Corações Feridos
1 Dime A Quien Quieres
Notas iniciais
Espero que gostem, fiz com muito carinho.
Numa tempestuosa tarde de sexta-feira, Ellen seguia para casa radiante. Apesar do dia frio de outono, seu dia não poderia ter sido melhor. Mal podia esperar para contar ao seu noivo o que acontecera naquele dia tão maravilhoso. Sentia que nada poderia estragar sua felicidade, e isso seria verdade, é claro, se não fosse pela notícia que a esperava em casa.
- Paulo? Paulo, meu amor! — Chamou assim que colocou o pé dentro de casa.
- O senho Paulo está lá em cima, no quarto, senhorita Ellen. — Avisou-lhe a empregada, Anna. — Parece que vai sair, está todo arrumado e disse que não vai jantar em casa hoje.
- Tudo bem, eu vou falar com ele. — Apesar de achar estranho, não deu muita atenção, tinha coisa mais importante na cabeça.
Subiu correndo as escadas, pulando dois degraus de cada vez. Entrou no quarto e encontrou Paulo em pé, de costas para ela, olhando a rua lá fora pela janela.
- Amor, eu tenho uma coisa pra te contar, você não vai acreditar no que aconteceu hoje!
- Eu também tenho que te contar uma coisa, Ellen. — Respondeu Paulo, vinrando-se lentamente para encará-la, sério.
- O que eu tenho pra contar é mais importante.
- Eu receio que não.
- Então o que pode ser tão importante para...
- Está tudo acabado entre nós. — Respondeu virando-se novamente para observar a paisagem chuvosa lá fora. Ellen emudeceu de súbito e pareceu ter as pernas paralisadas. Fez-se silêncio por um momento.
- O-o que? V-você está brincando comigo, não está? Diz que está!
- Quem me dera estar brincando, Ellen, mas eu falo sério. Está tudo acabado entre nós, o casamento foi cancelado. Eu já peguei minhas coisas e vou embora ainda hoje.
Silêncio novamente. Ellen conseguia ver o reflexo frio e impassível do rosto de Paulo no vidro da janela. Parecia um desconhecido, alguém muito diferente do Paulo que ela tão bem conhecia, um Paulo alegre, atencioso e carinhoso.
- Mas... como...? — Disse com a voz quase sumindo. Ele não respondeu logo.
Ellen sentiu o lábio tremer e os olhos enxarcarem. Sabia que podia cair aos prantos a qualquer momento e se esforçou ao máximo para não deixar uma única lágrima cair.
- Eu conheci outra mulher, Ellen. — Começou ele. — E eu percebi que estou apaixonado por ela mais do que já estive por qualquer outra mulher. Ela me fez perceber que esses anos todos que eu passei com você foram em vão, uma total perda de tempo. — Fez ligeira pausa — Temos saido há cerca de quatro meses, e descobrimos há dois meses que ela carrega em seu ventre um filho meu.
O mundo de Ellen de repente caiu e o chão pareceu sumir sob seus pés. Pousou as mãos sobre a própria barriga, na região do útero e sentiu um embrulho no estômago. Aquela felicidade que sentia minutos antes agora parecia ter sentido há meses atrás.
Então era isso! Ele não estava apaixonado coisa nenhuma! Estava apenas querendo o bebê, sempre quisera ter um herdeiro, coisa que Ellen nunca poderia lhe dar, afinal, era estéril, não poderia lhe dar filho sequer. Parece que não o conhecia tão bem quanto pensava conhecer.
Uma repentina raiva a acometeu. Sentiu uma lágrima escorrer por sua face e a limpou com violência na manga do casaco. Ela é que não iria ficar ali derramando lágrimas por ele, quando ele nem mesmo se importava. Se ele queria separação, pois bem, que separassem, agora ela é que não o queria mais.
Começou a gritar xingando-o de todos os nomes que vinham em sua cabeça, até mesmo alguns que nem existiam. Ficou ainda mais irritada quando percebeu que ele continuava lá, imóvel, como se nem a escutasse, como se nada estivesse acontecendo.
- SEU GRANDE IMBECIL, OLHA PRA MIM! — Vociferou. Ele pareceu hesitar mas achou melhor que se virasse mesmo, antes que ela o atacasse. Ela tentava controlar, em vão, a respiração descompassada. Por fim disse: — Sabe de uma coisa? Vai embora! Vai, eu não me importo. Sai daqui, Paulo, vai lá com aquela vadia! Some da minha vida! O que tá esperando? Vai embora daqui, some da minha casa! Ou melhor, fica, pode ficar. Deixa que eu mesma vou embora!
Paulo, sem dizer uma única palavra em protesto, assistiu quieto Ellen arrancar do dedo a aliança de noivado e jogá-la no chão como se fosse explodir a qualquer segundo. Passou por ele pisando forte, e antes que ele sequer pensasse em se virar para ver o que ela estava fazendo, ecoou pelo quarto um barulho alto de vidro se quebrando. Paulo fechou os olhos com o estrépito e só tornou a abri-los quando sentiu
Ellen passar por ele novamente, mas desta vez batendo propositalmente o ombro em seu braço.
Continuou observando calado, quando Ellen pisou em cima da aliança antes de sair do quarto e bater a porta com força ao sair.
Respirou fundo e olhou para trás para ver o que Ellen havia quebrado e notou inúmeros cacos de vidro transparente espalhados pelo chão e uma foto virada do avesso quase entrando embaixo da cama.
Recolheu a foto e sentiu o peito oprimido ao mirá-la. Era a foto que haviam tirado juntos no parque no dia em que ele a pedira em namoro alguns anos atrás.
Ajoelhou-se no chão e começou a juntar alguns cacos do porta-retrato de vidro e sentiu-se pior ainda ao ver que ali no canto inferior direito se formavam as palavras "Para Sempre". Já estava se sentindo arrependido do que acabara de fazer, mas assim era melhor, não via outra alternativa se não deixá-la. Reconhecia que fora muito feliz com Ellen durante anos e que nada fora em vão como ele há pouco dissera. Mas agora sentia que seu coração pertencia a outra, outra que poderia lhe dar o que ele tanto desejava.
Largou o vidro partido no chão e, sentindo-se culpado, recolheu novamente a fotografia e a guardou no bolso interno do paletó.
Saiu meio relutante do quarto e desceu para o hall de entrada. Abriu a porta e, segurando a maçaneta, deu uma última olhada em volta antes de sair pelo mundo à fora em busca da felicidade. Uma felicidade que Ellen nunca poderia lhe dar.
Notas finais
Já faz bastante tempo - muito mesmo - que eu não posto nada aqui no Nyah, acabei perdendo um pouco a prática. Então, como disse, tenham paciência!
Beijos da Dany :* ♥
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