Coração De Seda
105 Capitulo 105
Notas iniciais
—Ela não se parece com você. —Elda fala ao olhar para minha filha que está adormecida na cama. —Talvez os olhos, mas o resto... —Ela fala pensativa. —A boquinha... —Elda fala me dando a esperança de que os lábios de minha filha sejam parecidos com os meus. —Me lembram os de sua mãe. —Elda fala me desanimando. —Ashira não parece ser sua filha, Anippe. Mas quem sabe com o passar do tempo ela se pareça com você. —Fala presunçosa. —Ainda está doente? Digo, é certo que uma mulher fique debilitada ao ter um filho. Mas você mais parecia uma leprosa de tão doente que estava.
—Elda! —Repreendo a mulher, mas acabamos rindo. —Estou bem melhor se quer saber. —Falo ao arregalar os olhos. —As dores eram insuportáveis, me rasgavam de dentro para fora.
—Mas você não perdeu sua beleza. —Elda fala soberba. —Foi até melhor você ficar... Incapacitada de ter filhos, Anippe. Não sei se uma segunda gravidez lhe faria bem.
—Não pretendia ter filhos, mas Ashira foi uma...
—Um erro. —Elda fala sem pensar. —Um pequeno deslize, eu sei. Ser mãe tão jovem e perder seu tempo cuidando de algo tão pequeno, frágil. Você não nasceu para isso, Anippe.
—Para isso? —Indago.
—Você não nasceu para proteger os frágeis, fracos e incapacitados. Você, Anippe, nasceu apenas para mostrar ao fracos que é forte, não que deve proteger eles. —Elda fala e eu acabo concordando. —Mas, parabéns pela filha que acaba de ter. —Ela parabeniza. —Ela pode ser frágil e chorona agora, mas quem sabe daqui a alguns anos se torne alguma coisa mais interessante. —Elda fala maliciosa e eu acabo rindo da situação. —Quantos anos Lyanna tem?
—Cinco anos. —Respondo.
—Bom, muito bom. —Elda fala. —Eu não me simpatizo com crianças, mas sua irmã caçula me cativou.
—Interessante. —Falo pensativa.
—Chamam sua mãe por algo que achei interessante aqui no Egito. Alguns chamam ela de Ísis, mesmo não acreditando mais nesta deusa. Mas chamam Henutmire assim pelo fato de vê-la como "mãe do reino". —Elda fala me fazendo ter orgulho de minha mãe. —Mas também chamam ela por Coração De Seda.
—Por poucos possuírem o coração valioso dela. —Falo.
—Nem você, nem Djoser são como ela. Lyanna é como Henutmire. Eu vejo isso todas as vezes que olho para essa menina, Anippe. Lyanna deveria ter nascido primeiro para poder ser a rainha. —Elda fala me causando um certo ciúme. —Pelo o que soube Gab deixou Lyanna como sua herdeira no reino da Núbia. Com a morte dele sua mãe terá que cuidar da Núbia até Lyanna ter idade suficiente.
—Gab não morrerá. —Falo. —Não vou deixar isso acontecer.
—Como você vai fazer isso? Acaba de ter uma filha. —Elda fala, acabando por tirar minha paciência.
—Você não teve filhos e foi capaz de perder o seu reino. —Falo desafiante. —Você está aqui por ajuda, Elda. Porquê não tem marido, não tem herdeiros, não tem ninguém além da sua coroa que agora não vale nada. Se meu irmão te aceitou aqui foi por piedade porquê nem cultuar seus deuses você pode. A rainha deste reino sou eu, não você. Ponha-se no seu devido lugar antes que eu te entregue para Amun em troca de Gab.
—Essa é a verdadeira descendente de Seti. —É a única coisa que Elda consegue falar depois do que acabo de dizer. —Não esperava menos de você.
—Espere muito mais do que você possa imaginar. —Falo desafiante. —Sou mais imprevisível que as tempestades de areia.
(...)
—Você a ama. —Falo ao ver Zion balançar Ashira nos braços.
