Notas iniciais
Hoje é o aniversário da Anippe u.u (Eu bem que mudei algumas coisas para esse capitulo não ficar gigante rsrss) Boa leitura!

Dias depois...

Vejo Anippe e Djoser conversarem animadamente já que hoje é aniversário da minha filha mais nova. Me sinto orgulhosa ao ponto de ficar prestes a chorar, todavia eu evito cada lágrima para não preocupar ninguém. Me sinto vazia com esses dias que passam devagar, minha barriga se torna mais notável. Ramsés vive falando pelos cantos que Moisés desistiu quando na verdade o meu filho está no Alto Egito em campanha diplomática. Fazem dias que não dirijo a palavra à Gab, na verdade, mal nos olhamos com o clima tenso entre nós dois. Sinto-me culpada pelo o que minha mãe fez com Nayla, mas ao lembrar das atrocidades de Gab, já não me sinto tão culpada. Eu custo acreditar que eu e Gab temos o mesmo sangue em nossas veias, não consigo acreditar que ele é meu irmão.

—No que tanto pensa? —Hur pergunta, assustando-me de súbito, ele se senta ao meu lado e passa a me observar, todavia eu não pretendo responder sua pergunta. —Está preocupada com Moisés?

—Com tudo. —Respondo ao suspirar pesadamente. —São tantos problemas que eu não sei por onde começar, Hur.

—Alguns não são seus. Se você se preocupar muito, vai acabar se matando aos poucos. —A palavra "matando" pesou ainda mais vindo dos lábios de Hur.

—Eu vou morrer mais cedo ou mais tarde assim como todos os outros, ninguém é eterno, nem mesmo as nossas histórias são por que podem ser muito bem apagadas por qualquer um. —Minhas palavras assustam o meu marido, todavia eu não sinto remorso por isso. —A verdade é que eu começo a achar que assuntos inacabados me prendem aqui.

—Como qual por exemplo? —Hur pergunta preocupado.

—Ter o que sempre quis pela última vez. Ter um filho. —Falo entristecida ao sentir a mão de Hur deslizar pelo meu ventre. —Falta pouco para completar quatro luas, e mesmo assim eu sinto que essa criança tem algo grandioso para cumprir. —Falo, mas eu olho para Anippe e Djoser. —Eu posso não ver essa criança crescer, mas só por ter visto Anippe e Djoser se tornarem adolescentes, eu me sinto completa.

—Você não deveria se contentar com tão pouco, Henutmire. Você vai ver essa criança crescer. —Hur é esperançoso enquanto eu estou convicta de que irei desfalecer na hora em que essa criança nascer.

—Você sabe que dia é hoje? —Pergunto em relação ao aniversário de Anippe.

—Aniversário de Anippe. —Hur responde ressentido. —Eu ainda não a parabenizei.

—Não perca tempo. —Aconselho, todavia Hur demonstrar que não consegue perdoar Anippe tão facilmente. —Anippe é nossa única filha e vai para Canaã. Já pensou na possibilidade de nunca mais vê-la? —Minha pergunta assusta Hur de tão forma que ele me olha amedrontado. —Vá até lá agora. —Peço. Hur então beija o meu rosto e vai até Anippe, assim que ele surge Djoser vem até mim.

—Eu não acredito no que estou vendo. —Meu filho brinca e me faz rir. —E o meu irmão está bem aí dentro?

—Pesa tanto quanto você pesava. —Ressalto. —Isso não parece ser real, Djoser. As vezes eu penso que tudo isso é um sonho é que eu vou acordar no momento em que descobri toda a verdade. A maior verdade que destruiu minha vida...

—Nada disso é um sonho, pode até parecer, mas não é. —Djoser tenta me confortar. —É obra de Deus.

—Você tem razão. —Falo para o meu filho, mas dou mais atenção a conversa de Anippe e Hur.

—Sei que está magoada comigo, assim como eu estou com você. —Hur começa a falar enquanto Anippe apenas escuta. —Mas hoje é seu aniversário e eu pensei que talvez hoje, mesmo sendo apenas hoje, eu e você possamos comemorar e conversar.

