Coração De Seda
101 Capítulo 101
Notas iniciais
Narrado pela 3° pessoa...
Os dias se passaram após o nascimento da princesa Lyanna. E a cada dia que se passava Henutmire se consumia em dor e dúvidas. Talvez o peso da traição, o golpe tenha lhe tirado a vontade de viver. Todas as noites seus olhos azuis fechavam-se após passar o dia inteiro chorando. Ela sentia falta da filha que segurou apenas uma vez e lhe foi arrancada. Seu irmão e seu primogênito lhe mantinha em cárcere como uma prisioneira.
—Mãe... —Djoser chama por Henutmire enquanto ela soluça. Dias se passaram desde que Henutmire teve Lyanna arrancada de seus braços, agora Djoser sabe que precisa contar a verdade.
—Sim? —Henutmire pergunta e então olha para o filho. Foi então que o rapaz notou a fragilidade da rainha.—Onde Lyanna está, Djoser? —Era a pergunta que ela fazia para si mesma.
—Ela está aqui. —Djoser revela e então Henutmire sorri. —Eu vou trazê-la, mas preciso que a senhora saiba de algo.
—Depois eu ouço tudo, Djoser. Agora me entregue Lyanna, por favor. —Henutmire pede, quase implora e Djoser beija as mãos de sua mãe. Não seria nada fácil fazer o que ele está para fazer. Ele então abre a porta e pede para que alguém entre. —Não... —Henutmire fala ao ver o homem com Lyanna nos braços.
—Não se assuste, mãe. —Djoser pede e então Henutmire se esconde por trás da poltrona. —Ele vai entregar Lyanna. —Djoser fala. O homem vai até Henutmire e entrega Lyanna, logo a mulher acolhe a filha nos braços. Ela chora ao ter Lyanna nos braços, mas logo olha para o homem e tenta se afastar. Henutmire sente a mão do homem em seu rosto, logo Djoser sai do quarto. Agora somente este homem e Henutmire devem conversar.
—Sou eu, meu amor. —Hur fala ao mostrar seu rosto e então Henutmire se assusta. Suas pernas ficam bambas, por isso Hur segura Henutmire em seus braços. A doce Lyanna olha para os dois com curiosidade, fazendo Hur sorrir.
—Hur? —Henutmire indaga incrédula ao sentir o marido perto dela. —Não é possível, você está morto! Você morreu! Eu vi! —Ela fala repetidas vezes enquanto chora, mas logo Hur a abraça. —O que está acontecendo? —Ela pergunta e então Hur tenta explicar, mas logo o choro de Lyanna chama a atenção dos dois.
—Calma, meu amor... —Hur fala para Lyanna. Henutmire então chora ao ver o quanto Hur é carinhoso com a filha, mas logo se recompõe para poder ninar Lyanna.
—Não deveria ter tirado ela de mim. —Henutmire fala ao se afastar e balançar Lyanna nos braços. —Ela é minha filha.
—Nossa filha. —Hur acaba enfatizando ao ver Henutmire fala como se Lyanna fosse apenas filha dela. —Eu sei que errei, Henutmire. Mas você precisa me escutar. —Ele fala enquanto Henutmire balança Lyanna nos braços. A doce menina vai se acalmando aos poucos para alívio da mãe.
—Ela tem seus olhos, tudo seu. —Henutmire fala e então Hur entende isso como uma trégua. —Todos os dias, todas as noites eu pensava em como ela seria, antes mesmo de saber que era uma menina. Pedia para se parecer com você, ter seus olhos, sua bondade, gentileza e honra. Pedia isso porquê achava que tinha perdido você para a morte. —Henutmire fala ao olhar para a filha. Os olhos de Lyanna são escuros como os olhos do pai, porém são luzentes e brilhantes.
—Foi atendida. —Hur fala ao se maravilhar em ver Henutmire com Lyanna. Henutmire então vai até sua cama e põe Lyanna entre algumas almofadas, assim fazendo com que a menina olha tudo ao seu redor. —Precisamos conversar, meu amor. —Ele fala ao segurar levemente o braço de Henutmire.
