Coração De Seda
84 Capítulo 84
Notas iniciais
—Então quer dizer que além de ter brigado com Miriã e ter machucado Bezalel, você quase matou Yaffa? —Arão pergunta bravo comigo enquanto seus filhos observam tudo. —Me deixem sozinho com ela. —Ele ordena e então os filhos obedecem. —Anippe, olhe para mim. —Arão pede ao se sentar ao meu lado. —Anippe, o que você fez foi muito grave.
—Grave mesmo é a morte. —Falo sem pensar, sem nem mesmo olhar para Arão. —Eu queria matar Yaffa, Arão. Eu não tinha mais noção do que era certo ou errado, não vi lei em nada, não temi nada, apenas pensei na dor que Amun causou ao matar o meu pai. —Falo pensativa. —Na dor que meu pai sentiu ao morrer, nos seus últimos pensamentos, e em como minha mãe deve ter se sentido.
—Essa guerra é entre Henutmire e Amun, Anippe. —Arão fala enquanto choro. —Hur não tinha culpa se sua mãe não amava Amun.
—As vezes eu acho que a maior desgraça da vida de minha mãe foi essa. Todos eles, Disebek, Amun, Gab... Todos eles amaram e até se envolveram demais com minha mãe. Tudo isso por um só motivo, a beleza dela. —Falo.
—Disebek? Ele amou sua mãe verdadeiramente? —Arão pergunta.
—Eu não sei. —Falo. —Mas ainda bem que ele não existe mais, muito menos sua descendência. —Falo risonha.
—Seja lá como for. Amun não foi o primeiro a amar sua mãe, nem será o último. —Arão fala e então olho para ele. —Assim como você.
—O que pretende dizer com isso? —Pergunto.
—Pretendo dizer que Chibale não vai ser o primeiro a te amar e que Zion não será o último. —Arão fala me olhando de forma estranha. Ele não me olha como a garota que pretende defender de tudo, muito menos da princesa a quem ele deve tratar com respeito. Arão está me vendo com outros olhos, de outra forma.
—Você realmente sabe como me deixar sem palavras. —Falo, fazendo Arão rir. —É mais que um amigo. —Falo sem pensar e vejo os olhos de Arão brilharem. —Mas agora eu tenho que ir. —Minhas palavras desapontam Arão. —Shalom. —Me despeço e então saio da tenda.
(...)
—Você nunca me surpreende. —Halima fala enquanto costura. —Mas matar...
—Eu me descontrolei. —Falo enquanto brinco com o novelo de lã.
—Você é descontrolada. —Halima brinca e acabamos rindo. —Djoser só vem quando completar a maior idade?
—Meu irmão diz isso porque até lá será responsável pelas suas próprias ações. —Falo. —Vai me ajudar não vai?
—Claro que vou. —Halima responde convicta. —Zion me falou que também irá.
—Ele vai se uma espécie de guardião, prometo que não vai faltar nada para vocês dois. —Falo. —Lá eu darei um jeito de Djoser nomear Zion na guarda real. Claro, isso se ele não quiser voltar e entrar em Canaã.
— Duvido muito. —Halima fala me surpreendendo. —Meu irmão te ama, Anippe.
—Eu também gosto muito dele. —Falo sem olhar para Halima.
—Gosta? Ele não é um vestido para você gostar. —Halima fala brava pela primeira vez que a conheço. —Ou você ama, ou você não ama.
—Eu não quero amar. E nem venha me dizer que no coração não se manda, porque se manda sim. Eu mando no meu coração... —Falo. —Agora pare de falar sobre seu irmão, ou nunca vai terminar este estandarte que viu no seu sonho e que tanto insiste em fazer.
—Estou quase terminando ele. —Halima fala orgulhosa. —Fiz a flor de lis com seda azul. —Ela fala e então me lança um sorriso. —Me faz lembrar sua mãe. —Ela fala contente. —Aliás, tenho algo para você.
—Para mim? —Indago curiosa e então vejo Halima soltar tudo e me mostrar um belo vestido de alças caídas nos ombros azulado com branco.
—Eu estava fazendo para mim. Se vê isso pelo azul. —Halima brinca e então sorrio. —Mas então eu comecei a bordar e pensei em dar para você como presente.
—É muito bonito. —Falo maravilhada. —Você mesma quem fez cada detalhe? —Pergunto ao ver a delicadeza do vestido.
—Claro que fui eu. —Halima fala risonha e então agradeço com outro sorriso. —Gostou?
—E ainda pergunta? —Respondo Halima com outra pergunta. —Mas, meu aniversário já passou.
—Isso é apenas um detalhe. —Halima fala. —Logo, logo virá seu próximo aniversário, e logo Djoser vai vir te buscar. —Ela acrescenta. —Não tem dia ou hora certa para presentear as pessoas que mais amamos, Anippe.
