Coração De Seda
35 Capítulo 35
Notas iniciais
—O que faz aqui? —Pergunto indignada ao ver que Yunet está devidamente vestida. Mas o que significa isso? Como está mulher conseguiu entrar no palácio? —Como ousa entrar neste palácio? —Minha voz foi grave e indelicada, talvez forçada demais como de costume.
—Ousando. —Yunet responde ironicamente e olha para Hur e Djoser. —Que bela família a senhora formou...
—Saia já daqui! —Esbravejei enfurecida. —O que pensa ao olhar para meu filho? Como ousa olhar para um descendente meu? —Lembrei de todos os filhos que perdi por causa de Yunet.
—Não precisa se alterar, princesa. Sabe o quanto sou paciente e entendo que esteja magoada por não ter dado herdeiros a Disebek, mas que se sinta suja por ter dado filhos para um hebreu. —Yunet é venenosa como sempre e faz por onde Hur me olhar com desconfiança. De certa forma ela está ferindo o ego de Hur ao falar de Disebek. —Ainda sente a falta do general, senhora? —Yunet pergunta com um sorriso no rosto e em seguida olha para Hur. —Ora, Hur! Sabemos bem o quanto a divina e honrada Henutmire amou Disebek e que esse suposto amor que ela diz sentir por você não chega nem aos pés do amor que ela teve pelo general...
—CHEGA! —Grito enfurecida. Meu sangue ferve em minhas velas ao ouvir Yunet falar de Disebek. O que ela pretende com isso? Pretende colocar Hur contra mim? —Vejo que uma surra foi muito pouco para você...
—Eu realmente estou ressentida pela surra que a senhora me deu. Mas eu entendo a sua fúria... —Yunet se preparar para dar outro golpe. —Sei o quanto foi difícil saber que seu marido só estava casado com a senhora por interesse. —Yunet consegue me abalar ao falar de Disebek e sobre ele ter ficado ao meu lado por todos esses anos apenas por interesse, e então toda dor que um dia senti volta a me atormentar.
—Não se engane. Você foi apenas mais uma na lista da infidelidade de Disebek. —Consigo atingir o ego de Yunet ao fazer com que ela se sinta como as outras amantes de Disebek. Afinal, foi isso o que ela foi. —Um mero passatempo na vida dele...
—Eu deu uma filha á Disebek que hoje é rainha do Egito. —Yunet fala por entre os dentes. Ela usa do poder de sua filha para se livrar da vergonha, entretanto é visível em seus olhos o seu desconforto.
—Uma filha bastarda! —Ressalto assustando a todos. Nunca falei desse assunto já que Ramsés me pediu. Seria vergonhoso para o reino ter uma rainha bastarda, isso seria motivo de chacota para os outros reinos. —Acha mesmo que Disebek me deixaria para ficar com você e assumir Nefertari? Homem nenhum trocaria uma mulher honrada por uma vagabunda qualquer!
—Eu sou a mãe da rainha! Pense duas vezes antes de me insultar! —Yunet tenta se defender.
—Eu sou a irmã do rei! Eu tenho sangue real! —Minhas palavras assustaram Djoser e Hur que estavam ao meu lado. Foi então que Leila se sentiu segura e orgulhosa ao me ver enfrentar Yunet sem medo.
—Sangue real corre nas veias como o sangue de qualquer um, princesa. —Yunet me ameaça pela primeira vez após anos e anos.
—FORA JÁ DAQUI! —Grito enfurecida pela presença de Yunet. —Você não passa de uma adultera assassina! —Yunet riu com meu desespero, no entanto vi Djoser pegar uma taça que estava em uma bandeja de prata e jogá-la contra Yunet.
—FORA DAQUI! —Meu filho gritou ao ver que a taça não acertou Yunet.
—Eu já mandei sair! —Falo alterada e seguro na mão de meu primogênito.
—Eu vou, mas saiba que não estarei muito longe... —Yunet fala em um tom de deboche.
