Coração Sangrento
4 O pedido de Sir John
Sophia não conseguira pregar os olhos durante a noite. Apesar do cansaço que sentia no corpo e na alma pelo peso dos acontecimentos anteriores, a visita de Sir John a atormentava. Sabia que ele a pediria em casamento se gostasse do que visse. E certamente seu pai aceitaria, atirando o fardo daquela escolha sobre as costas de Sophia. Ela não queria imaginar o que aconteceria com ela e Thomas se os planos do pai obtivessem êxito. Provavelmente ela jamais voltaria a vê-lo, e apenas essa hipótese já a deixava com o coração apertado. Antes de se levantar para o que seria um longo dia para ela, Sophia decidiu que precisava fazer algo a respeito. Afinal deveria haver um meio de mudar o seu triste destino.
–Nunca pensei que pudesse ser baixa a esse ponto.
O tom venenoso com que a irmã se dirigia a ela fez Sophia se virar para encará-la nos olhos. As duas já estavam vestidas e preparavam-se para descer.
–Do que está falando, Berith?
–Da sua traição. Logo você que nem parecia interessada nesse baile, estava se preparando para me apunhalar pelas costas. Planejou isso desde o início, não foi?
–O que eu planejei? Não estava mesmo interessada, do que está me acusando? – atirou Sophia com voz alterada. Estava indignada com a atitude da irmã.
–Sir John não iria se interessar por você! Eu não sei o que, mas certamente fez alguma coisa para amarrá-lo. Você roubou o meu pretendente! – tornou Berith, levantando-se da penteadeira para fuzilá-la com o olhar.
–O que está dizendo é um absurdo! Eu nunca quis me casar, porque faria algo assim? – ofendeu-se ela.
–Porque você me odeia.
Sophia balançava a cabeça, mal acreditando no que ouvia de Berith.
–Você é minha irmã, como pode pensar...? Que eu, como pode? – ia dizendo ela, as palavras embolando-se todas.
–Apenas prove que estou errada, Santa Sophia – ironizou ela, olhando a irmã de cima, com o nariz empinado.
Ela por sua vez encarou a irmã, tendo um vislumbre que poderia salvá-la.
–Eu posso falar com papai! – Disse ela, exaltada com a ideia que teve – se quer tanto se casar com Sir John, ele poderia conceder a sua mão no lugar da minha. Ainda assim teríamos um casamento e estaríamos salvos.
Berith a olhava com descrença.
–Duvido que consiga... Duvido que queira isso, para começar – cortou ela.
–Eu posso tentar, seria a saída perfeita.
Concluiu ela antes de sair. Berith cruzou os braços de mau humor ao ver a irmã se afastar. Nada do que Sophia fizesse a isentaria de sua traição.
***
Sophia encontrou o pai imerso entre os livros da biblioteca. A maioria deles era religiosa, com biografias de santos e tratados de Roma, embora o Conde permanecesse com alguns volumes trazidos da França por Antoinette. O conteúdo deles significava uma ofensa terrível aos dogmas defendidos pelo Conde, mas ele resolveu deixá-los ali por respeito à memória da mulher. Não entendia as inclinações iluministas da esposa, julgando que sua mente fora afetada pela péssima educação que administravam às crianças da França, além da alimentação regada a frutos do mar, que sabidamente prejudicavam os miolos. Com o tempo Antoinette abandonou aqueles ideais, tornando-se uma mãe e esposa dedicada ao lar e temente a Deus. O fato é que os livros continuavam ali, apesar de Stanislau proibir qualquer tipo de aproximação a eles. Somente uma mente firme e convicta como a sua estaria a salvo de suas ideias perniciosas se porventura viesse a lê-los.
–Pai? – chamou ela em um fio de voz.
