Coração selvagem
17 XVII - Que cor é a de hoje?
Sabe aquele dia que você acorda, ele passa e ao final, no pôr-do-sol, você percebe que tudo parece ter mudado mesmo que você mesma não tenha feito nada? Bom, eu estava assim. Eu sabia que Yuka estava mudada depois da sua primeira vez, ela estava mais feliz. Fiquei contente por isso, porém algo mais havia mudado, eu só não sabia o que.
Num dia rotineiro se não fosse por essa minha sensação, eu andava pelo corredor do primeiro andar e fitei Harumi ao longe, se aproximando da porta de sua sala: 1-C. Ela passava por um pequeno aglomerado de meninos, encolhida e com o olhar baixo. Um deles esbarrou nela, porém, se sentindo invisível, ela nem olhou para o garoto, apenas continuou a andar.
– Oe, nanica. – Ele disse – Não vai me pedir desculpas?
Ela parou e o fitou inexpressiva.
– Foi você que esbarrou em mim. – Ela disse suavemente, porém se sentia a falta de emoção em sua voz.
Ela ia se virar, mas o garoto a pegou pela roupa, puxando-a bruscamente.
– Por favor, não faça isso. Vai amassar minha roupa. – Ela disse.
– Você é tão pequena, mas é uma grande abusada, ne? – Ele disse cheio de si.
Ela o olhava, inexpressiva e isso o fez sentir mais raiva pela falta de emoção. Harumi ia se virar novamente, porém o garoto a segurou pelo braço. Eu olhei a cena, surpresa e ia em direção a ela, porém apenas a vi dar um tapa forte na mão do garoto, o que me fez parar, surpresa.
– Nani, Tsubaki? – Atsushi se aproximou, cantarolando.
– Aqueles garotos estão mexendo com Harumi. – Disse, começando a andar.
– Cho-tto. – Ele disse pausadamente, me segurando pelo ombro – Não queria que seu plano desse certo? Esqueceu o que eu disse sobre eles?
– Hã? Meu plano não era assim. – Disse confusa, o olhando.
Ele olhou por cima da minha cabeça e eu me virei, percebendo um garoto de cabelo curto e azul logo atrás de Harumi.
– Você não deveria fazer isso. – Ele disse sem emoção ou expressão.
Harumi arregalou os olhos reconhecendo a voz e se virou, vendo Kuroko logo atrás dela. Ela corou levemente e ele passou por ela, ficando a sua frente. Ela o reparava, ele não era tão alto para a maioria dos jogadores de basquete, porém com sua estatura mediana era mais alto que ela, que em sua baixa estatura, tinha apenas 1,53.
– Você não deveria tratar uma garota dessa forma. – Ele dizia ao garoto – Deveria se desculpar agora.
Eu olhava a destreza de Kuroko, porém imaginava que ele apanharia. Vi Amaya sair da sala e logo me fitar, sorrindo e percebendo que eu não a olhava. Ela fitou a direção para onde meus olhos se direcionavam e viu Harumi atrás de Kuroko.
– Quem você acha que é? – O garoto o desafiou, o que fez seus amigos se aproximarem – Vai querer nos enfrentar por essa anã? – Ele estalou os dedos, se preparando.
– Hai.
Harumi corou, ele apanharia por ela? Amaya correu até lá e chegou sorrindo, tentando apaziguar a situação.
– A-Anou... Não vejo necessidade de violência para isso, rapazes. Por favor, por que apenas não voltamos a fazer o que fazíamos? – Ela dizia amigavelmente, esperando que desse certo.
– Até parece, cabelo de tocha. – O garoto disse.
Ela o olhou, surpresa e recuou um pouco, receosa. Eu olhava aquilo e fitei Atsushi.
– Oe, não vamos fazer nada? Somos maiores que ele. Podemos ajudar! – Exclamei indignada.
– Shh. – Ele disse, pegando minha cabeça e a virando para a direção deles.
O garoto que mexia com Harumi fitou Kuroko, posicionando o braço para trás e o jogou com força em direção ao rosto dele. Amaya e Harumi cerraram os olhos pelo impacto que o soco teria, porém não aconteceu nada, apenas um leve slap. Elas abriram os olhos e Amaya arregalou os dela, vendo Kagami segurando o punho do garoto que iria bater em Kuroko.
– Acha mesmo que vai fazer isso? – Ele disse com o cenho levemente franzido.
O garoto arregalou os olhos, vendo a estatura de Kagami e estremeceu, tentando recuar.
– Oe, não vai pedir desculpas à garota como ele disse? – Ele disse indignado, ainda segurando o punho do garoto.
– G-Gomen nasai, baixinha...
– Com educação, por favor. – Kuroko pediu.
Kagami fez cara de tédio com o pedido.
– G-Gomen nasai. – O garoto disse, tentando fazer uma reverência.
– Viu? – Kagami o soltou.
O garoto e os amigos saíram dali apressadamente e eu suspirei, aliviada. Fitei Atsushi com um sorriso aliviado e ele pegou minha mão.
