Coração De Marfim.
9 Capítulo 9 - Lembranças.
Notas iniciais
Primeiramente, Feliz ano novo para todos! Espero que todos tenhamos um prazeroso 2013 com excelentes esperiencias!
Agora, voltando a fanfic ^^, a musica de hoje vai ser a seguinte: Comptine d'un autre été de Yann Tiersen. Sei que o nome dá medo, mas acredito que várias pessoas conheçam essa musica já que ela apareceu em alguns filmes e tal. Enfim, espero que gostem deste capítulo e até a proxima =D.
Link da música: http://www.youtube.com/watch?v=xQZ0AQHYgYI
Beijos!!
Ami ~
Aquele clima. Toda aquela sensação de estar leve e confortável era viciante. Kakashi parecia ter um dom incrível de fazer os alunos ultrapassarem sua timidez e falta de coragem e irem mais longe que Mitsue jamais havia visto, e em pouco tempo, mais da metade da turma havia progredido grandiosamente no piano, perdendo aquele medo no começo da aula.
Mitsue começava a admirar aquele professor com aparência exótica e decisões inesperadas.
Ela se assustou assim que ouviu o sinal do término do ultimo horário, se flagrando em pensamentos viajantes sobre o curioso professor de piano. Soltou uma risada achando graça de si mesma, e então colocou sua bolsa no ombro e caminhou para a porta da sala, desviando do grande grupo de alunos que se dirigia ao grisalho que ainda estava sentado na banqueta do piano.
- Kakashi-sensei! Precisamos de sua ajuda na pauta 26! Essa melodia é bastante complicada... – Disse um aluno de cabelos castanhos que iam até os ombros que estendia sua partitura ao professor.
Kakashi se levantou da banqueta erguendo as duas mãos com um sorriso de desculpas nos lábios.
- Foi mal, mas minha aula já acabou e preciso resolver uns assuntos inadiáveis – Desviou o olhar dos rostos de desapontamento a sua frente e aumentou os olhos quando viu que seu “assunto inadiável” acabou de sumir pela porta. Abaixou as mãos e se apressou até sua mesa de trabalho para pegar sua pasta, mas foi barrado novamente.
- É só por um segundo sensei! Só o senhor sabe o método fácil para alcançar a melodia – Desta vez foi uma pequena aluna que falou, juntando as sobrancelhas de inconformidade para ele.
Kakashi lançou um olhar indeciso para seus alunos e depois para a porta atrás dele. Mas resolveu desistir quando percebeu que os alunos estavam dispostos a barra-lo até sua casa se necessário.
- Tudo bem, tudo bem! – Ele pegou a partitura das mãos do aluno e foi até o piano com pressa, sentando-se na banqueta enquanto colocava a partitura no apoio próprio para ele. Todos os alunos o acompanharam sorridentes pela vitória e ele levantou o indicador para eles – Prestem bastante atenção na minha reprodução. Só tocarei uma vez.
- Certo – Disse o garoto de antes enquanto o resto do grupo assentia.
Kakashi se virou para o piano e bastou um passar de olho pela pauta para saber como tocaria. Começou a tocar e os alunos não tiraram os olhos de sua reprodução até ele a encerrar e então todos deram suspiros de compreensão em uníssono, dando tempo para o grisalho devolver a partitura e fugir daquele espaço até sua mesa. Pegou sua pasta num segundo e no outro o caderno de avaliação, e se pôs para fora dali quando viu os alunos de virarem para ele e falarem contentes:
- Obrigada Kakashi-sensei!
Ele deu um rápido aceno na porta da sala e disse:
- Até amanhã! – E então começou a andar a passos rápidos pelo corredor na direção em que sabia que ela tinha seguido.
Enquanto isso a garota dava o primeiro passo para o primeiro degrau do segundo lance de escadas para o primeiro andar.
- Mitsue-san, deixe eu te acompanhar! – A garota parou onde estava para olhar a loira extrovertida que corria até ela e então abriu um sorriso quando a mesma a alcançou.
- Sem problemas, vai para casa? – Perguntou, voltando a descer as escadas com Tomo.
- Não, ainda tenho duas horas de aula particular, mas tenho um tempinho de sobra para te acompanhar até o portão da escola – Abriu um sorriso adicionado com uma piscadela que fez Mitsue rir.
- Deve ser puxado passar por todas as aulas que tivemos nos dois turnos e ainda ter duas horas de lições particulares – Acabava de falar enquanto viravam para o corredor comprido que daria acesso ao salão luxuoso da Ala.