—Tem razão. Mas você vem comigo, não é? —Falo olhando para o vestido. —E Zion também. Ou pensa em desistir de me ajudar?
—Claro que não. —Halima afirma. —Mas acho que sua mãe vai estranhar.
—Minha mãe gosta de você. —Minhas palavras fazem Halima corar. —Deu para você o melhor colar que meu pai deu para ela. —Minha revelação faz Halima brilhar. —Onde está? Me deixe ver. —Falo em relação ao colar.
—Eu guardei muito bem. —Halima fala ao revirar os baús e então vejo-a com o colar em mãos. —Foi quando você estava acamada por causa do príncipe Jahi.
Flash Back On
—NÃO! —Ouço o grito de minha mãe assim que sinto a lâmina de Jahi perfurar o meu abdômen. Minhas pernas se tornam bambas ao sentir o meu sangue jorrar. —Minha filha não! Minha filha não... —Ela fala ao agarrar o meu corpo totalmente desconsolada. —Anippe, fala comigo... —Ela pede enquanto sinto dor. Logo toco no seu rosto tentando dizer que estou perdendo os sentidos. Djoser e Moisés ajudam minha mãe, todavia eu caio aos poucos no chão. Minha mãe põe sua mão em meu ferimento, por isso gemo baixo ao sentir dor novamente.
—Anippe... —Minha mãe continua falando, mas eu não ouço, estou sem ouvir nada. Ouço Moisés falar comigo, mas não entendo. Estou perdendo os sentidos aos poucos, sinto como se o ar me faltasse rapidamente, mas sigo firme ao respirar fundo. Logo olho em volta e vejo meu pai, com isso me entrego a total escuridão.
Flash Back Off
—Eu quase morri. Mas faria isso mil vezes pelo meu pai, assim como ele faria isso mil vezes por minha mãe. —Falo saudosa ao ter o colar em mãos. Não pensei duas vezes em me jogar na frente de meu pai naquele dia. —E pensar que a filha que ela teve após eu partir do Egito está morta. —Falo infeliz.
—Lyanna? —Halima pergunta e eu concordo. —Eu sinto muito, Anippe. Eu sinto muito por você não conhecer sua irmã.
—Eu pensava que eu e meus irmãos iríamos proteger essa menina. Mas então eu perdi Uri, e agora, sem nem mesmo ter conhecido, perdi Lyanna. —Falo. —E acima de tudo perdi meu pai, Halima. Como acha que me sinto?
—Queimada por dentro, em cinzas por fora. —Halima fala e eu concordo. —Mas você vai voltar para casa, Anippe. E vai ter que ajudar sua mãe. Você tem que fazer isso por ela, pelo seu pai, por todos. Até mesmo pela inocente Lyanna que morreu tão cedo, tão pura e sem sombra de pecado algum.
—Eu pensei nisso quando quase matei Yaffa. —Falo pensativa. —Quase matei ela, Halima. Sabe o que é pior? Eu tinha noção. Não fiz por impulso como antes fazia, não. De maneira alguma! Eu tinha noção, assim como senti prazer em vê-la sangrar, em vê-la sofrer.
—Você tinha que fazer o que pensava mesmo. —Halima me apoia. —Mas creio eu que isso não vai te ajudar com Djoser.
—Djoser vai fazer muito pior quando fazer de Yaffa sua esposa. —Falo ao olhar bem para o colar. —Seti e Ramsés eram perigosos porque não tinham noção do poder, mas Djoser tem. Djoser tem um coração, tem bom senso, sabe o que é perigoso e o que não é. É exatamente por isso que Djoser é perigoso. Amun não sabe, mas pagará um preço alto por querer que sua filha seja uma rainha.
—Sabe exatamente o que Djoser vai fazer? —Halima pergunta curiosa. —Porque, por mais que eu queira, não consigo ver maldade em Djoser.
—É aí que mora o perigo. —Falo surpreendendo Halima. —Mas não se preocupe. Djoser não faria nenhum mal para você, não tem motivos para isso.
—Menos mal. —Halima fala enquanto volto minhas atenções para o seu presente.
—Quando eu e meu irmão éramos crianças, nossa mãe nos obrigava a comer primeiro, obrigatoriamente, os vegetais. Mas Djoser nunca aceitava isso, ele odiava todos os vegetais. —Falo nostálgica com saudades do meu irmão. —Nosso pai até tentava intervir, mas minha mãe só deixava meu irmão sair da mesa se antes comesse...
Flash Back On
—Você não tem escolha. —Minha mãe fala enquanto observa Djoser olhar para a bandeja.
—Come logo. —Falo baixo ao lado do meu irmão. —Ela não vai deixar você sair desse quarto nem tão cedo.