—Ela é minha filha. —Zion fala inocente e então sorrio. Meu marido põe minha filha na cama novamente e então vem até mim. —Preciso conversar com você.
—Sobre? —Pergunto sugestiva.
—Eu sei que você está com um certo peso na consciência por não poder ter mais filhos. —Zion fala tranquilo enquanto eu começo a ficar nervosa. —Mas você não tem culpa, Anippe. Ashira já basta.
—Eu sei que não. —Falo. Ashira não é filha de Zion, sendo assim nunca darei um filho para ele.
—Ashira é nossa filha. —Zion fala enquanto me segura delicadamente pelos braços. Sorrio forçado por estar enganando ele. —Se for da vontade de Deus que ela seja nossa única filha, assim será.
—Mas, eu pensei que fosse justo te dar um filho. —Falo em relação à Ashira não ser filha de Zion. Meu marido me olha confuso e então tento me redimir. —Um filho homem. —Falo fazendo Zion sorrir.
—Como eu já disse. —Meu marido fala e então beija o topo de minha cabeça. —Nossa filha já basta. —Zion fala conformado. Sinto seu rosto bem próximo ao meu, nossos lábios ficam prestes a se unirem, mas somos interrompidos pelo choro de Ashira. —Eu não poderia esperar menos. —Zion fala ao pegar Ashira nos braços. —Sempre chamando atenção como a mãe fazia.
Ao olhar para minha filha tenho a certeza que não será nada fácil ser mãe. Não sei o que posso estar sentindo, mas algo me diz que terei que enfrentar muitas coisas por Ashira. Eu já enfrentei muitas coisas em minha vida, sem ter medo de nada. Nunca pensei na possibilidade de todos me negarem ajuda ou atenção por eu ter sido uma filha tão má. E é exatamente por isso que chego a conclusão que a vida me fez estéril após o nascimento de Ashira. Esse castigo é dado por eu ter maltratado tanto minha mãe. Se minha filha vai ou não me fazer passar pelo o que fiz a minha mãe passar, eu não sei. Apenas sei que já falhei com ela em mentir sobre quem é seu pai, assim como falhei com Zion. Faço ele pensar que a menina é sua filha, e será a única. Sabendo que nunca darei filhos para ele, e que ele nunca terá sua descendência. Mas isso não pode ser corrigido agora! Terei que conviver com a consciência pesada pelos restos dos meus dias e sorrir quando Ashira chamar Zion de “pai”. Por ter enfrentado meu pai diversas vezes, hoje não posso dar o verdadeiro pai de Ashira para ela.
(...)
—Ande devagar, Anippe. —Leila pede ao ver que, mesmo um pouco melhor, não consigo parar de sentir dor.
—A dor sempre vem daqui. —Falo ao pôr minha mão abaixo de meu ventre. —Mas faz com que minhas pernas fiquem bambas. —Falo ao tentar ir até o divã. —E Paser que não volta com minha filha? —Pergunto preocupada.
—Ele sabe o que faz, Anippe. Ashira não é uma criança saudável mas também não é uma criança totalmente doente. —Leila fala tentando me convencer de que minha filha está bem.
—Ela não para de chorar. —Falo. —As vezes não entendo o motivo de seu choro.
—Você já entende cada choro dela? —Leila pergunta.
—Sim, cada um. Já sei quando ela sente fome ou sono, mas todas as vezes que ela chora desesperadamente... É como se minha filha sentisse dor. —Falo aflita. —Eu fico nervosa e então minha mãe quem acalma Ashira.
—Vai ficar tudo bem com sua filha. —Leila fala tentando me passar alguma esperança. —Quando você menos esperar, sua filha vai estar com você.
—Eu não vou ficar aqui parada. —Falo ao me levantar do divã rapidamente. —Acho que vou para o jardim.
—Eu ajudo você. —Leila fala ao me apoiar para sair de meu quarto. Fazem dias que estou trancafiada aqui. Não sei mais o que é sair de meu quarto desde que minha filha nasceu.
(...)