A garota deu de ombros, não parecendo estar muito afetada com o fato de passar o seu dia inteiro num colégio.
- Você acaba se acostumando com isso, e meu professor de Oboé é muito legal comigo – Sorriu para ela parecendo espalhar sua energia positiva para tudo a sua volta – E os professores pegam leve nas lições de casa para deixar agente mais tranquilo.
- Ah – A garota assentiu, gostando do fato de conversar com aquela garota super animada nos seus óculos redondos de armação delicada escorregando na ponta do nariz pequeno.
- Sabe Mitsue-san... – A loira virou o rosto para ela – Não é que eu queira puxar o seu saco no primeiro dia de aula, mas acho que você tem chances de ser escolhida por um professor de música.
Mitsue deu uma risada incrédula enquanto balançava a cabeça para os lados.
- Tomo isso é impossível – Falou com traços de sua risada na voz.
- Por que impossível?! – A garota parou de andar e colocou uma das mãos na cintura. Já estavam na metade do salão.
- Oras! – Mitsue parou de andar também e olhou para a colega com um sorriso humorado nos lábios – Tomo, é o meu primeiro dia de aula na Ala Leste. Não pode ser possível que um professor de piano apareça agora chamando meu nome para me tornar sua aluna.
- Mitsue!! Espere! – As duas viraram os rostos para o grisalho que corria na direção delas com a pasta e o caderno em uma das mãos enquanto a outra era estendida para elas.
Os cabelos da nuca da Mitsue se arrepiaram.
- Kakashi-sensei?! – Exclamou, completamente chocada por sua fala ter se concretizado.
- Isso sim é um grande golpe de sorte – Tomo murmurou do seu lado tão incrédulaquanto ela.
Os sustos não terminaram por ai. Quando o grisalho finalmente acha que conseguiu alcança-la, o inesperado surge pouco atrás das garotas com os passos apressados que descontavam parte de sua irritação no tapete do salão, montado em seus saltos altos negros.
- Hatake Kakashi! – A mulher de olhos de fogo interrompe a corrida do professor com seu chamado e as duas garotas se viram para ela, arregalando mais os olhos quando veem quem é.
- Kurenai-sensei? – Mitsue voltou a exclamar e então o olhar da mulher sai do grisalho para ela, erguendo as sobrancelhas bem feitas com súbita surpresa e então volta a sua vítima, juntando-se novamente com um pouco mais de irritação.
- Ops... – Tomo morde o lábio inferior, tentando evitar um sorriso cheio de graça que teimava em aparecer enquanto pegava a mão da Mitsue e se afastam para dar espaço para a Kurenai.
Kakashi de repente sente sua testa suar, mas tenta parecer firme na frente de suas alunas – e todos que os observavam no salão – enquanto dava passos decididos até a mulher.
- Kurenai... Oque faz aqui tão tarde? –Parou um pouco a frente de suas alunas e bem a frente da mulher que desceu de leve as pálpebras.
- Eu quero saber é onde você estava há algumas horas atrás Kakashi, mas parece que vamos ter que ter essa conversa fora daqui... – Ela passou o olhar flamejante para as alunas e Mitsue se afastou um passo prudentemente quando viu que ele se dirigia especialmente a ela. Parou de olha-las e voltou ao grisalho – Pode ser?
- Não pode ser mais tarde? Eu prometi uma coisa importante para uma de minhas alunas.
Kurenai apertou o olhar para ele. Alguma coisa a dizia que ela sabia muito bem quem era essa aluna, e Mitsue também, mas a possibilidade de ser ela a deixou com o rosto corado.
- Desta vez você vai ter que deixar essa para amanhã, aliás, o seu horário de trabalho terminou e eu tenho o direito de ter essa conversa – Ela pegou a mão do grisalho e olhou novamente para as garotas, desta vez tentando parecer mais calma – Tenham um bom final de tarde garotas, agora tenho que roubar seu professor, certo?
As duas assentiram e então ela abriu um sorriso para elas antes de sair do salão com o grisalho no seu domínio.
Kakashi queria lançar um olhar de desculpas para Mitsue e dizer que amanhã falava com ela, mas algo dentro dele o fez repensar, achando mais prudente manter seu foco na namorada evidentemente chateada na sua frente.
Ele devia boas explicações a ela pelo furo que deu hoje de manhã sem deixar ao menos uma mensagem de aviso ou desculpas.
