Corações Problemáticos
8 Ferias na Italia
Notas iniciais
Uma boa noticia. Eu estava dentro do avião, alguns minutos antes da decolagem, minhas mãos tremiam. Era a minha primeira vez em um avião e eu estava com medo. Estava sentado ao lado de Bianca, ela comia um pacote de amendoins despreocupadamente.
A má noticia era...
–- Logo vamos decolar, porque suas mãos estão tremendo Daivid?
Era a voz de Isaac. Depois que Bianca me convidou, eles de algum misterioso modo ficaram sabendo da minha viagem e então Bianca os convidou para vir também. Ou seja, nossas férias juntos estavam acabadas. E o pior era
–- Nós estamos viajando juntos Daivid, isso não é muito legal? – Dessa vez era a voz de Aisha.
–- Sim, muito legal... – Eu disse em um tom irônico. Arrumei meus óculos que estavam caindo e suspirei.
–- Algum problema? – Bianca me perguntou.
Olhei para trás e vi Aisha foleando uma revista, ela sorria e estava muito animada.
–- Não, nenhum problema.
O bom foi que pelo menos Tony também veio. Mas ele se sentou mais para a frente então eu não conseguia falar com ele.
Depois de algumas horas dentro de um avião, que eu já estava ficando louco e com medo, nós chegamos a Italia.
A casa da prima de Bianca era gigantesca. Acho que daria umas cinco casas iguais a minha para cobrir o tamanho dela. Somente a entrada já era enorme, as paredes da frente eram todas de vidro que davam para a vista da praia, por dentro se podia ver uma grande escadaria como se fosse uma mansão.
A prima de Bianca nos esperava, ela tinha cabelos castanho-escuros e seus olhos eram verdes como os da prima. Aparentava ter mais de vinte anos. Usava um biquíni lilás e um roupão. Primeiro ela deu um abraço em Bianca.
–- Bianca! Prima!
Logo em seguida em todos nós. Um por um. Meu rosto ficou vermelho quando chegou a minha vez, afinal, ela estava de biquíni e eu não costumo receber abraços, a não ser os abraços de Anthony quando ele acaba de acordar, mas isso era outra coisa.
–- Você deve ser o Daivid. Nossa, você é mesmo bonitinho.
–- Ah...é...hã... – Foi o que respondi.
Ela nos levou até os quartos. Que eram do tamanho da casa da minha tia rica. Eram separados, os garotos dormiriam em um e as garotas em outro. Aisha não se animou muito com a ideia de dividir o quarto com Bianca, mas Alexandra a prima de Bianca ia ficar no quarto também, ela conhecia muito o problema da garota então não tinha com o que se preocupar.
Eu e os garotos estávamos nos trocando para ir a praia, eu vesti somente uma bermuda já que eu não queria entrar na agua. Eu já disse que não gosto muito de nadar?
–- Ei Daivid – Isaac me chamou – Você está bem fortinho, por acaso andou malhando é?
Eu me olhei no espelho, realmente estava um pouco forte.
–- Acho que foi de tanto eu puxar o Tony da cama quando ele não queria acordar, ou também de tanto tentar me livrar de seus abraços de bom dia. – Respondi provocando risadas somente em Isaac.
–- Voce não deveria evita-los. Eu sou um garoto carente.
Mais risadas. Escutei batidas na porta
–- Vocês já estão prontos? – Era a voz de Alexandra.
–- Sim já estamos indo! – Isaac respondeu – Ei Daivid, nada de ficar olhando muito minha irmã de biquíni, ok?
–- Me poupe.
Nós saímos. Alexandra nos levou até a varanda que tinha uma vista incrível da praia, nós estaríamos nela assim que passássemos da cerca que fechava a área da varanda. Logo depois ela foi buscas as garotas.
Aisha usava um biquíni amarelo com franja. O biquíni era da mesma cor de seus cabelos extremamente longos de Rapunzel. Ela veio com os braços para trás e olhando para o chão, tímida. Ela arrumou o cabelo que estava na frente do rosto, eu meio que paralisei no momento.
–- Que foi Daivid? – Ela me perguntou.
–- Ah...é...hã... – Minha resposta.
Foi então que uma visão fez meu coração acelerar tanto que quase parou de bater. Bianca usava um biquíni preto e vermelho com caveiras, não sabia que ela curtia esse tipo de coisa, mas fiquei muito impressionado, muito mesmo. Eu estava hipnotizado a olhando, ela então me focou com seus olhos verdes profundos, seu rosto ficou vermelho.
–- O que foi Daivid? Por que está me olhando tanto?
Adivinhe o que eu respondi.
–- Ah...é...hã...
–- Vamos? – Alexandra nos chamou.
A praia era enorme, bem todas as praias são, mas essa era uma praia na Italia. Nós iriamos ficar por duas semanas na casa de Alexandra e depois voltaríamos, faltando ainda duas semanas para acabar as férias. Nós chegamos a praia, montamos nosso guarda-sol. Alex, Aisha e Isaac foram para a agua. Eu, Tony e Bianca ficamos sentados protegidos do sol. Um olhava para o outro, constrangidos e sem assunto. Bianca se levantou.
–- Vou buscar algo para beber. Já volto.
Ela saiu caminhando pelas areias brancas, eu podia ver vários casais juntos, também via famílias se divertindo na areia, me perguntei se algum dia eu poderia me divertir assim com a minha família.
–- Está pensando em que? – Tony perguntou.
–- Família – Respondi seguido de um suspiro – Imaginando se um dia eu poderia ser assim com a minha família, se nós poderíamos viajar para uma praia e nos divertirmos, algo assim, como uma família normal.
