Notas iniciais
ATENÇÃO! Esse capitulo é narrado pela terceira pessoa e não pela nossa protagonista Henutmire. Desde já agradeço a compreensão.

Narrado pela terceira pessoa

Todo o Egito estava adormecido enquanto o faraó observava o céu esperando que o anjo destruidor passasse, assim como Anippe que andava de um lado para o outro preocupada com Uri. Mas na vila todos estavam protegidos, mas ao mesmo tempo Hur e Djoser se olhavam, ou melhor, olhavam para a porta esperando Uri e Anippe, mas isso nunca irá acontecer por causa do orgulho de Uri. Gab pensou, pensou muito ao ver Hur aflito e tentou se aproximar, e conseguiu já que o hebreu não é de guardar mágoas.

—Uri vai chegar, Hur. Anippe vai convencê-lo. —Gab tentou acalmar o cunhado. Simut, já que se ofereceu a vir com Karoma e Hur, segurava o pequeno Peppy nos braços. Leila também estava na casa de Halima.

—Eu não sei por que minha irmã e meu irmão estão demorando, Halima. —Djoser fala aflito. —Acha que ele não vem?

—Sua mãe e sua irmã vão dar um jeito, Djoser. Elas sempre dão. —Halima tenta confortar o príncipe.

—É agora. —Zion fala ao entrar eufórico dentro de sua casa e fechar a porta. —Bezalel e Zelofeade já foram para casa.

—Ele não vem. —Djoser sussurra fracassado e então abraça Halima carinhosamente.

—Meu Deus, o que foi que Uri fez? Leila pergunta aflita por não ver o seu marido presente como queria que estivesse.

O Egito ficou em silêncio, os olhares de Henutmire e Anippe se encontraram dentro dos aposentos reais da rainha. Henutmire pôs sua mão em seu ventre enquanto a outra segurava firme a mão de sua filha, somente ela pode sentir essa dor. O filho do grande amor de sua vida vai morrer e ela não pode fazer nada para impedir como a própria Anippe disse. Mas enquanto Henutmire pensava nisso, Hur pensava nela e no quanto ela se preocupou com sua vida. Henutmire não desistiu dele, não descansou até encontrar uma forma de salvá-lo mesmo estando enciumada. —Hur olhou para Djoser e sorriu ao saber que no seu filho há seu sangue com o sangue da mulher que ama, ele sabe muito bem que Djoser é a primeira benção de Deus em sua vida e na vida se Henutmire. —Mas seu coração estava dilacerado ao lembra-se de Uri, ele sabe muito bem que Henutmire e Anippe devem ter insistido, mas isso não iria mudar nada.

A praga então teve início enquanto Moisés olhava para todos os primogênitos em sua casa, sorriu ao ver sua mãe e sua irmã ali com ele. Assim como Arão e Eliseba que estavam abraçados ao filho mais velho, todos os pais conscientes sabem que hoje é um dia de tristeza. —E então cada primogênito foi morrendo, tendo sua vida levada pelo anjo da morte. Ele cercou cada primogênito, sugando o frescor da vida deixando apenas para cada mãe a maior dor que uma mulher pode sentir. A dor de perder seu primeiro filho e não ter a capacidade de entender o motivo de tanta dor. —A rainha do Egito sabe muito bem a dor de perder um filho, mesmo que em seu ventre, Henutmire sabe como é essa dor. E a cada mulher que chora, os ouvidos da rainha aguçam e então Henutmire entende que a praga já teve inicio.

—Anippe. —Henutmire chamou pela filha e então as duas se abraçaram emocionadas. Mal sabem elas que foi neste exato momento em que o anjo levou a vida de Uri. Na vila, Hur abraçou Djoser emocionado, ambos agora sabem que Uri não faz parte deles.—Amenhotep. —Henutmire falou de súbito e se levantou da cama, indo em direção a porta.

—Mãe. —Anippe tenta impedir sua mãe, mas ela não escuta ninguém além do seu coração. —Mãe! —Anippe berrou ao ver um vulto branco passar. Mas Henutmire foi até os aposentos do irmão e se deparou com uma cena dramática.

—Eu sou o Hórus vivo na terra. O primogênito de Osíris e Ísis, ordeno que saiam do meu palácio! Saíam! —Ramsés ordenou ao anjo ao vê-lo rondar o seu quarto enquanto Henutmire e Anippe iam para onde Amenhotep estava. —Ordeno que vão para bem longe daqui. Para além das fronteira do Egito! Fora! —Ele esbravejou enquanto Amenhotep olhava para Henutmire e Anippe.