—Eu não deveria sequer olhar para você. —Henutmire fala brava para espanto de Hur. —Mas eu também fico em paz por ter você aqui. —Ela fala mais calma ao tocar em Hur. Henutmire não pensou duas vezes em abraçar Hur como sempre desejou depois de tudo o que aconteceu. Ela olhou para o marido e então atirou em seus braços fortes. Hur sorriu ao sentir Henutmire tão entregue aos seus braços, não existe ódio nela, apenas dor.
—Estou aqui... —Hur fala ao ver que Henutmire prende-o contra ela totalmente amedrontada. —Eu nunca mais vou me separar de você, Henutmire. Nem mesmo para te fazer bem. —Ele fala e então olha para Lyanna. A menina olha para os pais com seus olhos inocentes, mas logo se rende ao sono novamente. —Eu vou te contar tudo. —Ele promete ao segurar o rosto de Henutmire com suas mãos. Ela fica completamente desnorteada, mas logo se senta ao lado de Hur. —Tente se acalmar antes.
—Como posso me acalmar? —Ela pergunta ainda assustada. —Eu estou totalmente perdida e com medo do que você pode me falar. —Henutmire revela. Hur então consegue ver o pavor transmitido nos olhos da esposa e por isso tenta fazer por onde ela se acalmar.
—Todos sabiam que Amun iria invadir o palácio. Ramsés colocou um espião entre os homens de Amun. —Hur começa a falar e então Henutmire acaba se lembrando da morte de Ramsés. —Na noite em você pensa que eu tinha sido morto, o espião do rei nos informou sobre a invasão.
—Como esse espião se chama? —A rainha pergunta.
—Radamés. —Hur responde e então Henutmire se espanta. —Se lembra dele, não lembra? Ele e Ramsés eram amigos.
—Ele veio ao nosso casamento, eu me lembro dele. —Henutmire afirma.
—Paser então ajudou Ramsés em um plano de fazer Amun acreditar que eu realmente estava morto. —Hur segue com a revelação fazendo Henutmire ficar ainda mais confusa.
—Eu vi você morto. Eu toquei em você, notei que não havia sangue, mas a sua respiração...
—Estava fraca. —Hur revela. —Quase inexistente. —Ele acrescenta. —Isso foi graças á fórmula de Paser, Henutmire. Quando eu voltei do sono profundo, Radamés estava comigo e me levou para longe da cidade. Mas eu precisava ver você, precisava saber de você.
—Por isso estava vagando com essas vestes pela cidade. —Henutmire fala ao tocar no tecido negro que seu marido usava.
—Gab te deu calmantes sem você saber. Eu quase todas as noites ficava ao seu lado, vendo você dormir. Até que em uma noite você acordou e me viu. —Hur revela. —Eu ficava ao seu lado quase todas as noites. Velando o seu sono e acariciando o seu ventre, mas os calmantes que Gab colocava em suas refeições eram fortes demais para você acordar. Eu conversava com Lyanna, enquanto ela estava na sua barriga, e você nem ouvia. —Hur revela fazendo Henutmire chorar.
—Não era um sonho. —Henutmire fala abismada e Hur afirma. —Você estava comigo e eu não sabia. —Sua voz era de total desespero, falha e fraca.
—Isso também aconteceu quando Lyanna nasceu. Eu estava na janela, escondido e ouvindo você, sabendo que você estava tendo nossa filha. Quando você desmaiou, a parteira veio até mim e me entregou Lyanna. —Hur revela fazendo a esposa chorar. Ela não estava sozinha como pensava. Ele estava ali.—Eu fui até você e agradeci pela filha que me deu, mas você estava inerte, dormindo tranquila depois de tanto se esforçar. Por isso pedi para que chamassem Paser.
Flash Back On
—E então? —Hur pergunta ao ver a parteira com um recém nascido nos braços.
—Parabéns. —A parteira parabeniza. —É uma princesa, senhor. —Revela entregando o pequeno anjo ao pai.
Hur segurou sua filha mais nova com cuidado, sorrindo mesmo que a criança esteja chorando. Se esse mundo fosse bom, nenhuma criança nasceria chorando. Choramos ao nascer, e depois choram a nossa morte.
—Ela é tão delicada... Assim como a mãe. —Karoma afirma olhando para a pequena Lyanna. —A rainha lhe deu um nome que nunca antes ouvi.
