Coração Inglês
6 Mais Passeios, Romance e Um Novo Amigo
Notas iniciais
No dia seguinte, depois de exatas duas horas de argumentos, ataques de nervos sem sentido e muita ansiedade, o Sr. Summer permitiu que Raven e Josh passeassem sozinhos pela cidade. Mas antes que os garotos saíssem, fez uma verdadeira revista neles, procurando qualquer objeto valioso que chamasse a atenção de ladrões — ou, no caso de Josh, algo que “ameaçasse” Raven, desde um simples chiclete até mesmo um cachecol. Assim que se deu por satisfeito, entregou cem libras para cada um e deixou-os ir.
Mila, Ginevra e Helena quiseram esperar um passeio em que todos fossem juntos, e ficaram na casa, entretendo-se com debates sobre o que Josh faria para Raven nesse novo “encontro”.
Assim que eles viraram a esquina, Raven bufou. Josh, como sempre, notou.
– O que foi?
– Papai – suspirou ela, revirando os olhos, dizendo a palavra como se fosse o nome de um terrorista.
– O que o cara fez? – riu o menino, dando as mãos com Raven.
– Ele falou baixinho pra mim que deixou um spray de pimenta na minha bolsinha.
Josh deu uma risadinha.
– Seu pai definitivamente não confia em mim.
– Confiar, ele confia – explicou Raven, balançando a cabeça – mas ele tem um medo totalmente descontrolado de que você...
–... vá longe demais mesmo sem querer. Sei – Josh revirou os olhos também.
– E... – Raven fez uma careta curiosa – você iria?
Josh sorriu de um modo indeciso e estranho.
– Acho que não. Sou um covarde, esqueceu? Quem sabe depois do ca...
O menino parou no meio da frase, quase mordendo a língua, mas Raven entendeu o que ele ia dizer e gemeu.
– Casamento? Você ia dizer casamento?
– Ia – disse Josh, sem mentir, um pouco assustado com a reação dela – por quê?
– Você... – a possibilidade era tão chocante que a menina perdeu a fala por um momento – casaria... comigo?
– Sim – Josh pareceu mais calmo ao responder.
“Ele quer casar comigo...” pensou Raven, encantada com a chance de chegar até tal ponto com o rapaz.
– Ah, não – brincou ele, ao vê-la com os olhos ameaçando saltarem das órbitas – não vai chorar, vai?
– Eu? Eu? É ruim, hein! – sorriu a garota, encantadoramente alegre, se jogando no pescoço dele e o beijando.
Um casal de jovens, quase da idade dos meninos, estava andando bem atrás deles, e quando Raven e Josh pararam no meio da calçada para se beijarem, os quatro se chocaram e caíram no chão.
– What are happening with you?? (o que está acontecendo com você?) – rosnou a menina inglesa, sacudindo a cabeça.
– Oh, sorry (oh, desculpe) – desculpou-se Raven, ajudando os garotos á levantar.
– No problem (sem problemas) – sorriu o rapaz inglês, em seguida acotovelando de leve a namorada pela falta de respeito.
– Foi mal, Ray – disse Josh, arrumando os cabelos da menina.
– Thank you (obrigado) – agradeceu o garoto, puxando a namorada — ainda nervosa pelo encontrão – para perto da avenida e desaparecendo na esquina. Raven engoliu em seco.
– Acho que aprendemos uma lição – brincou Josh, depois que o casal foi embora – nunca pare na calçada, ou é atropelamento na certa.
Raven riu.
–------------------------------------------------------------
– Olha o tamanho dessa geringonça – disse Raven, olhando para cima e curvando as mãos em formato de binóculo.
Os meninos tinham acabado de chegar perto do Parlamento Inglês, e estavam admirando a enorme altura do relógio que abrigava o sino Big Ben. Josh parecia comicamente emocionado.
– Os ponteiros desse negócio devem ser maiores do que nós dois juntos – comentou o rapaz, folheando lentamente um guia em inglês dos pontos turísticos da cidade – olha só – ele indicou uma das páginas para a garota – nós podíamos ir nesse parque. Não é muito longe daqui.
– E, só por curiosidade, “Sr. Santos”... o que vamos fazer lá?
Josh fingiu trancar a boca com os dedos e jogar a chave fora.
