Coração De Seda
86 Capítulo 86
Notas iniciais
Gab... Se eu estiver mesmo certa, foi ele quem evitou que a notícia que meu pai morreu chegasse até mim. Eu tenho a plena certeza disso, não estou sendo levada pelas emoções. Meu tio sempre amou minha mãe, não seria de um momento para outro que ele iria mudar. Ele chegou a dizer uma vez que eu era sua filha, algo impossível já que minha mãe amou meu pai até o último dia dele. Certas vezes cheguei a acreditar ser mesmo filha dele, mas não sou. Eu sou filha de um hebreu da tribo de Judá, não sou bastarda de um príncipe bastardo.
—Sou eu! Calma, Anippe! —Arão fala ao tocar em meu ombro e se deparar com o peso de minhas mãos. —Estava com o pensamento longe.
—Penso em muitas coisas todos oa dias. —Falo. —O que faz aqui na cozinha?
—Sou proibido de entrar?
—Na verdade, achei estranho. —Falo. —Eu acabei perdendo a razão do tempo. Hoje ajudei Leila, mas ela já foi e eu continuei aqui.
—Já deveria estar...
—Eu já vou. —Falo nervosa por ter Arão perto de mim. —Shalom.
—Espere um pouco. —Arão pede ao me segurar pelo braço delicadamente. —Você está assim desde a festa. Eu falei algo desrespeitoso? Te ofendi?
—Não, Arão. Mas como você mesmo disse, alguém pode interpretar mal se nos ver juntos. —Falo. —Porque me olha assim? —Pergunto ao ver que Arão não para de olhar para mim.
—Tem trigo no seu cabelo. —Arão fala e então olho para meu cabelo, mas não vejo nada.
—Ou ele é claro por si mesmo? —Ele pergunta risonho e então acabo rindo.
—Agora eu preciso mesmo ir. —Falo olhando Arão pela última vez. —Shalom. —Me despeço e então saio da cozinha.
Caminho preocupada por deixar Arão sozinho. Penso até em voltar, mas como ele mesmo disse, alguma pessoa pode interpretar mal ao nos ver sempre sozinhos. Não posso deixar de ajudar Arão, não sabendo que ele tanto me ajudou assim como os outros desde que sai do Egito.
—Me desculpe! —Simut fala ao esbarrar em mim. —Nossa, faz tanto tempo que não vejo a princesa que mal a reconheci.
—Quanto exagero, Simut! —Falo. —Nem faz tanto tempo assim!
—Mas olhe só para você... Está mais alta! —Simut brinca. —Não vai ser tão pequena como a rainha Henutmire.
—Simut! —Falo espantada. —Sabe que eu e meus irmãos somos altos por causa do meu pai.
—E como você está? Como seu coração real se sente com tudo o que aconteceu? —Simut pergunta seriamente.
—Como você acha? —Pergunto.
—Tudo vai se encaixar com o tempo. —Simut fala sorridente. —Não, chore. Por favor, princesa do meu coração, não chore! —Simut pede ao me ver chorar. —Olha, eu faço qualquer coisa, mas não chore. Eu já vi muito a sua mãe chorar nas noites que você e seu irmão estavam doentes, mas ela era chorona mesmo... —Ele fala me fazendo rir. —Isso mesmo! Sorria! Esse não é o significado do seu nome? Anippe, que significa sorriso!
—Não, Simut! —Nego rindo embora as lágrimas escorram. —Filha do Nilo, esse é o significado do meu nome. —Falo.
—Filha de um rio... Isso mostra o quanto forte sua personalidade é. —Simut fala. —O mesmo rio, mas não as mesmas águas.
—Que transborda e é essencial para tantas pessoas.
—A princesa transborda todos seus sentimentos, sejam eles bons ou ruins. —Simut fala pensativo. —E é essencial para muitas pessoas.
—Bobagem. —Falo.
—Claro que é. —Simut insiste. —Eu ainda posso me lembrar de você e seu irmão ainda crianças...
—Você dizia que éramos quase gêmeos.
—Assim como a rainha Henutmire e o príncipe Gab. —Simut fala e me deixa confusa. —São parecidos, com apenas dois dias de diferença.
