Coração De Neve
8 Capítulo 8 - Previsão de Nevasca
Notas iniciais
O Filho de Ares ficou encarando o Filho de Atena. Enquanto isso Chris estava se segurando para não rir descaradamente e eu tenho a ligeira impressão que ela sabe ou notou algo que eu não estou percebendo. Merlin tentou entrar no Chalé, mas Jacob se colocou na frente e impediu sua entrada. Ambos olharam para mim, supostamente esperando uma atitude minha. Dou de ombros e o Jacob bufa de raiva, fechando a cara e empurra o outro garoto para poder abrir caminho. E lá vai ele embora, me deixando curioso para saber o que ele estava fazendo aqui. Esse lugar é mesmo muito estranho, só tem gente maluca. Merlin então sorri, se sentindo vitorioso.
- Posso entrar? — ele me questiona ainda segurando os chocolates. — Preciso falar contigo a sós.
- Não há nada que eu possa conversar contigo, que a Chris não possa saber. — falei antes mesmo dela lançar uma resposta ríspida a ele. — Desculpe, não quis parecer grosso.
— Tudo bem então. — ele parecia bem desapontado.
Convido-o a sentar na cama, ao meu lado e Chris se senta encosta em uma parede, bem próxima a fonte de água que fica no centro do Chalé. A luz da janela irradia sobre a água e uma vez ou outra um pequeno arco-íris se forma com sua beleza tão sutil. Paro para reparar bem no garoto ao meu lado e percebo que ele deve ser um pouco tímido, contido. Porém não foi isso que eu vi la na floresta, quando ele parecia bem forte e determinado. Seu cabelo enrolado me intriga e eu acabo me perdendo em pensamentos. O que tem de errado comigo? Eu tenho observado as pessoas de maneira diferente ultimamente e minha personalidade sarcástica tem se perdido um pouco. Talvez sejam as turbulências dos últimos acontecimentos.
- Você sabe o que é aquela criatura que nos atacou? — Merlin perguntou, interrompendo assim os meus pensamentos.
- Não faço à menor ideia. — respondo meio atônito. — Ainda não frequentei as aulas de "Criaturas Estranhas e suas Manias".
- Aqui não é uma Hogwarts Pobre. — Chris me fuzilou com seu olhar.
- Por falar nisso... — decido procurar respostas para minhas dúvidas. — O que você estava fazendo na floresta, naquele momento?
Por alguns segundos ele vacilou. Agora sei que há algo errado. Acho que ele não estava esperando por essa pergunta e sua expressão estava variando bruscamente. Chris também notou e nos entreolhamos, buscando explicações um no outro. As palavras pareciam fugir do vocabulário do Filho de Atena. Ironia, uma vez que eles deveriam ser tão sabe-tudo.
- Eu estava patrulhando a zona oeste da floresta. — ele enfim conseguiu responder alguma coisa.
- Não há patrulhas na floresta. — Chris respondeu como se já fosse uma campista experiente.
- Como você sabe disso? — a questionei.
- Dianna me contou. — Acho que ela se arrependeu ao dizer isso seu rosto corou imediatamente.
Levanto-me da cama em um salto. O que ela acabou de dizer? Dianna a informou que não há patrulheiros na floresta? Desde quando elas tinham essa troca de assuntos? Pelo que me lembro, antes do momento em que eu fui parar na floresta, A Filha de Perséfone estava quase matando a Chris.
- É que... — E ela nunca terminou essa resposta.
Chris foi interrompida pelo susto e não foi somente ela. Merlin estava tão pasmo quanto eu, embora o que aconteceu não fosse novidade para ele. Quanto a mim, estou tentando entender como inseriram o Skype na fonte de água, pois eu estava vendo o rosto de um homem através de uma projeção. Quando realmente eu prestei atenção em seu rosto, fui me movimentando para trás, até esbarrar em uma parede. Seu rosto é dolorosamente familiar e minhas lembranças ruins retomam a minha mente. Eu sabia quem ele era, porém agora eu sabia qual a sua relação comigo.