– Vem comigo. – Disse, me levando junto sem eu entender.
Amaya estava corada e com o olhar baixo por Kagami ter salvado a todos.
– Bakayarou, pára de arrumar encrenca! – Ele exclamou.
– Você também não deixaria que fizessem isso com uma garota. – Kuroko disse.
Harumi e Amaya se entre olharam e os fitaram de novo.
– Isso não interessa! Porque sempre quem bate sou eu.
– E eu agradeço. – Kuroko disse.
Kagami fez cara de tédio e ouviu Amaya rir, fitando-a em seguida.
– Nani, anãzinha?
– “Anã...”?! – Ela o fuzilou com o olhar – Não foi você que disse para o garoto se desculpar, baka!
– Isso é outro assunto. E não foi com você.
– Você é um mal-educado! – Ela disse, se virando e saindo de perto deles.
– Oe! Não dê as costas pra mim! – Ele protestou indo atrás dela.
Harumi e Kuroko os olhavam sumir de vista. Ele a fitou, o que a fez desviar o olhar quando percebeu e corar.
– Já almoçou? – Ele perguntou.
– E-Eh... Não. – Ela disse timidamente.
– Ainda estão vendendo os sanduíches, que comer?
– H-Hum. – Ela o olhou com vergonha – A-Arigatou... Ne.
– Hum, não consegui não fazer nada.
Ela o olhou, admirada e ele se pôs a andar com ela o acompanhando. Enquanto isso, Amaya saía do prédio e pegava o atalho para ir ao refeitório. Kagami a seguia praticamente marchando atrás dela.
– Dá pra parar de andar?! – Kagami exclamava.
– Não, você que está me seguindo. Não preciso de guarda-costas. – Ela lhe lançou um olhar.
Ele a olhou, bufando e a segurou pelo pulso. Ela exclamou enquanto era aproximada do corpo dele. O empurrou e se soltou.
– Seu ogro! – Exclamou.
Ele fez cara de tédio e a fitou.
– Por que não admite que gosta de mim?
Ela corou.
– Porque não gosto! – Exclamou.
Ele suspirou e fitou as pequenas marias-chiquinhas altas no cabelo dela. Pegou uma delas e a soltou.
– Oe! – Ela exclamou – Não mexe no meu cabelo!
– Nande? – Ele perguntou, soltando a outra.
– Argh! Baka! – Ela exclamava – Você é um abusado, pretencioso...!
Kagami abaixou até sua altura e a beijou, calando-a. Cessou em segundos e a olhou.
– Cala a boca. – Rangeu os dentes, ofegante.
Ela o olhou, corada e com os olhos marejados, foi seu primeiro beijo. Apertou os olhos e tentou bater nele.
– Idiota!
Kagami segurou suas mãos e a pôs contra a parede do prédio, beijando novamente. Ela corou ainda mais, sentindo os lábios dele contra os seus e aos poucos parou de tentar se soltar. Como era mais alto, ele precisou se abaixar um pouco para alcançá-la. Cessou o beijo depois de alguns minutos e a olhou. Amaya pôs a mão cerrada à frente da boca e processava.
– N-Nande...?
– Oe, minna. Por que os gritos? – Madoka apareceu ao lado de Aomine.
Kagami e Amaya os fitaram, eles estavam ofegantes e com as roupas amarrotadas.
– Madoka, por que sua gravata está torta? – Amaya disse, percebendo que a gravata dela estava virada, de lado.
– Aomine, seu blazer está do avesso. – Kagami disse.
Aomine se olhou, pasmo. Kagami e Amaya se entreolharam, desconfiados e os fitaram novamente.
– O que vocês dois estavam fazendo? – Ela perguntou.
– U-Uhm... – Madoka gaguejou, olhando Aomine.
Ele não soube o que dizer. Kagami começou a rir.
– Na escola? – Perguntou, gargalhando.
Amaya corou quando compreendeu do que se tratava.
– U-Uhm...
– Vamos, acho que ele quer fazer mais cestas. – Kagami disse, pegando na mão de Amaya e começando a andar.
Amaya corou mais, indo com ele. Aomine fez cara de tédio e Madoka corou. Enquanto andavam, ela percebera que ele não soltara sua mão.
– E-Eles estavam fazendo aquilo mesmo?
– Com certeza. – Ele riu – Com a roupa toda torta não era possível que só estavam se agarrando.
Ela corou, virando o rosto. Kagami a olhou e sorriu levemente, vendo que ela parecia não acreditar.
– Não faça essa cara, inocente. – Ele apertou levemente o nariz dela.
– Hum. – Ela resmungou, tampando o nariz com a mão – Não sou inocente.
– Ah, é? – Ele a olhou maliciosamente.
Amaya corou, virando o rosto e ele riu, vendo que ela era.
– Ne, não é o mesmo sanduíche que você estava comendo, mas hoje tem um bom no refeitório.
Ela o olhou, surpresa. Ele não se esquecera do sanduíche que derrubou no dia que se conheceram. Amaya abaixou o olhar e deixou escapar um sorriso envergonhado, vendo que Kagami ainda estava de mãos dadas com ela.
