Notas iniciais
Ilarilari eee ooooo! Cheguei! Se preparem para matar as saudades (sqn) do Disebek.

—Você não me disse que gostava de sentir o ar fresco enquanto era servida? —Disebek pergunta enquanto eu aprecio a paisagem deslumbrante.

—Aqui é alto. —Protesto ao olhar para baixo. Como pode o palácio estar tão perto do Nilo? Então me dou conta de que estamos na sacada mais alta do palácio, de frente para o Nilo. —Porque estamos aqui? —Pergunto ao recordar tudo o que aconteceu entre mim e Disebek. —O que pretende?

—Não precisa ficar nervosa, Henutmire. Não vou te fazer mal. —Disebek garante ao me entregar uma taça de vinho. —Não mais do que já fiz...

—Eu não sei porque ainda estou aqui. —Falo e ponho a taça sobre a mesa, mas antes de sair sinto a mão forte de Disebek apertar o meu pulso direito.

—Me ouça, por favor. —Disebek pede aflito. Seus olhos transmitiam medo, talvez fosse terror ao invés de medo. —Você não pode se corromper, Henutmire.

—Do que está falando? A única pessoa que é corrompida aqui é você, não eu. —Falo de imediato. Mas rapidamente noto que minhas palavras não o assusta.

—O poder, Henutmire. Eu falo do poder que está prestes a ser concebido á você. —Disebek revela, todavia fico ainda mais confusa. De qual poder ele está falando? —Você tem dois caminhos...

—Eu não tenho que escolher nada!

—Se você não escolher a vida escolhe por você. —Disebek fala me pondo medo. —Ou você recebe o poder que está destinado á você e luta para não se corromper, ou você vai embora deste palácio e será esquecida. —Me afasto dele rapidamente ao ouvir as condições. Do que ele está falando? E por que me olha dessa maneira?

—Esquecida? —Pergunto incrédula e nervosa diante da situação. Não há castigo maior para um egípcio do que ser esquecido.

—Sim, Henutmire. Eu sinto muito pelo o que pode acontecer com você. —Disebek fala antes de sair e me deixar sozinha. A intriga me consome aos poucos até eu me dar conta de que algo está me faltando.

—Hur. —Chamo por Hur. Olho em minha volta tentando encontrá-lo, mas não vejo nada além do rio Nilo.

—Princesa Henutmire! —Ouço uma voz feminina e então desperto. Foi tudo um sonho... Mais uma vez Disebek, assim como o meu pai, tenta me explicar algo. —Por quanto tempo está desmaiada? —Radina pergunta preocupada. Não respondo de imediato já que estou confusa com o sonho que acabo de ter com Disebek. Por que ele e meu pai sempre falam de poder em meus sonhos?

—Já é noite... —Falo ao ver o breu na noite pela pequena janela. —Me lembro de ter desmaiado de dia.

—Então faz muito tempo. —Radina presume e então me ajuda a levantar aos poucos. —Meu primo não pode vir hoje, ele está muito doente...

—Yunet envenenou Gab também? —Pergunto incrédula e então vejo feridas na pele de Radina. —Ela também te envenenou?

—Yunet não fez nada senhora, aliás, ela também está passando por maus bocados. —Radina revela. O que será que está acontecendo? —É a nova praga.

—Praga? —Pergunto incrédula. —Então Moisés não precisa mesmo do cajado...

—Obvio que não. —Radina responde e então somos surpreendidos por Gab. —O que faz aqui? Você não pode se aguentar em pé!

—Eu precisava ver Henutmire. —Gab fala. Pelo o que vejo ele está abatido e sua voz está rouca.

—De nada vai adiantar você vir até aqui se também sofre com a nova praga. —Falo. Gab então me olha penoso, todavia eu também sinto pena dele ao ver o seu estado.

—Eu vou tirar você desta cela! —Gab esbraveja. —Ramsés não pode te deixar aqui... Não nesse estado!

—Você não pode tirar ela daqui! —Radina fala aflita enquanto Gab arranja forças de onde não tem para me carregar em seus braços.

—Eu vou, Radina. Eu não posso deixar a princesa do Egito presa e doente. —Gab fala me segurando em seu braços. Apesar de estar muito debilitado, Gab consegue me manter em seus braços e fazer por onde não me soltar. —Vamos. —Gab ordena e então Radina abre a porta. Ao sair da cela vejo que muitos guardas estão mortos por causa das úlceras.

—Ramsés não vai perdoar você por isso. —Falo, todavia Gab não dá importância. É então que Radina para de andar e nos olha assustada.

—O que foi? —Gab pergunta.

—Essa é uma boa oportunidade para ela fugir. —Radina fala sugestiva e então Gab passa a andar ainda mais rápido comigo em seus braços.

—Mas Ramsés vai sentir a minha falta! —Falo. —Ele certamente irá sentir minha falta, não será como planejamos!

—Eu preciso pensar... —Gab fala e segue andando comigo em seus braços, mas agora em ritmo mais acelerado.

—Vamos seguir com o plano que você arquitetou. —Falo para surpresa de Gab e Radina. —Mas não me deixe nessa cela.

—Claro que não! —Gab fala e eu noto que sua respiração está ofegante. —Me ajude a levar Henutmire para o meu quarto, Radina...

(...)

—Peça algo á Paser para aliviar a dor de Henutmire. —Gab ordena e rapidamente Radina sai do quarto. —Essas úlceras nos enfraquecem pouco a pouco.

