Coração De Neve
12 Capítulo 12 - Os Familiares
Notas iniciais
O convidei para sentar ao meu lado, em minha cama. Nós precisamos esclarecer muitas coisas, caso contrário eu irei acabar surtando. Dou liberdade para ele começar a falar e fico entrelaçando meus dedos. Jacob parece bem mais tranqüilo e eu já não me sinto mais tenso ao seu lado. A sensação de segurança está se tornando algo mais natural e aos poucos só cresce. Seria eu capaz de me defender, se ele me surpreendesse em outra tentativa de me matar?
– Vou contar tudo, desde o início. – ele disse baixinho.
– Agradeço por isso. – falei colocando a mão em seu ombro, lhe encorajando.
***
Parecia um dia normal no Acampamento. O Filho de Ares estava cumprindo suas tarefas e logo em seguida iria começar o seu treinamento do dia. Ele passava a maior parte do dia na arena, treinando seu domínio com diversas armas e sua resistência física. A maior parte dos campistas teme o Jacob, pela sua força e determinação. Sua expressão sempre séria também afasta as garotas e assim só restam os seus meio-irmãos como companhia. Ao arremessar algumas esferas bem pesadas contra os alvos com perfeição, alguém entrou na arena. Era uma filha de Apolo, muito fácil de reconhecer pelos seus traços claros e belos. Além do seu corpo, que parecia ter luz própria assim como o sol. A garota, sem ao menos se apresentar, revelou a profecia que ela tinha visto em seus sonhos.
***
– Ela me disse que um garoto iria me modificar por inteiro. – Jacob me disse sem me olhar. – Eu não tinha provas do que ela dizia, mas eu odiei o fato de que alguém tentaria mudar o que sou.
– Mas isso tem a ver comigo? – eu perguntei, tentando fazer que ele olhasse em meus olhos.
– A garota disse que eu sentiria algo, quando o garoto chegasse e que minha vida dependeria dele. – desta vez ele me olhou. – Assim que eu te vi lá na fronteira do acampamento, eu sabia que era você e de cara o odiei.
– Mas precisava tentar me matar? – no fundo eu começava a entendê-lo, pois eu também odeio depender de alguém para ser o que sou.
– Eu não pensei. Acho que meu sangue divino falou mais forte. – Jacob me parecia totalmente sincero. – Eu agi por impulso e fiz aquela idiotice.
O Filho de Ares segurou minha mão e me disse que se ele tivesse me matado, eu realmente teria mudado sua vida por completo. Ele não iria conseguir viver com a culpa. Porém eu ainda assim o modifiquei. Quando eu reagi a seu golpe, ele percebeu a pessoa incrível que eu poderia ser (embora eu duvide disso) e recebeu um choque de realidade.
– Você está ficando muito meloso. – mordi o lábio antes de continuar a falar. – Estou perdendo o tesão em você.
– Você é muito chato. – ele falou sorrindo. – Se eu tento te matar você acha ruim, mas quando eu tento te explicar o que você é para mim, você também acha ruim.
– E o que eu sou para você? – me sentei mais perto dele.
– Agora? – ele pergunta e eu confirmo com a cabeça. – Tudo.
Ai que fofo. Só que não. Não gosto dessa coisa tão melosa, além de não retribuir esses “sentimentos” dele seja lá o que for. Um barulho veio na direção da porta, alguém estava batendo. Jacob segura minha mão antes que eu vá ver quem é; Ele se levanta e me puxa para um beijo. Logo depois ele abre a janela e salta por ela. Acho que ele não quer que ninguém o veja aqui comigo. Meio desnorteado vou até a entrada do chalé e abro a porta. Um garoto com traços muito bem desenhados e um cabelo impecável. Sua roupa era muito “estilosa”, mas nenhum pouco feminino. Não preciso ser especialista em deuses gregos para supor que ele seja Filho de Afrodite.
– Oi. – falei sorrindo. – O amor bate à minha porta? – que perguntei sem sorrir.
– Oi. – ele respondeu e sua voz era estranhamente macia. – Alguém quer lhe ver. A propósito, meu nome é Tom. Mas pode me chamar de Jamie, meu segundo nome.
– Prefiro Tom. – pensei um pouco para dizer.
– Ela está lhe esperando na beira do lago. – ele me disse. – É melhor você não demorar.
Ela? Ela quem? Ele deu meia volta e saiu na direção do Chalé de Afrodite, se juntando a seus irmãos. Olho ao redor para ver se não encontro o Jacob. Tenho uma estranha sensação quando penso nele. Algo de muito errado está acontecendo ou prestes a acontecer. Temo que ele esteja me enganando. Caminho sem direção, pois ainda desconhecia a localização do lago. Passo por alguns campistas e eles me indicam onde devo ir e logo eu consigo ver a água. Sinto uma sensação maravilhosa ao me aproximar. A água realmente é meu elemento e eu me sinto muito bem quando estou perto. Percebo que não havia quase ninguém no lago, exceto por uma garota de cabelo avermelhado, muito bonito por sinal. Fico encantando com a beleza do seu cabelo e noto que ela estava usando um belo vestido preto. Ela percebe minha presença e vira, sorrindo para mim. Quando vi seus olhos e eu tive certeza sobre quem era seu progenitor.
– Filha de Hades? – eu perguntei. Mais uma, pensei.
– A mais incrível. – ela respondeu confiante. – Natasha P.
– “P” de que? – perguntei com muita intimidade. – Potter?
– Pepper. – Ela respondeu desta vez bem séria. – Mas não gosto quando associam ao meu cabelo.