—Qual? —Hur pergunta risonho com sua filha nos braços.
—Lyanna. —Karoma responde.
—Lyanna... —Hur chama pela filha, assim a princesa olha para seu pai. —Rosa entre os leões. —Fala.
Flash Back Off
—Mas depois você tirou Lyanna de mim. —Henutmire fala brava. —Eu pensei em tantas coisas. Pensei que iriam matar a nossa filha, pensei que Djoser estava me traindo. Eu pedi para morrer no dia em que você tirou Lyanna de mim! —Henutmire fala deixando claro a sua dor. Hur então tenta tocar na esposa, mas ela se levanta irritada. —Tudo isso para fazer com que Amun pensasse que tinha tirado você de mim? Eu matei Oritia por causa disso!
—Eu sei disso e peço que me perdoe. —Hur pede perdão ao saber que Henutmire de fato estava enlouquecendo. —Mas Gab sabia que eu estava vivo, poderia não acatar seu pedido.
—Eu deveria ter matado Gab e não Oritia! —Henutmire exclama tomada pelo ódio. Hur então vai até ela, mas Henutmire se afasta novamente. —E agora? Vai dizer que está vivo? Do que adiantou tudo isso?
—Eu não estou aqui para falar de Amun. —Ele fala tentando acalmar Henutmire. —Estou aqui por sua causa e por causa de Lyanna.
—Eu não sei. —Henutmire fala ainda confusa com tudo o que ouviu. Ela tenta compreender tudo da maneira mais fácil, mas sua mente está a mil. —Eu não sei no que pensar. —Ela acrescenta, ainda desnorteada, olha para Lyanna que dorme entre as almofadas.
—Confie em mim. —Hur pede ao segurar as mãos de Henutmire, mas ela foge dele novamente. Ela treme de tão nervosa que está.
—Eu não quero confiar em você. —Henutmire fala sem pensar. —Eu quase enlouqueci, Hur. Eu fiz coisas terríveis. Matei Oritia para me vingar de Amun... —Ela fala ainda arrependida. —Eu pensava que Amun era assassino, mas a assassina sou eu.
—Eu peço que me perdoe. —Hur pede ao se aproximar de Henutmire. —Por tudo o que fiz. —Ele acrescenta. —Você pode me perdoar?
—Não. —Henutmire fala sem olhar para Hur. —Algo se rompeu. Mas eu não quero você longe de mim novamente. —Ela fala dando esperanças para Hur. —Eu senti sua falta. Não sabe como me senti. Mas agora que você voltou nada pode ser como antes, Hur. Não posso agir como se isso fosse natural, normal.
—O que eu fiz para você, Henutmire? —Hur pergunta culpado. Henutmire tenta não olhar para o marido, mas não consegue evitar.
—Saia daqui. —Henutmire ordena com a pouca paciência que lhe resta. Hur tenta se explicar, mas ela não permite. —Não me toca! Eu já disse pra sair! —Ela fala enquanto ele segura-a. Seus braços são como aço ao prender Henutmire, que mesmo impossibilitada de se soltar, se debate. Até que então ela consegue se soltar. Henutmire leva as mãos até o rosto e se assusta com seus dedos trêmulos. Todo seu corpo tremia devido ao susto que acaba de levar. —Eu não acredito que você está vivo. Não acredito em nada. —Fala nervosa. —Isso é inacreditável, Hur. Você fez isso para me proteger, mas poderia ter me tido alguma coisa. Eu teria fingido também... —Fala nervosa, fazendo o marido se sentir pior.
Lyanna então começou a se inquietar na cama. Então seus pais foram até ela, atendendo ao seu choro. Henutmire pegou a filha mais nova nos braços como a muito tempo queria fazer. A mãe balança a filha até que a criança parasse de chorar. Hur então sorriu comovido pela cena. Foi então que Henutmire deixou Hur tocar em seu rosto, mesmo que ela não olhasse para ele como antes.