Mitsue e Tomo observaram o grisalho andar junto da mulher até sumir por um dos corredores, sem algum tipo de explicação sobre oque tinha acabado de acontecer ali.
- Não entendi... — Mitsue virou o rosto para a loira que tinha a mão cobrindo os lábios, tentando a todo o custo esconder a risada – Isso tudo foi por minha causa?
Tomo olhou para a amiga e ao ver o rosto preocupado dela, não conseguiu mais aguentar e soltou uma grande risada que pareceu ecoar por todo o salão e corredores que estavam conectados a ele.
- Ai meu Deus Mitsue-san... – Ela colocou a mão na testa e outra na barriga enquanto dava mais algumas risadas. O rosto furioso da Kurenai não abandonava sua mente – Eu nunca vi a Kurenai tão brava com o Kakashi-sensei desde o dia em que ela o pegou no flagra lendo aqueles livrinhos na escola...
- Livrinhos? Você conhece a Kurenai? – Perguntou de uma vez, cada vez mais confusa diante da graça que ela achava naquilo tudo.
- Deixa para lá a história dos livrinhos... – Deu suas ultimas risadas e então votou a Mitsue com pequenas lagrimas nos olhos – Isso eu te conto mais tarde, mas sobre a Kurenai... – Balançou os ombros — Toda a Ala Leste a conhece. É impossível não conhecê-la por aqui.
- Mas ela é da Ala Oeste – Justificou, deixando que tomo passasse o braço pelo ombro dela enquanto voltavam a caminhar para fora dali.
- Eu sei, é que desde que as garotas do “grande fã club do Kakashi-sensei” – Fez aspas com os dedos — ficaram sabendo que ele esta namorando a Kurenai, várias histórias tem percorrido os corredores da Ala e a do livrinho é apenas uma de muitas.
O rosto de choque da Mitsue foi incomparável.
- Namorados?! Desde quando? – Exclamou, atraindo um sorriso humorado da garota extrovertida.
- Ah, isso? Já deve ter uns dois anos – Falou com naturalidade enquanto o queixo da Mitsue caia no chão, mas a loira apenas deixou isso de lado – Mas, por mais que essa cena tenha me deixado muito curiosa quanto às razões, eu quero saber qual foi a “promessa” que o Kakashi-sensei fez a você para aparecer correndo daquela maneira. E ai, oque é?
Mitsue corou diante do olhar dela e então engoliu em seco.
- Eu não sei... Para ser sincera aquela história de promessa me deixou nos ares. Talvez nem tenha sido para mim que ele fez a promessa – Deu de ombros, parando no corredor que dava a porta de saída do prédio.
- Como assim? Está me dizendo que aquilo que ele falou foi uma desculpa para fugir da Kurenai?
- NÃO! Eu não disse isso...
- Isso só me deixa mais curiosa agora para saber oque ele queria... – Tomo rola os olhos para a amiga e abre um sorriso sugestivo – Será que ele queria te chamar para...
- Para com isso Tomo-san! – Saiu de baixo do braço da loira e deu alguns passos na direção da sala do diretor para depois se virar para ela – Eu vou resolver umas coisas ainda, então te vejo amanhã Tomo-san, e vê se esquece essa história.
Tomo abriu um grande sorriso.
- Pouco provável, mas tudo bem. Te vejo amanha Mitsue-san! – Mandou um beijo para ela e correu para dentro da porta da Ala Leste.
Mitsue não pode evitar que revirasse as órbitas dos olhos e então deu uma leve corrida para fora dali, alcançando a sala onde a secretária que lhe ajudara mais cedo estava. Depois de pegar oque precisava para o dia seguinte, saiu do colégio a tempo de pegar um ônibus que acabava de parar na parada ao lado dele.
No caminho para casa, aquela cena de agora a pouco não abandonava sua mente e algumas risadas baixas escapavam dos seus lábios quando se lembrava do rosto urgente do Kakashi quando estava correndo na sua direção. Por um momento ele pareceu um rapaz de colegial. Se bem que ele poderia ser se quisesse, ele não parece ser tão velho mesmo com os cabelos grisalhos espalhados pela cabeça.
A garota balançou a cabeça, percebendo que pensava novamente no professor. Aquele homem chamou muito sua atenção, principalmente pelo oque tinha feito hoje para ela. Ele até mesmo deixou de ser encontrar com uma pessoa naquela manhã, mas quem seria a pessoa...?
