Coração De Seda
93 Capítulo 93
Notas iniciais
—Está calma? —Zion pergunta ao ver que acabo de beber todo o chá calmante. Acenei positivo, fazendo assim ele sorrir de canto. —Bem melhor assim.
—Eu descontei toda minha raiva em Yaffa. —Falo e então ele se senta ao meu lado. —Acha que eu sou louca?
—Um misto de loucura e graça. —Zion brinca. —Não é louca no sentido de perder a sanidade mental. Pode ficar tranquila se é isso que quer saber.
—Me desculpe. —Peço e então olho nos seus olhos. —Eu estava tão fora de mim que nem meu próprio irmão me reconheceu.
—Faziam anos que você não ficava fora de si. —Zion fala em tom de brincadeira e então sorrimos. —Mas eu agradeço por você estar melhor, não queria machucar você. —Ele fala preocupado.
—Obrigada por cuidar de mim. —Agradeço.
—Eu poderia cuidar mais se você me permitisse. —Zion fala ao se aproximar de mim como não deve. Tento me afastar, mas o ambiente é pequeno.
—Não faça isso. —Falo ao ver que ele se aproxima de mim.
—Eu nunca seria capaz de fazer nada contra você. E você sabe disso. —Zion fala tranquilo enquanto permanece perto de mim.
—Atrapalho? —Djoser pergunta ao aparecer na porta com um olhar reprovador.
—De modo algum. —Falo ao me afastar de Zion.
—Venha, tenho algo para lhe mostrar. —Djoser fala e então subo a escada com o seu auxílio. Noto que é noite, e noto também que chegamos.
—Chegamos. —Djoser fala e então sorrio. —Estamos em casa, Anippe. —Ele fala ao ver o quanto estou feliz.
—Tudo está tão... Mudado. —Falo surpresa ao ver o porto. —O que aconteceu aqui?
—Muita coisa mudou. —Djoser fala e então sorrimos. —Tenho uma surpresa para você. —Ele fala. —Mas vai saber apenas quando sairmos. —Meu irmão acaba me deixando curiosa ao extremo.
—Surpresa? —Indago curiosa. —Pode me dizer uma dica?
—Logo vai saber. —Meu irmão fala e então olha para minhas vestes. —Se veste como uma princesa de outro reino.
—Vai começar a desaprovar minhas roupas? —Indago.
—Não. —Djoser fala. —Mas você se veste como Elda.
—Elda? —Indago perplexa. —Fala da rainha de Moabe.
—Só Deus sabe o que Amun fez com ela. —Djoser fala. —Eu vi Elda antes ir buscar você. —Ele revela. —A única diferença entre você e ela... É que os cabelos de Elda são vermelhos como o fogo, e os seus loiros como o sol. —Meu irmão fala. —Estes vestidos eu trouxe de lá nas cores que você gosta, mas não pensei que fosse gostar tanto.
—Papai dizia que nossa avó, Tuya, usava sempre o vermelho. E isso fazia com que todos olhassem para ela com respeito. Talvez por isso Elda também usasse, talvez por isso eu goste também. —Falo ironicamente. —Enquanto nossa mãe usava o azul. Cor da realeza.
—Azul e vermelho são da realeza. —Djoser fala e então sorrio. —Vamos ser coroados juntos, Anippe. Haja o que houver. —Ele garante. —Nenhuma outra rainha vai tomar o que é nosso. —Meu irmão fala em relação a profecia de Amun.
—Ela não vai fazer nada contra nós. —Falo olhando para a cidade e sentindo a maior alegria por estar em casa. Mas ao mesmo tempo tristeza por voltar e saber que meu pai não vai me receber. —Ele não vai me receber. —Falo em relação ao meu pai. —E tudo por culpa de Amun. —Falo prestes a chorar. Uma tristeza me invade, mas logo trato de me recompor. —Maldito seja.
(...)
—Venha. —Djoser estende sua mão para que eu desça o último degrau e pisar em solo egípcio após anos.
—Paser. —Falo ao avistar o sumo sacerdote. —Paser? —Indago incrédula.