Assim que Yunet deu as costas para todos nós eu desabo no chão para espanto de todos. —Vejo que Hur está chorando por tudo o que Yunet falou em relação a Disebek e passo a chorar descompensada ao imaginar o que ela fez para voltar ao palácio. —Afinal, o que Yunet fez para entrar neste palácio novamente?
—Como essa mulher voltou para o palácio? —Pergunto.
—Ela e o rei fizeram um acordo. —Meu filho fala. —Yunet trouxe o cajado de Moisés.
—Ela e o rei pensam que com isso nenhuma praga irá nos atingir. —Leila fala. —Mas o poder não está no cajado... —Minha dama revela me deixando ainda mais indignada. A que ponto eu e Ramsés chegamos!
—Ramsés permitiu que Yunet voltasse ao palácio por causa de um cajado? —Pergunto incrédula.
—Tente se acalmar, senhora! —Leila pede tentando me levantar do chão.
—Eu não consigo acreditar nisso! Por que meu irmão está me castigando? —Pergunto soluçando de tão amedrontada que estou. —Ela vai me matar, Leila! Eu sei que vai!
—Não fale uma coisa dessas, mãe! —Djoser pede aflito.
—E Djoser? Yunet pode fazer algo contra ele, Hur! —Falo para espanto de Hur.
—Leve o menino com você, Leila. Me deixe sozinho com Henutmire. —Hur pede aparentemente nervoso.
—Eu não vou a lugar algum! —Djoser pede amedrontado pela presença de Yunet no palácio.
—Deixe o garoto comigo. —Peço entre soluços. —Eu não vou descansar sabendo que Djoser e Leila estão sozinhos e Yunet está no palácio, Hur! —Assim que termino de falar Hur me abraça tentando me consolar. —Eu não vou aguentar ver Yunet matar um filho meu como fez com todos os outros, Hur! Não vou! —Falo histérica e abraça Hur ainda mais forte. —Não vou!
—Se acalme! —Hur pede assustado pelo meu estado deplorável. Sinto seus braços me envolverem com mais força, quase que me sufocando aos poucos.
—Eu vou ficar aqui com a senhora, mãe. Ela não vai poder nos fazer nenhum mal! —Djoser fala ingênuo.
—O que vamos fazer para que ela não o machuque? —Pergunto para Hur sobre Yunet fazer mal a Djoser.
—Eu vou dar um jeito nisso. —Hur fala e me abraça novamente. —Eu vou cuidar de vocês como sempre cuidei.
—Não leve em consideração nada do que Yunet falou sobre Disebek. —Peço temendo que Hur se sinta menosprezado. —Ela vai te colocar contra mim...
—Não é hora para pensarmos nisso. —Hur fala enquanto enxuga minhas lágrimas. —Você terá que ser forte enquanto essa mulher estiver neste palácio, Henutmire. E eu estarei com você. —Hur me fortalece com seu apoio e eu paro de chorar aos poucos.
—Eu preciso ir até a sala do trono falar com Ramsés...
(...)
—Precisamos conversar, meu irmão. —Falo ao entrar eufórica na sala do trono. Ramsés então me olha temeroso e dispensa Gahiji.
—Deixe-me a sós com a princesa, Gahiji. —Ramsés pede e então o homem se retira. —Já até imagino o que trás você até mim...
—Como pode aceitar essa mulher de volta? Uma assassina. Me traiu, me enganou, zombou de todos nós. Matou meus filhos ainda no meu ventre... Matou Maya! —Eu mal me reconheço ao falar passivamente com meu irmão.
—Por favor, eu sei que a lista é extensa! E a conheço muito bem.
—Então por que permitiu que ela voltasse? Eu não entendo! —Falo nervosa. —Está fazendo isso para me punir? Por que defendo, Moisés?
—Defende? —Ramsés pergunta surpresa e debocha. É então que me arrependo em ter falado o que realmente faço. —Isso ainda não havia ficado claro para mim.
—Defendo a amizade que entre vocês dois. —Tento me redimir, todavia Ramsés vê o meu desespero. —Tudo o que desejo é que vocês se entendam e este conflito chegue ao fim.