Mas foi então que o anjo passou, por onde ele passava não havia luz, não mais. Então o inevitável aconteceu. O anjo enviado por Deus levou a vida do filho do faraó no mesmo instante que a princesa egípcia de sangue hebreu gritou. Anippe gritou tão forte, mas tão forte que as aves que ali cercavam o palácio voaram. Mas seu grito não foi mais ensurdecedor que os gritos das mães pelos filhos, não foi maior que a raiva que Henutmire sentiu de Ramsés ao ver Amenhotep morto. A rainha então lembrou-se da criança que Amenhotep um dia foi e que agora o Egito não tem o herdeiro do trono por culpa e da loucura de Ramsés.

NÃO!—Anippe gritou enfurecida ao ver o primo morto em sua cama. Henutmire então foi até o sobrinho e se deu conta de que ele estava mesmo morto, de que não estava vendo coisas que não existiam.

—O que você fez? —Henutmire perguntou enfurecida com Ramsés. Mas o rei não deu ouvidos, pegou seu filho morto no colo e viu que nele, nem mesmo em seus olhos, haviam uma fagulha de vida. Henutmire então chorou toda sua dor ao lembrar de Nefertari. Sua cunhada certamente não suportaria ver o filho morto, aliás nem ela mesma está suportando ver seu único sobrinho morto.

Anippe caiu no chão totalmente desolada, ela mesma não acredita que seu primo está morto. Mas foi então que a princesa saiu correndo dali à procura de seu irmão mais velho, Uri. Mas enquanto isso Henutmire e Ramsés choravam a morte de Amenhotep. Agora já está feito, agora Ramsés sabe o incrível pode de Deus, mas também sabe que seu único filho está morto. Morto assim como Nefertari, agora Nefertari e Ramsés, assim como Yunet, não podem mais ter uma descendência. Amenhotep era o último daquela linhagem, o sangue de Yunet nunca mais correria nas veias de outro alguém, assim como o sangue de Disebek. Mas pensando melhor, a morte de Amenhotep vingou todos os filhos que sua avó fez sua tia perder, assim como roubou a descendência de Disebek. O destino próprio encarregou-se se vingar cada ato.

A descendência de Henutmire vive no olhar de Djoser e Anippe, assim como na criança que insiste em crescer em seu ventre. Mas a descendência de Yunet e de Disebek acaba de morrer sem deixar vestígios de esperança de que o mundo vá sofrer com alguém do mesmo sangue de Yunet. Não importa quanto tempo demora, ou seja doloroso. —Nesse momento, na vila, Hur chorou ao saber que Uri de fato está morto. Assim como Henutmire chora ao saber que Ramsés não tem mais seu filho. —O bem sempre irá vencer o mal.

—Uri! —Anippe chama pelo irmão ao entrar no quarto escuro. A filha de Henutmire vê o filho de Hur morto, prostrado na cama, e então vai até ele. —Não, não, não! Meu irmão! —Anippe nega-se a acreditar que Uri está morto. —Uri, levanta! Pelo amor de Deus, levanta! —A princesa pede ao ser tomada pelas lembranças. —Você se lembra de quando ia até o meu quarto me acordar? Eu te atendia sempre, Uri. Aliás, você sempre atendia aos meus desejos também. —Ela lembra enquanto chora. —Vamos, Uri. O papai e a mamãe nos esperam para irmos para Canaã. —Anippe fala delirando com a sua tristeza. —O que vai ser de mim sem meu irmãozinho mais velho? Você não pode me deixar, Uri. O que vai ser do papai? O que vai ser de Leila? —Anippe pergunta enquanto nina Uri em seus braços. —Uri, por favor. Abra os olhos... —Ela chora. Mas enquanto isso na vila Hur ainda tentava entender o motivo de Uri não ter se salvado.

—Eu não sei nem o que dizer. —Halima fala ao ver Hur chorar desolado nos braços de Djoser. —Eu sinto muito por eles, Zion.

—Eu espero que a criança que a rainha está carregando possa fazer com que Hur esqueça a morte do filho mais velho. —Zion deseja.

—Djoser não corria perigo. —Halima fala ao se lembrar de Bak. —Bak é o primogênito de Meketre, mas a esposa dele tem um filho, é como aconteceu com Uri e Djoser.

