Coração de lobo
13 A inauguração
Notas iniciais
Foram cinco semanas de preparação para a abertura da livraria de Stiles. Ele tinha trabalhado aquele tempo praticamente sozinho, porque depois da ajuda que o pai dele e Derek deram para Stiles ele não queria mais saber de ninguém por ali. Não que ele não quisesse a ajuda, mas de uma certa forma Stiles não queria ninguém interferindo na energia de sua livrria, a não ser que aquela pessoa fosse o Derek.
Claro, Stiles não queria exatamente que Derek aparecesse por ali, afinal de contas, mesmo que eles não tenham se falado por tanto tempo, mesmo que mais dez anos da vida de cada um tenha passado, Stiles ainda sentia alguma coisa por Derek. E pior ainda, agora que os controladores estava terminando seu efeito, e Stiles tinha que esperar para poder tomar novos remédios, ele começou a sentir uma força dentro dele querendo simplesmente que ele se entregasse para Derek.
Stiles viu como ele havia se comportado naquele dia em que Derek veio o ajudar. Derek estava distante, meio retirado de todos os assuntos. Mas Stiles tamvém não conseguia puxar papo com ele, afinal de contas Derek tinha ficado tão bonito, tão... um homem. Stiles não conseguia nem imaginar o que falar para não passar vergonha — e não que ele tivesse que impressionar o Derek, afinal de contas ele estava quase certo de que Derek não estaria sozinho.
Ele até queria pedir para o pai, mas nunca teve coragem.
Enfim, finalmente havia chegado a noite da inauguração da livraria. Stiles tinha repintado as paredes, organizados todos os livros em suas prateleiras, tinha comprado três conjuntos de poltronas e espalhado elas pelo espaço e feito tudo para que os futuros clientes e leitores viessem para seu espaço e se sentissem em casa. Ele não queria criar um ambiente chato ou ruim para quem quisese vir.
Agora, olhando para a sua livraria toda pronta, Stiles não poderia deixar de se sentir orgulhoso — ele, de uma forma, sentia que até a sua mãe estava orgulhosa dele. E claro, ele tinha colocado uma foto dela na parede, além de ter pendurado alguns dos estudos dela em quadros ao redor do lugar.
O sino da porta soou e Stiles olhou para a frente para ver seu pai entrando.
“Tudo pronto por aqui?” O Xerife pediu, arrumando sua camisa. Stiles sorriu ao ver que o pai dele tinha se arrumado.
Não que Stiles não tivesse feito uma forcinha para se arrumar também, vestindo um de seus melhores jeans e colocando uma camisa branca com um colete de lã por cima, afinal ainda era fresco o bastante para ele se vestir com mais roupas. Ele colocou uma touca na cabeça também, deixando um pouco dos cabelos caindo para fora.
O pai de Stiles nem torceu o nariz para a touca dele, então estava tudo bom.
“Eu acho que eu vou abrir a porta e esperar pra ver se alguém vai vir hoje.” Stiles havia planejado a abertura da loja na sexta-feira à tarde, depois das quatro horas, preparando-se para o horário em que as pessoas sairiam do trabalho e também as crianças iam sair da escola para chamar o máximo de pessoas lá para dentro.
Ele não tinha feito uma grande divulgação, mas levou uns panfletos na escola para que as crianças pudessem vir e comprar livros com desconto. E os professor tinha gostado da ideia, inclusive Finstock, que tinha sido professor de Stiles e estava orgulhoso dele.
Stiles ficou conversando com o pai por um tempo, enquanto ninguém entrava na loja, mas então algumas pessoas começaram a chegar e Stiles foi conversando com elas. O pai de Stiles também começou a conversar com outros que chegavam à loja, e Stiles nem percebeu, mas quando ele fechou a primeira venda de sua livraria, ele olhou para as prateleiras e viu que um monte de pessoas estava por ali.
Alguns apenas pareciam estar olhando para os livros sem saber o que fazer, mas outros tinham alguns livros nos braços, prontos para comprar. Stiles sentia um aperto no coração ao ver que ele iria fazer uma boa venda naquele primeiro dia, ainda que não fosse uma indicação de que tudo iria ficar bem.
Mas pelo menos essa boa sensação de dever cumprido fazia ele ficar feliz.
Ele estava praticamente preso no caixa da livraria, ajudando as pessoas a finalizarem suas compras quando um bando de pessoas apareceu no caixa. Por um segundo Stiles não viu quem eles eram, mas então seus olhos se arregalaram e ele teve que sorrir.