– Não vai dizer? – Raven fingiu mágoa, mas mentalmente ela estava morrendo de rir com a expressão dele – O.K, também não quero ir, então...
– Oh, honey – brincou o garoto, beijando-a na bochecha – é que eu quero que seja surpresa...
– Nem vem – ela forçou uma fungada, quase se contorcendo para não sorrir – magoou.
– Você está me provocando, garota – Josh disse isso quase rosnando; quando Raven ousou dar uma olhada no rosto dele, não conseguiu segurar e caiu na risada; o rapaz tinha a expressão de quem ia agarrar ela dali á alguns segundos e não ia mais largar.
– Tá bom, seu garoto extremamente chato – brincou ela – vamos lá, antes que você me esquarteje.
Josh se arrepiou com a última palavra, e se virou para Raven com o rosto amedrontado.
– Não fala isso nem brincando, Ray...
A menina engoliu em seco e se xingou mentalmente.
– Foi mal... me escapou...
– E o pior não é isso! – gemeu o garoto, abraçando a cintura dela e deixando-a mais envergonhada ainda – o pior é que você falou a palavra “eu”! Me! O indivíduo aqui! Deus me livre! Eu nunca ia fazer uma coisa dessas!
– Desculpe – fungou a menina. Josh pareceu notar seu “arrependimento”.
– Tudo bem, fofa –sorriu o rapaz. A menina pareceu ficar mais alegre, á ponto de dar uma empurrada carinhosa nas costas dele e sair correndo na frente do rapaz, gritando “tá com você!”.
– Pô, Ray! Isso é coisa de criança! – gritou o rapaz, mas, mesmo assim, correu atrás da garota, rindo.
–------------------------------------------------------------
– Credo, Ray... correndo, você é pior que a Mulher Maravilha...
– Valeu pelo elogio sem graça – brincou Raven, ao ver o namorado chegar arfando ao seu lado – eu ganhei, não é?
– Ganhou uma ova – sorriu Josh, beijando-a na bochecha com uma expressão meio bêbada, ainda tonto pela correria. Raven corou, fazendo um gesto involuntário para o letreiro do parque.
– Central Park? – indagou o rapaz, com um ar confuso – pensei que o Central Park fosse um parque de Nova York...
– Não começa, Josh – Raven balançou a cabeça, rindo – é um parque e acabou.
A garota revirou os olhos, ainda á tempo de ver Josh puxando-a para si e levantando seu rosto para ele. Se é que era possível, Raven ficou mais vermelha ainda.
– Você anda muito boca-dura, sabia? – rosnou ele de brincadeira — tá precisando de um castigo.
– Acaba com a minha raça – gemeu Raven, ainda rindo. Antes que Josh tomasse a iniciativa, ela mesma o puxou pela gola da jaqueta e o beijou.
Um assobio conhecido de surpresa soou atrás dos garotos. Raven se virou com Josh, á tempo de ver Ginevra saltando de uma das árvores e olhando para eles com uma mescla de apreciação e nojo.
– O que você tá fazendo aqui, assombração?? – ganiu Josh. Raven riu quando olhou para ele; o rapaz parecia seriamente envergonhado e assustado pela aparição repentina da amiga no meio do romance deles.
– Foi mal, galera – riu Ginevra – não resisti á curiosidade de saber que coquinhos você ia fazer com a Raven, Josh.
– Sua intrometida – Josh parecia ter se recuperado do susto, mostrando estar chateado pela interrupção – por que você não ficou lá na casa, fazendo o purê de batata do almoço, hein?
– Ai, droga – Ginevra deu uma risadinha nervosa – é, mesmo, esqueci do purê – e, ao ver a cara de leve desagrado de Raven, ela acrescentou – beleza... então eu... vou cair fora.
– Já foi tarde – suspirou o rapaz, vendo Ginevra sumir no portão do parque.
– Como ela sabia que nós estávamos aqui? – indagou Raven.
– Ah... – Josh pareceu outra vez sem graça – eu... liguei pra Mila e falei pra elas aonde nós íamos agora.
– Ah, é – a menina fingiu mágoa e indignação – e pra sua namorada, que você tanto adora, você esconde as coisas, não é?
– Oh, bem...