– Bem adequado. – falei sorrindo. – E obrigado por avisar.
Estendi a mão para cumprimentá-la e senti um poder imenso vindo dela e um calor diferente. Não sinto isso perto da Chris, é muito diferente. Esta garota na minha frente era bonita. Embora não possuísse o corpo que as pessoas taxam como ideal. Acho muito feias essas “ideais”, pois são muito magrelas. Sinto uma energia sinistra dela e seus olhos ainda estão em chamas. Será que somente eu poderia ver desta forma. Ela estava com óculos pendurado em sua blusa e eu supus que ela deveria usá-lo em algum momento, nem que seja apenas para leitura.
– Você queria falar comigo? – eu perguntei direto.
– Fui enviada ao Acampamento com o objetivo de te ajudar. – ela respondeu da mesma maneira direta. – Seremos parceiro de time.
– Vamos jogar? – perguntei, embora soubesse que não era esse tipo de time a que ela se referia.
– Preciso lhe apresentar alguém, que vai lhe ajudar com seus poderes. – ela me disse, ignorando completamente minha pergunta.
Ela colocou a mão em meus ombros e já ia me guiar para algum lugar, quando alguém se colocou em nosso caminho. Seu manto branco era impossível de não ser reconhecido. Mesmo com o capuz eu sabia que era a Chris. Ela precisa usar isso todo momento? Ainda não estou afim para conversar, mas ela está insistindo.
– O que você esta fazendo com “essa” aí? – Chris se dirigiu a mim.
– Como ousa? – Natasha falou. – Junte-se ao seu clubinho, Encosto.
E mais uma que chama a Chris de encosto. Segurei-me para não rir e peço explicação.
– Você não tem o direito de escolher com quem eu ando, depois de ter me traído. – eu falei seco.
– Eu não te traí. – ela tentou dizer. – Essa garota é minha meio-irmã. Se você me trocar por essa vadia*, isso sim será traição.
Ainda abri a boca para falar, mas a Natasha me deixou paralisado. Ela se colocou na minha frente e abriu seus braços. Símbolos avermelhados surgiram seus braços e a mim se parecia com sangue. De repente um pequeno redemoinho negro surgiu em seus pés, bem a sua frente. Chris deu um passo para trás, levemente assustada. E do redemoinho surgiu uma imensa serpente negra. Suas escamas pareciam ser de aço e embora fossem negras pareciam brilhar na luz, com uma cor de jade. A serpente era muito maior do que nós três e ela parecia bem assustadora. A cobra circulou a Natasha e logo estava ameaçando dar o bote na Chris.
– Esta é a Laurel. – Natasha falou para mim. – Minha familiar.
– Ela é da sua família? – perguntei um pouco ingênuo. – Bem peculiar.
– Familiar é um animal fiel, que apenas sou eu posso invocá-lo. – e eu fiquei morrendo de vontade de ter um, após ela ter me dito isso.
– Não é só você que pode fazer isso. – Chris parecia ter se livrado do medo.
A minha amiga Coração de Neve tocou o pingente em seu colar. Flocos de Neve começaram a surgir de seu manto e logo estavam se unindo. Com isso algo começou a tomar forma e logo havia um belo e imenso pássaro branco. Acho que é uma fênix, embora eu não saiba como uma fênix possa estar associada ao gelo. Como ela renasce? Ela derrete? Intrigante. A Fênix estava batendo suas asas, voando bem acima de nós e pronta para agir, caso a serpente da Natasha resolve atacar.
– Vamos parar com essa guerra fria? – decido intervir.
Ambas parecem ceder, mesmo contra suas vontades. Acho que elas pelo menos respeitam minha opinião. Laurel e a fênix desaparecem, uma se desfaz em sombras e a outra em flocos de neve. Nesse instante alguém vem correndo e eu o reconheço. Não esperava ver o Tom novamente tão cedo. Ele parecia bem exausto, como se estivesse correndo por uma longa distância. O filho de Afrodite se aproximou de Natasha e lhe deu um recado o qual só ela foi capaz de ouvir. Ele se afastou e desapareceu correndo. Ainda estou sem entender nada.
– Vamos, Eric. – Natasha segurou minhas mãos. – Quem eu queria lhe apresentar está esperando na praia.
– Ele não vai a lugar nenhum com você. – Chris estava furiosa.
– Eu vou sim. – protestei. – Fique na sua.
E assim a minha amiga, que já não sei mais se era amiga, ficou para trás indignada. Ela estava incrédula a me ver indo embora com sua meia-irmã. Acho que as famílias dos semideuses não é nada fácil de lidar. Mal sabia eu que logo eu iria descobrir se isso era ou não verdade. Natasha me guiou segurando minhas mãos. Eu não entendo como, mas da mesma forma que eu confiava em Chris, eu estou confiando nela. Mesmo que a Chris tenha me decepcionado. Devo estar me apegando fácil demais às pessoas. Penso em Jacob e logo trato de afastar este pensamento. Uma pessoa estava descalça, na areia da praia e bem perto da água. Seu cabelo loiro era belo e seu corpo era de modelo. Ela parecia bem sofisticada, embora estivesse trajando apenas um short e uma blusa soltinha. Um “look” muito romântico e belo, confesso.
– Eric. – Natasha falou assim que nos aproximamos da garota. – Esta é Ray, sua meio-irmã.
– O que você disse? – perguntei sem acreditar, como se eu tivesse ouvido tudo errado.
– Prazer, maninho. – Ray falou se dirigindo a mim. – Pronto para ir ao reino de nosso pai e aprender alguns truques?
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