—Eu não sei... —Anippe fala pensativa, mas de imediato sorri para o pai. —Mas quem sabe dê certo. —Minha filha faz Hur sorrir e de imediato eles se abraçam carinhosamente enquanto eu observo tudo de longe.

—Eu vou até eles. —Falo ao me levantar, mas me sento novamente ao sentir uma dor muito forte em meu ventre.

—Mãe? —Djoser chama por mim e me apóia firme. —Se sente mal?

—Foi uma dor passageira. —Minto, a dor ainda é constante. Vejo Hur e Anippe ainda abraçados, todavia interrompo o belo momento ao gritar de dor. Meu grito ecoa pelo jardim, assim meu marido e minha filha olham para mim assustados. —Não,não,não... —Falo horrorizada ao ver o meu sangue dando contraste em minhas vestes. Começo a chorar de dor e também ao imaginar o que pode esta acontecendo com o bebê.

—O que aconteceu com você? —Hur pergunta assustado e então olha para o sangue. —Chamem Paser! —Hur ordena enquanto tenta me acalmar. —RAPIDO! —Meu marido grita apavorado e então nossos filhos saem atônitos. —Vai ficar tudo bem, meu amor. —Hur garante enquanto eu gemo de dor.

—É a mesma dor. —Falo em relação a dor que sinto agora e a dor que sentia ao perder todos os bebês por culpa de Yunet. —Eu estou perdendo a criança...

(...)

—A senhora quase sofreu um aborto espontâneo. —Paser revela e me faz temer pela minha vida. —Precisa de repouso, em hipótese alguma deve se levantar desta cama ou se aborrecer. —Ele pede.

—Está querendo me dizer que meu corpo não aceita a criança? —Pergunto ao saber que de fato a culpa é minha. Desta vez eu não tenho Yunet para me fazer mal, eu mesma quase matei essa criança. —Está me dizendo que...

—Que hoje eu salvei os dois, mas na hora que essa criança nascer, apenas um sairá ileso. —Paser é sincero e então eu volto a chorar. —Sinto muito.

—O que eu vou fazer? —Pergunto para mim mesma com medo do que pode acontecer. —Eu não posso ser tão egoísta a esse ponto.

—Eu lamento muito, soberana. É uma decisão muito difícil, eu sei, mas apenas a senhora pode decidir se segue com essa gravidez ou não...

—Me aconselha a abortar? —Pergunto surpresa. —Eu não teria coragem...

—O inevitável vai acontecer mais cedo ou mais tarde, senhora. A vida da senhora corre perigo tanto quanto a vida desta criança. —Paser ressalta mais uma vez. —A decisão está nas suas mãos.

—Eu vou embora daqui, Paser...

—Isso não vai evitar o pior. —Paser é sincero e então eu começo a chorar novamente. —Mais uma vez, eu lamento.

—Pode se retirar e avise aos outros que por enquanto não desejo ver ninguém. —Ordeno um pouco entristecida. Hoje é aniversário de Anippe, mas eu não me sinto feliz. Paser sai do meu quarto e em seguida eu posso ver pela pequena abertura que Ramsés e Hur estão do lado de fora.

—Como não? Eu sou o marido dela.

—E eu o irmão!

—Ela está muito deprimida...

—Ela perdeu a criança? —Ouço Ramsés perguntar.

— Não. —É a única coisa que Paser responde. —Mas deixem a rainha sozinha agora, tudo o que ela precisa é pôr os pensamentos em ordem.

—Isso vai piorar as coisas. —Ouço Anippe falar bravamente. —Irei ver minha mãe agora mesmo.

—Por favor, alteza. Sua mãe está passando por uma fase muito difícil e creio que sua presença não vai ajudar em nada. —Paser insiste.

—Eu sou a única filha dela, sacerdote. Saia da minha frente ou eu entrarei neste quarto após passar por cima de você. —Anippe esbraveja firme e então eu noto que o silêncio se estabeleceu em frente ao quarto, todavia o ruído da porta me faz olhar para o lado e ver Anippe entrar. Sua feições eram de pura bravura, mas ao me ver minha filha passa a ter um olhar doce.