—Quase gêmeos, não do mesmo ventre. —Falo irônica.
—Mas são muito parecidos. —Simut afirma. —Se me permite dizer, você e Djoser me lembram Henutmire e Gab.
—Porque? —Indago curiosa.
—Porque são um casal de irmãos com pouca diferença de idade. Se Gab e Henutmire tivessem crescidos juntos, quantas coisas teriam sido evitadas...
(...)
—Zion? —Indago ao ver que ele me segue. —O que quer de mim?
—Não disse que eu seria seu guardião? —Zion pergunta e então sorrio. —Estou te seguindo desde manhã.
—Sem parar? —Pergunto risonha. —Zion, eu disse guardião, não sombra.
—Tem razão. —Zion concorda. —Mas você sabe que se me permitisse... —Zion fala ao se aproximar de mim com uma certa intimidade. —Eu seria muito mais que isso.
—Eu sei. —Falo, fazendo seus olhos brilharem.
—Você estava tão confiante quando estava na vila... —Zion fala desapontado. —Eu ia para a casa onde ficou quando sua mãe estava presa no palácio, e sempre ficava ao seu lado, sem seu pai saber, conversando com você o tempo todo...
—Naquela época estávamos intrigados. —Falo nostálgica.
Flash Back On
—Pai, come alguma coisa. —Djoser pede assim que coloco o pão da mesa.
—Não tenho fome. —Meu pai responde olhando para o vago. —Eu vou deitar, boa noite. —Ele fala e então se levanta.
—Ele vai morrer se continuar assim. —Djoser fala enquanto penso. —O que vamos fazer?
—Eu não sei. —Falo confusa. —Eu não sei se enlouqueço ao pensar que nossa mãe está presa ou com nosso pai que está morrendo de tristeza.
—Vamos perder os dois assim. —Djoser fala e então me sento ao lado dele. —E Uri que não vem nos ver, Anippe?
—Nosso tio deve ter proibido. —Falo estarrecida. —Acho que somos só eu e você agora. —Falo ao abraçar o meu irmão.
Flash Back Off
—E hoje ele está morto. —Falo pensativa ao lembrar de que meu pai foi morto por Amun. Quem poderia imaginar que ele magaria o meu pai? Tudo por culpa de um amor não correspondido. Tudo por culpa de um trono.
—Eu sinto muito, minha princesa. —Zion lamenta ao segurar meu rosto. —Mas enquanto eu viver, ninguém vai te fazer nenhum mal.
—Eu sei. Mas sabe o que eu mais desejo agora? —Pergunto. —Que Amun sofresse como minha mãe sofre. Mas eu quero que ele sofra por causa da filha...
—Não faça nada contra Yaffa, Anippe. —Zion pede apreensivo. —Você cortou os pulsos dela, ela quase morreu.
—Eu deveria ter cortado os cabelos dela como pensei em fazer com Miriã enquanto ela dormia. —Falo ao lembrar da minha travessura que nunca fiz. —Os cabelos de Yaffa já estão crescidos.
—Anippe, não faça nada! —Zion pede e eu sorrio. —Bata em mim e desconte toda sua raiva, mas maltratar Yaffa não...
—Porque? Por acaso gosta dela, Zion? —Pergunto um pouco enciumada. —Quer saber? Vá ser o guardião dela. Ela precisa para se defender, eu não! Sei me defender muito bem com navalhas. —Falo antes de dar as costas para Zion.
(...)
Observo o rio do alto de uma pedra, um pouco distante das tendas. Já está anoitecendo e eu estou sozinha com meus pensamentos infelizes. Vontade de me jogar nesse rio não me falta, mas isso seria um ato de covardia. Eu só penso em como vim parar aqui, no meio do deserto indo para Canaã. Fiz isso apenas porque pensava estar resgatando as raízes da família do meu pai. Mas pelo o que estou vendo, isso não é tarefa para mim. Se José não tivesse ido para o Egito, talvez nunca o povo hebreu tivesse sido escravizado. E consequentemente meu pai não tivesse conhecido minha mãe. Quantos anos e quantos reis se passaram para Ramsés I reinar e em seguida Seti? Vários. O amor de meus pais foi o mais proibido e impossível de todos.
