Coração De Gelo
4 Capítulo 4: Dor.
Notas iniciais
Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias.
Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é
que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti.
Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço.
Não sinto nenhuma alegria além de ti. Como pude cair assim nesse fundo poço? Quando foi que me desequilibrei? Não quero me afogar: Quero beber tua água.
Não te negues, minha sede é clara."
Caio Fernando Abreu, sempre divo, sempre lindo.
Estavam, então, nos domínios do Inverno. As árvores de cristal, a entrada pela caverna ao fundo e lá do outro lado, o pequeno lago onde tomava banho frequentemente. Com o humano nos braços, não sabia exatamente o que fazer.
Já tinha anulado todo o frio daquela área. Não podia criar calor, mas podia acabar com todo o frio, e isso tinha um ponto negativo, apesar de tudo. Deitou o humano no chão e depois tirou sua túnica, cobrindo-o, fazendo de tudo para que a temperatura subisse ali, embora seu máximo fosse justamente 0° graus. Mais do que isso seria gerar calor, e isso não podia fazer.
Afastou-se então, restringindo a temperatura mais alta apenas para em volta do humano, como um campo de força, deixando que ela voltasse a cair drasticamente fora do campo. Fora dos domínios do Inverno, a nevasca ainda caía feroz.
Inverno respirou fundo, caindo de joelhos na neve, a mancha negra em seu peito se espalhando mais na pele como se fosse um pedaço de tinta derramado sobre seu coração. Trancou a garganta para não gritar de dor, sabendo que aquela era a consequência que sabia que teria.
Calor não era permitido para si e qualquer tentativa de obtê-lo lhe destruía, literalmente, por dentro. Era como se o calor derretesse seu coração e um sangue negro saísse por sua pele, deixando claro o estrago que o calor lhe fazia, mesmo que pouco.
Mas mesmo assim, mesmo doendo em si, ele continuava fazendo com que a temperatura estável e “quente” em volta de Sirius, que pelo menos já respirava melhor, mas o rapaz só veio acordar horas depois, piscando os olhos com força e então se levantando e olhando em volta.
Inverno ergueu a cabeça, os olhos azuis escuros se fechando por alguns instantes enquanto ele voltava a deixar a temperatura cair. Uma vez que Sirius estivesse acordado, significava que seu corpo já conseguia se manter aquecido. Era só ele ficar nos domínio da estação, onde era mais “quente” que lá fora, que ele ficaria bem.
-Inverno, você...-O rapaz ia falar, mas a estação caiu no chão de repente, cuspindo o que parecia ser um sangue negro enquanto a mancha em seu peito aumentava, quase do tamanho de uma palma aberta.
-Fique aí!-A estação exclamou, vendo que o rapaz já tinha começado a se pôr de pé, embora ainda estivesse tonto.-Fique longe!
-Cara, você tá legal?!-Sirius exclamou, ignorando o outro e se aproximando, tentando lhe erguer pelo braço mas sua mão foi afastada pela da estação, que ergueu a cabeça, os olhos azuis um tanto perturbados.
-Fique longe!-Inverno exclamou, pondo-se então de pé, um dos braços estendidos como evitar do outro se aproximar enquanto a outra mão estava sobre seu coração, sobre a mancha negra.-Você pode ficar enquanto a nevasca não passa, mas fique longe de mim.
-Você... Você está... O que é isso no seu peito? Você está doente? O que você...
-Não é da sua conta, moleque.-Inverno respondeu, frio, recuando vários passos enquanto sua respiração se estabilizava e ficava mais frio, um frio saudável, como ele pensava, para si, para que seu coração parasse de sangrar.-Antes que pergunte, seu pai voltou para sua Base são e salvo. Não havia necessidade de você ter ido atrás dele, eu mandei que ficasse num lugar quente e seguro.
-Ah, foi mal, eu tive que ir atrás do velho...-Sirius respondeu, sem entender as reações do outro mas um tanto preocupado pela mancha no peito do mesmo, segurando sua túnica contra si. O frio que sentia já não era tão doloroso, na verdade, mal chegava a incomodá-lo.
-Seu idiota.-Inverno respondeu, os cabelos longos e brancos caindo-lhe pelos ombros enquanto um vento forte passava por ali.-Poderia ter morrido se na hora eu não tivesse sentido a compaixão e tê-lo salvado.
-Não pedi que sentisse.-Sirius respondeu, se irritando pelo outro estar se achando tanto.
