Eu caminhava com Leila nas margens do rio Nilo tentando entender tudo o que está acontecendo na minha vida. Depois de tanto me iludir com Disebek e sofrer nas mãos de Yunet, os deuses me presentearam com um filho. Antes eu pensava que não podia ter filhos por que fui amaldiçoada pelos deuses por consequência da crueldade que meu pai fazia. Mas eu não fui a única em pensar nisso, todo Egito pensou e falou sobre isso.

—O príncipe Gab se aproxima senhora. —Leila fala com um tom de reprovação. Pelo o que vejo não foi somente Hur que não gostou da presença de Gab, Leila aparenta não gostar dele também.

—Como se sente, alteza?—Gab pergunta sendo simpático. —Eu ia convidar a senhora para se deslumbrar com o Nilo, mas vejo que se antecipou...

—Ultimamente, o Nilo me conforta. —Falo. Vejo que Leila se retira com um pouco de incômodo, mas nada falo sobre a sua saída.

—Sua dama não é nora do seu marido? —Gab pergunta. —Ela parece não ter simpatizado comigo assim como seu marido, princesa.

—Não é como você pensa...—Tento reverter a situação. Hur ficou enciumado ao ver Gab perto de mim, a briga que tivemos por causa de Miriã foi o motivo disso. —Não intérprete dessa maneira. Eu lhe peço que perdoe qualquer mal entendido...

—A senhora tem razão.

—Vamos deixar a formalidade de lado, por favor. —Falo. Um sorriso estampa o rosto de Gab assim que termino de falar.

—Com muito prazer. —Ele fala ao se sentar do meu lado. —Mas eu consigo entender o seu marido, Henutmire.

—Como assim? —Pergunto.

—Com todo o respeito que sinto por você...—Gab começa a falar com um certo receio. —Ele teve ciúmes. —Suas palavras fazem o meu rosto corar. —Mas se eu tivesse uma esposa tão bela como você, eu também ficaria enciumado ao ver qualquer homem se aproximar.

—Você não é casado? —Pergunto. Me arrependo de fazer tal pergunta ao ver o semblante entristecido de Gab.

—Eu não tive a mesma sorte que seu marido teve, Henutmire. —Ao ouvir o elogio de Gab, tento evitar o meu riso. —O amor não foi feito para mim.

—Mas o que é isso? —Pergunto me aproximando dele. O que fez Gab desacreditar na felicidade ao ponto de dizer tal coisa? —O amor foi feito para todos nós.

—Desacredito nisso. —Ele fala.

—Por que?—Pergunto com curiosidade.

—Uma certa vez me apaixonei por uma mulher, mas ela se casou com outro homem. —Gab revela.

—Eu lamento. —Falo. Sinto que ele teme em falar o que pensa, todavia a sua mão se encontra com a minha.

—Mas eu ainda tenho esperança de que um dia essa mulher se torne minha esposa. —Suas palavras me fazem duvidar de sua integridade. A sua mão direita faz a minha mão quase desaparecer, sinto seu dedo polegar amaciar a minha pele e o olho assustada. —Preciso ir.

—Já vai voltar para a Núbia? —Pergunto.

—Claro que não. —Ele responde. Eu sorrio com com meu desagrado e ele beija a minha mão. Agora entendo a antipatia que Leila e Hur sentem em ralação à Gab. —Pretendo ficar por mais algum tempo e apreciar todas as belezas que o Egito tem. —Eu apenas consinto com o que Gab fala. Ele se levanta rapidamente e se retira da tenda.

Eu fico mais tranquila sem a presença de Gab e suspiro assim que me vejo livre de sua presença. Minha mão vai de encontro ao peito, meu coração está acelerado ao perceber que Hur teve razão em ter ciúmes e se comportar daquela maneira.

—Estou começando a achar que teremos problemas, meu filho. —Falo ao tocar em meu ventre com a outra mão.

Meses depois...

—Mais uma vez você está de parabéns.—Falo. Minhas palavras fazem com que Garriji dê um sorriso amarelo. —Me desculpe por invadir sua cozinha, Garriji.

—A senhora não está me incomodando. —Ele fala. —Aceita uma taça de suco?

—Claro. —Falo. Hur entra incrédulo da cozinha e sorri ao me ver sentada.

—Eu devia ter imaginado. —Hur fala me deixando envergonhada. Ele se senta ao meu lado e me observa enquanto me alimento.

—Não posso deixar a princesa e o futuro príncipe com fome, Hur. —Garriji brinca. A minha risada é interrompida ao sentir algo se mexer dentro de mim, ou melhor dizendo, sentir o meu filho se mexer dentro de mim.

—Algum problema? —Hur pergunta. Rapidamente coloco a sua mão sobre a minha barriga e peço para que ele fique parado. Novamente sinto o meu filho se mexer, mas desta vez Hur também sente.