—Não seja tão grossa com as pessoas, Anippe. Você sabe que intolerância e prepotência só te levam á amargura. —Falo seriamente e faço minha filha rir. —Venha, sente-se aqui.

—Eu quero saber como a senhora está. —Anippe fala ao reajustar suas vestes alaranjadas e em seguida me abraçar.

—Estou completamente confusa, Anippe. Em toda minha vida eu nunca tive que tomar uma decisão tão brusca, tão grave e ao mesmo tempo delicada. —Minhas palavras acabam por confundir minha filha. —Eu sempre soube o que fazer com você e seus irmãos, sempre tinha algo em mente desde o despertar até o adormecer. Mas agora com uma criança no ventre, eu não faço a mínima ideia do que fazer. Ou melhor, sei, mas seu pai não vai concordar.

—E porque ele não vai concordar? —Anippe pergunta ainda mais confusa. —O que a senhora pretende fazer?

—Quero que você leve seu irmão e seu pai para bem longe daqui, para além das fronteiras do Egito, entende? Quero que leve eles dois para Canaã...

—Mas, o que vai ser da senhora? Meu pai não vai partir sem a senhora. —Anippe fala o que já está determinado, porém eu tomo uma decisão drástica.

—A não ser que eu não esteja mais casada com seu pai. —Falo pausadamente e faço Anippe se assustar.Minha filha arregala os olhos de tão assustada que está, mas eu logo trato de falar o que penso em fazer. —Eu irei me separar de seu pai e ele será livre para ir.

—A senhora enlouqueceu? Quer matar o meu pai? Ele quase morreu de tanta tristeza quando foi para a vila e a senhora ficou no palácio! —Anippe fala ao levantar-se de súbito. —Ele vai morrer quando a senhora falar isso...

—Eu vou dar um jeito nisso, mesmo que magoe o seu pai...

—Mas como? Meu pai passou tanto tempo amando a senhora mesmo que de longe, com medo por que a senhora estava casada com Disebek, sofreu preconceito quando declarou o que sentia para no final de tudo a senhora simplesmente querer se separar dele por que acha, ou melhor, por que tem uma ideologia absurda de que a felicidade de meu pai é em Canaã e não no Egito. —Cada palavra de Anippe me magoou profundamente, porém eu não choro. —Meu pai ama a senhora. Quantas vezes eu já não vi meu pai perder a noção do tempo olhando para a senhora? Centenas? Não, mãe. Milhares!

—Anippe...

—Agora a senhora vai escutar. —Anippe fala de forma brava. —Quantas mulheres não desejam ser amada da mesma forma que a senhora é? Todas neste palácio desejam isso, mãe. —Anippe não me deixa alternativa a não ser ouvir. —Meu pai pode não ter lutado em batalhas, pode não ter ouro, pode até não ser um rei ou um príncipe, mas ele é o homem que salvou a sua vida. Ou acha que após a morte de Disebek, de meu avô e a partida de Moisés, o seu título de princesa iria saciar o vazio que estava em seu peito? Não iria, nunca fez isso, mas meu pai fez. E a senhora deve muito á ele.

—Por dever tanto á ele que devo deixar ele ir, minha filha. Seu pai sofreu muito quando jovem, Anippe. Ele merece voltar para a terra de seus antepassados...

—Se lembre de cada momento feliz com meu pai, mãe. —Anippe pede e então eu fecho os olhos, sinto que minha filha quer me fazer lembrar de cada momento para que eu desista da minha ideia.

Flash Back On

—O que é? —Pergunto ao ver Hur com uma pequena caixa amarelada em suas mãos. —Eu disse que não queria presentes.

—Hoje é seu aniversário, Henutmire. —Hur relembra enquanto eu recebo o presente em mãos. —Feliz aniversário, minha princesa. —Hur me felicita enquanto eu me sento em minha cama e abro a caixa.

—É magnífico. —Falo ao tocar no colar feito por Hur. —Você sempre me supera, Hur. Não há um dia em que você não me surpreenda...

—E eu não me sinto completo em te agradar todos os dias. —Hur brinca enquanto eu toco no colar delicadamente.

