Coração selvagem
6 VI - Amizade improvável
Eu não fazia ideia de qual era a razão para Murasakibara fazer aquelas coisas, principalmente por ele sentar ao meu lado na sala e, quando não estava dormindo, ficava me olhando. Isso me fazia ficar olhando pela janela o tempo todo ou quando a aula estava interessante, eu ficava corada e tentava não olhá-lo pelo canto do olho. Quando ele me olhava, ficava com o rosto apoiado na mão e o cotovelo na mesa. Aquilo era tão óbvio e idiota, que me fazia fazer cara de tédio enquanto eu estava corada. E eu sabia que ele sabia! Por isso ele continuava fazendo. Mas eu tinha que saber a verdade: o que ele queria comigo afinal? Depois daquele “não beijo”, houve aquele intervalo até o dia do vestiário. E agora mais um intervalo de dias. Eu tenho que saber o que ele quer de mim!
Atrás de um dos prédios, eu estava escorada na parede comendo Pocky e pensando. Uma grande sombra cobria aquela parte do prédio e eu esperava ter minha resposta, seja qual fosse. Enquanto eu comia o palitinho, arregalei os olhos quando o vi vinho por aquele lado.
– A-Anou...! – Desencostei da parede.
Murasakibara me fitou e parou, estava comendo um maiubou. Eu estava nervosa e com uma mão levemente levantada por tê-lo chamado. O olhava e queria dizer algo, mas com ele me olhando enquanto comia aquilo me deixava ainda mais nervosa.
– A-Anou... Hum... – Disse – Posso perguntar algo?
– Hum. – Ele assentiu.
Ele se escorou na parede e eu tocava levemente meus indicadores um contra o outro, pensando.
– Então? – Ele mordeu mais um pedaço daquilo.
Engoli a seco e apertei os olhos, corando.
– E-Eu quero saber por que me beijou! E por que me assustou no vestiário! – Exclamei nervosa.
Ele me olhou um pouco surpreso, mas acalmou o olhar.
– Eu não beijei você.
O olhei, corada.
– Mentira...
– Iie. – Ele disse simplesmente – Verdade.
Eu o olhava sem ação, ele apenas comia aquele doce e aquilo estava me irritando, mas abaixei o olhar. Ele devia ser apenas louco mesmo. Não sei por que, mas meus olhos marejaram. Ele me olhou e desviou o olhar, dando uma última mordida naquilo.
– Pensei primeiro em começar uma amizade. – Ele disse como se suspirasse.
– N-Nani? – O olhei em dúvida.
– Hum... – Ele suspirou, esfregando o pescoço com a mão, sem olhar pra mim – Você é séria e eu só quis te dar uma bala. Se eu te beijasse mesmo você ia ficar traumatizada.
Franzi a testa em dúvida.
– Qual o seu problema?
– Eh? – Ele me olhou – Então pode?
– N-Nani?
Ele se aproximou e pôs a mão nas minhas costas, me puxando e me beijando. Arregalei os olhos e corei, ele estava me beijando mesmo. De verdade! Ele cessou e se endireitou ainda me olhando. Eu o olhava sem reação e abaixei o olhar, corando mais.
– N-Nande? – Perguntei perplexa.
– Eh? Não era isso? – Ele deixou uma risada escapar – Então eu devia ter começado com amizade mesmo. – Ele disse, pensando.
Eu processava e o olhei indignada.
– Por que eu iria querer sua amizade? – Perguntei quase inaudível.
Ele me olhou em dúvida.
– Eh?
– Por que eu iria querer ser sua amiga?! – Exclamei – Você é um sádico que beija os outros sem motivos! Nunca mais fale comigo, bakayarou!
Eu me virei e saí correndo, deixando-o ali mesmo. Ele me olhou sumir de vista. Realmente pensei que nunca mais falaria com ele, mas infelizmente nossa amizade surgiu da forma mais inesperada e irritante possível. Estávamos na sala com ele ao meu lado como mandava os lugares e o sensei falando sobre o próximo trabalho.
– Anou... – Ele lia uma folha de papel – Como vocês sempre reclamam das duplas que eu escolho nos trabalhos e quando vocês escolhem suas duplas a maioria dos trabalhos dá errado... Eu decidi tomar um novo rumo em relação a isso.