...
Atsushi me levou para trás do prédio de biologia. Eu começava a achar que aquele era nosso ponto de encontro oficial. Ele ainda segurava minha mão e eu corava por sentir sua pele. Ele parou de repente e me fez chocar contra seu corpo.
– Oe, avisa. – Disse.
Ele riu e me fitou. Eu esfregava meu nariz pelo encontro forçado com as costas dele e ele me abraçou de repente, sentando no chão e me fazendo praticamente cair entre suas pernas.
– Ett...! – Exclamei, minha bunda bateu no chão – Baka... Doeu.
– Viu? Deu tudo certo.
– Como sabe? Saímos antes. – O olhei.
Ele sorria calmamente, o que me fez corar e me olhou, reparando em algo.
– N-Nani?
– Suas bochechas estão da cor do seu cabelo.
Corei mais e ele riu, começando as mexer em meu cabelo. Ele correu os dedos pelos fios, que chegavam até minha cintura e eu me arrepiei um pouco. Não sei por que, mas me lembrei de Yuka falando sobre sua primeira vez e o olhei, corando ainda novamente e desviando o olhar.
– Nani? – Ele perguntou.
– E-Eu ainda quero saber o que vai ganhar com isso.
– Com o que?
– Os passos.
Ele suspirou, mas não parecia irritado.
– Você. – Disse.
– Eh? – Corei – Eu como?!
– Oe, sem pensamentos sujos, hentai.
Fiz cara de tédio, corando.
– Você que baixou o zíper do meu vestido no encontro.
– Hum, verdade. – Ele riu – Eu tinha uma curiosidade.
– Se eu ia ficar com vergonha?! – Disse indignada – Confirmou isso?!
– Não. Se você usava lingerie daquelas com detalhes ou sei lá.
Arregalei os olhos e senti meu rosto quente de tão vermelho.
– Q-Que curiosidade é essa?!
Ele riu.
– De garoto. – Ele disse tranquilamente, dando de ombros – Mas como você é deve ser tudo bege sem graça.
– N-Não é bege sem graça! – Disse indignada.
– Então qual a cor?
Corei novamente e me cobri com os braços, encolhida.
– Não vou dizer.
– Hum. – Ele sorriu, tocando a manga do meu uniforme – Deve ser aquelas renda, ne?
Desviei o olhar com vergonha.
– Que assunto é esse do nada? – Perguntei sem conseguir olhá-lo.
– Daria pra ver se não estivesse com o colete do uniforme. Talvez.
Estávamos no Outono e começava a ficar frio. Agora eu usava a blusa branca de mangas compridas e o colete de malha do colégio. Fora as meias-calças que agora chegavam até a metade das minhas coxas.
– É de que cor a de hoje? – Ele perguntou, passando levemente o dedo pela minha meia-calça e o subindo lentamente.
Eu me encolhia e ele estava quase chegando na minha coxa, se aproximando da saia.
– Preto, preto, preto! – Exclamei de repente, apertando os olhos.
Ele parou e me olhou surpreso. O olhei e o vi querendo rir. E foi o que ele fez, começou a dar gargalhadas.
– Não tem graça...
– Se você visse sua cara quando disse “preto, preto, preto”. – Ele ria.
– Pára de me imitar! – Exclamei.
A risada dele era tão natural que me dava vontade de rir também, o que eu quase estava fazendo.
– Pára de rir. – Pedi, mas começava a deixar algumas pequenas risadas escaparem.
Comecei a rir junto com ele enquanto me lembrava de mim mesma falando “preto” nas repetidas vezes. Ele me olhou com os olhos cheios de lágrimas de rir e segurou minha nuca, me beijando. Dizem que rir libera Serotonina, o hormônio da felicidade. Estávamos rindo e de repente ele me beijou, o que me fez não cessar ou recuar, mas continuar o beijo. Era macio, gentil e chegava a parecer ser doce. Nossos lábios dançavam em compasso e ele pôs lenta e gentilmente a língua da minha boca. Tentei parar o beijo, mas ele disse:
– Apenas faça o mesmo que eu. – Concluiu, continuando o beijo.
Aquilo me fez lembrar de quando Yuka disse que beijara Midorima pela primeira vez. Ele disse algo parecido e ela disse que era muito bom. Comecei a tentar imitá-lo, seguir seu ritmo. Era tão estranho duas línguas diferentes se entrelaçando por causa de um compartilhamento de bocas. Corei quando comecei a sentir um formigamento entre minhas pernas e ele pondo a mão em minha cintura, apertando-a levemente. Isso me fez cessar o beijo.
– Pára... – Pedi ofegante e o olhei.
– Hum. – Ele sorriu gentilmente – Você aprende rápido.
– Baka...
Ele deixou uma risada escapar e pôs a mão em minha cabeça, afagando-a. Não sei por que – como muitas coisas! – mas sua mão afagando minha cabeça fez eu me sentir bem da forma mais gentil possível.
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