—Está tudo bem, meu amor. —Henutmire fala ao ninar Lyanna. —Você está com a sua mãe agora. —Fala e então se acalma por ter a filha consigo. —Não me toque. —Henutmire pede novamente ao sentir a mão de Hur em seu rosto. Rapidamente ela se afasta do marido com a intenção de manter distância. —Você deveria ter confiado em mim. Mas não fez isso. Preferiu me ver enlouquecer e matar Oritia. —Fala incrédula. —Você pode passar toda sua vida tentando pedir meu perdão por isso, mas saiba que não vai conseguir. —Ela fala olhando nos olhos de Hur. Ele sabia que Henutmire estava ardendo de tanto ódio. A prova era que ela não desviou o olhar para ele.
—Vamos embora daqui. —Hur revela e então Henutmire olha para ele com curiosidade. —Amun não pode saber que estou vivo.
—Então vá embora. —Henutmire fala ao se sentar no divã com Lyanna em seus braços.
—Eu vou. —Hur responde ao ficar do lado dela. —Mas você vai comigo. Você e Lyanna. —Fala, quase como uma ordem. —Você não tem escolha, Henutmire. Eu vou levar vocês duas para longe daqui. Para um lugar onde Amun não nos encontre. —Fala.
—Você não vai me separar dela, vai? —Henutmire pergunta com uma certa desconfiança.
—Não, Henutmire. Claro que não. —Hur responde e então se aproxima de Henutmire aos poucos. Ele tenta mais uma vez tocar no rosto dela, e por fim consegue.
—Não... —Henutmire nega, mas não evita o que está para acontecer. Logo Henutmire sentiu Hur se aproximando mais de seu rosto até o contato dos lábios acontecer. Ela tentou se esquivar, mas logo se rendeu. Faziam luas que ambos desejavam isso, algo tão simples e harmonioso: um beijo. Era um contato delicado mas ao mesmo tempo cheio de desejo. O ar faltava para ambos, quase como um sufoco, mas eles não pararam até se darem por satisfeitos.
Henutmire permaneceu com seus olhos fechados, até olhar novamente para Hur. Seus lábios estavam avermelhados e Hur acabou sorrindo por isso. O olhar entre os dois era de ouro desejo e saudade, somente Henutmire e Hur poderiam explicar isso.
—Vamos embora, Henutmire. —Hur pede novamente. Ela então olhou para a filha em seus braços e viu o quanto era perigoso ficar ali. Amun poderia cometer qualquer loucura com ela estando no palácio.
—Vamos embora.
Atualmente...
Semanas e semanas se passaram após meu casamento e coroação, assim como o dia em que descobri que meu pai está vivo. A convivência no palácio se mostra ser cada vez mais insuportável. Não estou disposta a olhar para meu pai todos os dias. Mas hoje sou obrigada. Minha mãe acha prudente dar a notícia de que estou grávida, não que a barriga já mostre isso, mas para que não exista nenhuma suspeita. Por isso estou aqui com toda a família unida em plena manhã. Não nego que estou feliz por finalmente anunciar que estou grávida, mas não quero manter contato com meu pai por um bom tempo.
—Eu tenho algo para revelar. —Falo e então todos olham para mim com atenção.
—Fale. —Zion pede e então sorrio para ele. A criança que espero não é de Zion, mas ele irá acreditar que sim, e ficará feliz com isso.
—Eu sei que todos esperam por duas crianças. Os filhos de Halima e Yaffa. —Falo e então olho para meu irmão. —E fico feliz em saber que vou ser tia. Mas eu fico ainda mais feliz em dizer que muito em breve também serei mãe. —Minha mãe então sorriu como se tivesse com a consciência limpa. Logo Zion passa a me olhar sem acreditar, por isso sorrio.
—Eu não acredito. —Zion fala incrédulo. —Eu vou ser pai? —Não.
—Claro. —Respondo enquanto minha consciência pesa, mesmo que eu esteja sorrindo.
—Não vejo a hora de conhecer essa criança. —Zion fala ao pousar sua mão em meu ventre.
—Por essa eu não esperava. Minha irmã é sempre surpreendente. —Djoser brinca e então rimos. Meu irmão vem até mim e me abraça. —Parabéns, minha irmã. —Ele parabeniza extremamente feliz. —Que Deus abençoe essa criança e que ela seja saudável. E que herde os olhos azuis de nossa família. —Ele brinca e então olha para nossa mãe. Seus olhos azuis estão com lágrimas de emoção. Emoção por saber que várias gerações vão ter seus olhos. Olhos que ela herdou da mãe de Seti, mas que agora vem de geração em geração.