Meu pai era apenas um nobre de sangue hebreu dentro do palácio que estava sobrevivendo para não ser escravizado. Enquanto minha mãe vinhha de uma vida luxuosa e plena de conforto. Mas ela não sabia o que era o verdadeiro amor. Não sabia até conhecer o meu pai e começar a escrever uma nova história. Uma história a qual eu e Djoser, assim como a inocente Lyanna, somos os melhores capítulos.
Flash Back On
—Está de bom humor. —Meu pai fala enquanto jogamos uma partida de Senet. —Porque?
—Eu não sei. —Respondo contente mesmo perdendo no jogo. —Apenas estou sorrindo a toa.
—Uri e você tem essa mesma mania. —Meu pai acaba me comparando com meu irmão mais velho. —Mas eu não me acostumo.
—Pai... —Tento tirar uma dúvida e então meu pai me olha de imediato. —O senhor nunca me falou sobre a sua infância.
—Porque quer saber isso agora? —Pergunta.
—Porque eu sempre ouço sobre a infância da minha mãe. —Falo. —Mas nada da sua. Já ouvi falar do meu avô, mas nunca da minha avó.
—Eu lembro muito pouco da minha mãe. Se é isso que você quer saber. —Meu pai fala me deixando surpresa. —A única coisa que lembro bem é que ela era muito carinhosa e atenciosa como a sua mãe. —Fala.
—Eu não conheci nenhum dos meus avôs e avós. —Falo um pouco desapontada.
—Mas tenha a certeza de que estarei aqui quando você se tornar mãe. —Meu pai fala risonho.
Flash Back Off
—Quanta falta faz... —Falo.
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—Então eles tiveram uma linda filha de olhos azuis e cabelos tão claros como o sol. —Meu pai conta a minha história favorita enquanto tento dormir. —E todas as vezes que essa garotinha sentia medo...
—Seus pais falavam "Você é uma leoa, meu amor. Não pode ter medo." —Repetimos juntos.
—E vamos estar aqui quando você acordar, quando descansar... —Meu pai fala enquanto caio em sono profundo aos poucos. —Não sinta medo, minha filha. Seu pai sempre vai estar com você quando o dia amanhecer. —Ele fala antes de beijar o meu rosto.
Flash Back Off
—Eu não aceito. —Falo estarrecida. —Eu não aceito isso... —Falo enquanto choro perto do rio. Acabo soltando um grito de dor por saber que meu pai não está mais neste mundo comigo. Sinto como se tudo dentro de mim estivesse se petrificando como um diamante bruto e difícil de lapidar.
Se Amun soubesse o quanto desejo o seu sofrimento e a sua morte... Se ele soubesse que todas as noites eu planejo uma morte lenta e dolorosa para ele, certamente se arrependeria por ter matado meu pai. O que ele fez não tem nome! Amun sabia que em breve meu pai ganharia outro filho, ou melhor, uma filha. Mas começo a pensar que foi melhor Lyanna ter morrido. O que seria dela se crescesse sem nosso pai? —Mas meu coração grita negando que Djoser mente em algo. Eu nunca fui de me levar pelos sentimentos. Mas meu coração fala para mim, ou melhor, grita e nega que Lyanna está morta. Algo estranho já que não conheci minha irmã. — Algo de errado está acontecendo no Egito. São muitas desgraças em tão pouco tempo! Será mesmo que minha mãe enlouqueceu?
Tudo está tão difícil de acreditar que já nem sei por onde começar. Preciso começar a pensar no que fazer para ajudar minha mãe quando eu voltar para o Egito. Estou terrivelmente confusa e perdida com tantos problemas. E me sinto ainda pior por não poder ir embora do acampamento. Se ao menos eu pudesse chegar no Egito sem esperar Djoser...
—É isso. —Falo ao ter uma ideia. —Eu não vou esperar Djoser. —Falo sorridente. —Eu vou embora daqui antes. Não tem porque esperar Djoser... Ele quer que eu espere como se nada de grave tivesse realmente acontecido. —Falo com uma certa suspeita. —Se ele quer mesmo vingança, ele não tem que esperar nada! —Exclamo sem entender a lógica do meu irmão mais velho. —Se eu quero vingança, eu vou ter.
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