Coração Sangrento
9 Clausura
O quarto estava vazio, exceto pela cama e uma escrivaninha toscamente talhada. As roupas seriam trazidas depois, assim como o restante dos móveis. Por hora, a cama e a escrivaninha estavam de bom tamanho. Não pretendia ficar ali por muito tempo, e a pouca mobília que teria seria o suficiente para sua esposa. Ela não teria luxos nem conforto. Não depois de tê-lo traído daquela forma.
Desabotoando os botões de sua roupa de noivo, Sir John entrou no cômodo junto de Sophia, que não falara nada a noite inteira além do “sim” quase inaudível dito a padre Bernard durante a cerimônia. Assim que os trancou, atirando a chave na gaveta da escrivaninha, encontrou com seu olhar acusador.
—O que fez com ele? – questionou ela, e apesar de sua aparência ainda estar horrível, seu tom foi firme.
Sir John deu de ombros, sorrindo com desprezo.
—Apenas o que me pediu. Agora está livre como um pássaro – ironizou ele.
Sophia sentiu cada parte de corpo dolorido tremer.
—Nancy disse que encontraram sangue na floresta.
—Isso não significa nada... – tornou ele, aproximando-se dela aos poucos.
—Você me fez acreditar que ajudaria, e eu confiei em você. Confiei que o avisaria do perigo, para que ele fugisse, mas não foi isso o que fez, foi? Já conseguiu o que queria, eu me casei com você, agora me diga a verdade. Ele está morto? Você o matou? – explodiu ela, despejando todo o medo e o desespero que lutou para reprimir durante o dia todo.
Ele a olhou com frieza, abandonando qualquer traço de cavalheirismo que usava com frequência para dissimular suas reais intenções.
—Você achou mesmo que eu fosse ajudá-lo? Que fosse deixar barato toda a humilhação que me fizeram passar, pisar em cima do meu orgulho e da minha dignidade para auxiliar na fuga daquele servo atrevido e deixá-lo impune?
Sophia não conseguiu mais segurar as lágrimas. Deixou que rolassem soltas pelo rosto enquanto encarava aquele que agora era seu marido.
—Então porque me disse tudo aquilo? Porque me fez acreditar?
—Eu diria qualquer coisa para descobrir onde encontrá-lo. Queria pegá-lo com as minhas próprias mãos, para fazê-lo pagar com sangue sua desonra – disse, fechando os punhos em fúria.
Sophia balançava a cabeça inconformada, levando as mãos para o alto em sua agonia. Jamais se perdoaria por ter acreditado na palavra de Sir John e entregado Thomas para ele. Carregaria a culpa de sua morte pelo resto da vida.
—Eu estava tão desesperada que não percebi nada... Achei que pudesse salvá-lo de alguma forma, como fui ingênua... Meu Deus, eu me casei com um monstro... Thomas, morto... Morto, e a culpa é minha...
Ela não o viu chegar. Só pode sentir o peso de sua mão se fechando em seu braço e a puxando de forma violenta, fazendo seu corpo voltar a doer.
—Jamais pronuncie esse nome nesta casa novamente! – ordenou, encarando-a com extrema ferocidade. – Devia dar graças aos céus por eu tê-la perdoado, pois qualquer outro homem em meu lugar a teria rechaçado por sua infâmia!
—Qualquer homem que não estivesse interessado no meu título de nobreza – rebateu Sophia enchendo-se de coragem, apesar de sua condição vulnerável e do fato de que tremia nas mãos de Sir John.
A resposta pela sua ousadia foi um sonoro tapa que lhe partiu os lábios e a fez cair sentada sobre a cama.
—Vou ensiná-la a me respeitar! – disse, abrindo os botões de suas calças e deixando Sophia totalmente paralisada de medo.
—Por favor... – implorava ela em desespero, encolhendo-se como um rato acuado.
—Você é minha mulher agora, não ficará livre de suas obrigações conjugais.
—Por favor... Por favor, não... – repetia ela sem parar, balançando a cabeça e movendo-se na cama, tentando manter a distância cada vez que ele se aproximava.
—Deita-se com um servo imundo, manchando sua honra e a de sua família, e agora se recusa a entregar-se ao próprio marido? – vociferou ele, puxando-a pelas pernas com selvageria. – Que espécie de mulher é você?