E então as coisas se encaixaram perfeitamente na sua cabeça.
- Ele ia ver a Kurenai-sensei? – Falou em voz baixa, e colocou uma das mãos no rosto, sentindo este esquentar ao pensar que Kakashi estava numa encrenca com a namorada por sua culpa – Meu Deus.... Eu preciso me desculpar com a Kurenai por isso – Pensou consigo mesma, encostando a cabeça no encosto do assento enquanto virava o rosto para a janela, enxergando seu próprio reflexo no vidro.
Ficou assim um bom tempo, até que a parada próxima a sua casa surgisse e então desceu do ônibus e caminhou oque faltava para a sua casa. Seus pensamentos permaneciam voltados ao colégio quando entrou em casa e descalçou os sapatos, e como de costume, Mitsue virou na direção da porta da cozinha, com vestígios do sorriso de antes no rosto, mas ele desaparece assim que percebe quão silenciosa a casa está.
A garota abaixa um pouco a cabeça e então se lembra de sua mãe que há essa hora devia estar dormindo na sua cama de hospital. O humor de antes desaparece e então ela sai da cozinha e sobe nas escadas para o seu quarto, jogando sua bolsa em cima da cama para pegar a toalha, soltar o cabelo preso e se dirigir para o banheiro.
De banho tomado, ela desceu as escadas novamente com uma calça jeans azul escura, chinelas violetas e uma regata lilás com detalhes rendados. Parou no pé da escada, sem saber oque faria agora. Estava sem fome e com certeza não teria apetite pelo resto da noite.
- Melhor eu adiantar o dever de casa – Pensou consigo mesma e deu meia volta, subindo as escadas com pressa.
Depois de pegar uma pilha de cadernos, como não estava a fim de ficar presa no seu quarto, desceu outra vez e se jogou no sofá da sala com os materiais que precisava. Balançou os pés para as chinelas caírem e colocou as pernas no sofá, pegando a lapiseira em seu estojo e iniciou as lições do dia.
O tempo pareceu passar vagarosamente até Mitsue chegar ao ultimo exercício e responde-lo mesmo não tendo mais paciência para fazer o dever. Quando terminou de escrever, jogou o caderno e a lapiseira em cima da sua barriga e jogou os braços livremente pelo sofá enquanto seu corpo deslizava por ele e a deixava completamente deitada, com um rosto visivelmente cansado. Virou o rosto para o lado e encarou a mesinha de centro com um porta retrato mostrando uma foto sua quando era pequena.
Soltou um suspiro e jogou o rosto para trás do encosto de braço do sofá, entediada, e então a finalmente seus olhos cinza se interessam em algo. Levantou a cabeça sentando no sofá e pôs as coisas do seu lado, e então prendeu o olhar no corredor que havia ali. Escuro pela falta de iluminação e misterioso. Não havia nada de muito interessante ali além de três portas. Uma era um pequeno espaço onde Miwa guardava os materiais de limpeza, a outra era um dos banheiro da casa e a terceira... A terceira era um problema.
Mesmo sabendo desse problema, ela se levantou com os pés descalços e caminhou até o corredor, ligando a luz deste.
Já era hora de enfrentar o problema.
Caminhou pelo corredor sobre a madeira lisa e fria do chão e depois de passar pela primeira porta, a porta problema surgiu do seu lado, sendo que o banheiro ficava no fim do corredor. Abriu a porta, que soltou um rangido medonho já que era pouco usada e então a garota entrou no espaço, observando o lugar nostálgico. A porta problema era nada menos que o escritório de seu pai, onde aquele velho Brasted London residia em seu espaço esquecido.
A vontade que bateu sobre ela foi de sair logo daquele lugar e voltar a seu cantinho de tédio, enfiada entre as almofadas do sofá, mas ela se sentia obrigada a ficar ali.
- Estou na Ala Leste agora... Tenho que enfrentar esse medo inútil – Apoiou a si mesma, dando passos fortes até ficar de frente para o piano velho e o encarou em desafio – Eu vou tocar você nem que o fantasma do meu pai apareça para impedir.
Sendo assim, se sentou na banqueta de couro marrom escura que estava muito bem limpa – sinal de que sua mãe realmente alimentava esperanças de ela tocar – e levantou a tampa do piano, revelando as teclas de marfim um pouco amareladas com o longo uso. Respirou fundo e colocou as mãos sobre as teclas e arriscou tocar algo. Como sempre, a primeira musica que lhe surge na cabeça e desta vez, com o título ligeiramente complicado. Apesar disso, tenho certeza que algumas pessoas serão capazes de identificá-la se ouvir.