-Não deveria ter me desobedecido.
-Não deveria ter me mandado então. Acho que sabia que eu iria desobedecê-lo e por isso já estava preparado para me salvar.
-Não fale assim comigo moleque. Só porque eu o poupei e o ajudei não significa que sou seu amigo. Posso muito bem matá-lo agora.-Inverno o ameaçou, a voz um tanto alterada, a dor quase nula no coração, mas a mancha definitivamente maior.
-Mas você não me mataria. Para que teria o trabalho de me salvar apenas para me matar? Eu não sou idiota. Posso ser meio lezado pra umas coisas e posso xingar e posso não tirar as melhores notas, mas não sou idiota. Você não tinha esse negoço no peito tão grande, você...
-Cale a boca. Agora.
-Você está sentindo dor porque me salvou e deve ter feito algo que... Ou então você está sentindo algum...
-CALE A BOCA!-Inverno gritou, realmente irritado, o cenho radicalmente franzido, a boca aberta, a respiração acelerada e então seu corpo pendendo para trás, caindo com força na neve enquanto se contorcia de dor.
Não podia sentir, e o que sentia naquele momento não conseguia discernir. Na verdade, não era apenas uma coisa, eram muitas emoções que não sabia identificar, mas a mais forte delas era a ira, a raiva, era calor, era subida da temperatura, algo que lhe era proibido de sentir porque, literalmente, faria seu coração derreter e acabaria o matando, o destruindo.
Por isso, agora ele se contorcia de dor e tentava a todo custo não gritar, o que era difícil, principalmente quando Sirius se aproximou da estação gritando “que merda tá acontecendo com você?!”.
Mas Inverno não conseguia responder, apenas continuar ali contra a neve querendo a frieza de volta, querendo parar de sentir aquilo mas Sirius não ajudava, ficando de joelhos ao lado da estação e tocando no outro embora sendo totalmente repelido, insistindo e insistindo até que acabou abraçando Inverno, só querendo que ele parasse de se contorcer de forma tão horrível.
-Me solte! Me solte, me solte! Humano imundo, me largue!-Inverno gritava, esmurrando o rapaz que mesmo ficando com várias manchas rochas (porque Inverno era bem mais alto que ele e consideravelmente mais forte, mesmo sem ter tantos músculos) não o soltava, trazendo-o até para mais perto de si.
-Não enquanto você não parar de gritar!
-Está doendo, seu moleque imbecil! Me solte! Me solte, agora!-Inverno voltou a gritar de dor, abraçando então Sirius de volta mas usando tanta força que também lhe arranhou a pele e causou-lhe hematomas mesmo sendo protegido por várias roupas.
E Sirius quase conseguia sentir a dor que Inverno sentia, que deveria ser grande o bastante para quebrar sua imagem de insensibilidade e fazê-lo gritar e se contorcer pateticamente. Mesmo o rapaz sentindo dor pelas agressões do outro, não o soltava. Por alguma razão, não queria ver Inverno gritando mais daquela forma.
Virou a estação para cima bruscamente para ver seu rosto e a grande mancha negra sobre seu coração, uma horrível tatuagem em sua pele, os cabelos de Inverno caindo sobre a neve. Ele não queria ver Inverno gritando daquela forma, e por isso, não entendeu quando ambas as mãos da estação puxaram seu rosto com força e seus lábios foram tomados ferozmente.
A situação mudou. Inverno empurrou Sirius com força para trás, caindo sobre o rapaz, subjugando-o enquanto ainda o beijava, as mãos então adentrando os cabelos do outro, ignorando os empurrões de Sirius para se soltar, totalmente confuso.
Inverno só queria algo que lhe tirasse a atenção daquela dor, algo que a parasse, e por alguma razão, encontrou refúgio nos lábios do rapaz. Era como se o toque daquela pele macia embora um tanto rasgada e ressecada pelo frio amenizasse consideravelmente a dor.
Então a estação se afastou, ofegante, sitando o rapaz sob si, os olhos negros do outro no rosto surpreendentemente corado.
-Você me beijou?! Porra, cara! O que diabos foi isso agora?!-Sirius exclamou, igualmente ofegante, seus dedos sobre seus próprios lábios.
-Eu preciso de algo que a pare.
-Pare o quê?
-A dor. E você serve bem.
-Ei, ei, ei, calma lá, eu não sou gay e...