- Filho, você precisa sair daí, imediatamente. — Poseidon falou através da projeção na fonte.
- Um dos três grandes usando Mensagem de Íris para seu filho? — Merlin questionou, mas foi ignorado.
- Eric, sua vida está em risco. — eu ainda estava muito chocado para tentar dar importância ao que estava sendo dito. — Você não tem muito tempo. Vá para os estábulos e...
A imagem se desfez junto com o raio de sol que estava vindo da janela, produzindo o pequeno arco-íris. Logo não havia mais nenhuma luz natural iluminando o meu chalé e Merlin correu até a janela para observar o que estava acontecendo. Foi só então que eu comecei a pensar de verdade. Corro para janela e fico ao lado dele e noto que não era mais dia e sim noite. O que diabos estava acontecendo? Quando eu acordei era noite e foi o momento em que a Chris chegou. Pouco tempo depois era dia e o sol estava até entrando pela janela. Por alguma razão minha mente processou que era dia e eu estava crente nisso, mas não era somente eu. Nós três estávamos tentando entender o que estava acontecendo, que tipo de devaneio nós tivemos.
- As estrelas estão sumindo. — Chris apontou para o céu através da janela.
- Eu agora entendo por dizem que esse lugar é o único seguro para pessoas "como nós". — frizei bem as aspas, quando nesse momento Merlin resolve abrir a janela para ver melhor.
Uma brisa intensa e gélida entrou no Chalé e quase nos derrubou. Estava fazendo um frio intenso e vi dezenas de semideuses correndo armados na direção das fronteiras mágicas do acampamento. O céu continuava a ficar cada vez mais sem estrelas, como se tivesse algo as cobrindo.
- Precisamos ver o que está acontecendo. — praticamente dizemos em uníssono.
Saímos os três pela porta e deparamos com o Jacob. Ele parecia surpreso ao praticamente se esbarrar conosco e em suas mãos estava uma lança, que tive a impressão de estar carregada eletricamente. Ele me segura pelo braço e sai me puxando. Chris e Merlin vêm em nosso encalce e eu tento protestar, gritar, pedir para que ele pare de me arrastar. Logo estamos nos estábulos e ele enfim me solta.
- Vá, agora. — ele olha para mim bem firme, parecia preocupado. — Espero ter a oportunidade de te explicar algumas coisas depois.
- Caramba, o que está acontecendo aqui? — eu tentei obter algumas respostas, mas ele me empurrou para dentro do estábulo.
Depois que Chris entrou, Jacob fechou as portas pelo lado de fora. Corro em sua direção e sem explicar o porque, a abraço. Confesso que estou pela primeira vez assustado, já que nem ao menos sem o que está se passando lá fora. Dava para sentir ainda o frio aqui dentro. E me assusto com um relinchar. Óbvio que se estamos em um estábulo deveriam ter alguns cavalos, mas não era um. Um lindo pégaso estava bem na minha frente. Sei que é um por que também não sou burro assim e era meio evidente. Um cavalo cor de mel com asas imensas estava riscando o chão com uma de duas patas. Ele parecia sorrir para mim, o que me deixou bem intrigado.
- Estão prontos? Precisamos partir imediatamente.
- Pronto para o que? O que você quer di... — me virei para Chris para respondê-la e me dei conta que ela não tinha essa voz máscula e dócil.
- Hã? — ela disse sem entender nada.
- Se não foi você quem falou, quem foi? — a questionei assustado.
- Do que você ta falando? — ela estava quase rindo da minha cara. Bem típico dela. — Não falei nada.
Girei ao meu redor e tive a certeza que não havia mais ninguém ali. O estábulo era grande, mas era bem iluminado e limpo. Cruzo os braços tentando amenizar um pouco do frio e mesmo assim continuo a tremer levemente. Realmente não existia mais ninguém ali, exceto ela e eu. Tirando nós dois, só tinha o pégaso e ele não poderia estar falando. Não, não pode ser. Isso é muito para a minha mente processar. Mas se existem Deuses Gregos e monstros, por que um pégaso não poderia falar?