—Quanto a isso não se preocupe. Yunet se mostrou arrependida, fiel ao reino e me trouxe o cajado de Moisés. —Ramsés parece não se importar comigo. —Sem ele o seu filho não poderá continuar me ameaçando. Sem cajado, sem poder... Sem pragas!
—Mas o poder não está num pedaço de madeira. Yunet está te enganando!
—É o que veremos. —Ramsés fala friamente. —Agora saia e deixe comigo os assuntos do reino.
—Por favor, Ramsés... —Peço choramingando. —Eu lhe imploro. Não faça isso comigo... —Tento amolecer o coração de meu irmão, mas ele parece não se importar. —Eu não consigo nem imaginar ele entre nós novamente aqui no palácio.
—Henutmire...
—Eu lhe peço por mim e por Djoser. —Sinto minhas pernas ficarem bambas ao pensar no que Yunet pode fazer contra meu filho. —Se não tiver piedade de mim tenha de Djoser, por favor. —Peço chorando compulsivamente. —Por favor, por favor! —Me ajoelho perante o faraó em sinal de desespero.
—Vamos, Henutmire! Levante-se! —Ramsés então se levanta do trono e vem até mim. —Mero deslize e Yuney será expulsa do palácio novamente, senão morta como deve.
—Mas até lá ela pode fazer algum mal contra mim. Pode usar Hur ou Djoser para me atingir, Ramsés. —Tremo só de imaginar o que Yunet poderá fazer com meu filho. —Eu tenho tanto medo...
—Não tenha! —Ramsés pede confiante e enxuga minhas lágrimas. —Você é minha irmã, não farei nada para te machucar!
—Mas eu temo por Djoser.
—Por que não enviá-lo para o Alto Egito? —Ramsés sugere. —Aproveite e vá com Hur!
—Até quando? Não sabemos até quando Yunet irá ficar! —Falo fazendo Ramsés desistir da ideia. —Ela tem que ir embora, Ramsés!
—Seja a princesa do Egito, minha irmã. Não dê importância a Yunet! —Ramsés pede convicto de que eu seja capaz de enfrentar Yunet.
—Pois muito bem. —Falo me levantando do chão e em seguida Ramsés faz o mesmo. —Serei forte como você pede e tomarei decisões difíceis como você mesmo diz. —Sou egoísta ao ponto de Ramsés me olhar temeroso. —Irei agir com a mente e não irei me deixar levar pelos instintos.
(...)
—O que você vai fazer? —Hur pergunta me observando andar de um lado para o outro.
—Eu não sei. Só sei que preciso mandar Djoser para algum lugar enquanto Yunet estiver no palácio. —Respondo aflita. —E quem sabe você vá junto.
—Eu? —Hur indaga surpreso.
—Não quero você aqui enquanto Yunet estiver me ameaçando.
—E te deixar sozinha? —Hur pergunta. —Enlouqueceu?
—Eu não posso deixar que vocês se machuquem por minha causa. —Falo. —Estaria sendo covarde demais.
—Está sendo egoísta ao pedir que eu e nosso filho te deixemos aqui. —Hur fala visivelmente preocupado. —Não posso fazer isso.
—Ir para a vila. —Falo sugestiva. —Vocês podem ir!
—Henutmire! —Hur chama a minha atenção. —Por acaso não pensa no que está dizendo? Como pode pensar que eu e Djoser saiamos do palácio? E ainda deixar você sozinha!
—E o que eu vou fazer para evitar que Yunet machuque vocês? —Pergunto e tenho como resposta o silêncio.
—Mãe! —Djoser chama por mim ao entrar em meu quarto.
—O que houve? Yunet fez algo contra você? —Pergunto aflita.
—Não! Eu estou bem! —Djoser responde. —Eu só vim para pedir para que um de vocês venha comigo até o campo de treinamento. Tenho medo de encontrar Yunet enquanto vou até lá...
—Eu vou com você. —Hur se oferece. —Não é melhor você vir também? —Ele pergunta sugestivo ao olhar para mim.