-Não é ser gay ou não. Isso.-Inverno tomou a mão do outro, levando-a até a mancha negra em seu peito.-É o meu coração derretendo e se desfazendo em sangue negro. É o que acontece quando eu entro em contato com o mais próximo de calor, é o que acontece quando sinto qualquer coisa relacionada ao calor.
-Então por que está fazendo isso?! Me beijar e fazer essas coisas só vai fazer você sentir mais calor e...
-Eu sei. Vai doer e muito, mas é uma dor que substitui a outra.
-Sua lógica é totalmente burra!-Sirius exclamou, tentando se erguer, mas Inverno o empurrou para o chão de neve novamente.
-É o mínimo que pode fazer depois de eu ter salvado sua vida, moleque. Você me fez sentir essa dor, se eu tenho isso no coração, é culpa sua.
-Eu não vou transar com você!-Sirius exclamou, tentando escapar, mas Inverno tinha mãos firmes como aço.-Você não pode me estuprar! É contra a lei!
Inverno então parou por alguns instantes, seus olhos azuis profundos fitando o rapaz sob si e seus cabelos brancos balançando com o vento.
-Eu odeio sentir. Dói e só me traz problemas. Isso no meu peito, a primeira mancha que surgiu, foi de uma pessoa que uma vez me achou aqui e que conseguiu me ver, há muito tempo. Séculos depois, a mancha continua aqui. Eu não me curo, é como uma cicatriz, porém, eu acabo sempre procurando por essas mesmas emoções. Dói, me machuca, me faz sofrer por tempos intermináveis mas eu sempre acabo procurando pelo calor, algo que me tire dessa imensidão branca e então você me aparece. Um moleque humano que consegue me ver e que almeja se soltar das correntes do seu mundo, e que é quente, que tem calor próprio. A mancha começou a aumentar desde o primeiro momento que o vi, a dor me atormenta frequentemente, a cada olhar, mas não lhe solto e nem tiro os olhos de você. Não posso. Não consigo fugir deste calor que enquanto me atrai, me machuca. Te tocar me destrói o coração, mas não te tocar destrói-me igualmente. Entende o que se passa comigo, humano?
-Não entendo como pode ser tão masoquista...-Sirius comentou.
-Quando se anda só por séculos a fio, você se torna assim.-Inverno disse, estendendo uma das mãos e tirando umas mechas de cabelo do rosto do outro. Apesar de estar dizendo tudo aquilo, não sorria nem expressava nada, sempre frio, insensível, mas Sirius sentia que ele falava a verdade.
-Não sei se você notou, mas vai morrer se continuar assim. Porra, eu não sabia que você, o todo poderoso Inverno, era capaz disso. Cara, eu...
-Todo ser que respira é igual. Eu respiro, o fato de ser diferente de um humano não me torna biologicamente diferente por regra. Me é proibido sentir, mas mesmo assim, eu sinto. Chega uma hora que você simplesmente quer jogar tudo para o ar e desistir, parar de obedecer todos os parâmetros que lhe foram impostos, mesmo que mais tarde você sofra terrivelmente por isso. Eu não preciso que você sinta também, só quero que finja comigo.
-E-Eu não entendo!
-Você não precisa reagir, apenas fingir que reage. Depois de hoje, você pode sumir e nunca mais voltar, se quiser. Eu só quero que pare essa dor.-Inverno disse, agora sua mão sobre o peito da do rapaz.
Sirius piscou, sabendo o que aquilo significava. Tá, ele admitia que sentia algo, alguma atração, pela estação, mas deveria ser só porque ele era justamente diferente, exótico, belo, mortal e porque principalmente se parecia com o rapaz quando dizia querer fugir daqueles parâmetros impostos.
Mas mesmo alguém como Sirius, que já tinha dormido com várias meninas (e que nem lembrava da sua namorada nesse momento), não estava confortável em dormir com Inverno. Não porque tivesse medo, mas porque ele sentia que não deveria, como um instinto, uma necessidade de adiar.
Talvez fosse o medo do outro morrer, no final das contas. Talvez fosse o medo de causar dor demais que o fazia evitar aquilo.
-Cara...-Sirius suspirou, levando uma de suas mãos até seu rosto.-Eu não posso fazer isso... Você é a porra da única pessoa que ainda não me enxotou nem me impôs algo radical demais nem me privou de nada... Cara, você é o mais próximo de um amigo que eu tenho em centenas de quilômetros. Não posso fazer isso com você quando vou ficar aqui até o final do inverno... Se eu perdesse voc...