—Eu sou sua mulher, como queria. E você tem a influência do brasão de nobreza da minha família, como queria. Você já até o matou, aproveitando-se da minha fragilidade, porque não me deixa em paz? – implorou ela entre os soluços de desespero.
—Porque uma mulher que se comporta como uma vadia merece ser tratada como tal – tornou ele duramente, fechando os punhos sobre os braços de Sophia para que ela não mais fugisse. — Agora vai me dar aquilo que era meu por direito e que aquele miserável me roubou. Se não quiser que seja por bem, será por mal.
O corpo inteiro de Sophia tremia quando Sir John puxou seu vestido violentamente, rasgando o tecido nobre e deixando sua pele à mostra. Apesar das manchas e dos hematomas da surra que lhe impingira o pai, seu marido, não se compadecendo com o seu estado, tratava-a de forma degradante.
Sophia sabia que não tinha escapatória. Fraca como estava, seria impossível lutar contra ele. Se clamasse, gritando por socorro, ninguém viria em seu auxílio. Restava-lhe apenas debulhar-se em lágrimas enquanto era violentada pelo próprio marido. Ele, por sua vez, movia-se sobre ela como um animal desenfreado, obrigando-a a recebê-lo contra a sua vontade e fazendo-a sentir de novo todas as dores causadas pelo pai.
Seu sofrimento só terminou quando ele se cansou e caiu exausto sobre a cama, dormindo quase que no mesmo instante. Sophia ficou acordada a noite toda, mal ousando tocar em seu próprio corpo. Sentia-se suja por dentro por tê-lo deixado tocá-la daquela forma, e a culpa a consumia. Não conseguia parar de pensar que Thomas estava morto por sua causa. Doía-lhe mais do que tudo imaginar que nunca mais o veria, que tinha perdido seu amor para sempre e teria que se sujeitar a Sir John pelo resto de seus dias. Quando o dia finalmente começou a lançar os primeiros raios de sol, Sophia pensou que chorara todas as lágrimas que seus olhos fossem capazes de produzir.
Essa seria a sua rotina por muito, muito tempo.
***
—Onde está seu marido? – perguntou Berith à mesa do café da manhã, quando não pode mais suportar o silêncio sólido e impenetrante de Sophia.
Sophia deu de ombros, dando um gole em seu chá.
—Estou falando com você, me responda – insistiu ela.
O olhar que lançou à irmã foi de represália.
—Deve estar no mesmo lugar que papai – respondeu acidamente.
—Mal se casou e já tem problemas conjugais – alfinetou Berith, não se contendo em provocar a irmã.
Sophia, que depois de tudo o que sofrera estava sem paciência para as maldades de Berith, tratou logo de cortá-la com tom rude.
—Como se atreve a dizer isso depois do que fez? Tínhamos um acordo, e você me entregou. Eu já estaria bem longe daqui se não fosse por você.
—Ora, e você acha que ele se casaria comigo? – tornou ela, muito ofendida. – Sir John estava apaixonado por você, ele faria qualquer coisa para tê-la nas mãos.
—Isso não te dava o direito...
—De que, Sophia? – cortou Berith de uma vez. – Não podia prever a reação violenta de papai, não tive culpa sobre isso. Só quis preservar o nosso nome, que você estava prestes a atirar na lama por causa daquele camponês indigno...
A palma aberta e generosa de Sophia calou a irmã com um tapa carregado de repúdio e revolta. Berith levou a mão até o rosto, que agora estava marcado com os dedos de Sophia, assombrada com a atitude da outra.
—Não ouse falar de Thomas! Ele está morto! Sir John o matou, e você tem uma grande parcela de culpa por isso.
Nancy, que se postava ao lado da mesa esperando que as duas terminassem seu café, prendeu a respiração ao escutar o nome do filho. Já Berith, apesar do susto que levara, riu com sarcasmo enquanto encarava a irmã.
—E o que isso importa? Ele não passava de um servo enxerido que nunca soube o seu lugar.
Tremendo e lutando para não perder a cabeça e o emprego, Nancy saiu correndo dali, deixando que as lágrimas pela perda precoce do filho voltassem a lavar seu rosto. Sophia saltou da cadeira, abandonando seu café.