—Eu não sei se será pior eu ir e me encontrar com ela ou ficar aqui e Yunet vir me atormenta. —Falo pensativa.
—Venha, mãe. —Djoser pede. —Yunet pode vir até aqui e se a senhora estiver sozinha...
—Ele tem razão. —Hur concorda. —Estamos aprisionados neste palácio e privados de vivermos como vivíamos por causa de Yunet.
—Eu não sei o que será de nós com essa mulher aqui. —Falo.
Ao olhar para Hur e Djoser tenho uma ideia de mandá-los para a vila. Talvez lá eles fiquem em segurança ao lado de Moisés e Bezalel! O que eu não posso permitir é que Yunet faça algum mal contra eles com o intuito de me atingir. Ramsés me pediu para ser forte e com isso disse que tomaria decisões difíceis. E talvez a primeira decisão que eu deva tomar é mandar Djoser e Hur para a vila.
(...)
—Tente se acalmar. —Hur pede enquanto observamos Amenhotep e Djoser treinarem juntos. Quanta ironia! O neto de Yunet treinando ao lado de meu filho! —É visível o seu desconforto. —Hur ressalta.
Mesmo eu sentada ao lado de Hur, me abanando com meu leque por causa do imenso calor tipico de todas as manhãs, não consigo me acalmar. Mas mais nervosa eu fico ao lembrar que meu sobrinho é neto de Yunet! —De qualquer forma meu sangue e o sangue dela agora é um só. — Maldita foi a hora que Ramsés e Nefertari se casaram!
—Está nervoso, primo. —Amenhotep fala ao ver o descontentamento de Djoser. —O que acontece com você?
—Estou preocupado com Anippe. —Djoser mente e então olha para mim e Hur.
—Ele está visivelmente nervoso. —Hur fala enquanto eu tento não tirar os olhos dos dois rapazes.
—Sem conversa! —Ikeni exclama. Foi então que eu vi Yunet surgir para meu desespero e espanto.
—Que tal um duelo? —Amenhotep sugere ao ver Yunet sorrindo para ele. —O que me diz, Djoser?
—O que eu ganho? —Meu filho pergunta seriamente ao ver Yunet olhando fixamente para ele.
—O que você quiser. —Amenhotep fala presunçoso. —Afinal de contas sou o príncipe regente. —O olhar malicioso de Yunet veio até mim, mas parecia que ela sentia orgulho em saber que seu neto era o futuro rei do Egito.
—Pegue. —Djoser fala ao retirar a arma de ferro, a espada de Ikeni das mãos do mesmo e jogá-la para que Amenhotep a pegue.
—O que ele pensa que está fazendo? —Pergunto nervosa.
—Tem certeza disso, príncipe? —Yunet pergunta irônica.
—Vamos acabar logo com isso. —Meu filho fala impaciente e então Bakenmut lhe entrega uma espada. Não demorou muito para o duelo ganhar início e eu me levantar assustada, afinal meu filho está enfrentando o neto da mulher que me odeia.
—É exatamente isso o que ela quer. —Hur fala ao se levantar nervoso e ver que Djoser está em desvantagem. —Ele não está raciocinando direito!
—Parem! —Bakenmut grita ao ver que se trata de um confronto pessoal e não um duelo qualquer. Mas mesmo assim meu filho e meu sobrinho continuam a se enfrentar e isso faz com que Yunet se encha de orgulho. Afinal, seu neto está em vantagem.
—E o máximo que você consegue fazer? —Amenhotep pergunta ao derrubar Djoser no chão. —Porque o deus invisível não te salva agora? —Amenhotep pergunta irônico e olha para Yunet. Ao ver que meu sobrinho vai ferir meu filho apenas para orgulhar Yunet, eu grito desesperada e Hur me conforta em seus braços.
—NÃO! —Grito, mas em seguida fecho os olhos para não ver meu filho sendo morto por Amenhotep.