-Até quando? Até quando vai ficar?
-Até o final do inverno, no total, três meses.
-Vai ficar aqui até que eu durma?-Inverno perguntou, seus olhos azuis profundos por segundos mais leves.
-Posso ficar, se quiser. Vou ficar.
-Pois...
-Olha, cara, merda, mas eu durmo com você, okay? Não faça essa cara, eu durmo com você, mas não agora. Tenho ainda mais de sessenta dias para me preparar psicologicamente para isso, então...
-Então fique comigo mesmo que a dor não passe.
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-Então... Ele gosta de mim, eu acho, mas ele sente dor porque... Tem calor, eu acho e... Ah, merda, isso é muito confuso... Então ele quer dormir comigo porque quer mesmo que possa morrer depois por causa do calor... Não quero que aquele filho da puta morra... Ah, merda, por que tem que ser tão complicado?!-Sirius exclamou, entrando na base naquele momento.
E assim que colocou os pés dentro do lugar, uma mão forte lhe puxou pelo braço, quase o derrubando.
-Porra, o que... Ah, é você.-Sirius disse, encontrando o olhar acusador do seu pai.-Eu fui atrás de você, velho, mas não te achei então voltei...
-Já é de manhã! Por onde você andou?! Como sobreviveu a pior nevasca do século?!-Liam exclamou, apertando o braço do filho com bastante força, irritado demais por alguma razão.
-Eu me abriguei!-Sirius respondeu, puxando o braço com força, soltando-se do pai.
-Você está escondendo algo de mim!
-Se eu escondo é problema meu! Você nunca me contou nada, por que eu haveria de contar para você?! E outra, pare de ficar em cima de mim o tempo todo! Porra, não tem nada aqui em quilômetros, o que eu iria fazer de errado?! Me deixe em paz!
-Você é meu filho...
-Mas não sou sua propriedade! Se você me vê como a droga de um filho, me dê um pouco de confiança! Eu não posso fugir, não posso fazer nada de errado, para que esse medo então?!
-Você...!-Liam engoliu o que ia dizer e olhou em volta, notando que estava chamando a atenção dos demais presentes ali.-Vá para o seu quarto. Agora.
-Será um prazer.-Sirius respondeu, repleto de sarcasmo, e realmente foi ao seu quarto.
Mas quando se virou e a neve começou a pingar no chão, derretendo-se, algo mais caiu. Gotas negras, gotas de sangue negro que fizeram Liam se ajoelhar no chão, sem saber o que seria aquilo. A textura era diferente, a cor era diferente e até o cheiro e gosto eram diferentes.
E daí ele tirou a prova que o filho estava metido em algo estranho demais. Pegou a amostra do líquido preto no chão e foi examinar no laboratório em segredo.
Enquanto isso, Sirius se jogava na cama do seu quarto e trancava a porta, jogando suas coisas e despindo aqueles quilos de roupas, ficando apenas com as mais necessárias para não sentir tanto frio. Olhando para o teto, xingava e falava consigo mesmo, irritado demais.
Não demorou a lá fora anoitecer e o rapaz voltar a se alimentar de chocolates e outras porcarias que trouxera consigo, começando a sentir falta dos nutrientes. Mas depois de passar horas olhando para o teto (e até sonhar com o mesmo depois de tirar alguns cochilos), viu que tinha uma parte que a cor do forro mudava de um tom mais claro para o escuro.
Ou era isso ou era sua imaginação por ficar tanto tempo deitado olhando para o teto. Mas quando olhou melhor, uma vez notado, dava mesmo para perceber uma diferença de cor, como se o mais desbotado fosse velho e o mais escuro fosse o novo, como se... Sirius se pôs de pé sobre a cama, erguendo os braços e alcançando o teto (baixo, como vocês podem ver). Deu algumas batidas contra a parte desbotada do forro cinza e algumas contra o forro mais escuro, vendo que o som do primeiro forro fora mais oco do que o segundo.
Espalmou então as mãos contra a parte desbotada e empurrou para cima com força, primeiro sem sucesso algum e depois ouvindo uns rangidos e então de repente a ausência de resistência. Aquela parte recente do forro era um alçapão agora aberto que deveria dar para uma espécie de sótão ou algo assim.
Pulou sobre a cama várias vezes até atingir uma boa altura e meteu os braços no buraco, usando-os como gancho para se prender nas beiradas do alçapão. Içou-se para cima e lá estava ele, subitamente se tremendo de frio.