Ao passar por entre eles, foi inevitável pensar que um daqueles livros fora o responsável pela separação definitiva de Thomas à entrada da casa. O Conde ficara fora de si ao encontrá-lo com Sophia no colo, a quem havia salvado de ser esmagada pela enorme estante de mogno, e o livro na mão, proibindo para sempre a aproximação do menino com sua família. Sophia desconfiava que o pai o julgasse responsável pela queda da estante, representando um perigo terrível à integridade física de suas filhas.
–Estou aqui... – respondeu ele com voz distante, escondendo a encadernação que levava nas mãos atrás de uma coletânea de cartas papais.
–Está ocupado? Eu queria conversar um pouco com o senhor antes que Sir John chegue. – Disse ela devagar, com medo de estar interrompendo um dos costumeiros devaneios do Conde com Antoinette.
O pai lhe sorriu de volta, com um gesto brando para que se sentasse à mesa.
–De forma alguma. Estou a sua disposição, meu raio de sol.
Sophia sorriu de canto, olhando o pai por baixo enquanto se sentava. Sua alegria notavelmente provinha da visita de seu pretendente, o que a indicava para ter muita cautela ao abordar o assunto em questão.
–Bem... – Começou ela, escolhendo as palavras. – É que não me sinto muito a vontade com essa visita.
–Mas porque não? – Questionou o Conde, chocado com o que ouvira. – Ele a tratou com desrespeito?
–Não, não é isso...
–O que é então? – Impacientou-se ele.
–Berith estava muito entusiasmada com a possibilidade de se casar, ficou frustrada com a escolha de Sir John. Eu a entendo e como não faço questão desse casamento, queria... Sugerir... Que conceda, talvez, a mão de Berith no lugar da minha.
O Conde a olhou com severidade.
–Esse pedido é um despropósito. Porque Sir John se casaria com Berith se gostou de você? E depois, é de praxe que a irmã mais velha se case antes da mais nova.
–Mas pai... Ela teme que não encontre marido...
–Você não deveria ter a mesma preocupação? – Disse ele em tom acusador. – Não me vá dizer que quer ir para o convento também, já me basta Paul.
–Não! – Exclamou ela.
–Então não estou entendendo o motivo de tanta preocupação. Sir John é um homem rico, está interessado em nosso título de nobreza. O casamento será vantajoso para ambos os lados. Você não quer que a nossa situação melhore? Que essas terras voltem a produzir como outrora e tenhamos lucro para termos uma vida confortável?
–Quero, mas...
–Uma mulher sem marido não é bem vista pela sociedade, além de se tornar um peso, seria uma desgraça terrível. Não ter um lar e uma casa para cuidar, seria praticamente uma inválida. Não é isso que quer, é?
–Não, mas...
–Mas? Ainda tem mas? – Tornou ele, de cenho franzido.
Sophia estava vermelha e respirava com dificuldade.
–Não me sinto preparada para isso! – Disparou ela com voz alterada, mas firme. – Casamento é coisa pra vida toda, e eu... Eu...
Ela sentia os olhos se enchendo de lágrimas, mal conseguindo dizer as palavras.
–Minha filha, você tem medo? – Disse ele de forma mais branda. – Está com medo do casamento?
Ele pousou a mão direita sobre a da filha que estava sobre a mesa, para acalmá-la. Ela não conseguiu dizer nada, apenas concordando com a cabeça.
–Não tem com o que se preocupar, querida. O casamento pode ser difícil no começo, mas com o tempo vai se adaptar a ele. É o curso natural da vida, é como Jesus quer que seja. – Seu tom tentava consolá-la.
Sophia, porém, não suportou mais que aquilo. As lágrimas já lhe desciam fartas pela face, e ela retirou sua mão de baixo da do pai, disparando pela porta afora.
O Conde suspirou ao ver a filha fugir daquele modo.
–Você se parece tanto com a sua mãe... – Disse ele com voz cansada.