—Obrigada, meu amor. —Agradeço e então beijo o rosto de Hur, mas volto minhas atenções para o colar.

—Quero que use isso essa noite. —Meu marido pede acariciando os meus ombros. Sinto seus lábios em meu pescoço, todavia não me incomodo.

—Irei usar. —Atendo ao desejo de Hur. Meu marido põe seus lábios próximos ao meu ouvido e impõe uma condição.

—Quero que use apenas isso, Henutmire. —Hur impõe deixando claro o seu desejo. —Pode atender isso? —Meu marido pergunta enquanto acaricia o meu rosto e então beijo Hur fervorosamente de surpresa.

Flash Back Off

Pelas contas, foi nesta noite em que concebi Djoser. Tenho a certeza absoluta de foi nesta noite em que meu filho foi gerado. Aquela noite foi a melhor de toda minha vida, disso eu tenho certeza. —Hur não é apenas o meu marido, pai de meus filhos e meu amigo, amigo qual sabe mais de mim do que eu mesma. Hur é a minha alma gêmea, disso eu tenho certeza. —Somente eu sei o que esse homem foi capaz de fazer por mim nos momentos em que pensei em desistir, o que ele fez nenhum outro homem poderia fazer.

—Vai mesmo ter coragem? —Anippe pergunta enquanto me perco em meus pensamentos.

—E você acha que seu pai vai gostar de me ver morta? —Minha pergunta faz Anippe desabar no divã. —Por que isso vai acontecer quando essa criança nascer, Anippe. O melhor que posso fazer agora é esperar que Hur encontre outra mulher e seja feliz.

—Quando os mares secarem e deserto deixar de ser traiçoeiro, meu pai vai olhar para outra mulher. —Agora foi a vez de Anippe me deixar muda. —Eu acho bom a senhora não fazer nenhuma besteira contra meu pai, mãe. Caso contrário eu não seria a única a te estranhar.

—Eu só não quero ver o seu pai sofrer, Anippe. Eu vi Ramsés chorar feito um menino quando Nefertari morreu e sei que o amor deles era enorme, mas o amor entre mim e seu pai é ainda maior. —Falo magoada e então volto minhas atenções para o meu ventre. —Um amor que não cabe em nossos corações, filha...

—A senhora ainda não notou que Deus uniu vocês dois? Nada pode separar a senhora de meu pai a não ser o Senhor...—Anippe fala. —Mesmo que Miriã tenha sido uma dor de cabeça entre vocês dois.

—Mesmo assim.

—Mesmo assim? Mãe, me poupe. A senhora me cansa com esse assunto. —Anippe fala totalmente arrogante e prepotente. —O que aconteceu entre os dois foi algo passageiro. Se é que aconteceu algo...

—Miriã é infeliz por isso até hoje, Anippe...

—Meu pai não é o único homem da terra, mãe. Miriã pode se casar com quem ela quiser, meu pai não impede isso. Assim como a senhora deve parar de se culpar pela infelicidade de Miriã. —Anippe fala firme enquanto eu respiro fundo. —Miriã é apenas uma história qualquer comparada a história da senhora com meu pai. Meu poderia ter escolhido Miriã e ter esquecido a senhora por completo, mas ele não fez isso. Meu pai e a senhora se pertencem...

(...)

—Minha filha tem razão. —Falo para mim mesma estando sozinha. Anippe saiu daqui faz algum tempo, mas eu pedi para que ninguém entrasse. —Mas eu não quero que seu pai sofra. —Falo ao acariciar o meu ventre. —Se algo me acontecer e você for uma menina, tenho certeza que levará o meu nome. —Falo pensando na hipótese desta criança levar o meu nome como uma singela homenagem.

Levanto-me da cama com calma e vou até a porta com a intenção de ir atrás de Hur. Eu preciso conversar com meu marido agora, preciso ter ele comigo o quanto antes. —Ouço vozes calmas vindas do corredor, então ando mais devagar para não assustar ninguém. —Mas eu quem acabo me assustando ao ver Hur e Anippe juntos.

