Coração selvagem

8 VIII - O preço de uma informação


Notas iniciais
*Dango: http://www.moroboshi.eu/blog/wp-content/uploads/2015/04/dango2a.jpg

Depois que eu saí do quarto de Yuka, desci as escadas e disse a Midorima que ele poderia subir. Quando ele ia entrar no quarto dela de novo, eu o fuzilei, porém de brincadeira. Ele me olhou, pasmo e entrou, fechando a porta. Eu fui para o meu quarto e peguei meu celular de cima do criado-mudo. Agradeci por um momento por Murasakibara tê-lo pegado e ligado para o dele naquele dia. E ele, como o abusado que era, pôs “Atsushi” como nome de contato. Suspirei, me preparando e fiz a ligação. Aqueles “tum-tum” me deixavam mais nervosa.

– Baki-chin. – Ele cantarolou, sorrindo.

Fiz cara de tédio.

– Yo. – Disse – Preciso falar com você.

– Nani? Nani? – Ele cantarolou.

Suspirei, tentando ter paciência.

– Gostaria de ter algumas informações sobre uma pessoa.

– Quem?

– Aomine-kun.

– Nande? – Perguntou um pouco sério.

Suspirei.

– Anou...

– Você mora longe do colégio? – Ele perguntou de repente.

– Hum, não. – Disse sem entender.

– Vá para a lanchonete que tem perto de lá. – Ele disse – Chego em quinze minutos.

– Uhm... Hai. – Disse ainda sem entender.

Não sabia a razão disso, como de nada do que acontecia entre ele e eu, mas me arrumei com uma calça e blusa de mangas compridas e fui. Quando cheguei, arregalei os olhos. Ele já estava bebendo um milk-shake. Fiz cara de tédio e fui até a mesa onde ele estava, me sentando a sua frente.

– Por que me pediu pra vir aqui? – Perguntei o olhando.

Ele bebeu mais duas vezes pelo canudo e me olhou.

– Por que esse interesse por ele? – Ele perguntou, apoiando o rosto na mão.

– Eh...! – Corei – Não tenho interesse por ele. Quero ajudar uma amiga.

– “Madoka”?

– Hai. – Disse em dúvida – Você...?

– Ele falou algo a respeito dela.

Sorri feliz.

– E então? Você sabe se ele pediria desculpas a ela? – Perguntei esperançosa.

Ele me olhou, surpreso e demorou um pouco a responder, parecia estar admirado com algo.

– Hum... Não. – Ele disse.

– Eh? Nande?

– Mine-chin não é tipo que pede desculpas. – Ele disse, voltando a pôr o canudo do milk-shake na boca – E eles nem fizeram. E daí se ela pensa que ele acha ela uma vadia?

– Ele disse isso? – Perguntei abismada.

– Não. Mas ela parece mesmo.

Franzi o cenho.

– Pois ela não é! – Exclamei irritada – Não diga essas coisas, você não a conhece!

– Mizuki Madoka é uma garota que se faz de amiga muito cedo com quem ela não conhece. – Ele dizia.

– Olha quem fala. – Resmunguei baixo, desviando o olhar.

– Ela queria ficar com ele e conseguiu, mas deu para trás quando ele quis. – Ele concluiu.

– Como você pode dizer isso? Você nem estava lá!

– Ele comentou sobre isso e eu juntei os fatos.

Abaixei o olhar com raiva e suspirei, acalmando o olhar e ficando um pouco triste.

– Ela não é assim. – Disse calma – Pare com isso.

Ele me olhou sem expressão.

– Madoka é gentil, engraçada, carinhosa e protetora. – Eu dizia sem olhá-lo – Ela gosta do Aomine-kun. E ficou muito triste quando ele pensou que ela não era virgem. Qualquer uma ficaria, isso não é legal.

Ele acalmou o olhar, ainda me olhando. Suspirou e levantou, colocando o dinheiro do milk-shake na mesa e me puxando pelo braço.

– Eh? Nani...?

– Quero te levar a um lugar. – Ele disse sem me olhar.

