Coração de lobo

39 Vida em Beacon Hills - parte 1


Notas iniciais
Primeira parte de duas contendo histórias de personagens auxiliares na fic. =D

Isaac ainda não tinha se acostumado com a rotina dele em Beacon Hills. Eric arranjou um trabalho para ele organizando livros na Biblioteca Municipal, e era um trabalho que Isaac gostava, especialmente porque era raro ver alguém ameaçador dentro do lugar onde ele trabalhava, e sempre tinha alguém para o proteger ali.

Mas ainda tinha demônios do passado que assolavam seus pensamentos. O pai de Isaac havia expulsado ele de casa depois que a mulher dele não estava mais viva para defender Isaac, e então ele se viu sozinho no mundo. Era complicado viver daquele jeito, mas graças aos deuses Boyd e Erica apareceram.

Eles eram moradores de rua e viviam de abrigo em abrigo, mas quando descobriram o que Isaac estava passando eles decidiram o ajudar. Agora ele se sentia quase que no dever de fazer mais por eles, e por todas aquelas pessoas que continuavam o ajudando. Tinha tanta gente que queria o bem de Isaac e ele nem sabia o que pensar sobre aquilo.

Tudo parecia tão bem que ele até começou a sentir atração de novo, se bem que morando em uma casa onde apenas Alfas viviam aquilo seria fácil, afinal de contas ele era só um ômega. Mas a atração que ele sentiu por Cora era uma coisa que nunca iria dar em nada. Ela nem morava em Beacon Hills e não seria direito ele viver na casa dos pais dela e gostar da garota.

Mas era algo para ele poder fantasiar, ao menos. Isaac gostava de imaginar que haveria uma mulher forte ao lado dele, ou um homem, mas nesse caso Cora. Ele gostava de saber que alguém poderia defender ele, ainda que Isaac gostasse de ser valente, mas era uma realidade que não era dele, e já havia passado o tempo dele sentir vergonha por ser o clichê do ômega fracote.

Desde que chegou ele até conversou com Stiles e eles trocaram histórias sobre a vida de cada um, e para Isaac era fundamental ouvir histórias de ômegas que foram felizes, porque até agora ele não tinha descoberto o que era felicidade.

Mas será que encontrar um amor era o bastante para ser feliz. Isaac tinha que admitir que essa dependência dos genes era conflitante com os desejos que ele tinha em ser livre, mas ele também não podia negar que Alfas regulavam a vida dos ômegas. Isaac conseguia ver como Stiles era feliz com seu Alfa, como eles amavam a ideia de ver aquele bebê crescendo.

Não tinha como não sentir um pouco de ciúmes dos olhares que Derek lançava para seu ômega. Às vezes até no meio de todo mundo era como se eles estivessem fazendo sexo com o olhar, mas ninguém falava nada, porque eles exalavam uma felicidade que ninguém poderia sequer imaginar sentir. E havia algo tão puro em ouvir os batimentos cardíacos daquela criança dentro de Stiles, algo tão lindo ao ouvir o coração da pequena família soando como uma sinfonia, que Isaac doía por dentro.

Ele queria aquele tipo de felicidade, queria alguém que o tivesse do ladinho dele, segurando sua mão e dizendo que o amava.

“Tudo bem?” Uma voz soou por trás de Isaac e ele se assustou, virando rapidamente. Era apenas Eric.

“Sim,” disse Isaac, respirando fundo.

“Eu só vi você parado no meio do corredor, então decidi ver se tudo estava bem.”

“Me desculpe.” Isaac olhou para o chão.

Eric chegou perto de Isaac, e ele sentiu um tremor correndo por seu corpo. Mas quando o homem colocou uma de suas mãos no ombro de Isaac, ele relaxou. Instintivamente.

“Não tem porque você se desculpar, porque não foi nada. Não tem porque você se preocupar com nada também, aqui dentro você está a salvo.” As palavras de Eric eram boas para Isaac ouvir, mas a dúvida dentro dele sempre existia.

O pai nunca iria atrás dele, aquilo era certo, mas Isaac tinha medo. Ser um ômega sempre causava problemas, e mesmo vendo a vida feliz que Stiles e Derek tinham, Isaac podia imaginar que não foi tudo rosas. E olha que Derek era um Alfa enorme, e toda sua família era bem proeminente. Para um Zé Ninguém como Isaac, ser um ômega era quase pedir para sofrer.