Comptine d'un autre été, de Yann Tiersen.
Ao tocar as teclas amareladas de marfim, um arrepio lhe tomou o corpo, como se aquele piano reagisse ao seu toque com saudades latentes. Mas isso acabava despertando memórias agradáveis e ao mesmo tempo dolorosas de serem relembradas. Apertou o olhar. A música já havia se iniciado e graças a esse sentimento ruim, a musica estava saindo uma completa desordem aos seus ouvidos. Respirou fundo outra vez e então procurou afastar as memórias e se focar nas notas. Afinal, era uma música linda.
Por um momento, as memórias não a assombraram mais, se afastaram, e ela pode escutar o som do piano com clareza e se surpreendeu. Por mais que não o usasse há quatro anos, seu som permanecia igual, sem ter desafinado com o tempo. Ou talvez sua mãe tenha cuidado disso também.
Sorriu.
Ela realmente sentia falta de ouvir suas músicas. De repente ela até se sentiu culpada por desprovê-la disso por tantos anos. Mas agora não parecia mais necessário. Ela já se sentia orgulhosa por conseguir tocar até ali sem se pertubar.
E então ela encerrou a primeira parte da musica, e voltou a repetir o começo, assim iniciando a segunda parte. A música pareceu sair melhor a partir daí e então ela abriu um sorriso, se sentindo melhor para tocar e então a parte mais bonita começou, aquela parte mais rápida e marcante da música, e então, como uma viajem a sua época de infância, ela se sentiu nas nuvens, repleta de luz e conforto. Mas em todo sonho que é bom de mais para ser verdade, os pesadelos aguardam, e então, a escuridão ressurge no lugar da luz para assombrá-la.
Como se tivessem diminuído o som de um rádio, o som sumiu progressivamente dos seus ouvidos e Mitsue se viu diante de uma cena completamente diferente, com a música que tocava soando baixo em seus ouvidos como uma trilha sonora.
- Mãe! Mãe! – A garotinha alegre de curtos cabelos negros e brilhantes olhos nublados como as chuvas de verão puxou a saia do vestido que a mãe vestia com pressa – Vamos logo mãe! Assim não vamos poder ver o papai!
- Calma querida! O carro acabou de parar, então nós vamos chegar a tempo – Miwa abriu um sorriso amoroso, conseguindo acalmar o coração acelerado de ansiosidade no peito da garota, e então a porta do carro é aberta pelo manobrista do Teatro.
A linda mulher saiu do carro com a ajuda do manobrista e então a sua filha saiu logo a seguir com o rostinho coberto de animação, mal esperando para ver seu pai tocar para todas aquelas pessoas de estirpe que esperavam em suas cadeiras e, lógico, para elas. Mas então a visão da mulher que acabara de agradecer ao manobrista se desviou dele quando o barulho de uma sirene tocou ali perto. Ela já havia escutado este barulho no carro, mas desta vez algo mais pareceu atraí-la para ela. Miwa observou a ambulância que estava ali, vendo que vários homens já haviam saído dela e agora estavam socorrendo alguém que estava caído ao lado do Teatro.Seus olhos foram para o chão ao lado dele e ao ver o sangue escorrer pelas frestas da calçada, ela se sentiu um mal estar invadi-la.
Impulsionada por uma força estranha, a mulher caminhou na direção da cena para ver melhor quem estava sendo socorrido, mas então uma mão em sua mão a para.
- Mãe? O que foi? – O rosto da mulher desceu para a garota que estava do seu lado, a observando com preocupação pela expressão que exibia.
A mulher abaixou o rosto para a filha e beijou-lhe a testa enquanto tocava os dois lados de seu rosto.
- Eu vou ver uma coisa, e quero que espere por mim na porta do Teatro, tudo bem?
- Tudo bem – A garota concordou e então caminhou obedientemente para a porta do Teatro, onde alguns homens a guardavam.
Sendo assim, Miwa caminhou para um lugar na calçada mais próximo da cena para que pudesse vê-lo, mas era difícil já que não parecia a única interessada em ver aquilo. Mas não era mera curiosidade, algo a dizia que precisava saber quem era.