—Mas Djoser não é o primogênito da rainha?

—Sim, ele é. —Halima responde ao olhar para Hur e Djoser. —Mas Uri é o mais velho dos irmãos, Zion.

—Anippe deve estar arrasada. —Zion fala preocupado com a amada. Enquanto isso Anippe chora a morte do irmão no palácio de Ramsés. Seus gritos de dor ecoam por todo palácio assim como o choro de todas as mães do Egito.

Ou quase todas, a mãe da nação, senhora da graça e da paz, não perdeu o seu filho. Henutmire não perdeu Djoser como temia. Seu coração ficou mais leve ao saber que seu filho não morreu, mas em sua mente veio seus pais, veio Kamés, o irmão que morreu ainda criança, mas também veio em sua mente Gab. Gab está salvo graças á ela! Mas Amenhotep está morto nos braços de Ramsés. —Henutmire sentiu seu filho se mover novamente. —Mas ela se assustou ao ouvir todo o Egito chorar. Suas mãos foram de encontro aos seus ouvidos, ela tentava não ouvir os choros.

—O Egito inteiro chora a morte de seus filhos. —Henutmire fala ao ver Ramsés ainda abraçado ao corpo de seu filho morto. —E você chora a morte do seu menino.

Henutmire andou lentamente pensando em Hur, tentando imaginar a dor que seu marido deve estar sentindo ao saber que Uri morreu. Mas ela não pensou em ir até a vila, seu coração ainda está muito magoado. Aliás, ela não pode fazer muito esforço por causa da criança que carrega no ventre. Seus olhos da cor do céu transmitem apenas tristeza, dor, sofrimento. A rainha sente a angústia que todas as mães sentem ao terem seus filhos mortos, a dor é contagiante. Henutmire sabe a dor de perder um filho, ela melhor do que ninguém pode saber e entender essa dor. Mas o que aconteceu com ela é diferente do que acontece agora, as mães tiveram seus filhos e agora os tem mortos nos braços. Ela não, os filhos que quase teve com Disebek morreram em seu ventre por culpa de Yunet, mas agora ela tem seus três filhos, sendo que um está em seu ventre.

—Anippe? —Henutmire chama pela filha mais nova ao passar pelos aposentos de Uri. A rainha ouve o choro da princesa, mas é então que ela invade o quarto do enteado. —Uri... —Henutmire fala ao pôr suas mãos em seu ventre e ver Anippe com Uri morto em seus braços. —Meu Deus, o que vai ser de Hur? —Henutmire perguntou para si mesma ao lembrar do marido que agora está na vila.

—Ah, Ramsés. Por que tinha que ser assim? —Moisés pergunta angustiado ao saber que seu irmão, o faraó, acaba de perder seu único filho. Joquebede põe suas mãos em seus ouvidos tentando não ouvir o choro das mulheres, mas o barulho é imenso. É de dor, mas ao mesmo tempo é de guerra.

Moisés então saiu de sua casa e ajoelhou-se no chão pedindo misericórdia, mas ao mesmo tempo ele chorava ao saber que sua tarefa estava cumprida. Porém, a dor de saber que seu maior e melhor amigo, seu irmão, agora não tem mais sua esposa e seu filho, o faz chorar. Moisés também chora ao lembrar de seus filhos, que estão vivos, principalmente seu primogênito.

—Djoser. —Moisés fala ao ver o irmão passar com Hur ao seu lado. —Onde minha mãe está?

—No palácio. —Djoser responde. —Com Anippe e Uri.

—Uri? —Moisés pergunta incrédulo e olha penoso para Hur. —Eu sinto muito, Hur. —Moisés lamenta, mas Hur não fala nada, apenas se deixa guiar por Djoser e Gab. —Avise a nossa mãe que muito em breve iremos partir, Djoser. —Moisés pede antes de abraçar o irmão. Djoser então segue com o pai e Gab rumo ao palácio.

—Por que Hur estava daquele jeito? —Miriã pergunta ao ver Hur sendo levado por Djoser. Em seguida Simut e Karoma passaram com o pequeno Peppy.

—Uri ficou no palácio durante a praga, Miriã. —Meia palavra bastou para Miriã entender que Uri está morto. —O que me consola é que minha mãe deu um filho homem para Hur. Ou melhor, também deu Anippe e está prestes a dar outro filho para ele. —As palavras de Moisés magoaram Miriã, mas ela não deixou isso transparecer.