Ele continuou seu trabalho, tentando não imaginar o pior. Durante aquele dia as coisas estavam calmas, afinal era um dos primeiros dias de mais um ano e todo mundo estava em casa passando o feriado prolongado. Eric disse que quando as aulas voltassem eles teriam mais movimento, e daí Isaac trabalharia com crianças, algo que ele tinha interesse de fazer.

Quem sabe aquele tipo de trabalho iria ajudar ele a se estabilizar. Sem falar que Isaac poderia aceitar o pedido de Talia para que ele fosse consultar com a psicóloga da família, e até ir no médico deles para saber se tudo estava bem. Até agora ele tinha ficado assim sem ir, ele também não queria mostrar para todo mundo as cicatrizes que ele tinha, mas Isaac se sentia tentado a procurar um médico para pelo menos saber se ele ainda era um ômega em tudo que importava em ser um ômega.

Na semana que se seguiu Isaac foi tentando se acostumar à sua nova vida. Ele sempre tinha jantares em família com Eric e Talia, ainda que Boyd e Erica nem sempre estivessem presentes. Na verdade os dois já quase viviam uma vida em separado, pois Talia colocou eles em um dos quartos na casa da piscina, no outro lado do jardim, para que eles pudessem ter sua privacidade, mas ainda assim eles todos viviam juntos.

E Isaac também passava um bom tempo com eles, pois eram seus amigos. Mas ele podia sentir que havia uma espécie de divisão entre todos. Erica e Boyd tinham conseguido bons trabalhos, por isso eles até pagavam aluguel para Talia, algo que eles tinham escondido de Isaac, enquanto ele continuava vivendo de favores. Mas também não tinha muito o que Isaac fazer. Ele era sozinho.

~*~

Peter tinha se instalado no único hotel da cidade que tinha mais de três estrelas, só que ele sabia que hotéis não era lugares muito incríveis para se viver. Não que ele quisesse realmente morar em Beacon Hills de volta, mas pelo presente ele não tinha muitos planos.

Pra se falar bem a verdade, Peter nunca tinha grandes planos. Era até um milagre ele decidir voltar para Beacon Hills durante o feriado, porque Peter nunca aparecia quando sua família queria, só quando ele tinha vontade. Ele nunca pensava muito neles mesmo, porque Peter sempre foi meio sozinho. Ainda que ele tivesse apenas uma irmã, eles não eram assim tão próximos.

Ele não iria admitir pra ninguém, claro, mas Peter gostava da presença de Talia. E da família dela também, ainda que fosse uma obrigação, claro. Derek ainda era o seu favorito, mesmo que ele nunca tenha dito isso pra ele. Peter sempre adorou incomodar seu único sobrinho homem, principalmente porque Peter queria que ele fosse um Alfa assim como Peter era.

Claro que ele não conseguiu aquilo, tanto porque Peter nunca estava presente, mas era bom ver que Derek cresceu pra ser um Alfa forte e viril. Melhor ainda saber que ele já estava procriando, porque Peter nunca tinha se aquetado com uma pessoa só. E graças aos deuses nunca procriado com ninguém, já que ele não queria as obrigações.

Ele sentia falta daquilo? Em algumas horas do dia, sim. Principalmente quando ele acordava em uma cama vazia e sem ninguém, ou quando ele estava sozinho em casa, sem ninguém para o fazer companhia. Mas Peter raramente estava em casa sozinho, também.

Agora que ele estava em Beacon Hills que ele estava sozinho. Mas não seria por muito tempo, pois Peter já tinha um objetivo para essa estadia. Ele olhou no espelho para ver se seu cabelo estava arrumado e checou o perfume para ter certeza que seu aroma de Alfa não estaria muito escondido.

Ele deixou o hotel e foi caminhando até a delegacia, que era apenas uma quadras de distância. Peter queria pegar o Xerife em seu local de trabalho, conseguir conversar com o homem sem ninguém para incomodar, ainda que numa delegacia de polícia era possível que eles fossem incomodados, mas Peter gostava da surpresa.