Meu pai e minha mãe se olham felizes por saberem que muito em breve mais um neto nascerá. Meu pai toca no rosto de minha mãe e tenta fazer com que ela não chore, mas minha mãe sempre foi muito emotiva. Sempre chorou por tudo desde que eu me entendo por gente, desde sempre ela foi de chorar de alegria, de dor, de medo, emoção e até mesmo quando eu e meu irmão fazemos algo que ela se orgulhe. Eu posso estar furiosa com meus pais por tudo o que aconteceu, mas não posso negar que ver o amor deles tão forte depois de tanto tempo, me faz acreditar que neste mundo ainda existem bons sentimentos, pessoas com os corações puros e livres de qualquer maldade. —Eu, Djoser e Lyanna somos prova do amor deles, estamos aqui apenas como consequência. O amor de meus pais é imenso para caber apenas neles, foi preciso três filhos nascerem, e em breve originar netos, para deixar claro que o amor que existe entre um hebreu e uma egípcia da família real é imenso. —Quando menos espero, abraçada à Djoser, com meu rosto por cima de seu ombro, vejo Lyanna sorrindo para nosso pai. É algo que sempre sonhei. Ver a minha pequena Lyanna tendo nosso pai como um dia eu tive, protegendo, maior que eu mesma, todos os dias ali para me proteger e guiar. A risada de Lyanna é doce e terna quando meu pai carrega seu corpo nos braços dele. E o sorriso de minha mãe estampado aos cantos de seu rosto me faz crer que a sua felicidade só faz crescer a cada dia que passa.
—Você gosta mais do seu pai, não é? —Ouço minha mãe perguntar para Lyanna. Minha irmã acaba ficando vermelha com as cócegas que meu pai faz nela, mas logo minha mãe pede para ele parar. —Ela vai passar mal, Hur. —Minha mãe repreende. Ver Lyanna nos braços de meu pai, rindo para minha mãe como eu e Djoser fazíamos é algo interessante.
(...)
—Não vá. —Meu pai pede ao ver que estou fazendo por onde sair do harém. Somente eu estava aqui, as outras mulheres estão perambulando pelo palácio. —Eu vim falar com você. —Meu pai revela. —Pensei em te parabenizar hoje mais cedo, mas tive medo de você ter um acesso de raiva e prejudicar o bebê. —Meu pai fala de forma carinhosa e preocupada.—Eu estou mais do que feliz por saber que você vai ser mãe. Que vai sentir tudo o que sua mãe sentiu quando carregou você. —Meu pai fala carinhoso, me fazendo rir. —E que não me proíba de ver a criança quando nascer como um dia disse. —Seu temor e infelicidade me fazem mudar de ideia, mesmo que eu fique contrariada.
—Faremos o seguinte: O senhor pode ficar perto de mim durante a minha gravidez, verá a criança quando nascer e também irá acompanhar o crescimento dela. Mas somente terá contato comigo até um certo tempo, até eu me recolher e pensar em tudo o que aconteceu. —Minhas palavras deixam meu pai feliz e triste ao mesmo tempo. —Como se sente sabendo que vai ser avô? Digo, Djoser lhe dará dois netos...
—É uma situação complicada, mas as crianças tem meu sangue. —Meu pai fala e então olha para meu ventre. —Acha que vai ser menino ou menina?
—Ainda é cedo. —Falo. —Mas eu achou que vai ser uma menina. —Falo e então olho para meu pai.
