Notas iniciais
Voltei!

Quando a noite caiu sobre todo o reino, senti todo o meu corpo, assim como a minha mente, pesarem. Ainda estou abalada e estarrecida comigo mesma pelo o que fiz com Djoser, nunca o tratei daquela maneira. Me dói saber que estou perdendo meu filho aos poucos, estou perdendo o único filho que ne resta fora essa criança que está em meu ventre. Djoser nunca me tratou como faz ultimamente, assim como eu nunca o tratei com tanta frieza.

—Eu sei que fiz errado com seu irmão. —Falo ao sentir a criança se mexer novamente. —Mas algo precisava ser feito. —Falo.

Ultimamente essa criança é a única companhia que eu tenho. Isso me leva a crer que esse filho é a única coisa que de fato me resta nesta vida. Perdi todos da minha família, perdi um por um sem me dar conta. Talvez seja um castigo por não ter perdoado meu pai ou até mesmo uma lição divina. Não sei ao certo, apenas sei que perdi todos. Perdi Nefertari após a sexta praga. Minha cunhada estava tão doente e grávida sem saber, as complicações foram se agravando até ela desfalecer. E isso não acontece comigo, naquela época eu já havia concebido esse filho. Depois disso matei Yunet queimada em praça pública, aquele foi meu maior erro. As pessoas sentiram medo de mim e não respeito. Perdi Amenhotep e Uri na décima praga, assim como perdi Hur na rebelião e Ramsés naquela manhã onde o falso copeiro quase matou o resto da família real. Perdi todos, e agora estou me perdendo. —Abro uma das gavetas do cômodo de meus aposentos e me deparo com o veneno que tanto guardo. —É insano querer me matar, por um lado é loucura, mas eu não vou me render.

—Algo me diz que iremos perder essa guerra. —Falo ao andar de um lado para o outro em meu quarto. Faço carícias em meu ventre tentando acalmar meu filho, ultimamente ele está ficando inquieto. —Se ao menos eu tivesse o seu pai comigo. Eu poderia estar mais segura de mim mesma. —Falo. —Eu nunca quis ser tudo para ele, eu apenas quis ser alguém na vida de seu pai onde ele não me trocaria por nada.

—Você enlouqueceu, Henutmire? —Gab pergunta alterado ao adentrar em meus aposentos. —Por que tratou seu próprio filho como se ele fosse um escravo? Ou até mesmo um verme?

—Djoser é meu filho, sei o que faço. —Falo ao revirar os olhos ao ver que Gab se mostra preocupado. —Não me venha com sermões.

Senti algo pesado em meu rosto após tratar Gab tão mal. Foi o peso da mão de meu irmão em meu rosto como resposta ao que disse. Olhei para ele incrédula, mas não vejo um arrependimento sequer em seus olhos. Gab não está louco, está furioso, está prestes a me dar uma surra mesmo que eu esteja grávida. Sua paciência se esgotou e agora eu posso ver que de fato fui tosca com ele. Seguro firme na cadeira, meu corpo cambaleou para o lado, mas eu não gritei ao receber o peso da mão firme e pesada de Gab. Sinto um gosto metálico em meus lábios o inferiores, meu próprio sangue. Permaneço incrédula, meu nunca levantou a mão para mim, nem mesmo Hur. Gab é o primeiro homem a levantar a mão para mim.

—Nem ouse chorar. —Gab fala alterado em minha frente enquanto limpo o sangue que escorre de meus lábio como consequência da agressão que acabo de levar. Ele começa a me assustar com seu olhar. Nem mesmo o olhar de meu pai me assustou tanto. —Você está louca! Como faz algo desse porte com seu filho, Henutmire? Por acaso o amor de mãe é tão escasso assim?! —Foi minha vez de agredi-lo agora.

—Saia daqui, Gab. —Ordeno brava ao ver que ainda sai sangue de meus lábios. —Como ousa bater em mim?

—Você merece uma surra. —Gab fala me deixando assustada. —Mas eu não vou fazer isso. Além de você ser uma mulher, está grávida. —Ele se recompõe.

—Ninguém nunca levantou a mão para mim antes. —Falo ao sentir o lado direito de meu rosto doer. Ainda posso sentir a mão dele em meu rosto.

—Era o que nosso pai deveria ter feito. Se você tivesse levado todos os tapas que levei e passado todas as humilhações que sofri, você não me trataria como trata. —Gab fala mais alterado. —Você piorou depois que Hur morreu. Por que eu garanto que se ele estivesse aqui, ele não te aguentaria.

—Por que você e Djoser falam isso agora? —Pergunto com uma imensa vontade de chorar. É muita humilhação para mim.

—Por quê Hur foi um covarde. —Gab fala friamente. —Por que ele se entregou.