“Família Hale, que bom ver vocês por aqui,” Stiles disse, oferecendo a mão para receber uns apertos.
Talia e seu marido, e as filhas Laura e Cora estavam ali. Stiles pode até ver que Laura veio junto com o marido e filhos, o que surpreendeu Stiles porque ele nunca imaginou que Laura teria um marido algum dia.
“Como é bom ter você de volta em nossa cidade,” disse o pai de Derek.
“Eu me sinto muito bem em estar aqui, tenho que admitir,” Stiles revelou.
“E a gente fica bem feliz que agora as coisas podem voltar ao normal também,” Talia falou, e Stiles viu que o marido dela deu um leve apertão no braço da muloher, mas ninguém disse mais nada.
Stiles também não entendeu muito bem o que ela disse sobre tudo voltar ao normal, mas tudo bem. Ou melhor, entender ele entendeu, mas preferiu não pensar muito no que voltar ao normal significava.
“Eu espero que a gente possa se ver mais vezes,” Stiles falou. Ele mandou um sorriso para eles, “mas se vocês não se importam já tem uma pequena fila de clientes atrás, e não que eu queira mandar vocês embora, mas se puderem dar um espaço para eles eu fico bem feliz.”
O pai de Derek guiou sua esposa para o lado e Laura e Cora mandaram uns sorrisos para Stiles antes de irem caminhar pela livraria. Não havia nenhum sentimento ruim do passado que ele teve com Derek, mas Stiles sentia uma energia um pouco diferente emanando deles. Talvez era apenas porque eles eram lobisomens, Stiles não saberia.
O resto da noite passou mais ou menos da mesma forma. Muitas conversas, muitas pessoas aparecendo por ali para ver como ele estava trabalhando em sua livraria, querendo saber da vida de Stiles, e ele até viu alguns de seus colegas de escola, mas eles eram apenas colegas, claro. Stiles não tinha muitos amigos já quando estudava, especialmente depois que Scott foi embora, então ele não tinha muito o que lembrar.
A livraria teve que ficar aberta até o final da noite, com pessoas entrando e saindo e comprando livros. Muitos dos clientes quiseram saber se Stiles iria fazer alguns events como um clube de leitura ou rodas de histórias para crianças, e ele disse que iria pensar em tudo aquilo, mas agora ele queria mais é saber como as pessoas iriam receber ele na cidade.
Stiles tinha dito para o pai dele ir embora, já que o homem iria trabalhar no outro dia, e ele havia prometido a seu pai que não iria mais ficar aberto por muito tempo, vendo que o movimento tinha diminuído bastante.
Durante toda a noite, Stiles ficou procurando por Derek, tentando ver se ele apareceria pela loja, mas Stiles não o viu. Nem junto com seus pais e nem sem eles. Stiles não tinha motivos para sentir alguma coisa ou não pelo homem, claro, mas ele queria que Derek estivesse lá, ainda que fosse algo que ele não tinha motivos para sentir, realmente.
Derek e ele não eram nada.
Quando o relógio finalmente bateu onze horas da noite, Stiles deu seu adeus para as últimas pessoas, e começou a limpar a loja para fechar tudo e subir para seu apartamento. Ele estava cansado, e por isso mesmo a limpeza foi devagar. Ele também deixou a sua loja aberta enquanto limpava, para o caso de um cliente atrasado chegar.
Stiles não estava olhando para a porta, por isso foi uma surpresa ouvir o sino tocando.
“Olá?” Uma voz chamou por Stiles.
Ele sabia de quem era aquela voz.
Ao se virar para a porta, Stiles viu Derek entrando com calma para dentro. O homem estava vestido com uma camisa simples e calças jeans, mais o cabelo molhado como se ele tivesse tomado um banho há pouco tempo.
“Oi,” disse Stiles. Ele bateu suas mãos para limpar da sujeira e chegou para perto de Derek.
Ele não podia segurar a vontade de chegar ainda mais perto do homem.
“Coom que foi a inaguração da loja?”
“Foi bem boa,” Stiles falou, logo antes de bocejar.
“Oh, desculpa eu ter vindo assim tarde.” Derek disse. “Eu liguei pro seu pai e pedi se a loja ainda estava aberta, e ele disse que eu poderia passar aqui para ver. Ainda tava, mas eu não sabia se podia entrar.”