Fiquei nervosa com o “lugar”, mas quando chegamos vi que era apenas um parque comum. Ele havia me soltado logo que saímos da lanchonete e chegando ao parque, ele foi na direção dos bancos e sentou em um deles. O olhei em dúvida e fiz o mesmo, deixando um espaço entre nós já que ele apoiava os braços no banco, tomando maior parte dele.

– Por que aqui? – Perguntei sem jeito.

– Por nada. – Ele disse e olhou para o céu – Mine-chin não é o tipo que vai pedir desculpas a Madoka. Por ele é como se tivesse a elogiado por querer dormir com ela.

O olhei surpresa, ele iria me contar tudo aquilo mesmo?

– Mas ela foi um pouco idiota por ter ido embora daquele jeito. – Ele disse – Mine-chin disse que se ela não quisesse fazer, eles poderiam jogar um jogo de verdade.

Acalmei o olhar. Ele suspirou.

– Certas mulheres são um saco...

– E?

– “E”? – Ele me olhou – Nani?

– Eu quero ajudar Madoka, acho que ela gosta mesmo dele. – Disse – Se você me disser algo que faça com que eles voltem a se falar e acalmar o clima...

– Isso vai ter um preço. – Ele deu um meio sorriso.

– Eh?

– Hai, hai. – Ele aproximou o rosto, me fazendo corar – Dar e receber.

– Uhm... O que você quer?

Ele sorriu.

– Conhecer seu quarto.

– EH?! – Exclamei, levantando e me afastando dele – Você é louco?!

– É um preço justo. – Ele disse como se não compreendesse minha reação – Com as informações que eu vou dar, talvez você consiga até juntas os dois. Se não for tão lenta...

Fiz cara de tédio.

– A porta vai ficar aberta! – Disse.

– Tá. – Ele deu de ombros.

Franzi levemente o cenho, corando e desviei o olhar.

– Tá. No domingo de tarde.

Ele levantou e se aproximou de mim, pegando em minha bochecha e abaixando até minha altura.

– Ja ne. – Ele cantarolou vagarosamente, sorrindo.

Fiquei emburrada e ele foi embora sem pedir meu endereço. Tenho certeza que isso foi por ele querer que eu mandasse mensagem pra ele. Claro, eu mandaria já que queria aquelas informações.

...

Em um dia incomum, Yuka e eu chegamos no colégio no horário. O que era realmente anormal pra mim, que amava dormir. Faltavam cinco minutos para começar a aula e quando chegamos, apenas Amaya estava sentada em sua carteira. Os alunos amavam não estar em aula antes do horário! Yuka ficou do lado de fora com Midorima e os outros e eu entrei na sala, indo até Amaya e sentando na carteira da frente.

– O que houve? – Perguntei ao reparar um pingo de tristeza.

– Hum. – Ela balançou a cabeça.

– Fala sério. – Disse séria.

Ela sorriu e me olhou.

– Arigatou.

– Hã? Nande?

– Por ser minha amiga. – Ela disse docemente – Minhas “amigas” ignorariam.

– Hai... – Corei pela vergonha – Então... O que houve?

– É que... Kagami-kun não repara em mim.

– Ah, é por isso?

– Hai. – Ela disse, achando graça – Na verdade ele não repara em garota nenhuma. Gosta mais de basquete.

– Etto... Por que não tenta...?

– Minna!

Olhamos para a porta e Mitsue entrou na sala, esbaforida.

– Nani? – Perguntei assustada.

Ela sentou na carteira ao lado e nos olhou.

– Kise-kun quer saber de quem é o presente!

– Que presente? – Perguntei em dúvida.

– Você deu mesmo o presente!

– Hai! – Ela disse sorrindo nervosamente – E agora?!

– QUE PRESENTE?! – Exclamei irritada.

Elas me olharam, assustadas.

– Mitsue pediu ajuda ao zelador anteontem para abrir o armário de sapatos de Kise-kun para colocar um presente para o aniversário dele. – Amaya cochichou.

– Ah... – Disse surpresa, olhando para Mitsue – E qual foi o presente?

– Hum... – Ela corou – Uma caixa cheia de bombons decorados que eu fiz e uma carta, me declarando.