A turma o olhava, tensa e ele deu um sorriso malicioso, sabendo que ninguém iria gostar desse “novo rumo” que ele tomaria.
– Bem... A partir de hoje, para minha alegria, vocês farão dupla com quem senta ao seu lado na sala.
Arregalei os olhos, querendo arranhar a mesa com as unhas de tanto nervoso. Os alunos começaram a reclamar, mas o sensei disse que ou era isso ou era zero para todos. E eu não podia tirar zero agora, já estava chegando as férias de verão! Não podia ficar com nota baixa! Todos se calaram e o sensei escreveu no quadro o que deveríamos fazer. Eu escrevia no caderno e não queria mesmo falar com Murasakibara.
– Ahh. – Ele cantarolou – Acho que vamos ter que nos falar.
Apertei o lápis, irritada e o olhei, ele sorria debochadamente. Voltei a escrever, ignorando-o. Por quê? Por quê? Por quê? POR QUÊ?
...
Como fui obrigada a ser a dupla do Murasakibara, tive que fazer o trabalho para não ficar com zero. E o pior é que um de nós dois tinha que ir na casa um do outro. Eu discutia com ele do lado de fora do ginásio sobre quem iria na casa de quem. E, claro, ele queria que eu fosse para a casa dele.
– Eu não vou. – Disse com os braços cruzados.
– Pode ir no sábado, te dou o endereço.
– Não vou na sua casa!
Ele suspirou.
– Ok. Então estou feliz.
– Eh? – O olhei.
– Vou ver seu quarto. – Ele sorriu com aquele olhar de preguiça.
Arregalei os olhos.
– N-Não vamos ficar no meu quarto! – Exclamei.
– Ahhh. – Ele cantarolou, sorrindo – Então vamos para minha casa.
– Eh?! Não!
– Não se preocupe. Tenho quatro irmãos.
O olhei em dúvida.
– S-Sério?
Ele sorriu.
– Hai.
Desviei o olhar, pensando. Com quatro irmãos seria impossível ficarmos sozinhos. Se fosse na minha casa, Yuka nos deixaria ter privacidade e eu não queria isso! Talvez fosse uma boa ideia então ser na casa dele.
– Hum, tá.
– Hum. – Ele disse, se aproximando e me dando um papel – Pode ir lá à tarde.
Peguei o papel e tinha o endereço dele. Fiz cara de tédio, ele sabia que iria me convencer?
– Tá... – Disse emburrada.
Por mais que eu não quisesse ir para a casa dele, quando chegou o sábado Yuka me lembrou e fui obrigada a ir já que nossa mãe sempre sabia sobre os trabalhos que tínhamos que fazer e já que Midorima era a dupla de Yuka e foi para nossa casa, então... Eu fui. A casa dele não era tão longe, fui andando e quando cheguei vi que era bem grande. Talvez dois ou três andares, não reparei muito. Toquei a campainha e logo alguém atendeu, chegando correndo e abrindo a porta.
– Hai.
Me deparei com uma jovem um pouco menor que eu com cabelos roxos e amarrado em um rabo-de-cavalo alto.
– A-Anou... Murasakibara-kun...
– Ah! – Ela sorriu – Você é a Tsubaki, ne?
– Eh? – A olhei surpresa, ele comentou sobre mim?
– Atsushi disse que você vinha. – Ela disse – Meu nome é Jun. Entra!
Ela pegou minha mão e me puxou pra dentro. Acho que pela altura dele e talvez pelo resto da família, o teto da casa ser alto não me surpreendeu.
– Eu vou chamá-lo. – Jun disse, subindo as escadas à frente.
Logo depois ela voltou e disse que ele já vinha, indo para a cozinha que ficava logo depois da sala. Eu tirei meus sapatos no pequeno hall e esperei ele descer. Não demorou muito e eu o olhei surpresa. Ele estava com um short azul com uma listra branca nas laterais e uma camisa preta. Como ele sempre expressava aquela cara de sono, eu não sabia se ele estava dormindo antes de eu chegar ou se seu bocejo era natural mesmo.
– Baki-chin. – Ele me cumprimentou, sorrindo levemente.
– Pára de me chamar assim. – Disse já emburrada.
– Não achei que viesse mesmo.