Com muito esforço consigo chegar no jardim real do palácio. Mas meu corpo inteiro começa a perder suas forças. Acabo me sentando novamente e respiro fundo ao me sentir tão fraca. Nunca pensei que ter um filho fosse me deixar assim. Se eu tivesse certeza da morte ficaria tranquila e assim essas dores acabariam assim como eu. Meu coração parece um tambor dentro de mim, penso que a qualquer momento ele vai sair pelo boca ou explodir. —Somente o canto das aves consegue me acalmar, mesmo que a dor perdure. —Talvez meu coração esteja tão fraco como o de Ashira.
—O que faz aqui? —Meu pai pergunta assustado. —Você não deveria estar descansando?
—Eu não aguento mais ficar trancafiada. —Falo fazendo meu pai rir.
—Ela não vai sair correndo por aí. —Leila fala me fazendo rir. Meu sorriso se desfaz ao sentir tudo em minha volta girar.
—Anippe? —Meu pai chama por mim e então se senta ao meu lado. —Minha filha, você não está nada bem.
—Beba um pouco. —Leila fala ao me oferecer um pouco de água. —Não pode se esforçar tanto.
—Isso não foi esforço algum. —Falo um pouco brava por saber que estou tão doente. Isso não é normal, já passa do sensato. Eu sinto como se algo mais forte que eu estivesse me rondando enquanto minhas forças se esvaziam de meu corpo. Deixo a taça escorregar de minhas mãos e então olho incrédula para meus dedos. Por alguns instantes minha mão perdeu sua força e acabei soltando a taça sem nem me dar conta.
—Chame Paser, Leila. —Meu pai pede ao me ver trêmula como nunca estive antes. —Sente dor em algum lugar?
—No meu ventre. —Falo ao tentar oprimir a dor com minhas mãos. —É como se houvesse lâminas dentro de mim. —Falo prestes a chorar. Meu pai tenta me acalmar, mas eu não posso ficar calma sentindo tanta dor.
Meu pai enxuga minhas lágrimas, tenta me ajudar de alguma forma, mas eu não consigo pensar em nada. Eu não entendo porque essas dores vem e vão repentinamente. Seguro firme no braço de meu pai, fazendo com que ele me olhe assustado, mas somente assim consigo esquecer que estou sentindo dor.
(...)
—O que são essas dores? —Indago já mais calma, olhando para Paser.
—Falta de repouso. —Paser adverte. —Sei que a senhora quer trazer o príncipe Gab para o palácio novamente e acabar com a guerra, mas não pode fazer nada agora. Acaba de ter uma filha, querendo ou não está frágil e doente. De nada vai adiantar para o reino uma rainha fraca e doente, soberana. —É a primeira vez que Paser fala tão seriamente comigo. —Sei que a senhora tem boas intenções, mas o príncipe Gab tem como irmã a senhora Henutmire. Ela mais cedo ou mais tarde vai saber o que fazer.
—Tem razão. —Falo e então olho ao meu redor e não vejo Ashira. —E minha filha?
—Está com a avó. —Paser fala e então vem até mim. —Eu preciso lhe alertar sobre algo muito grave.
—Sobre a saúde de minha filha? —Indago nervosa.
—Exatamente sobre isso. —Paser fala e então suspira. —A rainha mãe, a senhora Henutmire, tem o coração mais valioso deste reino, o coração de seda. Assim como a senhora tem o coração valente que todo reino precisa agora. —Paser fala e então segura minhas mãos. —Mas vossa filha tem o coração frágil, fraco, que pode parar a qualquer momento.
—Está querendo me dizer que...
—A princesa Ashira não é saudável. —Paser revela. —O motivo de seu choro repentino são as dores que ela sente.
—A minha filha vai morrer? —Pergunto já com lágrimas nos olhos. —É isso que você quer me dizer? Que minha filha vai morrer? —Indago nervosa.
—Seu coração é frágil, pode parar a qualquer momento. —Paser afirma e então meu choro é inevitável. —Eu lamento muito, soberana.