—Não vamos mais brigar até minha mãe se recuperar, posso conviver com isso. —Anippe fala tranquila e serena.

—Eu não te parabenizei como devia... —Hur tenta dialogar com Anippe, mas se sente envergonhado. —Hoje é seu aniversário...

—Não precisa se preocupar. —Anippe deixa claro que não se importa e faz Hur sorrir. —Eu vou me recolher, boa noite. —Anippe se despede, mas eu vejo Hur segurar uma das mãos de nossa filha com delicadeza.

—Eu posso te dar um abraço? —A pergunta de Hur faz Anippe sorrir. —Faz muito que não faço —isso. —Hur argumenta enquanto Anippe permanece calada. —E eu também quero te pedir perdão, minha filha. Eu não devia ter te tratado tão mal.

—Pai... —Anippe fala com a voz embargada e então começa a chorar. —Eu quem devo te pedir perdão, não o senhor. —Anippe fala e então se ajoelha diante Hur.

—Anippe, não! —Hur pede e então ajoelha-se também. —Não faça isso!

—Eu preciso, pai. Eu preciso! —Anippe fala enquanto chora. Ponho minha mão esquerda em meu ventre e me emociono ao ver pai e filha juntos. —Me perdoa, pai. Me perdoa! —Anippe pede,então é que Hur a abraça forte. —Eu fui muito injusta!

—Eu te perdoo, minha filha. —Hur perdoa Anippe e me faz chorar ao lembrar de meu pai. Ao ver Anippe e Hur em um momento tão belo e preciso como este, choro desolada por não ter feito o mesmo com o meu pai.—Filhinha querida, eu sabia que quando a mágoa permitisse, você víria ao meu encontro, até porque você sempre soube onde me encontrar. —Hur fala emotivo, mas eu acabo lembrando de meu pai. Por que eu posso sentir tanto remorso somente agora?

—Eu fui tão egoísta, não vi o quanto estava fazendo mal ao senhor. Eu me deixei levar por tanta coisa...

—Agora já passou. —Hur tranquiliza Anippe aos poucos e então segura nas mãos dela. —Agora eu me orgulho por ter você como filha, Anippe. Assim que completa quinze anos, faz algo nobre como pedir perdão. —Hur fala deixando claro o seu orgulho por Anippe. —Você é tudo aquilo que eu sempre quis ter. Sempre quis ter uma filha, mas eu não sabia como seria difícil ser pai de uma garota de personalidade tão forte e de coração valente. —Meu marido fala emocionado. —Eu me lembro até hoje de quando te pegava no colo...

Flash Back On

—Minha menininha. —Ouço Hur falar emocionado com Anippe em seus braços. —Você é minha e de mais ninguém. —Estranho o comportamento de Hur, mas mesmo assim sorrio. —Sua mãe tem Moisés, eu tenho Uri, nós dois temos Djoser, mas você... —Hur olha bem para o rosto de nossa filha e então chora. —Você é muito especial, sabia? A joia rara da nossa família, Anippe. Você tem três irmãos e é a mais nova de todos os três, filha da princesa do Egito e sobrinha do faraó. Mas acima de tudo é minha filha.

—Nossa. —Falo baixo para não chamar a atenção de Hur.

—Amo a sua mãe, mas desde que você nasceu, você se tornou a mulher mais importante de toda minha vida. —As palavras de Hur me fazem chorar. Eu então abafo o meu choro para que Hur não me veja, então meu marido beija a minúscula mão de nossa filha e chora. —Você é muito mais que uma princesa, Anippe. Você uma dia será rainha, minha filha. —Hur fala emocionado e me faz pensar, mas talvez isso seja apenas zelo de pai.

—Hur. —Chamo meu marido e então Hur aninha Anippe em seus braços. —Te procurei por todos os lados...

—Aconteceu alguma coisa com Djoser? —Hur pergunta preocupado.

—Nosso filho está bem, dormindo como um anjo. —Respondo. —E nossa princesa? Não consegue dormir? —Pergunto ao ver toda a dedicação de Hur com Anippe.

—Eu estava apenas conversando com ela. —Hur fala ainda atencioso com nossa filha. Anippe então olha para nós e fixa seu olhar, nos fazendo rir. —Todas as noites eu venho no jardim com ela.