- Se afastem, se afastem! – Um dos guardas do Teatro surgiu na frente da multidão acompanhado por outro e então afastaram a pequena multidão da vítima com os braços – Por favor, se afastem! – Repetiu.
Miwa aproveitou a aparição deles e passou entre as pessoas até ficar na frente do guarda que continha a multidão.
- Com licença! Seu guarda, com licença! – O chamou, mas foi o seu companheiro quem a respondeu.
- Desculpe senhora, mas terá que se afastar daqui – Pediu educadamente.
- Eu não pretendo atrapalhar, não se preocupe, só gostaria de saber o que aconteceu com aquela pessoa.
- Bem minha senhora... – O homem pressionou os lábios e deu uma rápida olhada para trás para então voltar a ela – Só posso dizer que o evento deste teatro será cancelado.
- Porque diz isto? Não me diga que é um dos que iriam apresentar na orquestra?
- Lamentavelmente sim, minha senhora.
O coração da Miwa se apertou, de repente temerosa. O seu marido iria se apresentar naquela peça, mas... Não poderia ser ele.
- Será que... Poderia me dizer qual dos participantes está ali? – Pediu com certa aflição e ela só aumentou com o breve silêncio que ele fez.
- O pianista da orquestra. Agora, será que poderia... Senhora? – O homem percebeu que falara algo comprometedor assim que viu o rosto da mulher perder completamente a cor e ao vê-la cambalear de leve para o lado, ele se apressou para socorre-la – Senhora! Qual é o problema?
- Mamãe! – A garota que observava tudo da porta correu na direção da mãe, alarmada assim que a viu quase tombar no lugar que possuía menos pessoas em volta que antes. Mitsue apertou o braço da mãe, mas se assustou quando ela nem se quer a olhou, com os olhos presos em alguma coisa a sua frente – Mamãe! O que está acontecendo com a senhora?!
- Garotinha, acho melhor se afastar um pouco da sua mãe. Ela precisa de ar. – O guarda que a segurava alertou com cuidado, mas a garota não obedeceu desta vez.
- O que houve com ela? – Voltou a perguntar, mas nenhum dos dois pode falar assim que lágrimas começaram a escorrer pelo rosto da mulher enquanto se distorcia.
- O meu marido... Aquele é o meu marido! – A mulher gritou, parecendo chorar ainda mais.
- Papai? – A garota agora estava confusa e então virou o rosto para onde ela olhava.
O homem ensangüentado caído a pouco na calçada foi levantado numa maca de forma que todos ali pudessem ver seu rosto. Inclusive a Mitsue.
- Papai! — A garota gritou assim que o viu e então correu em direção a maca, desviando dos homens perto dela.
Quando a viram, vários tentaram impedi-la, mas a garota era bem rápida e logo alcançou a maca que estava prestes a entrar na ambulância.
- Papai!! – Gritou mais alto, desta vez sentindo as lágrimas quentes rolarem pela face enquanto erguia seu corpo para a maca e tocava seu braço – Pai! Olha para mim papai! – Ela olhou para ele, esperando, mas sua dor foi maior quando seus olhos permaneceram fechados.
- Se afaste dele menina! – Um dos socorristas a ergueu por trás e a afastou da maca a força.
- NÃO! É o meu pai! Me solta!! – A garota se debatia, mas suas forças não se mediam com a do homem que a afastava – Não! Papai!!
A garota voltou a realidade com a melodia bruscamente interrompida por suas mãos. Como se fosse uma praga da mais infecciosa, Mitsue se afastou de supetão do piano, derrubando a baqueta e tropeçando até cair sentada no chão.
- Não! Não! Não...! – Ela rastejou para trás, se afastando do piano como se ele quisesse matá-la, mas suas costas logo encontraram a parede atrás dela e seu corpo se encolheu contra ele, pondo as mãos no rosto – Não!! – Gritou soluçante, assustada pelo oque viu como se tivesse acabado de acontecer, e então, começou a chorar, apertando seu corpo na parede em posição fetal – Não... Papai não... – Murmurava entre soluços.
Ela afundou seu rosto nas pernas e o choro veio tornando os soluços incontroláveis.
- Mãe... Preciso da senhora mãe... – Falou um pouco mais alto, se tornando a criança de quatro anos atrás.
De repente, Mitsue se sentiu tão só quando havia percebido que havia perdido seu pai. E então percebeu que voltar a tocar naquele Brasted era algo mais distante como ela nunca pensou que seria.
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