—Uma das coisas mais belas que vejo neste mundo é uma mulher gerar outra mulher. —Meu pai fala enquanto olha bem para mim, um olhar pleno de carinho. —Não teria nada mais bonito que, depois de ver sua mãe gerar você, agora você gerar uma menina em seu ventre. Três gerações, todas com os olhos da cor do céu, azul infinito. —Meu pai fala emocionado. —Eu vi você se casando com Zion, te vi ser coroada rainha. —Meu pai revela. —E quer saber? Eu fico orgulhoso por você. Sua mãe foi rainha, ou ainda pode ser, não sei bem... Mas ela tem esse título porquê é filha de Seti, Nefertari pediu para ela ser a Rainha, e além do mais, Djoser precisava de uma Rainha Regente. —Ele fala e então segura o meu rosto. —Mas você... Você não é rainha por minha causa. Apesar de Amun pensar que eu poderia me tornar rei por causa de sua mãe, mas você é rainha por um único motivo. Sua mãe sabe que seria injusto somente Djoser governar, você não poderia ficar sem nada. Você merece um palácio, Anippe. Você merece uma coroa, um reino, uma família... E eu quero que saiba que eu e sua mãe sempre fazemos por onde você e seus irmãos terem o mesmo, serem iguais, tratados da mesma forma e com o mesmo amor. Porquê é isso que um pai faz, é isso que uma mãe faz. Mostrar o caminho para que os filhos andem por suas contas.
—Está me dando aulas de como ser uma boa mãe? —Pergunto ironicamente fazendo meu pai rir.
—Não, você tem sua própria mãe para se espelhar. —Meu pai fala orgulhoso pela minha mãe. —Quando tiver essa criança nos braços, você vai mudar. Cabe a você mudar para melhor como sua mãe mudou quando teve você e seus irmãos. Ou para pior como Seti quando teve sua mãe e seus tios. —Meu pai fala e então me lembro do sonho que tive com meu avô. O sonho onde também vi minha mãe nascer. —Eu falava para sua mãe que algo faltava depois que Djoser nasceu. Eu já tinha Uri, sua mãe querendo ou não tinha Moisés, mas quando Djoser nasceu eu pensei "Ele é meu filho. Meu filho com Henutmire." e isso bastou até eu imaginar uma filha, sempre desejei ter uma. Foi quando vi sua mãe ter você... —Meu pai fala e então sorrio, mas logo sinto as lágrimas escorrerem em meu rosto. —E então foi crescendo, até que eu e Henutmire percebemos que você e Djoser tem a mesma essência, mas não a mesma personalidade. Mas você sempre foi a mais especial, a filha que mais amo e sempre vou proteger. Mesmo que tenha casado e agora seja rainha... Você sempre vai ser a minha filhinha, não que seja a melhor... —Meu pai brinca enquanto me rendo as lágrimas. Logo recebo um beijo no topo de minha cabeça, assim sorrio em meio as lágrimas espontâneas que nascem em meus olhos. —Essa vida que temos agora é pouca para demonstrar o amor que tenho por nossa família. Se existir mesmo outras vidas, quero sempre ter sua mãe ao meu lado e você com seus irmãos como meus filhos.
—Não acredito nisso, mas vou tentar pelo seu desejo. —Falo antes de abraçar o meu pai. Talvez eu esteja ficando menos irritada, ou talvez eu esteja apenas me deixando levar pelas emoções. Ou quem sabe o fato de estar grávida mude muita coisa.
(...)
Toda a família estava se servindo das delicias feita por Gahiji, posso notar a felicidade da minha mãe ao saber que estou em paz com meu pai. Todos estamos em silêncio até Lyanna fazer uma pergunta para mim.
—Quem colocou o bebê em você? —Lyanna pergunta para nossa surpresa. Posso ver o riso no rosto de Djoser e o espanto de minha mãe, assim como o leve sorriso de meu pai.
—Foi Zion. —Respondo constrangida.
—Com osso e tudo? —Lyanna pergunta e então todos riem da minha irmã. —Que nem o papai fez com a senhora, mãe? —Ela pergunta e então vejo meu pai pôr minha irmã em seu colo. Minha mãe estava vermelha com tais perguntas.
—Quer? —Meu pai pergunta ao mudar de assunto e oferecer uvas para Lyanna. —Me deixe ajudar você. —Ele fala sobre ajudar minha irmã a se alimentar.
—Eu faço sozinha. —Lyanna fala convencida e então prova as uvas. Vejo minha irmã pôr três uvas seguidas em sua boca, logo meu pai espera que ela mastigue todas.
—Lyanna é como a mamãe. Adora uvas. —Djoser fala em tom de brincadeira. Lyanna então olha para nossa mãe e continua a mastigar. Minha mãe então se retira da sala do trono, mas não damos muita importância.