– Nem vem com seu “Oh, bem...” — Raven fazia força para não rir – estou de mal.
– Não tá, não – sorriu Josh, cutucando a cintura dela.
– Pare, Josh – um começo de sorriso cortou a boca dela – você sabe que eu tenho cócegas...
– Ah, você tem, é? – riu o rapaz, com uma expressão meio maníaca – ah, agora você vai ver, então...
– Ai, não, pare! – gargalhou a menina, quando o rapaz fez cócegas no seu pescoço – ah, é? É guerra, é? Então toma...
As pessoas ficaram olhando divertidamente para os garotos que ficavam fazendo cócegas um no outro, dando risadas toda hora. Tinha até mesmo quem apostasse qual dos dois ia desistir de rir primeiro.
– Josh, chega – sorriu a menina, com a voz fraca de tanto rir – tá todo mundo olhando, seu pirado.
– Ah, mas já? – brincou Josh, com uma voz infantil que deixou Raven encantada por um segundo – ah, agora que estava ficando legal...
Uma das mulheres que ficara olhando para eles sorriu vitoriosamente para sua amiga, que deu duas moedas de má vontade na mão dela, falando um palavrão baixinho em inglês.
– Nossa – Raven se levantou do banco, envergonhada – esse nosso namoro é o mais esquisito que eu já vi.
– Concordo – Josh sorriu para os espectadores que haviam criado, dando um pequeno aceno de despedida – se continuarmos nesse ritmo, daqui á pouco vamos causar alguma tragédia nacional.
– Vamos passear logo no parque – sugeriu Raven, rindo – antes que você me faça passar vergonha de novo.
– Chata – brincou Josh. A menina riu e deu as mãos com ele, sentindo uma estranha alegria enquanto caminhavam para dentro do parque e pensando: “Que dia...”
–------------------------------------------------------------
– Então, quem quer ir à London Eye? – riu Josh.
– Eu! – brincou Raven, levantando a mão direita no ar, feito uma criança de jardim-de-infância.
Josh sorriu de um jeito travesso antes de puxá-la e literalmente pegá-la no colo. Raven começou á gargalhar, dando socos de brincadeira no ombro dele e fingindo desespero. Um casal de namorados, um pouco mais velho que eles, ficou olhando para aquela cena agradavelmente estranha, e a menina deu um tapinha de leve no peito do namorado, parecendo meio indignada, e aparentemente reclamando por ele não ser brincalhão com ela como Josh era com Raven.
– Josh, pode me pôr no chão. Seus braços vão ficar doloridos, xodó – Raven disse, preocupada.
– E deixar você gastar essas perninhas lindas? Nada disso – respondeu Josh, sorrindo. Raven sentiu o rosto avermelhar de vergonha. E riu.
– Pare. Eu não tenho perninhas lindas.
– Tem sim, senhorita – o rapaz completou a afirmação beliscando carinhosamente a calça jeans de Raven, fazendo a menina dar um gritinho divertido.
– Você é doido – comentou Raven, quando Josh colocou-a no chão.
A expressão de mágoa fingida do rapaz era tão meiga que Raven quase o agarrou de novo.
– Eu não sou doido – falou Josh, num tom descaradamente falso – porém, até fofo — de mágoa profunda.
– Me leva logo para essa roda-gigante antes que eu chute seu traseiro, vai – brincou a menina, agarrando o braço dele e fazendo Josh revirar os olhos, também rindo.
Assim, ambos foram andando em direção á imensa roda-gigante – ou melhor, correndo, já que Raven saiu aos pulos na frente de Josh e o desafiou novamente á um jogo de pega-pega, o qual ele concordou de um jeito encantadoramente alegre, como se tivesse voltado á ter quatro anos.
– Assim você acaba comigo – disse Josh, ao agarrar Raven pela cintura, arfando e rindo.
– Você é muito mole, menino – brincou ela, virando-se para dar um beijo no queixo do namorado.
Enfim, Raven e Josh conseguiram, á muito custo, entrar na London Eye. Raven supôs que aquele dia fosse algum feriado nacional da Inglaterra, pela quantidade de gente que transitava nas ruas e que se espremiam na fila tentando chegar na atração turística.