—Foi justamente aqui que nós dois começamos a escrever a nossa história. —Falo nostálgica e faço Hur sorrir. —Foi aqui que seu pai declarou seu amor por mim, filhinha. —Falo tocando nas mãos de Anippe. —Ela é tão pequena, Hur... —Falo ao olhar para Anippe com carinho. —É tão linda...

—Anippe se parece com você. —Hur acaba me elogiando. —Ela tem seus olhos.

—Eu queria que ela tivesse os seus olhos. —Falo e faço Hur sorrir. —Me faria lembrar de você todos os dias.

—E para quê você quer uma lembrança minha se pode me ver todos os dias ao seu lado? —Hur pergunta enquanto aproxima seu rosto do meu, mas Anippe começa a chorar e atrapalha o momento.

—Acho que alguém ficou enciumada... —Falo. Hur então volta suas atenções para Anippe enquanto eu acaricio o seu rosto, e fico feliz por ter Hur ao meu lado.

Flash Back Off

—Me abrace novamente. —Anippe pede enquanto eu enxugo as minhas lágrimas para então ir até os dois. Meu marido então atende o desejo de nossa filha, mas é então que eu apareço para os dois.

—Hur? —Finjo estar sonolenta ao chamar pelo meu marido, mas assim que os dois me vêem, ambos levantaram-se e vieram até mim. —Já está tarde...

—Se sente melhor? —Meu marido pergunta preocupado.

—Bem melhor. —Respondo sorridente. —Mas eu estou muito cansada. —Respondo ao olhar para Anippe. —Onde Djoser está?

—Com Yaffa. —Anippe responde e revira os olhos. —Sinceramente, eu prefiro Halima. Ela ama o meu irmão, mas ele não vê isso! —Anippe ressalta e me faz rir.

—Eu já ouvi essa história antes. —Hur brinca ao se lembrar da época em que ele vivia pelos cantos e tentava esconder o que sentia por mim. —Parece que, até nisso, Djoser se parece com você.

—Mas o que eu não entendo é como Djoser e Yaffa estão tão próximos. —Falo ao lembrar do meu passado com Amun.

—Ciúmes? —Anippe pergunta risonha.

—Não, não é isso. Eu apenas me preocupo com o seu irmão. —Falo.

—E Yaffa é tão perigosa assim? —A pergunta de Anippe faz Hur me olhar com uma certa dúvida, porém eu mudo o rumo da conversa.

—Eu acho que estou protegendo seu irmão, Anippe. Yaffa acabou de chegar e muito em breve vai partir. —Minto. —Gab já está curado, Amun não precisa mas estar aqui.

—E por falar nele... —Hur fala pausadamente e olha para o lado. Me deparo com Gab, mas assim que ele me vê, o príncipe bastardo dá meia volta e vai embora.

—Tudo o que eu quero agora é que Gab vá embora. —Desejo ansiosamente pela ida de Gab.

—Se esse escândalo sair do palácio, podemos correr o risco em vivenciar uma rebelião. —Hur afirma preocupado. —Muitos poderiam pedir que Ramsés entregue o trono e Gab assuma-o.

—Seria um escândalo em toda a história do Egito. —Falo aterrorizada ao imaginar Gab no trono. —Não sei como isso ainda não aconteceu.

—Parece que Gab não é tão ambicioso como eu pensei que fosse. —Anippe brinca com a situação. —Mas se ele assumisse o trono, talvez a senhora pudesse ir embora daqui.

—Anippe tem razão. —Hur concorda animado com a hipótese. —Ramsés não seria mais o rei e...

—E ficaria sozinho caso eu vá embora. —Minhas palavras ferem o meu coração ao imaginar tal coisa. —Eu não sei o que fazer.

—Deve se preparar para partir, mãe. A senhora sabe muito bem que aqui não é o seu lugar. —Anippe fala o mesmo que minha consciência, porém eu temo pelo o que me aguarda ao sair do Egito.