—Quer mais um pouco? —Zion pergunta ao olhar para as iguarias de Gahiji.
—Vou acabar pesando o dobro do peso que tenho agora. —Falo e então meu marido sorri. Logo meu coração fica inquieto, como se pedisse para eu sair da sala do trono.
—Espere... —Zion pede ao ver que me levanto.
—Não precisa, meu amor. Eu estou bem. —Falo com a intenção de acalmar Zion. —Eu e a criança estamos bem. —Falo ao acariciar seu rosto e me retirar da sala do trono.
Assim que saio, começo a andar com pressa sem motivo algum. Ao passar pelo antigo santuário, ouço vozes. Necessariamente a voz de minha mãe, por isso me escondo para ouvir a conversa. Vejo minha mãe com Radamés, ambos parecem estar nervosos.
—Você já sabia que Hur estava vivo, você também estava aqui para fingir interesse em mim. —Minha mãe fala para Radamés. —Isso foi longe demais. Volte para o Alto Egito. —Minha mãe ordena. —Sua Rainha está mandando.
—Então me prenda. —Radamés enfrenta a minha mãe. —Eu não me importo em tirar você de Hur. Eu fiz tudo isso por você, não por você e ele. Se for preciso, irei tirar você dele, Henutmire.
—Não, não vai. —Minha mãe fala brava, mas sem manter a compostura. —Vá embora, Radamés. Já tenho problemas demais. —Minha mãe fala antes de dar as costas para ele, mas logo Radamés a prende em seus braços. —Me solte! Agora! —Ela ordena incrédula, mas ele não obedece.
—Ou você solta a mãe da rainha agora mesmo, ou eu mesma farei com que seus braços sejam arrancados de seu corpo. —Falo brava ao ver que Radamés passa dos limites. —Será que vou ter que usar a violência com você? —Indago ao ver que ele não pretende soltar a minha mãe. —Me obedeça! —Exclamo e então Radamés faz o que ordeno. —Agora fique ajoelhado diante de sua soberana e clame por misericórdia, Radamés. Não sou uma rainha misericordiosa como minha mãe. —Minhas palavras fazem minha mãe se assustar. O homem então fica ajoelhado perante mim, com sua cabeça baixa. Como rainha, agora todos meus inimigos e aqueles que ousam me contrariar vão dobrar seus joelhos.
—Imploro seu perdão e sua misericórdia, minha rainha. —Radamés pede envergonhado. —Mas sou perdidamente apaixonado por vossa mãe.
—Mais um. —Falo irônica. —Por enquanto não farei nada contra você. Mas saiba que quando menos esperar vai ter o que merece por tamanha ousadia. —Falo para espanto de minha mãe. —Pode ir. —Ordeno. Radamés então se levanta e sai sem sequer olhar para mim ou minha mãe.
—Minha filha... —Minha mãe fala assustada. —Eu nunca te vi assim.
—Não exagere. —Falo e então seguro as mãos de minha mãe. —Eu não vou deixar que nada de mal aconteça com a senhora e o meu pai, mãe. Nem Amun, nem Radamés, ninguém vai infernizar a vida de vocês dois enquanto eu viver.
—Não seja tão radical, Anippe. Você é uma rainha. Eu quase enlouqueci quando também fui, mas as condições eram outras. —Ela fala preocupada enquanto eu tento esconder o quanto estou estarrecida com seu medo.
—Não precisa se preocupar, mãe. —Falo e em seguida nos abraçamos. Minha mãe então se sente mais aliviada, com isso acabo sorrindo. —Eu não vou me perder pelo caminho. —Falo enquanto ela me abraça mais forte.
—Eu te amo, Anippe. Você é minha filha, não quero que sofra agora que tem tanto poder em suas mãos. —Minha mãe fala e então volta suas atenções para o meu ventre. —E também amo essa criança. —Sua mãe então repousa em mim. —Quando essa criança nascer você vai entender o que é ser mãe. E vai temer pelo mundo.
—O temor quem deve temer á minha presença.
"Pessoas que já sofreram são perigosas. Elas sabem que podem sobreviver"
Fale com o autor