—Mas um filho não pode substituir outro. —Miriã fala.

—Mas o amor de minha mãe será capaz de fortalecer Hur, Miriã. Não há uma mulher como ela. —Moisés fala risonho ao ter a consciência de que Henutmire será capaz de ajudar Hur. Mal sabe o libertador que a rainha de certa forma arrancou a felicidade de Miriã.

(...)

—Vá chamar Moisés e Arão. —Ramsés ordena e então Bakenmut pode ver o libertador e seu irmão bem próximos.

—Não será preciso, senhor. —Bakenmut fala e então Ramsés vê Moisés e Arão. O rei e o libertador ficam frente a frente, mas não falam nada por um bom tempo.

—Eu sinto muito. —É a única coisa que Moisés fala para Ramsés. —Eu nunca tive a intenção de te fazer sofrer.

—Moisés. —Ramsés fala e então tenta evitar as lágrimas. —Aparta teu povo do meu e segue para o deserto louvar o teu Deus. —Ramsés fala tranquilamente, fazendo Moisés e Arão se olharem. —Não irei voltar atrás, Moisés.

—Farei isso. —Moisés fala angustiado ao ver Ramsés em choque.

—Antes eu te peço apenas uma coisa. —O faraó fala com a voz ainda embargada. —Que me perdoe, e que seu Deus me abençoe. —O pedido de Ramsés surpreendeu os dois irmãos.

—Está tudo bem agora, Ramsés. —O libertador fala ainda infeliz ao ver a dor de seu irmão. —Deus vai guiar o meu povo, mas também vai abençoar o seu já que agora reconhece o poder dele. —Moisés fala e lágrimas brotam de seus olhos.

—Adeus, Moisés. —Ramsés fala antes de fitar o rosto de Moisés, tentando memorizar o seu rosto. Foi então que o rei deu as costas para Moisés e voltou para o palácio acompanhado pelo general.

—Arão. —Moisés chama pelo irmão. —Quando partirmos, venha buscar minha mãe, meus irmãos e Hur. —Moisés pede e Arão sorri. —Eles vão conosco...

"Filhinha querida, quando a mágoa permitir, você sabe onde me encontrar."

Essa frase repetiu-se inúmeras vezes na mente de Henutmire enquanto ela observava Anippe chorar pela morte de Uri. Ela agora irá ver Hur chorar a morte de Uri, assim como ela viu seu pai chorar a morte de Kamés, assim como viu Ramsés chorar a morte de Amenhotep. Assim também como ela chorou pelos filhos que perdeu por culpa de Yunet.

—Uri? —Hur chama pelo seu primogênito, fazendo Henutmire assustar-se. Então Hur correu a abraçou o corpo do filho, mas também foi amparado por Anippe.

—Me abrace, Djoser. —Henutmire pede ao ver o filho vivo, esquecendo-se de que estão brigados. Mas Djoser não hesitou e abraça a sua mãe fortemente. —Graças a Deus nada te aconteceu! —Henutmire agradece ao sentir o calor de seu filho em seus braços. Djoser viu seu pai chorar agarrado ao filho mais velho, e também chorou ao pensar na possibilidade remota de também ter morrido. A dor seria ainda maior.

Henutmire então vai até o marido e o põe sua mão no ombro dele, fazendo Hur virar o seu rosto e olhar para ela. Henutmire ofereceu seus braços para Hur abraçar, e assim ele fez. Abraçou Henutmire como uma criança abraça a sua mãe tentando se confortar. —As mãos de Henutmire acariciavam Hur, suas palavras deixaram de existir ao ver a dor de seu marido. —Anippe e Djoser se abraçaram fortemente e olharam para seus pais. Os dois irmãos choravam abraçados como duas crianças órfãs, sentiam a dor de perder Uri.

—Eu estou aqui. —Henutmire fala tentando acalmar Hur. —Eu estou aqui para você chorar nos meus braços. —Ela fala enquanto abraça o marido com todo o amor que possa existir nela.

Hur se aninhou nos braços de Henutmire, pediu ajuda, pediu amor. Somente ele sabe a dor que está sentindo ao ver o filho morto, somente ele pode se lembrar de cada lembrança que tem com seu filho. Não só Henutmire ajudou Hur, Anippe e Djoser também abraçou Hur. E assim ficaram abraçados, chorando. Henutmire com mais uma criança no ventre e Uri morto por causa do orgulho que falou mais alto.