Momentos antes de subir no vagão, algumas crianças empurraram Josh na pressa de sentar e quase o derrubaram escadinha abaixo, e Raven se segurou para não dar uns bons tabefes nos pequenos por terem “agredido” o rapaz.
Josh notou e deu uma risadinha, antes de puxa-la – outra vez – para seu colo e coloca-la no assento, enquanto Raven ria e avermelhava novamente. De algum lugar, soava os acordes de “God Save The Queen[i]”.
– Nossa. É muito alto aqui, hein? – assobiou Josh, quando a roda-gigante parou e deixou o vagão deles na altura máxima. O rapaz olhava para baixo e fazia várias caretas.
– O que foi, Josh? – disse Raven, dividida entre a zombaria e a preocupação – tem medo de altura?
– Eu?? – ganiu o rapaz, fingindo indignação – eu não, não sou nenhum mané! Sou muito macho, está ouvindo?
Raven não se segurou e caiu na risada.
– Eu faço ideia, Josh – ela sorriu, encostando a cabeça no ombro do garoto. Josh pareceu até se arrepiar um pouquinho, o que deixou Raven feliz. Pelo visto, não era a única que ficava um pouco tímida quando eles ficavam juntos.
– Brincadeira, docinho – brincou o rapaz – e, quer saber... tenho um tiquinho de medo, sim.
– Não acredito... – disse a menina – você tem labirintite ou o quê?
– Sei lá – Josh balançou os ombros, não parecendo estar passando mal – não é nada... é que eu prefiro ter meus pés em terra firme.
– Tudo bem... já vamos descer... – suspirou Raven.
– Descer nada – riu o rapaz, segundos antes de beijar Raven, que estava distraída olhando para o céu. A menina levou um susto tão grande que quase lhe deu um tapa na cara, mas assim que se recuperou, não demorou em abraçá-lo e retribuir o beijo. Assim ficaram até o vagão descer.
–-----------------------------------------------------------
Depois de passearem de metrô por toda a cidade, devorarem três sorvetes de morango com castanhas, fazerem palhaçadas para os guardas do Palácio de Buckingham, e de Josh comprar um fofíssimo urso de pelúcia amarelo para Raven (enquanto a mesma ria e o agradecia com um indiscreto beijinho na boca), ambos voltaram para a casa dos Summer.
– Olha só – disse Josh, fazendo um gesto para a janela mais alta da casa, onde era o escritório do Sr. Summer, e consultando seu relógio de pulso – chegamos exatamente dez minutos e trinta e dois segundos antes do horário combinado. Seu pai não tem motivo para nos enforcar, certo?
– Nenhum – respondeu Raven – a não ser... se ele achar o meu spray de pimenta totalmente vazio.
Josh deu uma gargalhada gostosa.
– E ele está?
– Não... – riu a menina, revirando os olhos – eu nem tirei o lacre.
– Ah, então tá – Josh ainda dava risadinhas — E aí, gostou do passeio?
Raven fez um coração com as mãos e abriu um largo sorriso.
– Não tenha dúvida, neném.
Assim que entraram, foram recebidos pela expressão extremamente curiosa de Mila.
– E aí, maninha? – sorriu o rapaz.
– Como foi o “passeio” de vocês? – indagou Mila, olhando-os com uma expressão divertidamente desconfiada.
– A dream (um sonho) – riu Raven – foi maravilhoso.
Assim que a menina respondeu, a Sra. Summer também apareceu no hall de entrada, com a expressão de uma dona-de-casa fofoqueira.
– Oi, filha. Como foi o passeio?
Inconscientemente, Raven lançou um olhar culposo para Josh, e seu sorriso triplicou. A Sra. Summer percebeu.
– Parece que você se divertiu, não é? – riu ela, olhando de Raven para Josh, e dele de volta para Raven – bom... posso falar com você por um segundo, Ray? Não vou me demorar, querido – acrescentou para Josh.
– Tudo bem, Sra. Summer – respondeu o rapaz, se dirigindo para a escada com Mila e subindo os degraus – a gente se vê lá em cima, Ray!
Raven sentou com a mãe no sofá, curiosa e preocupada. Uma ruga de confusão nascia aos poucos em sua testa.
– O que foi, mamãe?