—Como pode ser tão desalmada? – disse, revoltada, antes de ir atrás da empregada.
Sophia a achou agachada junto da despensa, abraçando os próprios joelhos.
—Nancy? – chamou-a com delicadeza.
—Por favor, me deixe sozinha Lady Sophia.
—Não posso – tornou, abaixando-se para confortá-la. – Sua dor é a mesma que a minha.
Nancy olhou fundo em seus olhos.
—O que eu mais temia aconteceu. O amor que ele nutria por você o destruiu.
—Eu sei – concordou Sophia, abaixando os olhos. – Você deve me odiar por isso... Por minha causa, perdeu Thomas...
—Como poderia odiá-la, querida? – disse Nancy, erguendo a cabeça da moça. – É como uma filha para mim. Sei que os jovens fazem as coisas sem pensar, e não a culpo por isso.
Sophia sorriu com gratidão. Nancy seria seu único conforto naquele inferno todo.
—Não conseguiram encontrá-lo?
—Não. Qwilleran procurou por toda parte, mas não tem nada além do sangue lá fora. Tiraram meu filho de mim, e eu nem posso me despedir dele – lamentou Nancy, com voz abalada.
—Temos que ser fortes. Por ele.
As mãos de Sophia apertaram as de Nancy, confortando-a, e as duas se abraçaram em cumplicidade. A moça ainda tentou convencê-la de que era melhor assim, que encontrar o corpo de Thomas só lhes causaria mais sofrimento, mas a verdade era que Sophia tinha medo. Sabia que ele tinha sofrido nas mãos de Sir John, e julgava que não aguentaria vê-lo morto, deformado pela brutalidade se seu atual marido. Já era ruim o suficiente imaginá-lo assim.
***
Quando Sir John finalmente voltou à casa, subiu direto para o quarto e começou a arrumar as malas sem falar com ninguém. Vendo que sua esposa não estava ali, ordenou que a chamassem e esperou até que um de seus capangas voltasse para carregar suas coisas para baixo.
Sophia entrou sem fazer barulho, estranhando ao notar o aspecto vazio do aposento. Sir John só percebeu que a mulher estava ali quando ela falou.
—Vamos a algum lugar?
—Eu vou, você fica – disse ele com autoridade na voz, virando-se para encontrá-la imóvel junto à soleira da porta. – Tenho que ir até Londres para resolver uns negócios.
—Boa viagem então – ironizou Sophia.
Ele sorriu com malícia.
—Não esperava uma despedida calorosa. Mas não vá se animando, que mandei meus empregados ficarem de olho em você enquanto eu estiver fora. Não quero que saia deste quarto para nada até a minha volta.
—Tudo isso é medo?
—Precaução.
—Pois eu não teria como nem porque fugir, já que você tirou tudo de mim. Sou sua propriedade agora, não é assim que as coisas funcionam?
—Seu discurso não me convence – sentenciou ele. — Aproveite o tempo sozinha para repensar em seus atos e pedir perdão a Deus em suas orações.
—Como quiser, meu amo – tornou ela, carregando no sarcasmo.
Sir John ignorou a ousadia da esposa, apanhando o casaco sobre a escrivaninha e passando-o aos ombros. Ao cruzar com ela na porta, limitou-se a lançar-lhe um olhar duro como despedida.
—Nos veremos em breve – falou, seu tom soando como uma ameaça.
Sophia deu de ombros. Suas ameaças e violências não a amedrontavam mais. Quanto à clausura, a aceitaria de bom grado, julgando que tudo o que sofrera fora castigo divino. Assim que fechou a porta às suas costas, pode ouvir o mecanismo da chave a trancando lá dentro. Sir John ainda deu ordens para que não abrissem a porta para nada mais além de levar-lhe comida.
Mais tarde se entregaria novamente às lágrimas ao lembrar-se de Thomas e da vida que poderiam ter tido juntos se não lhes tivessem roubado o direito de serem felizes. Nada apagaria a dor e a culpa daquela morte precoce. Suas cicatrizes ficariam incrustadas no interior de Sophia para sempre, e ela teria que aprender a conviver com elas se quisesse manter sua própria sanidade mental no lugar.
Fale com o autor