– Você me chamou, não foi?
Mas era verdade, eu não ia se não fosse por causa da minha mãe.
– Oe, Atsushi! – Jun gritou da cozinha – Você comeu todos os picolés?!
Ele olhou para a porta da cozinha e pegou minha mão, me fazendo correr com ele e subir as escadas. No segundo andar, entramos na terceira porta à direita e ele fechou a porta, escorando nela.
– Hum... – Suspirou.
Ele me olhou e me viu encolhida. Por que isso?!
– N-Nande?
– Ah... Ela iria querer uma satisfação. – Ele disse, querendo rir.
– Hum.
Desviei o olhar e reparei que o quarto dele era bem bagunçado. Por que isso não me surpreende? Quando voltei a olhá-lo, ele estava bem perto.
– Uhm...! – Recuei – Vamos fazer logo o trabalho.
– Hai, hai.
Ele ligou o computador e começamos a fazer o trabalho. Sinceramente, pensei que ele não tivesse nada na cabeça, mas pelo menos naquela matéria ele sabia bastante coisa que eu até fiquei surpresa. Em duas horas ou um pouco mais, conseguimos terminar. Pensei que teríamos que nos encontrar mais, mas fiquei contente por ter que ser só aquela vez. E enquanto eu pensava nisso, achei estranho nenhum dos irmãos dele vir até onde estávamos. Será que eram muito novos e Jun estava tomando conta deles?
– Ne, e os seus irmãos?
– Só a Jun mora com a gente. – Ele disse simplesmente, continuando a mexer no computador.
– Eh?! – Me afastei, estava sentada ao lado dele no chão – C-Como assim?!
Ele me olhou.
– Akio e Daisuke são casados e o Hidaki está na faculdade. Jun vai se formar esse ano.
O olhava, pasma.
– Mas você disse...!
– Eu não disse que todos eles moravam comigo. – Ele sorriu, achando graça.
Me senti enganada! Queria pegar alguma coisa e jogar nele!
– Baka! – Exclamei – Você disse que tinha quatro irmãos! Eles deviam morar aqui!
Ele se aproximou e pôs a mão no meu ombro, me fazendo deitar no chão. Com a força dele, não consegui impedi-lo.
– Nande?
– Eh? – O olhei em dúvida.
Ele me olhava agora sério. O olhei surpresa.
– Assim eu não ia conseguir ficar sozinho com você. – Ele sorriu maliciosamente.
Corei.
– Quero ir embora. – Disse, tentando me levantar.
Ele me prendeu no chão e se aproximou do meu pescoço, beijando-o. Tentei empurrá-lo, mas ele apenas desceu o beijo até passar da minha clavícula. Me lembrei do que ele disse no vestiário e apertei os olhos, dando uma joelhada na costela dele. Ele perdeu o ar e pôs a mão aonde eu acertei. Levantei rápido e corri.
– Bakayarou! – Exclamei, abrindo a porta e indo embora.
Desci as escadas e peguei meu tênis na entrada, saindo correndo da casa dele. Eu não parei de correr. Entrei correndo em casa e fui para o meu quarto, correndo. Sentei na cama, apoiando as mãos na cama e meus olhos marejaram. Por que ele fazia isso? O que ele queria de mim? Peguei meu travesseiro e o abracei.
– Nande...?
...
Eu não falei mais com Murasakibara. Ele é um idiota e apressado. Se pelo menos me chamasse pra sair algumas vezes, me pedisse em namoro, quem sabe um ano depois... QUE DROGA EU ESTOU DIZENDO?! Ele é um sádico! Idiota! Isso é imperdoável!
– Nani, Tsubaki? – Yuka perguntou.
– Eh? – Parei e a olhei.
– Por que sua respiração está tensa? – Ela disse em dúvida – Você até suspirou.
– Eh... Não é nada. – Sorri, tentando parecer normal.
– Mentira.
– Uhm...!
Yuka dizia certas coisas com uma expressão tão calma, que eu me assustava às vezes.
– É que foi estranho ir na casa dele. Só isso. – Menti.
– Murasakibara-kun?
– Hai.
– Mentira.
Fiz cara de tédio.
– Sua voz está trêmula, você está estranha. – Ela disse – Ele te beijou de novo?