—Não me diga que... —Garriji não termina de falar, a risada de Hur toma conta de toda a cozinha.

—Que sensação... —Não encontro palavra para dizer o que sinto.

—Maravilhosa. —Hur fala emocionado. Seu sorriso desaparece depois de muito pensar, o que será que ele pensou?

—Eu preciso ir. Com licença. —Garriji fala ao perceber o semblante preocupado de Hur.

—O que foi? —Pergunto preocupada.

—Eu estava pensando sobre a vida que nosso filho vai ter. —Hur responde se afastando sua mão aos poucos. —Não consigo imaginar ele como um escravo como os outros. —Hur se deixa levar pelo preconceito que sente por ser hebreu. —Os hebreus estão sofrendo com as exigências de Ramsés... —Rapidamente imagino como todos os escravos devem ser tratados pelos feitores.

—Moisés era... —Ele me interrompe nervoso.

—Você já parou para pensar em como as pessoas vão olhar para ele?—Hur pergunta. Sua pergunta me deixa sem chão, portanto resolvo mudar de assunto.

—Será uma menina... —Falo. —Não me fale tal coisa...

—Mas é preciso pensar, Henutmire. Quando ele se tornar um adolescente estaremos velhos, quase sem forças...—Minha reação foi de total espanto ao ouvir Hur falar.

—Não acha que está se precipitando? —Pergunto. —Do que sente medo, Hur?

—Sinto medo ao imaginar ele sem nós. —Hur fala. —Você tem razão... —Ele muda de ideia.

Sinto vergonha de mim mesma ao lembrar das mulheres hebréias que pediram para o Deus dos hebreus que seus filhos fossem do sexo feminino por causa do decreto de meu pai, enquanto eu peço aos deuses para que a criança que carrego no ventre não seja um menino, tudo por que sinto medo ao imaginar ele guerreando ao lado do futuro rei do Egito.

—Viveremos o bastante. Veremos ele se tornar um homem, Hur. —Falo. Ele parece preocupado, mas não quer me falar o real motivo da sua preocupação. —Não é isso que te preocupa, Hur. Eu conheço você...

—Ele é visto como uma ameaça para o reino. —Hur fala. Estamos frente à frente agora, conversando seriamente como nunca havíamos conversado antes. —Um príncipe egípcio com sangue hebreu.

—Moisés também foi um príncipe egípcio com sangue hebreu. —Falo, mas eu vejo no olhar de Hur que existe uma diferença entre o filho que espero e Moisés. O sangue... —Fala isso por que o nosso filho será príncipe por direito, mas terá um pai hebreu? —Pergunto. Hur se cala diante da minha pergunta, então chego a conclusão de que é exatamente isso o que ele pensa.

—Essa criança tem um pai hebreu, irmãos hebreus... —Ele fala entristecido. —Sabemos bem como os hebreus são tratados, Henutmire.

—Sabemos bem como um descendente de Seti é tratado, Hur. Sabemos bem como um príncipe egípcio é visto e tratado pelos demais... —Eu senti meu sangue ferver ao imaginar algum outro nobre egípcio menosprezar o meu filho. —Ninguém vai humilhar o meu filho. Se por Moisés eu enfrentei o meu pai, pelo nosso filho eu serei capaz de enfrentar todo o Egito...

(...)

"Essa criança tem um pai hebreu, irmãos hebreus..."

Eu não parava de pensar nas palavras ditas por Hur. Elas me atormentam e machucam ao imaginar o meu filho sofrer o mesmo preconceito que Moisés sofreu por ser hebreu. De certa forma Hur tem razão, nosso filho escapará da escravidão somente por ser meu filho. O que enfrentei por Moisés não é nada comparado ao que terei que enfrentar por este pequeno ser que cresce em meu ventre todos os dias.

—Henutmire? —Ou ouvir Gab me chamar trato de enxugar as minhas lágrimas. —Está chorando?—Ele pergunta preocupado.

—Engano seu. —Tento enganar Gab, mas ele não se deixa enganar.

—Você não sabe mentir. —Ele fala. —Do que tem medo? —Sua pergunta me faz chorar novamente. —É por causa da forma que Ramsés trata os escravos, não é? —Sua pergunta me deixa surpresa. Ele se senta na pequena mureta da piscina e suspira pesadamente. —Eu não devia dizer isso... —Ele fala com temor. — Mas eu não suporto ver a forma que o povo hebreu é tratado.

Minha reação foi de total espanto e surpresa ao ouvir tamanha confissão de um príncipe da Núbia. Mas ele é quem deveria se assustar ao saber que a princesa do Egito, filha do faraó Seti, teve um filho hebreu. Mas Gab não sabe que Moisés é hebreu, assim como todos os outros aliados do Egito, todos acreditam até hoje que Moisés é filho de uma princesa e um general egípcio, o qual traiu a própria família ao matar um feitor. Até hoje não entendo como Moisés foi capa de matar outra pessoa...