—Cala a boca, por favor! —Peço ao desabar na cadeira e chorar compulsivamente. —Você está me torturando! Para com isso! —Falo levando minhas mãos aos meus ouvidos.

—Você precisa enxergar a verdade, Henutmire. E eu não sinto nada ao te ver chorar. Você sabia que Hur estava vulnerável depois que o filho morreu e com Amun por perto. —Gab acaba piorando a minha situação. —Seja lá como for, eu estou aqui para te ajudar.

—NÃO DESSE JEITO! —Grito enfurecida e acabo assustando Gab. —FORA GAB! —Grito ainda mais brava com as mãos em meu ventre. Gab acaba sem alternativa e vai embora apreensivo com o meu estado. —EU DEVERIA TER MATADO ELE! —Grito ao derrubar tudo que há em minha frente. Rapidamente trato de me acalmar, isso vai fazer mal para a criança.

Flash Back On

—Pare de me olhar assim. —Falo ao notar que Hur não para de me olhar. —Não é a primeira vez que você olha, você já me conhece. —Falo risonha.

—Gosto de olhar para você. —Hur fala ao se aproximar de mim. —Desde que te vi pela primeira vez. —Ele fala ao me surpreender com um abraço por trás. —Eu olho todos os dias para Anippe e penso "Ela vai crescer e ser tão bela como a mãe".

—Já viu os olhos dela? —Pergunro curiosa. —São tão claros...

—Ela é a sua beleza fora de você. —Hur fala e acaba me fazendo rir. —Ela sempre procura se parecer com você.

—Como? —Pergunto.

—Anippe. —Hur fala ao segurar minhas mãos. —Ela sempre olha para você. Ela sempre aprende algo novo quando olha para você, seja no andar, na forma como trata as pessoas. —Meu marido fala orgulhoso e então seu polegar roça no meu anel. O anel que ele me deu quando me pediu em casamento.

—Não sou tão bonita como era antes. —Falo constrangida. —O tempo mudou muita coisa.

—Mentirosa. —Hur me surpreende ao falar tal coisa. —Queria todas as mulheres da sua idade serem tão belas assim.

—Não seja tão bajulador. —Falo plena de ironia e faço Hur rir. —A verdade é que meu corpo mudou muito após ter dois filhos. —Falo ao deixar claro que mudei muito. —Se me resta alguma beleza minha neste mundo. Ela está em Anippe.

—Com complexo de inferioridade, Henutmire? —Hur pergunta.

—Não. Mas todas as vezes que eu olho para essa garotinha eu não vejo apenas a minha filha. Eu me vejo nela, eu sinto o que é juventude novamente. —Falo. —A cada ano que se passa nossa filha muda, parece que os deuses estão tirando a beleza da própria Ísis e colocando em Anippe.

—Isso não é nada para mim. —Hur fala ao beijar o meu pescoço me fazendo sorrir. —Se nossa filha está crescendo e se tornando tão bela quando todas as deusas, isso deve-se ao fato dela herdar isso de você.

—Todos dizem que as filhas puxam aos pais. —Falo. —Era para ela se parecer com você.

—Isso não faz sentido para mim. —Hur fala pensativo. —Veja só você. Seti e você não se pareciam.

—Herdei as características dos pais de meu pai. —Falo risonha. —Mas de fato eu não me parecia em nada com meu pai.

—Acho que seja por isso que ele amava tanto você. —Hur fala nostálgico. —Assim como eu amo tanto Anippe.

—Você não pode mimar tanto a nossa filha. —Repreendo Hur.

—Mas eu posso mimar a mãe dela. —Hur brinca e acaba me fazendo rir. —Posso? —Ele pergunta ao se aproximar de meu rosto.

—Claro que pode. —Falo ao olhar bem para os olhos de Hur e entender que ele me ama.

Flash Back Off

—Meu amor... —Falo ao chorar desconsolada em meu quarto ao lembrar de Hur. —Por qual motivo te perdi? Qual o real motivo? —Pergunto ao balançar meu próprio corpo enquanto faço carícias em meu ventre. Acabo me lembrando de quando tive Hur morto em meus braços. Antes eu o tinha em meus braços após várias noites de amor, e a última vez que o tive em meus braços foi quando ele morreu.

—Vá embora! —Ouço Ikeni gritar. Eu então vou até a janela do meu quarto e me deparo com o general tentando tirar um homem de frente do palácio.