—Nunca mais desperte a minha ira... —Ouço Djoser fala e rapidamente abro os olhos e vejo que ele não foi morto por Amenhotep. Meu filho então golpeia meu sobrinho com um chute em seu abdômen, que consequentemente o deixa desnorteado.
—Chega! —Bakenmut pede e afasta Amenhotep de Djoser enquanto Ikeni levanta Djoser do chão.
—O treino acabou! —Ikeni fala puxando Djoser para longe de Yunet e Amenhotep. —Tente conter suas emoções, príncipe!
—Isso não vai ficar assim! —Yunet fala limpando Amenhotep. —Ninguém pode humilhar o futuro rei do Egito!
—Ponha-se daqui para fora! —Enfrento Yunet para surpresa de todos. —FORA DAQUI, YUNET!
—Por favor, senhora! —Bakenmut pede para Yunet se retirar, mas antes de me dar as costas ela lança uma risada cínica, talvez provocativa demais para mim.
—Você enlouqueceu? —Hur pergunta para Djoser enquanto eu vejo Yunet sair acompanhada por Amenhotep. —Não tem medo do que Yunet pode fazer para que o rei puna você?
—Eu não podia deixar que Yunet humilhasse minha mãe. —Djoser se defende.
—Prefiro ser humilhada do que ter um filho morto. —Falo ríspida para que Djoser tenha a noção do quanto foi tolo.
—Vocês já sabem? —Uri nos assusta ao chegar sorrateiramente. —O rei pediu para que preparassem um banquete.
—Alguém importante virá para o palácio. —Hur presume. —Quem?
—Ele não falou para ninguém. —Uri responde me deixando surpresa. —Mas pediu para que Gahiji organizasse um banquete farto.
—Eu não entendo. —Falo. —Por que Ramsés não diz o motivo da comemoração?
—Acaso a rainha está grávida? —Hur pergunta sugestivo. —Seria o único motivo.
—Saberemos hoje à noite. —Uri revela o momento que iremos festejar. —O palácio está sendo tomado por servos trazendo baús...
—Então é alguém de algum outro reino. —Presumo. —Seja lá quem for não irei.
—Por quê? —Djoser pergunta.
—Yunet estará lá. —Respondo infeliz.
—Você não pode se privar por causa de Yunet! —Hur reclama farto. —Você é a irmã do rei!
—Eu não me importo! —Falo impaciente com todos. —Que Yunet faça o que quiser, mas longe de mim!
—Será impossível a senhora não ir. —Uri alerta. —O rei exige a sua presença.
—Ele exige? —Pergunto e riu de nervosa que estou. Meu irmão está despertando o que há de pior em mim. —Pelos deuses!
—O que você vai fazer? —Hur pergunta me olhando ansioso.
—Eu irei. —Respondo para surpresa de todos. Algo agora me pede para que eu vá nesse banquete mesmo que Yunet esteja nele.
(...)
—Antes de você ir, preciso conversar com você. —Hur fala ao me ver saindo do quarto.
—Pode falar. —Falo esperando Hur me dizer algo, todavia ele passa a me observar demoradamente.
—Me desculpe pela forma como te tratei. —Hur pede. —Me deixei levar pelos ciúmes. —Eu permaneci calada esperando que Hur falasse mais alguma coisa para mim. —É capaz de me perdoar?
—Está tudo bem. —Respondo friamente. Até por que eu ainda estou ressentida com o que Hur falou.—Agora eu preciso ir. —É a única coisa que falo, todavia vou ao encontro de Hur e o abraço.
—Não quer que eu vá com você? —Hur pergunta preocupado.
—Eu irei sozinha. —Respondo. —Mas eu te espero na sala do trono.
—Irei acompanhado por Uri e Djoser. —Hur fala antes que eu saia pela porta. —Henutmire. —Hur me chama mais uma vez antes mesmo que eu saia. Eu o olho com atenção e vejo um sorriso se formar em seus lábios. —Você está esplêndida hoje. —Por algum motivo o elogio de Hur me deixa corada. Mas eu sinto que Hur está se despedindo de mim, ou isso será fruto de minha imaginação? —Eu te amo. —Hur fala, lágrimas brotam de seus olhos enquanto eu nada lhe respondo.