—Porque faz isso por mim? —Pergunto e faço com que Gab se assuste. —Você sabe que eu nunca vou te amar, Gab. Mas você deve saber também que serei eternamente agradecida por tudo o que está fazendo.

—Eu não quero que me agradeça nada, Henutmire. Eu quero que você se recupere, se alimente e se cuide para ter força suficiente para fugir para a vila. —Gab pede ajoelhado do lado cama, seus olhos me observam com toda a sua atenção, como se quisessem memorizar o meu rosto. Sua coroa feita de ouro e prata brilhava com o reflexo do fogo, mas parecia tentar me intimidar.

—Venha conosco, Gab. —Peço para seu espanto. Um sorriso se forma nos lábios de Gab, mas rapidamente o seu olhar vai de encontro ao anel que está em seu dedo anelar.

—É seu. —Gab fala ao retirar o anel de seu dedo e por no meu dedo indicador. —Leve-o com você e lembre-se de mim quando chegar na terra que foi prometida aos hebreus.

—Eu não posso aceitar como aceitei o colar, Gab. —Falo envergonhada. Paço a me envergonhar ainda mais ao ver que o anel que Gab acaba de me dar está próximo ao anel que Hur me deu ao me pedir em casamento.

—Eu seria capaz de te dar o governo da Núbia, princesa. —Suas palavras me fazem rir. —Princesa da Núbia e do Egito.

—Você sonha muito alto, Gab. Como eu poderia governar a Núbia?

—Quem sabe um dia os hebreus se tornem uma grande nação e você os governe. —Gab fala com o pleno intuito de me fazer rir. —Era para você estar governando o Egito. Henutmire.

—Uma mulher governando o Egito? —Minha pergunta faz o seu sorriso desaparecer aos poucos. —Isso é uma loucura!

—Loucura foi o que vocês fez para tornar Moisés um príncipe. Loucura foi você ter tido dois filhos com um hebreu sem temer a opinião dos outros, Henutmire. Isso é loucura! Mas é uma loucura sadia comparada a loucura de Ramsés! —Gab me deixa sem palavras com o seu desabafo. —Todos sabem que você é mais sã e sensata que o rei. Aliás, mais sensata que qualquer rei que o Egito já teve. Você, Henutmire, é aquilo que podemos chamar de luz. Por que em meio a tantas pragas é de você que todos nós precisamos.

—Eu estarei longe quando o Egito ruir, Gab. Estarei com meus filhos... —Ressalto mais uma vez o meu desejo. —Vou criar os filhos de Moisés e ver os meus filhos crescerem. Não nasci para ser princesa do Egito! Eu me sinto fora do ninho neste palácio! Sinto como se eu fosse uma estranha!

—Pois então aceite o meu pedido. —Gab fala. —Governe a Núbia...

—Não quero...

—Mas, Henutmire... —Gab insiste temendo por mim. —Você não sabe o quanto o deserto é traiçoeiro? Você sabe!

—Mas eu vou estar com Hur e meus filhos! —Não permito que Gab se iluda com a minha possível ida para a Núbia, porque na realidade eu irei para Canaã. —Você não precisa se preocupar comigo quando eu partir.

—Claro que não. —Gab responde entristecido por mim. —Então você vai mesmo enganar Ramsés? Seguimos com o plano de fuga?

—Claro. Ramsés vai pensar que eu estou indo embora para a Núbia com você, quando na verdade estarei à caminho da vila. —Meus pensamentos são tomados pelo sonho que tive com Disebek. Porque depois de tantos anos eu volto a sonhar com ele?

Acabo me lembrando da noite em que sonhei com Moisés, aquele sonho onde eu estava entre ele e meus outros dois filhos. Passei tantos anos sem sonhar com Moisés e quando sonho ele retorna ao Egito para libertar o seu povo. Mas esse não é o caso de Disebek, até porque ele está morto. —Isso me faz temer os outros sonhos que eu tive com meus pais, Seti e Tuya. —Lembro-me também de uma menino estar agarrado nas pernas de minha mãe. E por último me lembro do meu delírio naquela cela fria e suja, ainda consigo sentir o toque daquela garotinha mesmo que ela seja apenas um delírio meu. Mas o seu olhar familiar não foi um delírio meu! Porque o olhar daquela menina me fazia lembrar Disebek?

—Vou falar com Ramsés. Pode ficar sozinha por alguns minutos? —Gab pergunta preocupado com o meu estado. —Assim que a praga cessar iremos embora deste palácio. Eu volto para a Núbia e você para a vila.

—Como você vai fazer para despistar Ramsés?

—É muito simples. —Gab fala e se ajoelha novamente e permanece do meu lado. —Você será levada por Ikeni e Simut até a vila. Irá disfarçada é claro. Mas terá que ir comigo até a embarcação para não levantar suspeitas...

—E de lá volto para a vila? Mas é um caminho muito longo. —Protesto.

—É a única chance que você tem, Henutmire. —O semblante dele era sério demais, de fato Gab está decidido a me ajudar. —Mas fraca você não irá a lugar algum!

—Eu não sei se devo confiar. Yunet pode me fazer algum mal.

—Enquanto à Yunet você não se preocupe. Eu já sei o que fazer com ela. —Gab fala em tom de ameaça. Ele se levanta e sai do quarto e acaba me deixando sozinha. As dores em meu corpo é insuportável, mal consigo me mover. Tento adormecer com toda a dor que sinto, mas o que mais me preocupa é não ter notícias de meus filhos e de Hur.