Talvez eu esteja com medo pelo fato de nunca ter feito tal coisa, mas quem sabe eu esteja com medo de perder a vida que tenho aqui no palácio. Sair do Egito é o mesmo que abandonar tudo o que eu vivi, mesmo os momentos ruins que aqui passei, eu ainda me sinto mal ao pensar em partir. Já não tenho mais a mesma coragem de antes, talvez isso tenha um nome: Covardia.

—Mãe? —Anippe chama por mim e me faz voltar á realidade. —A senhora ficou calada de repente.

—Estou pensando em como sair do Egito. —Falo nitidamente preocupada. —Ramsés pode querer fazer algum mal á Moisés, ou até mesmo á mim.

—Ele não pode fazer nada contra a senhora. A senhora é a rainha... —Anippe rebate.

—Ao sair do Egito de certa forma eu estou renunciando o que tenho, Anippe. —Respondo. Se eu sair deste reino não serei mais rainha, não serei mais princesa, não serei nada além de uma mulher vagando pelo deserto rumo a Canaã. Em parte estarei deixando de ser eu mesma, mas pensando melhor toda essa riqueza não me faz bem.

—Vamos mudar de assunto. —Anippe pede estratégica e então põe sua mão delicada em meu ventre. —Eu quero muito saber como a minha irmãzinha será.

—Por que insiste tanto que será uma menina? —Hur pergunta e então eu espero ansiosa pela resposta de Anippe.

—Eu sempre quis ter uma irmã. As vezes eu me sentia filha única, eu tinha Djoser e Uri, mas não poderia ser a mesma coisa que ter uma irmã e poder dividir tudo o que eu tenho. —Anippe fala um pouco entristecida, mas de imediato volta a acariciar o meu ventre. —Eu não vou estar aqui quando ela nascer, mas eu já posso sentir o quanto ela é especial.

—Vamos falar de você para ela, sempre. —Hur promete e assim toca no rosto de Anippe.

—Vai suprir a falta que irei fazer. Quem sabe até dê mais alegrias que eu dei, talvez até seja uma filha mais disciplinada do que eu. —Anippe fala risonha, mas é então que sua mão segura a minha e seus lábios a beijam em forma de respeito.

—Como uma vez eu já disse, um filho não ocupa o lugar de outro. —Falo emotiva ao ver a dor nos olhos de Anippe. É a primeira vez que vejo essa dor refletida no seu olhar, a dor que eu não imaginei ver em minha filha. Mas por que todo esse sofrimento no olhar de minha filha?

(...)

—A senhora não deveria ter vindo aqui. —Anippe fala ao me ter como sua companhia ao passear as margens do Nilo. —O dia mal amanheceu e a senhora já está fora do palácio.

—Eu gosto de vir aqui, me trás boas lembranças. —Falo ao andar de mãos dadas com minha filha enquanto minha outra mão está sobre meu ventre.

—O mesmo rio, mas não as mesmas águas que vão indo rumo á algum lugar que nem mesmo nós duas sabemos onde é e como é. —Anippe fala um pouco pensativa.

—Não vai nadar? —Pergunto sugestiva e então Anippe pensa.

—Agora mesmo. —Minha filha responde e então entrega sua peruca para a minha dama.

Anippe se desfaz de suas vestes e por último retira a enorme fita de seda de sua cintura, mas a deixa cair na água propositalmente e sorri em seguida. Vejo os fios claros de minha filha crescerem pouco a pouco, ela de fato está deixando suas origens hebreias falarem mais alto. —Sorrio ao ver que Anippe de fato é uma bela moça com traços de mulher, mas com um coração valente e indomável. —Eu não sei de onde vem tanta beleza todas as vezes que olho para Anippe, mas eu me sinto orgulhosa por ter uma filha tão bela como ela.

—A princesa não se cansa mesmo. —Karoma fala ao ver Anippe mergulhar nas águas do Nilo e em seguida olhar para nós.