—Não pode ser. —Falo assustada. É o mesmo homem de preto que antes vi. —PRENDAM-O! —Ordeno de imediato. Ikeni acaba se assustando com meu grito e então olha para mim, com isso o homem foge sem mostrar seu rosto novamente. —Não pode ser. Quem é esse homem? —Pergunto tomada pela raiva. Agora esse homem me deixa intrigada. Quem ele é? Por que está me vigiando? —Vá atrás dele! —Ordeno enfurecida. —AGORA! —Grito aos quatro ventos ao ver que Ikeni fica sem reação. No entanto ele é outros guardas vão na direção onde o homem foi.

—O que aconteceu, senhora? —Karoma pergunta assustada ao me ver enfurecida.

—Aquele homem novamente, Karoma. Eu preciso saber quem é ele! Ele pode estar armando alguma coisa contra mim! —Falo nervosa e então começo a fazer carícias em meu ventre. —Não é a primeira vez!

—Tente se acalmar! —Karoma pede ao segurar em minhas mãos. —Ikeni vai resolver isso! A senhora precisa se acalmar antes que sinta algum mal estar... Posso chamar o príncipe Gab?

—Não! Não chame ninguém! —Falo subitamente. —Muito menos Gab! Nem mesmo Djoser!

—E por quem devo chamar para acalmar a senhora? —Karoma pergunta preocupada.

—Não chame ninguém. —Falo nervosa ao sentir meu coração acelerar. —Ninguém pode me acalmar agora.

—Disso eu sei. Mas eu preciso saber o que fazer com a criança. —Karoma fala em relação a criança que carrego em meu ventre. —Só Deus sabe o que vai acontecer com ela! Mal nasceu e já sofre!

—Não precisa chamar ninguém! Eu vou ficar bem! —Exclamo tentando ficar calma. —Essa criança só tem á mim! —Falo profundamente magoada pela minha situação. O que vai ser de mim quando essa criança nascer?

Eu preciso manter a calma, não é a primeira vez que tenho um filho, não é a primeira vez que sofro. Eu já passei por muitas coisas, perdi toda minha família, perdi até mesmo o grande e único amor da minha vida. Mas me dói saber que posso morrer e não ver essa criança crescer. Talvez, só talvez, essa seja a desculpa para eu parar de sofrer. Talvez essa seja a única oportunidade de me encontrar com Ele, de ficar ao lado de Hur e de meus irmãos. Ou talvez essa gestação seja apenas a gota d'água para a minha desgraça maior.

(...)

—Como ele conseguiu escapar? —Pergunto incrédula para Ikeni.

—Não sei explicar, soberana. —Ikeni fala ao olhar somente para Gab e não para mim. —Ele deve ter se escondido na vila onde agora estão o escravos hititas.

—E nenhum escravo o entregou? —Pergunto furiosa. —Esse homem vem seguindo meus passos fazem meses e você me diz agora que ele some na velocidade da luz?

—Ele deve ter algum esconderijo, mãe. —Djoser responde ao meu lado, mas não me olha.

—Não lhe perguntei absolutamente nada. —Falo ríspida enquanto olho para Djoser. —Será possível que nenhum homem é capaz de deter esse estranho?

—Deve ser um rebelde. —Paser fala sugestivo e em seguida olha para Gab. —Precisa ter mais cuidado.

—Não é um rebelde. —Falo pensativa. —Se fosse, teria me matado apenas com uma flecha ao me observar. E ele não seria tão insano ao ficar na frente do palácio me vigiando, Paser. —Minhas palavras assustam todos. —Esse homem me conhece e quer algo.

—E o que seria? —Gab pergunta me deixando assustada pelo tom de sua voz. —A coroa?

—Se fosse isso ele teria feito o que já disse, me mataria apenas com uma flechada. —Falo para sua surpresa novamente. —Vou esperar ele aparecer novamente e desta vez não irei aceitar desculpa alguma.

—Mas, senhora das duas coroas! Vossa majestade deve se preocupar com a guerra e não com um desconhecido. —As palavras de Paser fazem Ikeni se tornar uma criança amedrontada. —Digo, a Rainha Mãe deve se concentrar na educação do príncipe herdeiro assim como na guerra que está por vir.

—Amun era uma ameaça pequena e agora quer me derrubar. Esse homem também é uma ameaça pequena e eu não quero correr o risco, Paser. —Falo. —Agora podem ir. —Ordeno. Paser e Ikeni fazem suas devidas reverências e se retiram da sala do trono, apenas Gab e Djoser ficam.

—Está perto de nascer. —Gab fala ao olhar para o meu ventre volumoso. —Eu pensei que seria melhor você ir para a ilha de Philae ter essa criança.

—Não haverá tempo. —Falo. Gab então parece me olhar com pena.—O que aconteceu, Gab?

—Todos os soldados que morreram na abertura do mar vermelho tinha filhos. —Gab fala com pesar. —E como sei que Amun irá atacar o povo para de afetar, eu recolhi todas as crianças possíveis e coloquei no palácio.