"Faça justiça, Henutmire. Faça justiça pela minha morte."
O pedido que meu pai fez em sonho me atormenta ao passar pela porta de meus aposentos e deixar Hur sozinho. Mas ao passar pela porta eu me lembro da última vez que vi meu pai. Que ironia! Ou talvez eu esteja nervosa o bastante para o banquete dado para Ramsés. Será mesmo que Nefertari está grávida e por isso será servido um banquete?
Ou talvez um nobre de outro reino tenha vindo nos visitar. Até por que Ramsés não tem motivos para comemorar.
—Princesa. —Paser faz uma reverência ao me ver. —Posso acompanhá-la?
—Mas é claro que pode. —Respondo.
—Não se ofenda com o que vou dizer agora, princesa. —Paser teme. —Mas o que a fez ficar tão radiante hoje?
—Como assim? Não entendo.
—A senhora está com um olhar diferente... —Paser fala sorridente. —Algum truque feminino na maquiagem dos olhos? —Paser pergunta me fazendo rir.
—Não sei. —É a única coisa que respondo. —Eu deveria estar com um olhar amedrontado por ter Yunet de volta ao palácio...
—Tome muito cuidado. —Paser aconselha e em seguida passa a me olhar maravilhado. —Mesmo que Yunet lhe faça algum mal, nada irá mudar. —Ele fala assim que chegamos na entrada da sala do trono. —A senhora tem sangue real, ela não.
As portas então foram abertas para nós dois. Ao entrar percebo que Ramsés está acompanhado por Nefertari e Amenhotep, mas Yunet não se encontra. —Sinto o olhar nervoso de Amenhotep cair sobre mim. —Talvez ele não tenha contado para Nefertari e Ramsés o que fez hoje de manhã.
—Está magnífica, minha irmã. —Ramsés elogia. —Onde está Hur e Djoser? —Mal meu irmão questionou a ausência de meu marido e de meu filho e os mesmos entraram na sala do trono. Uri os seguia firmemente e observava todo o local.
—Como vai, meu tio? —Djoser pergunta após reverenciar Ramsés.
—Estarei melhor daqui a pouco. —Ramsés fala irônico e então Yunet surge na sala do trono e deixa o clima do ambiente pesado.
—Meu soberano. —Yunet faz uma reverência e em seguida lança um olhar dócil para mim com o pleno intuito de enganar Ramsés. Entretanto o meu olhar deixa claro o desconforto que sinto por tê-la tão perto.
—Agora só falta a convidada de honra chegar. —Ramsés fala deixando todos ainda mais curiosos.
—Não me disse que era uma mulher. —Nefertari fala ciumenta.
—Quem pode ser? —Hur pergunta olhando fixamente para Yunet.
—Por um momento pensei que fosse Gab de volta, mas se trata de uma mulher. —Falo sem ter a mínima ideia de quem possa ser. Graças ao deuses não há a mínima possibilidade de ser Gab! —Será alguma prima nossa?
—Prima? Mas o seu pai era unigênito. —Hur fala com razão. —E a rainha Tuya era filha única...
—Alguma prima distante, Hur. —Falo ficando ainda mais nervosa. Quem poder ser essa mulher?
—Cessem a conversa. A convidada de honra chegou... —Ramsés fala e se levanta do trono emocionado. Todos os olhares se voltam para a entrada da sala do trono, e rapidamente somos surpreendidos pela honrada convidada.
Seu vestido era esbranquiçado com detalhes alaranjados, específicos na barra do vestido. —Foi inevitável não reconhecer a pessoa através de suas vestes. —Mas o seu semblante está mais maduro, com um olhar fixo para o nada deixando claro que pouco se importa com os demais.
—É ela. —Hur fala surpreso em ver a convidada andar lentamente pela sala do trono. Eu tento falar o que sinto, mas a única coisa que sai de meus lábios é o nome dela.
—Anippe.
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