—Não pode ser a princesa Anippe. Não sendo tão idêntica a mãe. —Paser fala após fazer uma rápida reverência ao me olhar da cabeça aos pés. —Perdão. Agora a senhora é rainha reinante ao lado de vosso irmão.
—Não precisa disso. —Falo carinhosa. —Eu senti sua falta. Assim como Simut.
—E como ele está? —Paser pergunta curioso.
—Bem, casado e pai de dois filhos gêmeos. —Revelo para surpresa de Paser. —Ele nunca se esqueceu de você.
—É melhor continuar essa conversa no palácio ou então vamos falar sobre esses cinco anos aqui mesmo no porto? —Djoser indaga curioso e então rimos.
(...)
—Tudo está diferente. —Falo surpresa ao ver o quanto o palácio mudou.
Logo me surpreendo ao ver uma menina de cabelos negros correr enquanto suas vestes azuis ficam desalinhadas. Seu riso se torna mais alto ao ver Djoser, mas eu fico mais surpresa ao ver que a menina corre até mim e me abraça. —Me sinto desconfortável, mas logo me agacho para ficar da altura da menina. —Me surpreendo ao ser abraçada por ela e ver que Djoser sorri.
—Anippe, essa é Lyanna. —Djoser revela e então olho bem para a menina.
—Lyanna? —Indago surpresa ao sentir os bracinhos fofos e as mãos carinhosas de Lyanna. Seus olhos são no formato dos olhos de Uri, mas são negros como o do meu pai. Suas bochechas são salientes, redondas e com espessuras próximas ao lábios finos. Me assusto ao ver que seu sorriso é idêntico ao do nosso pai, assim como o brilho no olhar que resplandece a alma caridosa que ele foi. —Eu sou Anippe. —Falo e então ela sorri tímida para Djoser e em seguida me olha.
—Ela é nossa irmã. —Djoser fala risonho para Lyanna.
—A mamãe me disse. —Lyanna fala tímida fazendo todos sorrirem.
—Quantos anos você tem? —Pergunto querendo somente ouvir a voz de Lyanna.
—Cinco. —Lyanna responde e então mostra os cinco dedos de sua mão esquerda. Ela então atira seu corpo nos braços de Djoser.
—Nossa mãe está aqui? —Indago para meu irmão.
—Essa é a surpresa. —Djoser revela e então Lyanna me observa. —Tio Gab está? —Ele pergunta e então ela afirma. —E quem mais está?
—A mamãe. —Lyanna responde docemente e então olha para Paser.
—Sentiu falta de mim, princesa? —Paser pergunta risonho e então Lyanna olha para Djoser procurando uma resposta.
—Claro que ela sentiu. —Djoser fala ao ver Lyanna se aconchegar em seus braços. —Vamos, alguém te espera.
—Ela conheceu o papai? —Lyanna pergunta para Djoser e então todos ficam tensos.
—Conheci. —Falo e então Lyanna sorri.
—Ele era... —Lyanna tenta achar a palavra certa e então olha para Djoser. —Legal? —Ela pergunta inocente ao não saber se expressar bem.
—Muito. —Respondo e então Lyanna faz Djoser sorrir.
—Depois Anippe fala sobre o papai para você. —Djoser fala me fazendo rir. —Agora vamos ver a nossa mãe.
—Ela sentiu sua falta. —Lyanna fala para mim. Vejo minha irmã mais nova bocejar deixando claro o seu sono.
—Ficou acordada até agora... —Djoser fala para Lyanna. —Eu já imaginava. —Ele fala enquanto vejo que Lyanna me observa com curiosidade.
Observo a menina enquanto ando. Não me canso de olhar para ela e suspirar, pensar no quanto meu pai ficaria feliz por ter um filha com seus traços. Nada mais justo já que eu e Djoser somos parecidos com nossa mãe.
—Ela sabe onde o papai está? —Lyanna pergunta e então todos ficam nervosos. Deve ser porquê Lyanna ainda não entende que nosso pai morreu. —Eu vi ele hoje de manhã. —Ela fala e então paro de andar bruscamente.
—Você viu o príncipe Gab, princesa. —Paser logo trata de corrigir Lyanna. Eu olho bem para a menina que parece desmentir Paser. Mas Lyanna deve ver Gab como um pai já que ele quem cuidou dela e de nosso mãe.