Aquele alçapão não dava num sótão, e sim no próprio telhado da Base, onde ventava bastante, aliás. Não era muito alto, aliás, Sirius achava que aquela deveria ser a parte de trás da Base por ter um teto tão baixo, reto, como se há muito tempo tivesse sido uma varanda ou algo assim, tanto que havia restos de uma cerca na extremidade do telhado desgastado. Olhou para o alçapão aberto e viu que a resistência que sentira antes não era nada mais nada menos que neve acumulada.
Se pôs de pé, esfregando as mãos e tremendo os dentes. Com a pouca roupa que estava, poderia congelar em minutos, mas quis ficar ali mais um pouco. Era possível ver toda a planície até o horizonte branco dali. Tudo branco e às vezes cinza. Depressivo.
Sirius estava pensando em voltar quando uma ideia lhe surgiu na cabeça. Se Inverno tinha como surgir do nada, será que...
-Inverno!-Sirius gritou, suas mãos em formato de concha ao redor da boca para conseguir um alcance maior, embora o barulho do vento não ajudasse muito.-Inverno!
Teve um calafrio e voltou a esfregar as mãos, desistindo e voltando-se para o alçapão apenas para que exatamente nesse instante ouvisse uma voz atrás de si.
-O que é?-Inverno perguntou, a costumeira túnica e calças brancas, os cabelos brancos, a pele quase totalmente branca se não fosse por um tom rosado mínimo e os olhos azuis profundos que contrastavam com tudo aquilo. Ele era capaz de se misturar à neve com perfeição se quisesse.
-Olha, não é que você veio mesmo...-Sirius começou a rir, embora tivesse mais calafrios.-Como um cachorrinho!
-Que bom saber que tem tempo de me chamar mas não para cuidar de si próprio.-Inverno respondeu, cruzando os braços.
-Eu...-Sirius ia falar, mas acabou dando um espirro.-Eu vou voltar para dentro senão vou morrer congelado...
Inverno seguiu o humano com o olhar, vendo quando o último sumiu no alçapão e pousou sobre a cama, descendo da mesma para tirar toda a neve antes que essa começasse a derreter. Sirius ergueu o olhar para encontrar a estação olhando-o pelo buraco no teto, sem saber se entrava ou não.
-Olha, você pode entrar se quiser.-O rapaz disse, sentando-se na cama.-Tá fazendo uns 7° graus aqui dentro.
-É quente demais.-Inverno respondeu então, vendo o rapaz dar de ombros e logo se esconder debaixo das cobertas, esfregando as mãos em busca de calor. Sirius então ergueu o rosto, exibindo uma careta irritada.
-Tá, você pode abaixar a temperatura e entrar, se quiser!-O humano exclamou, trazendo mais cobertores para si.
-Não preciso.-Inverno respondeu, pulando para dentro do quarto e indo até atrás da cama, encontrando um termostato e colocando para -10º graus. A estação então começou a despir a túnica, jogando-a no chão com descaso.
-O que você está fazendo?!-Sirius logo exclamou, vendo o outro se sentar na cama ao seu lado.
-Está quente.
-Está -10° graus!
-Para mim é quente.-A estação deu de ombros, virando-se para Sirius então e depois olhando em volta.-Eu já vim até aqui. A pessoa que antes conseguia me ver também vivia aqui e fez esse alçapão por minha causa.
-Porra, então você é mais velho do que eu pensava...
-Era diferente de você, a pessoa. Era mais gentil e tinha jeito com animais quando aqui havia mais animais. E era educada também.
-Tá me chamando de mal-educado e de grosso, porra?!
-Indiretamente, sim.
-Ah, não fui eu que no primeiro momento jogou uma ameaça de morte!-Sirius exclamou, franzindo o cenho.-Não fui eu quem tentou enforcar alguém!
-Não sou obrigado a ser gentil, você é.
-E por que eu seria?!
-Porque você vê e fala com várias pessoas. Eu não falo com ninguém. Minha solidão deveria me fazer alguém extremamente individualista e alguém que realmente não sente nada, mas não é bem assim.-Inverno respondeu, fitando Sirius.-Eu deveria evitar qualquer tipo de dor, mas não evito. Talvez porque todos precisem sentir, eu também precise, mesmo que sinta apenas dor. A necessidade de sentir é algo do qual não pode se escapar.