—Eu não vou comer. Não quero e não pode me obrigar. —Djoser fala bravo enquanto minha mãe permanece calma. —Eu não quero! —Ele insiste.
—Se você não comer vai desmaiar de fome. —Minha mãe fala pausadamente. —Quer tomar as fórmulas de Paser? —Ela pergunta já sabendo que meu irmão odeia as fórmulas do pai da rainha.
—Come! —Falo ao empurrar um pouco da beterraba na boca de meu irmão. Minha mãe tenta abafar o riso, mas eu acabo notando. —Anda! Come logo! —Falo brava. Djoser então se vê sem saída e acaba comendo tudo aos poucos.
—Se eu um dia me tornasse rei, proibiria a entrada de beterrabas nessa cidade. —Djoser fala beber o refresco de beterraba. —Tem gosto ruim.
—Eu sei. —Nossa mãe fala. —Mas você precisa comer tudo o que eu disser que tem que comer.
—Até os vegetais? —Djoser indaga frustrado.
—Até eles. —Nossa mãe afirma e então Djoser aceita a situação.
Flash Back Off
—Eu sinto falta daquela época. —Falo nostálgica ao lembrar do quanto eu e Djoser éramos felizes com a proteção dos nossos pais. —Falta dos verões onde Uri sempre nos levava para o Nilo ao amanhecer. E de quando eu e meu irmão nos íamos para debaixo da mesa da oficina do nosso pai depois de fazer alguma bobagem. —Falo. —E de todas as vezes que eu usava as coisas da minha mãe. —Relembro risonha. Eu não tinha nem oito anos quando fui pega por ela.
Flash Back On
—Anippe? —Minha mãe me surpreende ao me ver mexendo em suas coisas. —Usando minha maquiagem? —Ela pergunta risonha ao me ver toda suja. —Me deixe limpar seu rosto. —Ela pede ao se sentar ao meu lado.
—Desculpa, mãe. —Peço ao ver que ela tem trabalho ao limpar meu rosto. —Não fica brava...
—Eu não estou. —Ela fala ao limpar meu rosto com cautela. —Só não deve mexer em nada. Você não precisa disso. —Ela fala ao retirar o vermelho dos meus lábios. —Fica linda com os lábios rosados.
—Mas eu queria ficar como a senhora. —Falo fazendo minha mãe rir da situação.
—Ninguém deve ser igual a ninguém. —Minha mãe fala. —Aliás, você ainda é muito nova. —Ela ressalta ao terminar de limpar meu rosto. —O que mais usou? —Ela pergunta e então mostro meus dedos com seus anéis. —Quando você estiver maior, vai poder usar tudo isso. Mas agora você é apenas uma menina que deve apenas brincar.
—Mas meus primos não podem brincar de boneca. —Falo.
—Eu brinco com você. —Minha mãe fala me fazendo sorrir. —Eu fazia o mesmo quando era criança. Não me lembro de ter nenhuma irmã, nem mesmo prima para brincar comigo.
—Porque a senhora não me dá uma irmã? —Minha pergunta deixa minha mãe vermelha. —A senhora não encontrou Moisés no Nilo? Os deuses não podem mandar outro bebê?
—Não é bem assim, Anippe. —Minha mãe fala enquanto está vermelha. —Não acha melhor me ter? Me ter somente para você? —Pergunta risonha e eu confirmo. —Pois então vá buscar suas bonecas, meu amor. —Ela fala enquanto faz carícias em meu rosto. —Eu te amo, sabia? Te amo muito. Desde o dia em que você nasceu, até mesmo antes, eu te amo com todo o meu coração. Porque é por você e seu irmão que ele bate. —Minha mãe fala e então a abraço forte como sempre faço com meu pai.
—A senhora vai me esperar aqui? —Pergunto.
—Eu não saio daqui. —Minha mãe fala risonha.
—A senhora nunca vai me deixar, não é? —Pergunto temendo ficar sem minha mãe. —A senhora e o papai vão sempre estar aqui? Aqui no palácio? —Pergunto.
—Talvez um dia eu e seu pai, talvez ele primeiro, ou até mesmo eu. Nós dois vamos embora desse palácio, mas sempre estaremos aqui. —Minha mãe fala ao pôr sua mão em meu peito. —No seu coração. —Ela fala. —Coração valente que um dia vai entender tudo o que faço por você e seu irmão...
Flash Back Off
—Sabe o que eu queria agora? —Pergunto para Halima ao me lembrar da conversa com minha mãe. —Que eu acordasse, que tudo isso fosse um sonho ruim, e que eu fosse até os meus pais e eles me colocassem para dormir como faziam todas as noites em que eu tinha medo.
—Não fica assim. —Halima pede e então me abraça. —Não chora, por favor... —Ela pede ao ver que começo a chorar. —Faça tudo, mas não chore. Isso não combina com você.
Fale com o autor