—Eu ouvi boatos sobre a suposta origem hebréia de Hur... —Gab revela.

—É verdade. —Afirmo. Sua reação não foi de revolta ou nojo, ele apenas sorriu de canto. Eu olhei para o céu e percebi que o dia já estava virando noite. —Por isso me preocupo com a criança que está prestes a nascer.

—Nada de mal vai atingir essa criança. Eu estarei aqui quando ela nascer. —Um sorriso estampou o rosto de Gab assim que todas as suas palavras foram ditas. Ele permanecerá aqui por mais tempo? —Ramsés precisa de mim aqui até o nascimento do seu herdeiro. E eu presumo que até lá o seu herdeiro já tenha nascido. —Ele fala contente.

—Não falta muito para isso acontecer. —Falo. Fiquei sem reação ao ver Gab se levantar e ficar de pé em minha frente.

O meu momento afetivo com ele se destruiu ao me lembrar da forma em que ele me tratou meses atrás. Nossas trocas de olhares chegam a ser constrangedoras em algumas ocasiões, suspeitas até. Tento me afastar o mais rápido possível do príncipe da Núbia, mas hoje é diferente, hoje eu consigo ver o quanto somos iguais.

—Minha visita à este reino tem gerado comentários desagradáveis, princesa. Mas eu irei permanecer nele à pedido de Ramsés. —Gab fala. Suas palavras me deixam desconfortável ao imaginar uma possível mudança de Gab para o Egito. Se Ramsés pedir para que ele vire um conselheiro, com certeza Gab não recusará.

—Me parece que vocês dois se tornaram grandes amigos...—Minha voz é plena de ironia. Novamente ele sorri para mim, um sorriso constrangedor.

—Isso é preciso. —Gab adverte. Eu acariciava a minha barriga e com isso o olhar de Gab tomou outro rumo. —Esperamos ansioso por sua chegada, príncipe...

—Eu espero que seja uma menina. —Falo. Gab se aproxima sorrateiramente de mim e ergue sua mão diante de minha barriga, mas me olha como se pedisse permissão. Meu sorriso forçado permite com que ele toque em meu ventre.

—Então que seja tão bela quanto a mãe. —Ele me elogia. Rapidamente me afasto de Gab em sinal de reprovação e faço com que ele perceba. —Me perdoe se ofendi você...

—Deve parar com tantos elogios, Gab. Não que eu não goste... —Tento me redimir. —Não deve elogiar tanto uma mulher casada, príncipe.

—Peço perdão novamente, princesa. —Ele fala olhando para o chão. —Não quis ser inconveniente.

—Mas foi de toda maneira. —Falo ríspida. Não lhe dou mais o cabimento para rir ou falar, eu apenas me retiro do jardim.

Ao notar que estou perfeitamente distante de Gab e sua insensatez, começo a andar lentamente com as mãos em meu ventre pelo corredor enorme e vazio do palácio.
É estranho não ter ninguém além dos guardas neste corredor, será que algo aconteceu?

Ao passar de uma pilastra, sinto uma mão me puxar com força para atrás de outras pilastra. É Nefertari. Ela está com os olhos vermelhos, parece querer chorar.

—Não tem vergonha do que está fazendo? —Nefertari pergunta. —Está gostando de ouvir os comentários absurdos sobre você e o príncipe Gab no palácio?

—Do que está falando, Nefertari? —Pergunto desentendida.

—As trocas de olhares, os encontros a beira do Nilo e no jardim real... —Nefertari revela. —Tudo isso está fazendo as más línguas falarem, Henutmire.

—Eu não me importo com as más línguas quando a minha consciência está mais leve que uma pluma, Nefertari. — Enfrento a minha cunhada. —Estou com um filho no ventre, seja lá o que estiver se falando nos corredores deste palácio será apenas uma invenção.

—Por favor, Henutmire. —Ela fala sem paciência. —Até o meu pai percebeu a forma que Gab te olha. Ele te observa em todos os momentos, em todos os lugares. —Nefertari fala. —Ele chegou a insinuar isso para Ramsés.

—E o meu irmão pediu para ele ficar até o seu filho nascer. —Revelo brava. Ramsés está usando Gab para afastar Hur. Eu me retiro rapidamente do local para ir até a sala do trono, mas sinto Nefertari me puxar novamente.

—O que pretende fazer? —Ela pergunta assustada. Ramsés sabe das verdadeiras intenções de Gab e vai usar isso para me separar de Hur.

—Você deveria ter feito essa pergunta para o meu irmão. —Falo brava. Caminhei transtornada até a sala do trono e Nefertari me seguía. Os guardas rapidamente abriram os portões e eu entrei sem mesmo ser anunciada.

