Corações Problemáticos
25 Destrancando cadeados, abrindo portas...
Notas iniciais
Ela aceitou vir comigo e nós então fomos caminhar pela escola. Ignorando alguns olhares estranhos e pessoas que sussurravam entre si.
Bianca estava excepcionalmente bonita hoje, usava o conjunto inteiro preto, que incluía calças, uma camiseta com estampa de uma banda de rock, jaqueta de coura e botas até a altura do joelho. Ela parecia alguém que pilotaria uma Harley sem rumo pelas estradas.
–- Onde estacionou a moto? – Perguntei parecendo sério.
Ela não entendeu no começo, então olhou para baixo analisando as próprias roupas.
–- Muito engraçado.
Movimentei meus ombros que ainda doíam em consequência da minha conturbada noite de sono.
Meus olhos se voltaram para as janelas das salas de aula, e por algum motivo eu comecei a me lembrar do meu primeiro dia de aula, onde conheci Anthony na sala de aula e também da primeira vez em que vi Bianca, parecia que muito tempo havia desde então. De fato passou.
–- Tem algo errado? – Perguntou ela, acho que por ter notado que eu estava um pouco distante.
–- Nada, só relembrando os bons tempos aqui. Como quando você me expulsou da sua mesa no dia em te vi pela primeira vez, ou como você puxou meu cabelo de um modo em que eu ainda tenho a cicatriz na cabeça.
–- Eu te expulsei, mas você voltou...
–- Se eu não voltasse não estaria aqui com você hoje tendo essa conversa, então você deveria é agradecer aos céus pela minha existência, sem querer parecer convencido.
–- Tem razão...
–- O que? – Perguntei indignado e achando que havia escutado errado.
–- Eu disse que tem razão, se você não estivesse aqui acho que ainda estaria em meu quarto sem falar ou me aproximar de ninguém, você definitivamente mudou a minha vida de um jeito estranho...
–- É, Daivid Nashville costuma fazer essas coisas mesmo. Sem querer parecer convencido, Anthony é um exemplo disso.
Passei meu braço pelo ombro dela e a puxei para mais perto de mim. Ela não demonstrou resistência, somente por alguns preciosos segundos, depois se soltou de mim. Mas deixou escapar um sorriso que não passou despercebido por mim.
–- O que foi? Está sorrindo porque?
–- Não sei... Talvez porque agora eu possa sorrir verdadeiramente. Antigamente eu não sorria. Fui rejeitada por minha própria família, tenho um problema psicológico sério, e já matei uma pessoa por isso e ficava sempre fechada em meu quarto, não tinha motivos para sorrir...
–- É... E quanto agora, essas coisas não mudaram em nada.
Ela suspirou.
–- Sim, mas as coisas são diferentes agora... antes, eu tinha que enfrentar tudo isso sozinha...
Entendi que foi o seu jeito de dizer que ela estava feliz por ter meu apoio, ou algo mais ou menos parecido com isso. Respirei fundo.
–- Venha, vou te mostrar um lugar
Peguei sua mão e a puxei antes que ela pudesse resistir, ela não mostrou nenhum tipo de resistência durante todo o caminho. Chegamos então ao lugar, era um dos meus lugares não tão secretos que eu costumava vir quando criança, para observar as nuvens. Motivo um tanto quando estranho.
Se tratava de uma casa, já abandonada há algum tempo, mas ninguém nunca deu a mínima para isso, eu então entrava por um buraco que havia na grade, onde dava para a construção ao lado dela, uma obra já cancelada a décadas que também ninguém dava importância, através dela eu alcançava o telhado da casa, onde costumava ficar sempre quando era criança.
–- Cuidado, isso aqui é mais velho que a minha mãe – Alertei, rindo depois ai imaginar a reação que minha mãe teria sobre esse comentário.
Assim que terminei o aviso ela escorregou, a segurei pelo braço e quase despenquei também, eu costumava vir sozinho e sempre que caia, caia sozinho, direto para o chão, não era nada agradável...
–- Tudo bem? – Perguntei agora que estávamos seguros.
–- Não – Ela disse friamente, como de costume – Porque me trouxe aqui afinal?
–- Esse era o meu esconderijo nada secreto de infância – Chegamos a única parte no telhado que era quase plana, me sentei a convidando a se sentar também – Costumava vir aqui para observar as nuvens.
–- Observar nuvens?
–- Sim... E também para incomodar carteiros e motoboys atirando coisas neles daqui.
Nós ficamos em silencio durante alguns minutos, meu olhar estava voltado para o alto, eu estava muito sensível e sentimental nesses últimos dias.
–- Ei, Bianca, a historia de você ter matado o irmão de Sasha, era mesmo verdade? – Acabei soltando sem pensar -- Não. Quer dizer, você não precisa...
–- Sim... – Ela me cortou – Ele já foi meu namorado, ele havia me aceitado, mesmo sabendo de meu problema, isso não o incomodava – Ela não olhava para mim enquanto falava – E então... Houve aquela noite, estávamos discutindo por causa de algo bobo, eu... eu perdi o controle. Ele não resistiu aos ferimentos e então...
–- Então, você se fechou, se afastou de tudo e de todos com medo de que acontecesse novamente... – Completei.
–- Eu fiquei com medo, não quero passar por isso novamente, então apareceu você... Do mesmo modo em que ele apareceu, como se estivesse acontecendo tudo novamente.
–- Não – Discordei – Você disse que ele aceitou você mesmo sabendo de seu problema não é? Ele então não sabia que as coisas poderiam ter acabado assim? Mas... Não está acontecendo novamente, eu simplesmente sei que você não vai me machucar. Se você discutir comigo o máximo que vai acontecer é eu ter que te pedir desculpas.
Ela agora olhou diretamente em meus olhos
–- Eu já machuquei você antes...
–- Eu sei. Mas não vai me machucar de novo.
–- Como pode ter tanta certeza?
–- Não tenho... Mas você tem, você não vai fazer nada a mim, a menos que queira. – Respirei fundo -- Você quer? Então, vamos fingir que somos adolescentes normais, que estão no telhado de uma casa abandonada observando as nuvens, e fazer coisas em que adolescentes normais fariam, que tal um beijo por exemplo – Sua expressão permaneceu a mesma, suspirei – Você já me beijou antes...
–- Foi um agradecimento...
–- Ah, então... poderia me “agradecer” novamente...
...
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