Ele viu para onde eu estava olhando, uma mãe e seus filhos pequenos faziam castelos na areia enquanto um filho mais velho observava andando em volta do castelo dando ordens do lugar onde eles deviam colocar a areia. Tony se recostou em sua cadeira de praia novamente.
–- Quanto tempo faz que você não tem uma crise Dave?
Agora que parei para pensar faz tempo desde a minha ultima crise, talvez...
–- Um mês, eu acho...
–- Um mês e dezoito dias – Tony corrigiu como se estivesse contando os dias, espera...
–- Você está contando?
–- Sim. Desde quando nos passamos a dividir o quarto eu conto e anoto quantos dias se passar entre as suas crises. No começo você tinha umas duas crises por semana, quanto mais passou o tempo suas crises foram ficando mais distantes, logo você tinha duas por mês. Mas isso continuou e sua ultima crise foi há um mês e dezoito dias. Você parecia um garoto normal como os outros que estudam lá para fugir de casa. Nem sequer parece que você sofre de TBH.
–- Você tem razão. Mas é estranho você contar os dias assim.
–- Você é meu colega de quarto. Eu tenho que te investigar para saber se você não é algum tipo de maníaco homicida. E também porque eu estou sempre te ajudando quando você tem uma crise. Não seria normal eu fazer algo assim?
–- Bem falando desse jeito sim. Mas eu não sou um maníaco homicida, pelo menos não ainda.
Ele riu.
–- Então, eu ainda estou curioso para saber sobre aquilo que você queria me contar antes de virmos para cá, o que era? – Perguntei curioso.
–- Está curioso? Bem, guarde sua curiosidade até voltarmos para escola. Seu mané. Não vai nadar, Aisha está te chamando.
Ela acenou para mim da agua, eu acenei de volta. E logo em seguida bufei.
–- Ela não sabe quando desistir – Resmunguei.
–- Engraçado como isso me lembra alguém...
Bianca voltou com latinhas de refrigerante. Ela me jogou uma lata de coca.
–- Você só pedia dessa no refeitório então imaginei que você gostasse – Ela disse.
–- Muito atenciosa.
Os dois tomavam algo diferente da minha coca. Não me importei em saber o que era, a família do castelo de areia terminou sua obra prima, o castelo parecia ter o meu tamanho, o garoto menor pulava de felicidade ao ver o que tinha feito, o mais velho analisava o castelo com a mão no queixo pensativo e a mãe deles enxugava o suor da testa ela me viu. Sorriu e acenou, acenei de volta, ela parecia jovem para uma mulher com um filho da minha idade, mas não liguei muito para isso. Alex e os outros voltaram, todos estavam animados, até mesmo Bianca, mesmo que não parecia. Eu também estava, mas ainda sim eu sentia algo de errado. Será por causa do pensamento com a minha mãe? Bem mais foi eu quem decidiu sair de casa e ir para a escola.
–- Eu acho que vou dar uma volta, depois eu encontro vocês.
–- Você vai se perder – Alexandra disse como se já soubesse disso.
–- É posso ver a sua casa gigantesca a distancia. Vou usa-la como ponte de referencia.
–- Então tudo bem.
–- Ei Daivid – Aisha me chamou mais Alex a cortou.
–- Deixe-o ir. Eu vi que ele estava meio distante desde quando chegou. Precisa pensar um pouco sozinho.
–- Obrigado, Alex.
Ela sorriu. Eu me levantei e comecei a caminhar pelas areias brancas da praia. Sozinho vagando sem rumo, olhava para trás e podia ver uma casa com paredes de vidro brilhando com a luz do sol, não tinha como eu me perder assim. Então decidi voltar antes do sol se por senão não acharia mais a casa. Pensava no que tinha acontecido comigo, eu estava tão feliz e animado quando cheguei, mas agora eu parecia meio triste. E isso começou desde quando eu vi aquela família feliz se divertindo. Talvez eu estava sentindo saudades de minha família? Não me diga que eu fiquei depressivo por causa de meu problema que não me permitia conviver com a minha família. Não. Não era isso.
Me livrei de meus pensamentos quando esbarrei com alguém. Eu cambaleei para trás, a garotinha caiu sentada. Ela parecia ter, sei lá uns cinco ou seis anos. Vestia um vestido amarelo e seu cabelo que por sinal era loiro estava solto e era longo.
–- Foi mal – Eu disse.
Ela me olhou com um olhar estranho então disse algo que nao entendi. Era italiano, eu nunca entenderia. Foi então que percebi três coisas. Primeira, a garota não parecia muito feliz, pelo contrario ela parecia desesperada, eu fiquei assim somente uma vez, isso foi quando eu me perdi de meus pais no shopping quando era pequeno, ela estava perdida. Segundo, o sol estava se pondo e eu não conseguia mais ver a casa de Alexandra. Terceiro, quando olhei para o chão me dei conta de que estava na calçada não na areia. Eu estava somente pensando ou desmaiei e andei enquanto dormia?
–- Você está perdida? -- Perguntei
Ela fez alguns sinais com a mão e falava coisas em italiano. Eu entendi os sinais, significava que a resposta para a minha pergunta era sim. Mas ainda não entendia as palavras. Me arrependi de não ter aprendido italiano quando abriu o curso de línguas na escola.
–- Acho que vou te ajudar primeiro e depois tentar voltar para casa.
Ela não entendeu, mas eu ofereci a minha mão e a ajudei a se levantar.
–- Vamos achar a sua mãe.
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