-E você tá falando como um daqueles caras chatos das universidades...-Sirius bufou, levando as mãos até o cabelo e mexendo no mesmo preguiçosamente.-Porra, cara, você não precisa ser tão melodramático assim... Você tem jeito pra ser aqueles emos, sabe? Aqueles que ficam só se lamentando pelos cantos.
-Não estou me lamentando, só digo a verdade.
-Então não diga, já que ela está subtendida mesmo. E outra, não vou ser todo gentil só porque você diz que eu devo ser.
-Eu sei. Vocês, humanos, tendem a ser criaturas altamente contraditórias.
-E você tende a ser um filho da puta muito irritante, sabia?
Inverno fitou o outro por alguns segundos, repuxando um dos lábios para cima numa espécie de sorriso muito discreto, mas presente, que fez Sirius ficar estático. Sem aquela constante cara fria, Inverno ficava tão... Incrível. Quer dizer, vejamos, quer dizer... Sirius sem querer corou e desviou o olhar, trazendo mais cobertores para si.
Não deveria estar corando! Homem que nem ele não cora, então por que aquilo?!
-Pare de me olhar assim, seu idiota!-Sirius exclamou, vendo que na verdade o outro se aproximava e se deitava ao seu lado, apoiando o rosto na curva do seu pescoço, cheirando aquela área apenas por curiosidade, mas ato que foi mal interpretado pelo rapaz.-O que está fazendo?! Porra, cara, já disse que não sou gay, não fique fazendo essas coisas!
-Você não pode me impedir, e segundo sua sociedade, homossexualismo é quando dois humanos do sexo masculino têm relações sexuais. Não sou um humano, então essa regra não se aplica a mim.
-De qualquer forma...! N-Não faça isso!-Sirius exclamou, querendo sair da cama mas o outro lhe segurou pelos pulsos bem na hora, mantendo-o deitado.
-Você vai ficar aqui porque quando me chamou, eu estava cochilando. Agora vai pagar por ter me chamado por nada.-Disse a estação, aproximando seu rosto do rapaz, que fechou os olhos com força enquanto sentia os lábios do outro apenas em sua bochecha.-Mas não posso fazer nada contra você, uma vez que o trato foi que até o final do inverno você durma comigo por espontânea vontade. Devo cumprir as promessas que faço.
-Porra, cara! Por que você não pode agir normalmente e simplesmente...! Ah, esquece! Você não tem jeito mesmo, que merda!-Sirius exclamou, vendo que o outro se sentava na cama e se afastava.-E-Espera aí! Pra onde vai?! Pensa que pode ir embora assim, do nada?!
-Achei que estivesse me mandando embora.-A estação respondeu, o rosto novamente frio.
-É só que...! Argh! Você pode ficar, eu não acho ruim, só não tente me estuprar nem nada, entendeu?! Até porque eu tenho uma namorada e... Porra, acho que numa hora dessas ela já deve estar dando pra outro, então...
-Sua confiança nas pessoas me surpreende.-Inverno disse, totalmente sarcástico.
-Cale a boca e venha pra cá, não faça eu me arrepender, oras que merda!
A estação obedeceu, voltando a se deitar na cama ao lado do outro, trazendo-o para perto de si de forma que Sirius deitasse a cabeça em seu peito, o que o fez tentar se esconder dentro do cobertor, o que Inverno não permitiu.
-Eu quero ver seu rosto.-Disse a estação.
-Para quê?! Não vai ganhar nada com isso, me deixe em paz, merda!
-Quero ver sua reação.
-Não!
-Por favor?-Inverno pediu, a voz no final se tornando um tanto mais aguda. Fitou Sirius nos olhos com leveza e este último acabou desistindo de se esconder nas cobertas, engolindo seco e olhando para qualquer lugar exceto o outro colado a si.
-Você é um tremendo de um filho da puta, sabia?-O rapaz disse, apenas para ter seu rosto tomado pela mão do outro, que o fez virar o rosto.
-Posso arcar com isso.-Inverno disse, segurando então o rosto do rapaz na sua direção e aproximando os lábios até estes se tocarem um beijo, diferente do primeiro, este mais calmo, mais detalhado, mais doce do que o primeiro.
As línguas logo se tocando e às vezes, os dentes se batendo, a estação mordendo então os lábios do menor, sentindo o calor começar a surgir, assim como a dor.
Doer, doía, mas doía muito mais evitar esta dor.
Notas finais
Enfiem, espero que vocês tenham gostado ♥
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