– Mas ela não colocou o nome dela na carta. – Amaya concluiu.

– Por quê? – Perguntei em dúvida.

– Tive vergonha! – Mitsue exclamou – E se ele me rejeitasse?

– E se ele não te rejeitasse? – Amaya disse, rindo – Pelas fofocas eu soube que ele está à procura da sua garota misteriosa.

– Por isso eu estou nervosa! – Ela exclamou – Todas as garotas estão dizendo que foram elas quando ele pergunta. Se eu disser que fui eu, talvez ele não acredite já que todo mundo está dizendo isso.

– Talvez... – Disse, compreendendo – Mas por que não tenta chamar ele para conversarem a sós e você contar?

– Não! – Ela corou e tampou a boca, envergonhada – Tenho vergonha.

Amaya sorriu, achando graça. Eu fiz cara de tédio, pensando em mais uma ideia estúpida.

– Tá... – Disse – Continua sentindo vergonha, que eu vou tentar fazer algo.

– Como assim? – Ela perguntou, esperançosa.

– Nada. – Disse – Apenas vou tentar coletar algumas informações.

...

Quando chegou o domingo, eu havia avisado aos meus pais que um “amigo” viria. Como Midorima e Yuka haviam saído esse dia, não haveria problema em ele vir, Midorima não o veria. Depois do almoço, eu fiquei um bom tempo debaixo do chuveiro. Pensava em arrancar a porta do meu quarto e escondê-la para que ele não a fechasse, caso quisesse me sacanear de novo. Mas acho que não, ele não faria nada com meus pais em casa, certo?

Quando a tarde chegou, ele veio junto. Eu que atendi e minha expressão demonstrava total desânimo com aquela troca de favores.

– Kon’nichiwa. – Ele disse com aquela expressão sonolenta, mesmo sorrindo.

– Hum. – Disse.

O deixei entrar e ele tirou os tênis, que eram gigantescos, e ficou apenas de meias.

– Nee, você deve ser Murasakibara-kun! – Minha mãe chegou com uma bandeja cheia de Dango na mão.

– Hum, Kon’nichiwa.

– Que emocionante! Tsubaki nunca convidou um amigo para vir aqui.

– Hum. – Ele sorriu amigável – Imagino. – Olhou pra mim, irônico.

– Quer alguns? Você é bem alto, ne? Precisa de energia. – Ela dizia.

Eu assistia aquela palhaçada e minha mãe me deu a bandeja, dizendo que pegaria mais. Fiz cara de tédio, vendo-a passar pela porta à direta e eu me voltei para as escadas, à esquerda. Subi e Murasakibara me seguiu. Meu quarto era no final do corredor à direita e antes do banheiro. Entrei e ele entrou logo atrás de mim. Pus a bandeja em cima da mesa baixa que tinha no meu quarto e me sentei no tapete ao lado dela, esperando ele parar de analisar meu quarto. Não sei por que ele demorou tanto, tinha apenas minha cama, minha escrivaninha com o computador e livros do colégio, meu armário e uma estante simples de parede. Ele olhou para o lado e viu um conjunto de fotos pendurado na parede. Era um quadro com vários espaços para fotos. Havia uma da minha família, outra da Yuka e eu com o uniforme do fundamental e mais uma comigo sorrindo e fazendo um V com os dedos.

– O que está olhando? – Perguntei.

– Hum. – Ele se virou e veio até mim, se sentando de frente para a mesa – Isso é legal.

– Nani? – Disse em dúvida.

– Eu nunca estive no quarto de uma garota antes. – Ele me olhou, parecendo contente.

Corei e desviei o olhar enquanto ele voltava a olhar meu quarto.

– Vamos ao que interessa. – O olhei – Quero saber de uma forma de eles dois voltarem a se falar.

– Eles quem? – Ele me olhou com aquela expressão sonolenta.

– Aomine-kun e Madoka. – Rangi os dentes.

– Ah, sim... – Ele pensava – Mine-chin gosta de competir pela velocidade. Ne, você sempre se veste assim?

– Eh? – Me olhei.

Eu estava com um short jeans e uma blusa de alças, estava ficando quente por causa do verão.

– Nande?

