Notas iniciais
A maior aventura é descobrir e encarar os próprios sentimentos de frente sem medo.

William não resistiu. Quando percebeu que Beatriz foi apagando e adormeceu. Puxou-a de encontro a si e aconchegou-a em seu peito. Ela aninhou-se com um suspiro.

Como era bom seu cheiro. Seus cabelos eram macios, sedosos. A vontade que sentiu foi de acarinhá-la. Protegê-la. Não entendia seus sentimentos. Nunca foi sentimental. Nem dado a arroubos românticos. Tivera namoradas, mas ninguém lhe provocara o que ele sentia naquele momento. Era algo que lhe enchia o peito. Um calor que lhe invadia de forma agradável e serena. Por fim, também adormeceu.

Beatriz acordou com um som ritmado de respiração e um coração sereno em seus ouvidos. Não acreditava. Estava recostada no peito de William. Que vergonha! Mas que gostoso. O calor dele era delicioso. E ao que parece ele dormia. Podia desfrutar daquela sensação por mais um pouquinho.

A magia acabou quando o médico chegou e simulou um limpar da garganta. Os dois levantaram-se. O médico lhes informou que dona Isadora já estava no quarto. Mas que ainda inspirava cuidados. Ela continuaria sob observação, mas no quarto. Já poderiam vê-la, porém não conseguiriam falar com ela, porque estava ainda sob efeito de medicamentos fortes e iria dormir por um bom tempo ainda.

Agradeceram ao médico e foram até o quarto. Entraram com cuidado. Olharam-na. Fizeram carinho e resolveram ir pra casa descansar. William prontificou-se a levar Beatriz para casa. Afinal ficaria no apartamento da mãe por enquanto. Ela por sua vez não estava com vontade de enfrentar a rua gelada aquela hora da manhã.

Os primeiros raios de sol tingiam o horizonte de uma mistura de cores vibrantes. Beatriz e William sentiam-se tão vibrantes quanto as cores no céu. E cheios de energia de uma forma nova e prazerosa. Foram em silêncio para casa. Ao mesmo tempo sentiam-se meio constrangidos, mas não tinham vontade de separar-se.

Quando passaram pela confeitaria próximo do prédio em que Beatriz morava, William parou e convidou-a para o desjejum. Entraram e escolheram o que queriam e sentaram-se para esperar pelo pedido. William agradeceu por Beatriz ter ficado com ele a noite toda. Ela desculpou-se por ter dormido.

— Não importa. O que conta foi o seu apoio nessa hora difícil, muito obrigado. – Pegou a mão de Beatriz e levou-a aos lábios. Deu-lhe um beijo suave que a fez estremecer. Baixou os olhos pois temia que eles denunciassem as emoções que lhe invadiam naquele instante. – Gostei de tê-la conhecido.

Beatriz olhou-o para ver se via algum sinal de brincadeira em seus olhos, mas ele parecia falar a verdade. Procurou recolher a mão sem ser descortês. A proximidade a perturbava demais.

— Também gostei de ter conhecido você. Isadora sempre mencionou o filho. Contava sobre suas viagens. De certa forma é como se eu te conhecesse um pouco.

O pedido chegou e a conversa continuou em torno da convivência de Beatriz com a mãe de William. Era sábado. Decidiram que descansariam e voltariam juntos ao hospital depois do meio-dia. Ainda era cedo. Umas seis horas da manhã. Poderiam descansar bastante.

Chegaram ao prédio, pararam para dar notícias para Gilbert que estava deixando o seu posto naquele instante. E subiram. Andaram pelo corredor calados e pararam diante da porta de Beatriz. Ela estendeu a mão, mas William aproximou-se de seu rosto e lhe beijou na face. Ela enrubesceu. Procurou a chave na bolsa, que parecia ter sumido e quase errou a fechadura. Despediram-se e ela entrou. William demorou-se alguns segundos olhando a porta fechada a sua frente antes de seguir para o apartamento da mãe.

Ambos foram tomar banho e descansar, mas seus pensamentos estavam voltados para o ocupante do apartamento ao lado. Repassavam o que tinham vivido nas últimas horas. As emoções se sucediam e se alteravam. Tudo era novo para os dois. O que viveram até ali não se comparava ao que experimentaram nos momentos que estiveram juntos. Era intenso. Não conseguiam definir. Apenas sabiam que não podia ser ignorado. E ao adormecer o último pensamento deles foi de um para o outro.

O que aconteceria depois, no momento não interessava. Agora estava bom demais sentir aquela sensação que invadia. Pareciam flutuar.

William era um homem prático e duvidara que um dia pudesse se apaixonar e até amar alguém. O sentimento avassalador que seus amigos sempre descreveram nunca o havia alcançado. Tirara sarro dos companheiros quando apareciam com cara de bobos falando de um amor. Fora ao casamento de alguns deles nos últimos anos. E se gabava de que não seria pego nessa rede.

Beatriz por sua vez passara a maior parte de seus últimos anos estudando muito. Após a faculdade fizera especialização em revisão, para poder atuar no mercado editorial. Houveram alguns namoricos, mas sempre cortara pela raiz todos eles quando se encaminhavam para algo mais sério. Até pensara que nunca acharia alguém para amar de verdade. Olhava suas amigas e colegas casando, mas não sentia vontade de estar no lugar delas. Até agora.

Notas finais
Encarar ou fugir do coração.