—Ou então viu Radamés. —Djoser fala e então olho intrigada para Paser.
—Conselheiro da rainha. —Paser fala nervoso. —Ele e Gab ajudaram a rainha Henutmire com Lyanna.
—Onde nossa mãe está? —Indago docemente para Lyanna. Mas na verdade estou intrigada com esse homem.
—Lyanna? —Ouço uma voz masculina chamar por minha irmã. Penso em ver Gab, mas vejo um homem desconhecido. —Djoser. —Ele fala e então olha para mim. —Você deve ser a princesa Anippe.
—Anippe, este é Radamés. —Djoser fala e então sorrio forçado para o homem.
—Sua mãe espera ansiosa por você. —Radamés fala me causando um certo asco. Sorrio maliciosamente para Djoser. Meu irmão parece entender que estou reprovando o homem, por isso pede passagem para andar sozinho comigo e Lyanna. Assim que ficamos longe de todos, começo a falar.
—Ele não é apenas um conselheiro, não é? —Pergunto.
—Ele pediu nossa mãe em casamento. —Djoser revela e então olho incrédula para ele. —Três vezes. —Fala e então Lyanna mostra três dedos para mim com sua ingenuidade. —E nossa mãe negou as três vezes.
—Melhor assim. —Falo. —Não imagino nossa mãe casada com outro homem.
—Radamés conheceu nosso pai, Anippe. —Djoser fala nervoso. —Mas nem eu e você sabíamos quem ele era. Soube dele logo depois que nosso pai... Morreu. —Djoser revela. —Querendo ou não, ele ajudou nossa mãe.
—Não gosto dele. —Falo para surpresa de Djoser.
—Ciumenta? —Djoser indaga irônico, mas antes que eu fale qualquer coisa, ouço outra voz.
—Claro que é. —A voz feminina fala e então vejo minha mãe de frente para nós.
—Mãe. —Falo surpresa ao ver o quanto ela está diferente. Sem a típica peruca egípcia, seu cabelo loiro com alguns fios brancos se tornam mais claros com o fogo da rochas no corredor. Seu rosto ainda é o mesmo de quando parti, seus olhos não tem tanto a maquiagem que antes usava, mas ainda assim é marcado e atraente. Sorrio ao ver que minha mãe ainda tem preferência pelo azul, noto que essa sua preferência atravessa anos e anos.
—Anippe. —Minha mãe fala com a voz tranquila e doce de antes. Sinto seus braços envolverem o meu corpo como antes fazia, acabo me sentindo uma criança, mas mesmo assim a abraço forte com todo meu amor.
—Mãe. —Ouço Lyanna chamar por nossa mãe e em seguida colocar seus bracinhos entre nós. Olhamos para a menina que agora se intimida com nossos olhares.
—Ela se parece com seu pai, não parece? —Minha mãe pergunta e então sorrio afirmando que sim. Lyanna olha para Djoser, que logo ri ao notar que a criança está envergonhada, mas não a coloca no chão.
Noto que no penteado de minha mãe há um adorno dourado parecido com o que há nos cabelos de Lyanna. De longe minha mãe não se parece com nada do que um dia foi. A maquiagem dos olhos não é mais a mesma, é dourada, não é mais o azul escuro. Mas o traço em seus olhos permanece o mesmo, o que acaba me fazendo lembrar de Leila. Reconheço o colar que está em minha mãe. Meu pai uma vez me disse que essa jóia foi feita a pedido de meu avô, o faraó Seti. Meu pai até então não devia nem imaginar na hipótese de demonstrar seus sentimentos para minha mãe. Ela era casada com Disebek, um general. Filha de um faraó, o temido Seti. Somente Deus sabe o que aconteceria com meu pai.
—Quando eu disse que você se parecia comigo, eu não pensei que fosse ficar idêntica. —Minha mãe fala ao segurar minhas mãos. —Até os cabelos. —Ela fala ao amaciar meu cabelo com carinho. —Você sempre foi mais minha filha do que de seu pai. —Minha mãe fala calma, mas eu sinto uma certa raiva em sua voz. Logo seu sorriso enfeita seu rosto e acabo sorrindo também. —Temos muita coisa para conversar. —Ela fala seriamente e então olho para Djoser e Lyanna.