***
Quando Sir John chegou à casa, montado em seu cavalo negro e acompanhado de perto por dois serviçais que trouxera de Bristol, que mais pareciam duas raposas velhas do que qualquer outra coisa, a encontrou vazia de gente e de móveis, muito diferente do cenário em que estivera na noite anterior. Chegou a pensar que houvesse cometido um erro durante o caminho, mas Nancy veio recebê-lo, dizendo que o conde o esperava em seu escritório. Dando ordens aos seus homens para que cuidassem dos cavalos, acompanhou a empregada até o interior da residência.
Pessoas que não faziam mais do que lapidar toda a sua herança enquanto viviam não lhe inspiravam confiança, mas ele estava disposto a se sacrificar pelo sobrenome aristocrata. Por mais inidôneo que fosse um membro da nobreza, o nome era a única coisa que ele não conseguiria deturpar em uma existência insossa e miserável, e Sir John admirava essa característica. Mas do que isso, tinha inveja daquela classe soberba que estava acima do bem e do mal, sempre inalcançável e inabalável. Por toda a sua vida, se esforçou para se aproximar deles. Fez de tudo e mais um pouco para ser aceito pela aristocracia inglesa, nem que fosse para viver às suas sombras. Por esse motivo, o casamento era essencial.
Ele o encontrou de costas, observando o jardim através da janela.
–Sir John Redruth, milord – anunciou Nancy, fechando a porta em seguida, os deixando a sós.
O Conde de Warrington virou-se lentamente, o olhando com simpatia.
–Milord – cumprimentou ele, inclinando o corpo para frente em uma reverência.
–Por favor, queira se sentar – fez ele com um gesto. – Acredito termos coisas para tratar antes que o senhor possa ver minha filha.
–Posso lhe garantir que as minhas intenções são as mais puras, milord. Estou a total disposição do senhor e de tão estimada família.
O Conde sorriu, agraciado com o que ouvia.
–Gosto da sua atitude – elogiou ele. – Mas preciso me certificar de que minha filha tenha um futuro confortável ao seu lado.
Sir John, que não possuía nada de ingênuo, percebeu a extensão daquele discurso.
–Como o senhor sabe, eu fiz muito dinheiro em minhas viagens, adquirindo uma pequena fortuna. Mas devo admitir que ainda não possua residência fixa, pois planejo comprar uma fábrica de têxteis em Londres, o que espero que seja muito em breve. Garanto que não esquecerei de Saint Shadow ou do senhor. Sei ser generoso e jamais abandonaria a família de minha esposa a própria sorte.
–Você é um rapaz ambicioso, eu percebo o que está tentando fazer, e isso é bom, pois significa que minha filha terá um homem determinado ao seu lado. Sabe que estará comprando sua passagem para a Corte com esse casamento.
–De fato, não tenho como negar minhas pretensões. Vejo que o casamento é vantajoso para ambos os lados, e espero contar com a colaboração do senhor conde.
Stanislau o fitou demoradamente, absorvendo as palavras de Sir John. Quando resolveu falar, sua voz era firme e decidida.
–Tenho apenas uma exigência a fazer.
–Pois diga – incentivou o outro.
–Deixarei que dê um passeio com Sophia agora, e se for de sua vontade, faça o pedido oficial. Mas quero que morem aqui, nesta casa, até que compre o imóvel que deseja. Minha filha está muito sensível com a possibilidade de se casar, ajudaria na adaptação se a mudança não fosse tão drástica no início.
Sir John lhe lançou um sorriso cordial.
–É claro, como o senhor conde quiser.
Após a pequena conversa, o conde mandou que chamassem Sophia, fazendo com que a moça acompanhasse o pretendente em uma caminhada pelos jardins da família. Nancy os observava de longe a pedido do patrão, para se certificar que o burguês não tomasse certas liberdades com a filha antes do casamento.
Sophia não sorriu uma vez sequer. Talvez, se se mostrasse antipática, ele desistisse de cortejá-la.