– Nada. – Ele desviou o olhar, pegando um palito com dango e comendo as bolinhas cobertas com calda – Sua mãe que fez?

– Não. Ela me obrigou a fazer.

– Hum. – Ele cantarolou, comendo mais.

– Então, o que acha melhor de se fazer? – Perguntei – Nenhum dos dois vai se desafiar e cada um é de um esporte diferente. – Pensava – O que você acha?

– Doce.

– Eh? – O olhei, ele estava comendo o dango.

Fiz cara de tédio.

– Oe.

Ele me olhou, mastigando.

– Se não me ajudar, não vai ter mais.

– Tem mais? – Ele perguntou com os olhos brilhantes.

O olhei pasma e assenti com a cabeça. Ele se pôs a pensar, ainda comendo, e me olhou.

– Desafie os dois.

– Hã? – Disse em dúvida – Eles não vão aceitar e eu nem conheço Aomine-kun.

– Não se eles souberem que é você. – Ele deu um meio sorriso.

– Hum, gostei... – Disse, pensando.

– Baki-chin é maquiavélica.

– Já disse para parar de me chamar assim! – Exclamei.

– Ahhh, se divertindo? – Minha mãe cantarolou, aparecendo do nada na porta.

– Hai! – Ele disse, levantando o palito que segurava.

O olhei, fazendo cara de tédio. Minha mãe pôs mais uma bandeja de dango, retirando a outra e Murasakibara pareceu bem feliz por comer mais. Nossa, esse garoto comia demais! Claro, imenso desse jeito! Minha mãe saiu do quarto e eu voltei com o plano.

– Bilhete no armário? – Disse.

– Uh? – Ele me olhou, comendo.

Fiz cara de tédio.

– O plano! – Disse revoltada.

– Hum. – Ele assentiu – Melhor ir no horário das aulas para nenhum deles te ver.

– Hai. – Concordei – E que tal uma aposta?

– Aposta?

– É. – Disse já imaginando – Qual deles é o mais rápido?

– Madoka é bem rápida, mas acho Aomine mais rápido.

– Que tal se ele vencer, ela beijá-lo e se ela vencer, ele pedir desculpas a ela?

– Talvez.

– Hum. – Levantei e peguei uma folha, voltando a me sentar.

Dividi a folha em dois pedaços e dei um a ele com o lápis.

– Pra que isso? – Ele perguntou.

– Você escreve o dele pra ela e eu o dela pra ele. – Disse em tom óbvio.

– Não disse que ajudaria.

– Quer mais dango ou não?

Os olhos dele lacrimejaram dramaticamente com a chantagem.

– Hai...

– Então escreve. – Disse, começando a escrever – E... – O olhei sem jeito – Queria te pedir outro favor.

– Nani?

– Hum... Informações sobre Kagami-kun e Kise-kun.

Ele me olhou e deu um meio sorriso.

– Vai ter algo em troca.

– Hai... – Disse, frustrada – Mais para minha coleção.

– Esse vai ser especial. – Ele disse.

Corei, arregalando os olhos.

– N-Nani?

– Hum. – Ele fez suspense – Um encontro.

– Uhm...! – Exclamei – Não, não, não, não, não, não, não!

– Então sem mais informações. – Ele disse, voltando a escrever o bilhete.

Fiz cara de tédio. Eu tenho que ajudar Amaya e Mitsue!

– H-Hai. – Disse – Tudo bem.

– E você tem que fazer um obento pra mim pra levar no dia do encontro.

– Eh?! – Exclamei em dúvida – N-Nande?!

– Porque eu estou pedindo.

– Hum... – Abaixei a cabeça, indignada – Hai.

– E faça pensando em mim. – Ele disse – Com carinho.

Fiquei indignada.

– Se eu fizer assim vou pôr veneno. – Ameacei.

Ele me olhou surpreso e não aguentou, deixou uma risada escapar e eu fiquei surpresa ao vê-lo rir. Ele... Parecia até fofo rindo. Ele parou logo depois e voltou a escrever, comendo mais dango. Hum... Um encontro e um obento. Dois coelhos com apenas uma cajadada. Que garoto chantagista!