– Nada, querida – sorriu ela – só queria saber... você realmente gosta desse rapaz, não é?
– Mammy, você não faz ideia – sussurrou Raven, corando. A Sra. Summer riu.
– Ás vezes, você me faz lembrar de mim, quando tinha a sua idade. Eu já conhecia seu pai na época, mas não gostava dele ainda. Esse Josh... ele te trata bem?
A menina ficou mais vermelha ainda e não respondeu.
– Pode me dizer, filha. Não vou criticar. O que ele faz com você?
– Ah... – gemeu Raven, os olhos correndo pelo teto como uma máquina de escrever — beijo, abraço, abraço, beijo, beijo...
Ela viu a mãe balançar a cabeça, rindo.
– É, filha... então ele sem dúvida te trata bem.
– Você não vai falar disso pro papai, vai? – indagou Raven, com medo.
– Ah, não... isso vai ser o nosso segredinho. Seu pai nos incineraria se ficasse sabendo – brincou ela – imagine só...“Nessa idade, se agarrando por toda a Londres!”. Seu pai é compreensivo, mas nem tanto.
Raven riu.
– Você acha que nós dois temos... futuro? – ciciou a menina, ficando levemente angustiada.
O sorriso da Sra. Summer diminuiu.
– Ah, Ray... não posso dizer com cem por cento de certeza. Mas do jeito como vocês se gostam... eu acho que vocês vão se dar bem juntos. Quer dizer, vocês ainda são jovens... mas já sabem o que querem. Eu acho que sim, vocês podem ter futuro.
A garota pareceu muito mais alegre ao levantar do sofá.
–------------------------------------------------------------
Quando Raven chegou no quarto, encontrou Josh encostado na porta, com os braços cruzados, olhando-a como quem está curioso. A menina sentiu que ele não tinha acabado de se posicionar ali.
– Papinho demorado o de vocês, hein? – disse o rapaz, sem mudar a expressão.
Raven arfou ao perceber o que acontecera.
– O quanto você ouviu? – ela indagou, com a voz levemente histérica.
– Eu ouvi a conversa toda – respondeu o garoto, erguendo uma das sobrancelhas.
Raven ficou com a boca entreaberta com o choque. A pouca cor que sobrara em seu rosto sumiu.
Josh, para sua surpresa, pareceu assustado com sua expressão.
– O que foi, Ray?
– O que você está pensando...? – sussurrou ela, com a voz humilde – você...
– Ah! – Josh exclamou – você está preocupada com o que eu achei da conversa?
Raven assentiu.
– Oh, Ray... – ele agora estava rindo – não ouvi nada que eu não quisesse ouvir.
A menina também começou a entender. Um sorriso tímido nasceu em seus lábios.
– Você gostou do que ouviu?
– Claro. Você disse que nem sua mãe tem ideia do como gosta de mim – o rapaz sorriu alegremente – e ela disse que vou ter que enfrentar seu pai se um dia formos casar... não com essas palavras, mas...
Ele não pôde terminar de falar; Raven se jogou nos seus braços e o beijou. Rindo, o rapaz retribuiu de um jeito nada inocente.
– Mas que diabos é isso??
Eles se separaram, assustados. No corredor, o Sr. Summer estava parado, olhando-os como quem vai planejar um assassinato. Logo em seguida, A Sra. Summer apareceu, e notou na hora o que acontecera.
– Jay! O que foi? Eles só estavam se beijando!
– Bei... – o Sr. Summer avermelhou e não terminou de falar ; parecia prestes á ter uma convulsão. Ele se virou para a esposa, sem saber o que dizer, mas quando viu o olhar “depois-nós-conversamos” da Sra. Summer, que parecia uma faca de tão penetrante, apenas bufou audivelmente e voltou para o escritório, abrindo a porta com tanta força que ela bateu na parede e voltou.
Dando um último olhar de leve censura para os dois, a Sra. Summer também entrou no escritório e fechou a porta.
Josh parecia comicamente petrificado.
– Nossa... – gemeu ele, baixinho.
– Ahn... – Raven deu um risinho – é... você realmente vai ter que enfrentar o coroa se a gente casar.
– Tipo, ele quase teve um treco agora só por causa de...
–... um beijinho de nada, sei – completou a menina, revirando violentamente os olhos – papai é tão melodramático.