- Precisamos ir agora. — ele falou novamente.
- Foi você mesmo que falou. — eu arregalei os olhos e dei um passo para trás.
- Do que você está falando, Eric? — Chris perguntou como se eu estivesse louco, ouvindo coisas. — Acho que você está delirando.
- O pégaso falou! — eu respondi seco. — Ele quer que a gente vá com ele sei lá para onde.
- Espera. Ele falou contigo? — sua expressão era de descrença, porém mudou bruscamente. — Que idiota eu. Filhos de Poseidon falam com equinos.
- Isso é... bem estranho. — respondi sorrindo.
E lá fora uma explosão soou intensa. Quis correr para a porta para tentar descobrir o que estava acontecendo, mas ela se mantinha trancada pelo lado de fora. Maldito Filho de Ares, você vai me pagar por isso. O Pégaso abriu as asas e dessa vez ele parecia zangado. "Montem em mim agora, se pretendem sobreviver." Ele disse em minha mente. Então é assim que funciona? Ele conversa comigo telepaticamente e só eu e outros filhos de Poseidon seriamos capazes de ouvir.
- Vem, Chris. — puxei-a pelo braço e a ajudei a subir nas costas do cavalo alado. — Vamos ver o que se passa lá fora.
- Aonde vamos? — ela quis me questionar.
Montem atrás dela e estávamos constrangedoramente muito próximos. Meu corpo se arrepiou todo e não era pelo frio. E sim tenho certeza que foi pelo contato tão próximo com o corpo dela. O pégaso bate suas asas e o telhado abre devagar. Nesse momento o céu parecia que ia desabar em cima de nós e o equino ergue voo. Quando enfim estamos do lado de fora dos Estábulos podemos ter noção do que se passa. Uma batalha está sendo travada nas fronteiras do acampamento. Existem alguns criaturas brilhantes, que mais pareciam ser feitas de cristais, atacando alguns chalés. Como elas foram capazes de entrar aqui? Algo está super acumulado no céu e só então eu descobri por que as estrelas sumiram. Quanto mais subíamos, mais o frio aumentava. Existia uma espécie de redoma no céu do acampamento e neve se acumulava em cima dela.
- É o controle mágico do clima. — Chris falou quase gritando para que eu pudesse ouvir. — Ele impede mudanças climáticas no acampamento e está impedindo que a neve caia.
- Pégaso, desça. — tentei comandá-lo. — Precisamos ajudá-los. Volte agora. NÃO! NÃO! NÃO!!!
Ele estava subindo e subindo e eu temia esbarrar na tal proteção do clima, mas simplesmente a atravessamos como se fosse um véu e logo estávamos no meio de uma nevasca. O frio era ainda maior do que dentro do acampamento e o vento muito forte e quase cortante. O Pégaso estava com dificuldade para voar, porém mesmo assim ele seguiu em uma direção que só ele conhecia.
- Desculpe-me, senhor. — ele falou comigo parecendo um pouco arrependido. — Tenho ordens para tirá-lo daqui.
- Mas nós precisamos voltar. — eu ainda tentei dizer, mesmo sabendo que ele não faria isso.
- Ele ta dizendo o que? — Chris perguntou.
- Que essa nevasca é pra mim e que eu morrerei se ficar. — a respondi assim que ele me disse isso.
E partimos. Chris puxa meus braços para prender em sua cintura, para que ambos ficássemos mais seguros. Apoio meu queixo no ombro dela e fico me sentindo inútil, além de culpado pela nevasca que era para mim, estar caindo tão ferozmente no acampamento. Sinto novamente a conexão com essa garota filha de Hades e me arrepio. Que tipo de sentimento é esse que estou nutrindo por ela. Acaricio suas mãos, que estavam em direto contato com as minhas e ela parece relaxar um pouco. Com ela, me sinto mais seguro e não sei por que. Logo não dava mais para ver o Acampamento, porém eu enxerguei outra coisa. Dezenas de coisas brilhantes e cristalinas vinham voando em nossa direção. Acho que elas encontraram os fugitivos, ou seja, Nós.
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