“Ah, eu deixei aberto,” Stiles falou.
Por um momento nenhum dos dois disse mais nada. Logo então, Derek virou seu rosto para o lado.
“Eu gostei dos comics que você me deu,” Derek falou, quase envergonhado.
“Ah, eu sabia que eles eram seus favoritos, e como você me ajudou...”’
“Não foi nada.” Derek sacudiu a cabeça.
“A ajuda foi bem vinda, no entanto. Não sei como eu iria carregar tudo, sabe?”
Derek apenas assentiu. Outra vez eles não seguiram o assunto. Poderia ser estranho ficar ali um de frente para o outro sem saber o que dizer, e era, mas Stiles não sabia exatamente por onde começar a falar. E Derek também parecia não saber.
Quando Stiles respirou fundo para falar, Derek começou antes dele.
“Eu queria me desculpar por tudo que aconteceu naquele tempo,” Derek falou.
Stiles foi rápido para pedir as suas desculpas. “Eu queria pedir desculpas, também. Eu sei que foi meu corpo o culpado, e tudo aquilo foi maluco, e depois você teve que mudar de cidade. Eu me senti culpado por um tempo.”
“Ah, aquilo foi a adolescência. Não é que a gente não tenha como controlar, mas de uma certa forma, não tinha o que fazer.” Derek ponderou.
“Ainda assim, eu sei que a gente nunca mais se falou depois do que aconteceu. Eu não queria que fosse assim,” Stiles confessou.
Derek olhou firmemente nos olhos de Stiles.
“Eu também não.”
Stiles assentiu.
“Eu ainda sinto um pouco do que fez a gente se separar, sabe. Especialmente agora que eu estou fora dos remédios,” Stiles disse.
“Eu também sinto, Stiles,” Derek revelou. O rosto dele parecia até com vergonha de admitir, mas Stiles estava feliz que ele tinha dito aquilo.
“E o que a gente faz agora?” Stiles pediu.
Derek respirou fundo.
“Olha, a gente foi cruzando barreiras da outra vez e no final das contas tudo foi rápido demais. Acho que a gente precisa de um tempo pra entender melhor o que existe entre nós,” Derek falou. “Eu gosto de você Stiles. Sempre gostei…”
“Eu também. E eu sinto que isso é uma coisa que vem desde lá de trás e…”
“Bom, a gente é Almas Gêmeas, não?” Derek perguntou retoricamente.
Stiles confirmou com sua cabeça.
“Mas só porque a gente é não significa que tudo vai ser perfeito,” ele falou para Derek.
“Claro.”
“A gente precisa se entender, fazer as coisas no tempo certo.”
Derek apenas confirmou com sua cabeça. Stiles suspirou, olhando para o rosto de Derek, e sua completa atenção para Stiles.
“Eu senti saudade de ficar perto de você,” confessou Stiles, sentindo um leve tremor em suas pernas.
“O meu lobo uivou por anos, Stiles,” Derek disse para ele.
Naquele instante, Stiles estava certo de que se ele desse o passo final entre ele e Derek os dois iriam acabar em uma cama, e não era daquele jeito que ele queria as coisas. Por isso Stiles deu uma passo para trás e procurou pelo relógio de parede para olhar a hora.
Ele nem disse nada, mas Derek deu um passo para trás também.
“Eu acho que vou ir,” Derek disse.
“A gente pode combinar alguma coisa para fazer juntos essa semana, não?”
“Claro,” Derek confirmou.
De novo, os dois ficaram apenas se olhando. Stiles conseguia ver desejo em Derek, conseguia ver uma louca vontade de fazer alguma coisa, de pular em cima de Stiles e provar ao mundo que ele era de Derek, que era do lobo.
Derek bufou, exasperado se virando para abrir a porta. Antes de sair, no entanto, ele se virou de novo.
“Eu gostei do nome da livraria, Stiles,” Derek comentou.
“Ah,” Stiles falou, surpreso. “Obrigado.”
Derek deu um pequeno aceno de cabeça antes de ir embora. Stiles ficou olhando para a porta por mais um tempo. Depois ele decidiu finalmente desligar as luzes e deixar o resto da limpeza para o outro dia, pois naquele momento ele não conseguia nem pensar direito.
Ele também se lembrou de desligar as letras de neon na frente de sua livraria. Elas diziam: Coração de Lobo.
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