Ao caminhar pela cidade ele viu vários ômegas olhando para ele, e aquilo só ajudava o ego de Peter a se inchar ainda mais — e não só o ego, claro. Quando ele entrou na delegacia a secretária deu um sorriso para ele, lascivo como Peter gostava. Mas logo Derek apareceu, e Peter escondeu um pouco o seu sorriso.

“Bom dia, Derek.”

“Peter?” Seu sobrinho pediu.

“O que, não vou ganhar um bom dia?”

Derek fez uma careta, mas logo suspirou.

“Bom dia, Peter. O que você veio fazer aqui?”

“Eu vim ter uma conversa com o Xerife da cidade,” disse ele. Derek ficou olhando para ele com um pouco de dúvida em seu olhar, mas não falou nada. Quem falou foi a secretária.

“O Xerife está livre agora, se você quiser eu posso pedir para ele?”

Peter esperou por um momento. Ele se virou para a secretária e seu um sorriso para ela.

“Eu queria surpreender ele, na verdade. Eu posso?” Ele pediu.

A secretária queria se abanar do calor mesmo no inverno, e Peter amava como ele podia causar aquilo nas pessoas. Derek parecia querer falar alguma coisa, mas pensou melhor e só rolou os olhos.

“Não apronte nada,” Derek disse, caminhando para outro lado na delegacia.

“Você sabe que eu só quero o bem das pessoas,” disse Peter. Derek falou alguma coisa enquanto caminhava para longe, mas Peter ouviu um pouco das reclamações dele.

Ele se virou para a secretária, que só apontou para onde ele deveria caminhar. E Peter seguiu, estampando um sorriso no rosto e ajeitando o seu jeito de andar. A melhor forma de conseguir pegar um ômega era deixando bem óbvio que ele era um Alfa forte, e que tinha seus atributos bem prontos para tudo — era o motivo dele andar com as pernas um pouco abertas, para não deixar dúvidas de que ele estava empacotando bastante.

Peter abriu a porta para a sala do Xerife. O homem levantou o rosto dos papéis da mesa. Peter não sabia o que estava naquele rosto, mas ele entrou na sala mesmo assim e fechou a porta.

“Bom dia, Xerife.”

O homem sentado na mesa tirou os óculos de seu rosto e colocou eles na mesa, suspirando.

“Bom dia. Algum motivo especial para essa visita — e para a minha secretária não ter me avisado.” O Xerife tinha um olhar de desafio em seu olhos, e Peter amava esses olhares.

“Eu vim aqui para falar com você,” Peter disse.

O Xerife só levantou uma sobrancelha. O homem nem ofereceu um lugar para Peter sentar, mas ele se sentou mesmo assim. E abriu um pouco as pernas, mostrando o pacote, obviamente.

“Fale, então,” disse o Xerife. Peter podia ver que o homem não queria se abrir muito, porque Peter sabia que se o Xerife se deixasse levar Peter pegava ele de jeito. Iria ser divertido brincar com o Xerife por um tempo.

“Eu queria saber se você está livre no almoço de hoje, porque eu queria levar você pra um restaurante pra gente poder passar um momento juntos.” Peter virou a cabeça ao lado, mostrando um pouco do seu pescoço.

Era um gesto comum para ele mostrar que ele poderia se oferecer um pouco também, já que o pescoço era um lugar sensível no corpo. Mas o Xerife não tirou o seu olhar dos olhos de Peter. O homem era bom, pelo jeito.

“Olha, Peter, eu estou trabalhando agora.” E para deixar bem óbvio ele se levantou da cadeira em seu uniforme de Xerife.

Peter não tinha como não sentir seu corpo se aquecendo. O homem era gostoso.

“Mas e tem algum problema em estar trabalhando?” Peter pediu.

“Se você quiser conversar comigo, só fora do trabalho. Não apareça mais aqui sem avisar e com essas intenções.” A voz do Xerife era calma e controlada. Peter sentiu um pouco de desapontamento com aquelas palavras, mas assim que ele se levantou da cadeira para sair, ele viu o olhar que o Xerife mandou para o pacote de Peter.

Quem sabe ele tinha uma chance.

“Eu vou,” Peter falou. “Mas eu volto.”

Com uma última olhada, Peter virou suas costas para o Xerife. Ele não falou mais nada, mas era possível sentir um leve cheiro de hormônios de ômega em ebulição.