braços com um abraço apertado.
–Vai se casar comigo? – perguntou ela timidamente.
–Assim que passarmos pela primeira capela dessas estradas – respondeu ele, passando os dedos por entre as mechas do cabelo da moça.
Sophia sentiu seu coração inflar de felicidade e, erguendo o rosto para ele, fitou-o com os olhos transbordando de emoção.
–Eu te amo tanto...
Thomas mal pôde suportar aquele sorriso e os olhos cor de mel sobre ele. Tomando-a para si, beijou-a com intensidade que nunca antes havia demonstrado. Sophia sentiu que o ar lhe faltava, mas o ritmo imposto pelos lábios do outro a dominaram por completo, e ela se entregou a ele com paixão. Ele, por sua vez, enlaçou-a pela cintura, inebriado pela sensação que causava seu corpo junto do dela. Sabia que não ia suportar apenas beijá-la, por isso se esforçou ao máximo para afastá-la com as mãos.
–É melhor ir agora. Logo estaremos casados... – disse com dificuldade.
Ela fitou-o com olhos torturados. Se tudo desse errado, ela nunca mais veria aquele rosto por quem perdera o sono tantas vezes.
–Não quero me afastar de você ainda.
–Mas, Lady Sophia... – ia dizendo ele, quando foi silenciado com o toque do indicador em seus lábios.
–Me espere aqui – pediu ela.
–O que vai fazer? – perguntou, confuso, quando ela se levantou.
–Confie em mim...
Thomas viu-a entrar em uma das celas, e teve vontade de ir espiar, mas conteve-se. Por algum motivo, seu coração estava disparado e ele não conseguia controlar seus sentimentos. Era como se uma força invisível o arrastasse para ela de forma arrasadora. Ele então suspirou, tentando se acalmar, olhando para os próprios pés, e quando ergueu os olhos novamente, o que viu fez seu coração parar de bater no mesmo instante e ele engoliu em seco.
Sophia estava completamente nua e andava em sua direção passo a passo, como uma verdadeira visão dos céus.
–Lady Sophia? – conseguiu dizer a muito custo, tentando se lembrar do caminho de seus próprios sentidos.
–Me faça ser sua, Thomas... – pediu ela com voz trêmula ao chegar até ele.
Apesar de sua postura determinada, Thomas leu o medo que havia em seus olhos e assentiu. Sabia que o plano dos dois era por deveras arriscado e também temia perdê-la para sempre. Aquele, talvez, fosse o último encontro e ele queria fazê-lo valer à pena.
Thomas a deitou sobre o feno e a beijou, tirando sua própria roupa logo em seguida. Com a ponta dos dedos, percorreu a linha esbranquiçada de pêlos que ia do umbigo em direção ao ventre, considerando que fosse aquela a linha da perdição. Ao erguer o rosto, encontrou-se com o olhar limpo e apaixonado de Sophia, e pelo período da hora seguinte, se entregaram à paixão ardente que sentiam um pelo outro como se não houvesse amanhã.
Nos braços um do outro, estiraram-se sobre o feno de forma débil e febril. Cansados e ofegantes, viram passar aquela que seria a sua primeira e última noite de amor juntos.
–Não importa o que aconteça daqui em diante. Eu sempre serei sua, nunca se esqueça disso, Thomas... – teria dito ela ao se despedir do amado, com um sorriso que iluminava a noite mais escura e mais fria da Inglaterra.
–Eu não vou esquecer – prometeu ele, vendo-a desaparecer para sempre dentre a neve que caía com fúria desenfreada.
***
Protegida com o seu manto em torno dos ombros, Berith esperava. Estava com o bilhete de Sophia entre os dedos e olhava-o fixamente, muito embora já soubesse o conteúdo de cor de tanto que o repassara com os olhos desde que Sophia havia saído. O papel dizia apenas “encontre-me às nove”, mas Berith sabia muito bem o que aquilo significava. Agora que tinha em mãos a prova física e incontestável da traição da irmã, ela estava em um dilema interno, talvez o maior de sua vida e o mais revelador de sua personalidade. Apesar de querer muito denunciar Sophia, por não achar que ela merecesse a sorte de se casar com um partido como Sir John, ponderava a conversa que teve com a irmã sobre a possibilidade de contrair o matrimônio em seu lugar. Se Sophia fugisse com o camponês, o caminho ficaria livre para ela. Porém, não estava tão certa de que Sir John fosse aceitá-la, uma vez que ele jamais dera mostras de interesse para Berith, o que para ela era um mistério, pois se achava muito bonita e atraente.
Mais uma vez, pousou os olhos sobre o relógio da sala e constatou que a irmã estava demorando muito para voltar daquela vez. Berith então vacilou no lugar, amassando o bilhete entre as mãos e tomando uma decisão que julgava justa e sensata. Pé ante pé, subiu novamente as escadas para selar, para sempre, o destino de Sophia.
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