—Como? —Pergunto incrédula pela quantidade de crianças. —Onde elas estão?

(...)

Havia crianças no harém, em todos os jardins, e agora posso ver nítido no olhar de cada uma a dor que elas sentem. Também posso ver mulheres grávidas assim como eu. E assim como eu seus maridos morreram antes delas darem a luz. O espaço deste jardim acaba ficando pequeno demais para tantas crianças. Não ouço nenhum choro, não ouço nenhuma risada, elas estão sentadas e outras até deitadas, todas me observam passar.

—Não. —Ouço uma garota falar com uma criança em seus braços. A criança ergue seus braços para mim e por isso sua irmã o repreende.

—Mamãe. —As palavras da criança tocam o meu coração e com isso lágrimas brotam.

—Qual o seu nome? —Pergunto ao me aproximar.

—Khalid. —A moça responde nervosa e então a pequena garotinha ergue novamente os seus braços. —Ela não é a nossa mãe.

—Venha cá. —Falo para a Khalid e então ela se joga em meus braços como se desejasse fazer isso desde que me viu. —Eu vou cuidar de vocês. —Falo para surpresa da moça. Khalid parece entender o que digo, apesar da pouca idade, talvez 3 anos, e com isso sorri para mim. —Eu vou cuidar de todos como se fossem meus filhos. —Meu olhar então foi até Djoser e Gab.

Sinto Khalid pousar sua cabeça em meu ombro e descansar. Com isso acabo sentindo melhor o seu calor e passo a sorrir para Djoser. Fazia muito tempo que não sentia o calor de uma criança. Apesar do peso a criança que carrego, não me sinto incomodada com o peso de Khalid. Muito pelo contrário, me sinto amada por ter uma criança que se encaixa perfeitamente em meus braços.

—Traga algo para ela brincar. —Falo para Karoma ao me sentar com a pequena em meus braços.

—Não se incomode. —A irmã de Khalid pede envergonhada.

—Eu já disse que irei cuidar de cada um até essa guerra acabar. —Falo despreocupando a garota. Volto minhas atenções para Khalid que me observa curiosa. Meu olhar então vai até Gab, assim como eu ele está com uma criança em seu colo.

—O príncipe se preocupou com todas as crianças e adolescentes por que segundo ele, somos o futuro do reino. —A garota fala ao olhar para Gab.

—Ele fez o certo em trazer todos para cá. —Falo penosa ao olhar para todas as crianças.

—A senhora e ele são bons, por isso vim para cá. Não tenho pai nem mãe, a única coisa que tenho é Khalid. —Ela fala. —Perdoe minha má educação, meu nome é Mhysa.

—Não se acanhe, Mhysa. —Falo risonha ao olhar bem para a garota. —O que aconteceu com seus pais?

—Meu pai morreu na abertura do mar. E minha mãe se matou de tão desesperada que estava.. —Mhysa fala me causando espanto. —Khalid e eu tínhamos um irmão mais velho, mas ele morreu na décima praga.

—Lamento muito. —É a única coisa que consigo falar para Mhysa.

—E essa quem é? —Gab pergunta ao se aproximar com um garoto de aproximadamente cinco anos. Khalid então olha para Gab e passa a sorrir.

—Aqui está. —Karoma me entrega então uma boneca de pano, eu então entrego para Khalid. A menina então passa a brincar em meus braços.

—Será que irei ver a criança que carrego no ventre com essa idade? —Pergunto pensativa.

—Claro que sim. —Mhysa responde sorridente.

—Perdão, soberanos. —Ikeni fala ao se aproximar de mim e de Gab. —Mas é urgente o que tenho para dizer.

—Fale de uma vez. —Gab pede apreensivo.

—Amun e seu exército estão vindo. —Ikeni fala. —Deram notícias de que em dentro de dois dias estarão aqui.

—Vamos morrer. —Mhysa fala amedrontada.

—Ninguém vai morrer. —Falo ao balançar Khalid no colo. —Gab...

—Aumente a segurança, Ikeni. —Gab ordena ao me ver aflita. —Mande os soldados se preparem ainda mais. Quero ganhar essa guerra, nada mais que isso.

—Acha que podemos perder? —Pergunto aflita e então Gab se senta ao meu lado.

—Você vai ficar bem. —Gab fala tentando me acalmar. —Todos nós vamos. —Ele fala ao voltar sua atenção para Khalid.

—Se Amun chegar neste palácio eu não irei me render, Gab. —Falo nervosa e então Gab olha para mim novamente. —Eu e essa criança iremos estar mortas antes dele entrar neste palácio. Disso eu eu tenho certeza...

Notas finais
GENTE! Cada dia a segunda temporada tá chegando mais perto!