—O que houve, Henutmire? —Meu irmão pergunta assustada.

—VOCÊ DEFINITIVAMENTE PASSOU DOS LIMITES! —Grito. Sinto Paser suspirar de medo ao me ouvir gritar pela primeira vez e Nefertari se afastar de mim.

—Do que está falando?—Ele pergunta assutado. Eu subo cada degrau olhando para o rosto do meu irmão até ficarmos frente a frente. —Não deveria se quer gritar no estado em que encontra, Henutmire. —Ele adverte.

—Seu preconceito é muito maior que você não é mesmo? —Pergunto sarcástica. —Vai usar Gab para afastar Hur?

—A senhora precisa se acalmar. —Paser adverte por causa da minha gestação.

—Henutmire está se deixando levar pelos boatos, Ramsés. —Nedertari fala. Ao ouvir tamanha tolice me viro indignada para olhar para Nedertari.

—Você quem preferiu me envenenar com os boatos e agora fala isso? —Pergunto brava.

—SE CALEM! —Ramsés grita. —Está falando isso por que agora sabe as verdadeiras intenções de Gab com você, Henutmire? E pensa que vou usar um príncipe de uma nação aliada para expulsar Hur somente por que ele é hebreu?

—E por acaso não é isso? —Pergunto um pouco mais calma.

—Claro que não. Gab insinuou um certo interesse em você, sim... —Ele fala envergonhado. —Mas eu preciso dele aqui por questões políticas e socioeconômicas.

—Como se você precisasse disso, Ramsés. —Falo brava.

—Faço isso apenas pelo equilíbrio cósmico, Henutmire! —Ramsés exclama alterado. —Você não consegue me entender?

—O Egito precisa de Gab por causa dos hititas, Henutmire. —Nedertari adverte. Ramsés ainda tem um conflito com os hititas...

—Viu? Se sente mais calma agora? —Ramsés pergunta. —Saiam. Quero falar com a minha irmã. —Ele pede. Assim que Nedertari e Paser saíram, Ramsés começou a falar. —Não precisa temer, Henutmire. Nada de mal vai atingir Hur.

—Promete? —Pergunto. Uma vertigem sinto, rapidamente Ramsés me envolve em seus braços para que eu não caia do altar.

—Pelos deuses! —Ramsés exclama preocupado. Me sentei no trono enquanto ele ficava de joelhos e tocava em meu rosto. —Não deve se transtornar, Henutmire.

—Eu tenho medo de perder Hur, Ramsés. —Falo. —Principalmente agora. —Revelo. Ramsés permanece calado e continua a acariciar o meu rosto.

—Eu tive um sonho, Henutmire. —Ramsés muda de assunto. —Um sonho onde quem governava o Egito era você. —As palavras do meu irmão me assustam.

—Isso é impossível.

—Sabe bem que na história do Egito isso já aconteceu. —Ramsés se levanta. —O filho que Nedertari espera estava morto no sonho, e em seguida eu era esquecido no deserto...

—Falou desse sonho para Paser? —Pergunto ainda sentada no trono.

—Não. —Ramsés responde, agora olhando para mim. —Você está onde deve estar. —Ele fala ao me observar no trono que é dele por direito.

—Pela ordem... —Começo a falar. —Eu quem devo ir para o mundo dos mortos primeiro, e não você.

—Nunca se sabe, Henutmire. —Ele fala com um pouco de medo. —Mas esse sonho me assusta.

—Os sonhos são sinais enviados pelos deuses, Ramsés. —Falo. Sua expressão era de preocupação, de medo... Será que o sonho de Ramsés se tornará realidade? —Mas este deve ser apenas um preocupação passageira...

—Eu não devo me preocupar. Você tem razão... —Ramsés fala descendo degrau por degrau. Ele se vira bruscamente e me observa no trono. —Até por que o Egito ficaria em boas mãos, Henutmire.

—E meu filho se tornaria rei após a minha morte? —Pergunto. Ramsés se cala, mas sorri de canto. —Essa criança que você carrega no ventre tem toda a proteção dos Deuses e, possívelmente, a do Deus invisível dos hebreus. —Ramsés termina a frase com um pouco de ironia. —Se eu e meu futuro herdeiro morrermos, Henutmire... —Ele começa a falar. —Se tivermos mortes vergonhosas...

—Eu não as escrevo na nossa história. —Falo o que ele tanto esperava.

Se Ramsés soubesse sobre o nosso irmão que morreu ainda criança... O segundo filho do faraó Seti e da rainha Tuya, o herdeiro do trono que morreu ainda criança e teve a sua história apagada, todos os papiros tinham a história desta criança registrada foram queimados para que mais ninguém soubesse da morte "vergonhosa" que ele teve.