–Está fazendo um belo dia hoje – Comentou ele em dado momento, tentando quebrar o gelo e puxar assunto.
Ela deu de ombros para a observação.
–Não vejo nada demais...
Sir John silenciou-se por um tempo, pensando em uma maneira de agradá-la, enquanto Sophia se concentrava em marchar a frente, como se estivesse indo para a forca. Passaram então por um canteiro de rosas, onde Sir John teve a brilhante ideia de colher uma delas. Escolheu a mais vermelha e perfumada delas e correu para se postar a frente da dama, obrigando-a a dar uma pausa em sua marcha fúnebre.
–Gosta de rosas, milady? – galanteou ele, estendendo a flor de forma elegante.
Ela não se deu por vencida.
–Prefiro lírios.
Vendo-se ignorado, amassou a flor na palma da mão, tentando manter a calma. Ao fazê-lo, sentiu um espinho espetar a carne, fazendo uma gota de sangue manchar sua pele alva. Imediatamente levou a mão até a boca, jogando a flor fora.
–Porque está sendo tão rude comigo? – inquiriu ele, abandonando os galanteios.
–Porque quero que desista de mim.
Ele riu sem humor algum.
–E porque eu faria isso?
– Uma esposa rebelde não seria conveniente aos seus propósitos.
–Isso se resolve, já domei feras piores.
Sophia parou de chofre, lançando lhe um olhar duro.
–Porque não pode simplesmente casar-se com a minha irmã no meu lugar? Ela está doida por você, e certamente têm muito mais em comum do que nós.
–Sua irmã, apesar de bonita, não tem a mesma classe que você.
–Ela é ambiciosa, faria boa figura diante da Corte.
–Atirada demais. Expressa-se de maneira exagera e inadequada.
Ele a encarou de volta, mantendo o olhar firme. Sophia não abaixou os seus, sustentando sua obstinação.
–E além do mais, pela minha natureza, sou fascinado por um bom desafio – disse, observando-a de cima a baixo.
Por sua vez, Sophia não se deixou intimidar por aquele olhar.
–Não vou facilitar as coisas para você – sentenciou ela, firmemente.
–Como quiser minha cara... – tornou ele, sorrindo sombriamente. — Mas devo avisá-la de que nada do que faça fará com que eu desista desse casamento.
Seu olhar perturbador fez com que Sophia sentisse um arrepio na espinha. A maneira como ele dizia indicava claramente um tom de ameaça, e ela recuou, desviando os olhos para os campos a sua frente e voltando a andar.
Durante todo o trajeto de volta, não se disseram mais palavra alguma. Sob a soleira da porta, encontraram o conde junto de Berith e Paul. A ideia do casamento parecia ter lhe devolvido algum resquício de juventude.
–Vamos entrar, pedirei a Nancy que nos prepare uma xícara de chá e uns bolos – convidou ele em tom alegre.
Sophia foi a última a se sentar, extremamente rígida. Sir John não perdeu tempo.
–Senhor conde, certo de contar com a sua benção, gostaria de aproveitar o momento oportuno em que todos se encontram aqui para pedir, definitivamente, a mão de sua filha, Lady Sophia Straw, em casamento.
Sophia prendeu a respiração, tentando conter sua revolta. O conde, por outro lado, estava satisfeitíssimo com o resultado de seu baile.
–Isso é esplêndido, devemos comemorar a boa nova! – exclamou ele, sorrindo largamente para Sir John, que devolveu o sorriso, triunfante.
Sua felicidade, porém, não era compartilhada com nenhum de seus filhos. Sophia curvara-se a frente, assumindo uma postura de derrota, enquanto Berith lhe lançava um olhar letal, não se conformando com o fato da irmã tê-la roubado seu pretendente. Paul observava as irmãs, preocupado. Pelo comportamento de ambas, temia que algo de ruim pudesse acontecer com a realização daquele casamento. Ele não estava errado.
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