– Não... – Disse – Ele... Hum, esquece.
– Nani? E como assim? – Ela disse em dúvida – Você não falou que aquilo não foi um beijo?
– Eh? Ah, a bala... – Me lembrei.
– Hã?! Vocês se beijaram de novo?! – Ela exclamou, parando.
– Não fala alto! – Cochichei pasma.
– Mas você disse...!
– Shhh!!!!!
Ela parou.
– Ele é doido! – Disse – Ponto, acabou.
– Vocês se beijaram de novo. – Ela disse maliciosamente.
– Yuka! – Exclamei irritada.
Ela riu. Há muito custo, chegamos no colégio em silêncio. Yuka não parava de falar sobre o beijo, mesmo nem sabendo o que houve. Ela ficava perguntando se foi molhado, babado ou normal. Afinal, o que era um beijo normal? Eu não tenho com quem comparar! A aula aconteceu normalmente, a mesma chatice, e Murasakibara entregou o trabalho, vendo que eu iria continuar sem olhar para ele. Além do fato de tudo ter ficado na casa dele.
– Bem. – Sensei disse surpreso – Meu plano funcionou, afinal de contas. Acho que vou fazer isso sempre.
As pessoas que não gostaram de suas duplas, reclamaram. E como sendo uma delas, eu fiquei olhando pela janela, emburrada. No intervalo, Yuka ficou comendo com Midorima e eu preferi me isolar um pouco. Poderia ficar com eles, mas como ele era amigo do namorado dela... Não, obrigada. Fiquei sentada em um banco, que ficava perto da parede do prédio de ciências e permaneci ali, comendo meus palitinhos de chocolate. Eu comia olhando para a caixa e senti alguém sentar no banco. Olhei para o lado com expressão de nada e o vi.
– Ohayou. – Murasakibara disse.
Engasguei com o pedaço que estava comendo e me inclinei para frente, tossindo. Ele me olhou e pôs as mãos nas minhas costas, como se fosse para eu melhorar. Peguei na mão dele, segurando-a e ele me olhou, eu estava séria.
– Eu quero saber. – Disse.
– Nani?
Larguei sua mão, continuando a olhá-lo.
– Por que você faz essas coisas? – Perguntava – Por que me deu aquela bala daquele jeito? Por que me beijou? Por que beijou meu pescoço daquele jeito? Eu quero saber!
– Porque eu sou seu amigo. – Ele disse simplesmente.
– Eh? Pára de brincar comigo! – Exclamei indignada.
– Não estou brincando. – Ele se recostou no banco – Só porque você é alta acha que pode defender os outros ou a si mesma. Mas contra um garoto você ainda seria uma garota que precisa de ajuda.
– Uhm... Nani?
– Eu completei o segundo passo. – Ele disse, sorrindo orgulho de si.
– Passo?
– Hai. – Me olhou – O primeiro: te avisar. Lembra do vestiário?
O olhei surpresa. Tudo aquilo... “Se um dia alguém tentar fazer isso com você, bata nele e corra.”, o que ele disse...
– Segundo: testar. – Ele continuou – Lembra do meu quarto? Você me machucou mesmo. – Ele deixou uma risada escapar.
– Por que isso? – Perguntei, tentando entender a razão.
– Porque sou seu amigo.
O olhei, surpresa.
– Agora o terceiro passo: você confiar em mim. – Ele sorriu confiante.
– Uhm... Por que então... Está me contando?
– Porque você é muito lenta.
Fiz cara de tédio, mas o olhei em dúvida.
– Pra que esses passos? – Perguntei – O que você vai conseguir com isso?
Ele me olhava com os olhos meio abertos, parecia não querer dizer. De repente se aproximou e fitou a caixa de Pocky no meu colo.
– Po-cky. – Sorriu, pegando-os.
– Oe...! – Exclamei e o olhei, pasma.
Ele pegou três palitinhos e em uma mordida comeu mais da metade deles.
– É meu!
– Não seja egoísta! – Ele disse, comendo mais.
O olhei, indignada e levantei, indo embora. Quem ele pensa que é? Que plano idiota é esse?! O que ele pretende com isso? E por que ele quer que eu confie nele? Eu sabia! Ele é apenas um sádico que gosta de perturbar as pessoas! Ou... Pelo menos eu.
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