(...)
—Não quero comer. —Falo ao ver o banquete. —Não quero. —Falo ao ver que minha mãe está prestes a colocar uma uva em minha boca. —Estou enjoada e cansada.
—Eu imagino. —Minha mãe fala enquanto observo meu quarto depois de anos. —Tudo está do mesmo jeito. —Fala e então sorrio.
—Não tirou nada do lugar. —Falo ao olhar para meus pertences. Pego o meu espelho e então vejo meu reflexo mesmo que o espelho esteja sujo. —Meu espelho. —Falo. Quem me deu foi Nefertari, me lembro disso vagamente. —O reflexo mudou um pouco.
—Quase nada. —Minha mãe fala com um pouco de irônia e então olho para ela.
—Senti falta daqui. —Falo. —Assim como sinto a falta do meu pai. —Minhas palavras fazem minha mãe me observar de forma estranha. —Djoser disse que meu pai já conhecia Radamés.
—Então você conheceu Radamés. —Minha mãe fala de forma irônica. —Eu já o conhecia antes de seu pai morrer. Vi ele duas ou três vezes.
—E mesmo assim ele pediu a senhora em casamento três vezes. —Falo.
—Uma brincadeira boba da parte dele. —Minha mãe fala risonha embora eu não esteja achando graça alguma de sua parte. —Anippe, eu nunca me casaria com Radamés. —Ela revela. —Preciso lhe contar algo grave, Anippe. Djoser não deve ter contado porque você certamente não iria acreditar.
—Então fale. —Falo e espero que ela fale alguma coisa.
—Seu pai já sabia que iria morrer, Anippe. —Minha mãe revela. —Ele se entregou. Todos sabiam que Amun iria matar Hur, menos eu.
—E não fizeram nada para impedir? —Indago brava.
—Seu pai estava infeliz com a morte de Uri, Anippe. Nada o trazia de volta. —Minha mãe fala. —E então ele foi morto na sala do trono. —Minha mãe revela. —Com o passar do tempo um homem de vestes negras começou a me seguir.
—Como? —Indago ao me lembrar do homem que me salvou.
—No dia em que Lyanna nasceu, ele a tomou de mim com a ajuda de Gab e Djoser. —Revela. —Era tudo um plano para manter Lyanna salva. —Fala. —Eu me desesperei, mas logo Djoser me explicou tudo ao passar dos dias. —Minha mãe fala. —Você se afogou, não foi? —Minha mãe pergunta e eu afirmo que sim. —Esse homem de negro era Radamés. —Minha mãe revela com a voz embargada.
—Como ele sabia que eu...
—Ele te salvou após Lyanna nascer. Ele estava com Lyanna, bem perto ao acampamento. Radamés foi atrás de notícias suas. —Minha mãe revela me chocando. —E seguiu viagem para a Núbia.
—Isso é tudo confuso. —Falo para surpresa da minha mãe. —Isso não me convence. Porque diabos meu pai planejaria tudo isso sem a senhora saber?
—Eu também não sei. —Minha mãe fala, de costas para mim. —Mas se não fosse por isso talvez Amun tivesse matado Lyanna.
—Não sei o que dizer. —Falo ainda assustada com as revelações. —Eu realmente não sei o que dizer.
—Nem eu mesma sei o que dizer. —Minha mãe fala ao voltar a olhar para mim. —Eu apenas sei que devo cuidar de você. Porque Djoser vai ser coroado rei e você vai usar a minha coroa.
—Não. —Nego. —Quero uma coroa apenas minha. Se a senhora não usou a de Nefertari, não devo usar a sua. —Falo fazendo minha mãe sorrir. Eu então vou até minhas coisas e pego a pequena caixa onde dentro se encontra o rubi que Arão deixou antes de sair de minha tenda. —Eu quero uma coroa que cujo diamante seja esse. Eu quero ele no centro da minha coroa.
—Quem lhe deu? —Minha mãe indaga e sorrio
—Uma pessoa especial.
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