Sorrio ao ver Anippe se divertir como uma criança na água, mas ao mesmo tempo ser tão atraente como uma mulher. Suas pernas parecem deslizar pelas águas assim como seus braços, minha filha flutua de bruços sem se preocupar com nada e fecha os olhos se deixando levar. Vejo seu sorriso brilhar mais que os raios de sol que me aquecem, mas que não podem competir com o brilho de minha filha. Vejo as vestes brancas de minha filha riscarem as águas sagradas do Nilo, assim como os pássaros rasgam o céu azul e limpo.

—Minha filha de fato é uma princesa indomável. —Falo orgulhosa por ver Anippe tão feliz.

—Soberana. —Yaffa faz uma reverência á mim ao me ver. —Como se sente?

—Muito bem, minha querida. Veio passear? —Minha pergunta entristece Yaffa. —Por que um rostinho tão angelical está tão triste? —Pergunto ao segurar o queixo de Yaffa. —Por acaso está aborrecida?

—É um assunto pessoal. —Yaffa fala ao olhar para Karoma, que em seguida se retira ao ver que a moça quer conversar comigo sem ninguém por perto. —Meus pais brigam com muita frequência desse que chegaram aqui.

—E qual é o motivo? —Pergunto temendo a resposta.

—Parece que meu pai ama outra mulher. —Yaffa responde. —Vi minha mãe falar para que meu pai esquecesse essa tal mulher, mas ele disse que era impossível pois amava essa mulher desde jovem.

—Seu pai disse isso? —Pergunto incrédula, até por que essa mulher sou eu. Não é possível que Amun ainda me ame e que Oritia saiba disso! Meu Deus! Estou destruindo o casamento deles. —Minha querida, não se deixe abater pelos problemas de seus pais. —Falo e então vejo Anippe acenar para nós. —Vá nadar com Anippe, Yaffa. Isso vai te fazer bem. —Sugiro e então Yaffa se desfaz de seus adornos e de sua peruca, sem se importar, ela os joga na areia e entra na água.

Mesmo sabendo que Yaffa é uma moça de boa índole, de todo modo não a aceito como pretendente de Djoser. Sei que ainda é muito cedo para intervir nesse assunto, mas ao lembrar que Halima é perdidamente apaixonada por meu filho e que Yaffa é filha do sacerdote que é apaixonado por mim, prefiro pensar em interromper os planos de Ramsés. Não quero que futuramente um neto meu tenha o mesmo sangue que Amun, já sinto muito por Amenhotep ter o meu sangue e o de Yunet em suas veias, não quero mais imaginar tal coisa acontecendo novamente.

Todas as vezes que eu fecho os olhos e me lembro de Halima sinto como se essa moça e eu tivessemos muita coisa em comum. Embora eu não tenha convivido com ela, apenas ter conversado alguns instantes, eu sinto como se Halima tivesse grande importância para mim.

—Posso saber o que faz aqui? —Hur pergunta preocupado, mas ao mesmo tempo sereno em me ver bem e pensativa.

—Vim passear. —Respondo ao olhar para Anippe e Yaffa juntas. Hur então entrelaça sua mão na minha e começamos a caminhar de mãos dadas pelas margens do rio Nilo.

Vejo um sorriso transparecer o rosto do homem que eu amo, posso sentir a felicidade vindo de sua alma, de seu coração gentil e nobre. O coração que é meu, que é meu lugar e é onde eu estou faz vinte anos. Em cada detalhe do rosto de Hur, sorrio feliz por tê-lo ao meu lado por todo esse tempo. —Sua mão acaricia a minha enquanto andamos juntos. —Eu então paro de andar e Hur me olha sorridente.

—Cansou? —Hur pergunta ao se preocupar comigo.

—Estou bem assim como os outros...

—Mas os outros não tem uma criança no ventre como você. —Hur brinca ao pôr suas mãos em meu ventre. —Não está muito grande para tão pouco tempo?

—Se a criança é grande... —Brinco e faço Hur rir de mim. Surpreendo Hur com um beijo, sinto como se esse fosse o nosso último momento sendo felizes juntos, meu coração bate tão forte que somente o carinho de Hur pode me acalmar neste momento. —Eu te amo. —Falo ao olhar bem nos olhos de Hur e fazê-lo sorrir. —Nunca se esqueça disso, Hur...

Notas finais
Essa Henutmire tem cada uma...