– Bom... se for para enfrentar ele, estou nessa – riu o rapaz, sorrindo satisfeito ao ver Raven arregalar os olhos.
– Você é masoquista? – brincou a garota – depois eu é que sou a inglesa desmiolada...
– Ora... quem é seu pai pra me ameaçar? O Demolidor?
Raven quase o agarrou outra vez, antes de Ginevra aparecer no corredor e ir na direção deles com um volume nos braços.
– E aí, casal feliz?
– O que é isso, Gi? – indagou Raven, indicando o que a amiga abraçava.
– Ah... – Ginevra corou estranhamente -... bem, eu achei na rua... não achei que o Sr. Summer... bem... se importaria, mas...
Um barulhinho estranho impediu a menina de continuar á falar, e vinha justamente de dentro da toalha que ela segurava. Raven e Josh se inclinaram para ver, e nem o rapaz pôde deixar de dar um sorriso afetuoso.
Dentro da toalha, estava um gatinho aparentando ser recém-nascido, que mal abria os olhos; era tão pequeno e de aparência frágil que dava até medo de tocar.
– Awn... que fofo! – gemeu Raven, com meiguice.
– Ele estava jogado perto de um bueiro, choramingando – contou Ginevra, penalizada – coitadinho, deve estar morrendo de fome... a mãe deve ter abandonado o pobrezinho.
Como que para concordar com a menina, o filhote deu um miado fraco e suave e se revirou na toalha.
– Deve ter leite lá na cozinha, Gi – disse Josh.
– Segure, Ray – Ginevra transferiu gentilmente o gatinho para os braços de Raven — que o segurou como se fosse um bebê extremamente quebradiço – e saiu correndo para a cozinha da casa.
– Ele é bem fofinho – riu Josh, encostando o queixo no ombro de Raven (e fazendo–a se arrepiar de vergonha) para ver melhor o animalzinho – você vai adotar ele?
Raven sorriu com a possibilidade.
– Bom... mamãe adora gatos, e papai também... acho que sim.
Ginevra voltou nesse momento trazendo um minúsculo recipiente com leite. Raven pôs cuidadosamente o gatinho no chão, perto do recipiente, e os três circularam o bichinho para ver se ele bebia. Ainda de olhinhos fechados, o animalzinho farejou o leite e começou á lamber lentamente, como se estivesse sugando. Todos sorriram
– É, ele estava com fome mesmo — riu Raven.
– Legal, inglesinha – riu Ginevra – não vai botar um nome nele, não?
– Adianta dizer que não importa o nome? – brincou Josh – se a gente chamá-lo pelo nome, ele não vai vir mesmo...
Ginevra riu quando Raven deu uma carinhosa empurrada no namorado.
– Se você continuar chato desse jeito, vou dar o seu nome para o bicho.
– Oh, não! Que tragédia! – o rapaz fingiu aflição, rindo – fala sério, gata... seja mais criativa, vai.
Raven pegou o filhote nos braços outra vez, enquanto Ginevra olhava o animalzinho com a cabeça levemente inclinada, como uma criança curiosa.
– Olha, ele tem cara de Spike.
– Spike? Mas que troço de nome é esse, Ginevra? – riu Raven – o gato tem espinhos, por acaso?
– Não, Gi... – Josh também olhou para o gatinho – ele me parece mais Henrique...
– Ou Pablo...
– Ou os dois...
– Chega, gente – Raven balançou a cabeça, rindo, não imaginando um nome mais esquisito para um gato do que Henrique Pablo – não estão ajudando nada...
– Se vira então, já que você é a sabichona... – brincou Ginevra.
– Quer saber? – Raven virou o bichinho na sua direção, para vê-lo melhor – o nome dele vai ser Snow.
– Snow? –indagaram Ginevra e Josh..
– É, por que ele é todo branquinho e parece uma bolinha de neve.
– Pra mim parece uma bola de pelo – disse Josh, esquivando magistralmente do tapa da menina. Ginevra bateu a mão na testa, rindo.
– Vocês são doidos – falou Ginevra.
– Ah, fica quieta, vai, Ginevra – Raven deu um cutucão nas costas da amiga, que se limitou a rir com ela e Josh.
Fale com o autor