—Eu lamento mais. —Falo infeliz. —Eu não acredito. —Falo perplexa. —Ashira é minha única filha, sempre será. —Falo ao lembrar que agora sou infértil. —Não posso perder minha única filha, minha primogênita, minha herdeira. Deus não pode fazer isso comigo. —Falo evidentemente nervosa. Isso acaso é um castigo? Deus está fazendo por onde eu não ter minha descendência? Deus pode tirar minha vida, mas não minha filha. Se for possível, darei minha vida para que Ashira viva.
Ashira é minha filha. Futura rainha do Egito já que é minha filha, governará ao lado de seu primo já que ele é o herdeiro de meu irmão. A sucessão de reis e rainhas no Egito mudou bruscamente, não será agora que vai terminar. Minha filha não pode morrer, e ela não vai! Ela não tem culpa do que eu e Arão fizemos. Pelo amor que eu ainda julgo ter por Arão, prefiro sofrer as consequências por ele. Pelo amor que tenho pela minha filha, prefiro morrer em seu lugar. Minha vida pode não ser nada perante aos olhos de alguns, mas algo ela deve valer aos olhos de Deus. E eu espero que esse valor seja suficiente para livrar Ashira do caminho que a vida lhe reserva.
—Ainda bem que chegou. —Falo ao ver minha mãe entrar com Ashira em seus braços.Minha filha estava vestida em tecidos amarelos e a manta que minha mãe usava para protegê-la era branca. —Por favor, me deixe sozinha com ela. —Peço para Paser. Logo o sumo sacerdote se vai se meu quarto, me deixando apenas com minha mãe. —Preciso conversar com a senhora.
—Eu já sei qual o assunto. —Minha mãe fala e então põe Ashira em seu cesto aninhada por pequenas almofadas. A doce criança solta um barulho e ergue os braços, olhando para minha mãe, como se fosse a sua. As vezes eu me sinto a ama de leite de Ashira pelo fato de minha mãe ser mãe dela também. —Paser me contou que Ashira tem pouca saúde.
—Eu também. —Falo. —Mãe... —Chamo-a enquanto meus olhos lacrimejam. Ela olhou para mim de longe, com sua mão perto de Ashira. A luz das lamparinas brilhavam em seus cabelos loiros, menores que os meus. E que certamente Ashira também terá. —Se eu morrer...
—Não me peça isso...—Ela interrompe nervosa. Será tão difícil enterrar sua primeira filha? Aquela que herdou todos os seus traços físicos?
—Cuide de minha filha. —Peço. —Eu pedi isso para Djoser, sei que ele vai fazer isso. Mas a senhora é minha mãe, avó de Ashira. Crie minha filha até onde puder. —Peço pensando no pior que pode me acontecer, —Eu não estou tão saudável como antes, mãe.—Afirmo devastada.
—Logo, logo você vai estar totalmente recuperada. —Minha mãe fala tentando fingir que a situação não é grave. —Você não pode pensar que vai morrer, Anippe. Você nunca teve medo de nada...
—Eu tenho medo apenas de morrer e deixar Ashira sozinha. —Falo. —Por isso eu não queria filhos. Porquê quando eu me tornei mãe... Eu vi o mundo tão perigoso como ele é. —Alerto.—Eu antes tinha medo de sentir medo, nada mais disso. Fazia sempre por onde não me amedrontar ou transparecer algo que eu não queria. Nunca quis amar, nunca quis ser mãe. Mas quando eu recebi o amor de Arão, tudo mudou. Eu mudei... Mudei e pensei que iria esconder isso de todos, mas logo Ashira foi crescendo dentro de mim. E quando Ashira nasceu, Anippe morreu. E agora não sei mais quem sou!
—É apenas uma fase. —Minha mãe fala e então choramos juntas. —Tudo isso vai passar, eu prometo. —Ela fala e em seguida beija meu rosto carinhosamente. —Eu confio em você. —Ela fala risonha. —Hoje, amanhã, para sempre. Você não vai falhar. Você não é perfeita, mas você não vai falhar. —Ela fala e então segura minhas mãos. —Você é Anippe, a Rainha. —Minha mãe fala conseguindo levantar o meu ego. —Pare de reclamar. —Pede momento que nossos olhares se encontram. Ela tem razão, não posso reclamar estando onde estou.
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