Coração de loba
13 Segunda Opção
Narrado por Jacob Black
Era só mais um dia normal.
Ou era o que eu queria que fosse.
Eu tinha acordado cedo, tomei meu café na caneca azul lascada que Rachel detestava, e me enrolei na mesma jaqueta de sempre. Na cabeça, só uma coisa: terminar o conserto do carburador do carro do Paul — antes que ele resolvesse quebrar a porta da minha oficina por “impaciência”.
Cheguei na garagem com os fones nos ouvidos e a mente leve, até que ouvi o barulho de motor.
E não era qualquer motor.
Me virei devagar e vi... a velha caminhonete vermelha.
— Ah, não... — murmurei, já sabendo de quem era antes mesmo de ela descer.
A porta se abriu, e lá estava ela.
Bella Swan.
— Oi, Jake. — disse ela, com aquele sorriso meio tímido, meio nostálgico.
Suspirei e tirei os fones.
— Bella? O que você tá fazendo aqui?
— Eu… achei que podia te visitar. E… bom, eu trouxe algo. — Ela contornou a caminhonete e abriu a traseira. — Lembra disso?
Duas motos, enferrujadas, judiadas do tempo, com cheiro de memória.
Arregalei os olhos, rindo com a cabeça.
— Você tá brincando. Onde achou isso?
— Tava jogado em um galpão perto de casa. Pensei… sei lá, que você talvez pudesse dar vida a elas.
— Tá tentando me comprar com sucata agora? — provoquei.
— Eu pensei que você gostava de desafio.
— Eu gosto de coisa impossível — retruquei, já me aproximando das motos.
Peguei a primeira com uma das mãos e a levantei como se fosse feita de papelão.
Quando olhei pra Bella, ela me encarava com surpresa.
— Uau… — ela murmurou. — Desde quando você virou o Hulk?
— Desde que parei de comer só cereal — brinquei, erguendo a segunda moto.
Ela riu. E o som da risada dela... trouxe lembranças demais de volta.
Entramos juntos na oficina e coloquei as motos em cavaletes. O cheiro de graxa, metal e madeira envelhecida me reconectava com o que eu era antes de tudo se complicar.
Bella passou os dedos sobre o tanque de uma das motos.
— Você tem feito muita coisa aqui?
— É, montei tudo sozinho. Não queria mais morar com o meu pai... depois que Rachel voltou, a casa ficou meio pequena.
Ela assentiu, e por um momento ficamos em silêncio, ouvindo só o som das nossas respirações e o leve tique-taque do relógio pendurado na parede.
— Você parece... diferente, Jake. Crescido.
— E você ainda parece perdida — respondi, num tom suave.
Ela abaixou os olhos.
— Eu me perdi mesmo.
Quis dizer alguma coisa, mas não disse. Era como se a presença dela me puxasse para aquele passado em que tudo era confuso e fácil ao mesmo tempo.
Mas eu não era mais aquele moleque que pedia pra ela sorrir só pra não vê-la cair.
— E como você tá? — ela perguntou, olhando ao redor. — Além de forte, mecânico e todo... responsável?
Sorri torto e cocei a nuca.
— Tô bem. Tenho trabalhado, estudado...
Bella ergueu as sobrancelhas.
— Sério?
— É. Sério. — respondi, mas percebi que minha voz não saiu tão firme quanto eu queria.
Ela assentiu, mas o silêncio entre nós era carregado. De lembranças, de promessas que nunca aconteceram, de palavras que ficaram presas no tempo.
— Bom... se você puder arrumar essas belezinhas... seria ótimo.
— Eu posso tentar — disse, pegando uma chave inglesa e girando nos dedos. — Mas vai me dever umas cervejas. Ou umas horas de conversa.
Ela sorriu. E naquele sorriso, vi a sombra da Bella que me fazia correr quilômetros só pra vê-la feliz.
Mas agora... havia outra pessoa que me fazia correr.
E eu estava começando a me perder de novo.
Narrado por Renesmee
Acordei com uma sensação estranha no peito. Daquelas que você tenta ignorar, mas ela insiste em te acompanhar como uma sombra, mesmo quando o sol está alto.
Na escola, tudo parecia igual. O som das risadas, o cheiro de café ralo na sala dos professores, os cadernos riscados...
Mas Jacob não estava lá.
Olhei para o lugar dele na aula de História. Vazio.
Na segunda aula também. Nada.
Tentei não pensar besteira. Talvez tivesse dormido demais. Talvez tivesse perdido o ônibus. Talvez estivesse doente.
Mas Jacob não era de faltar. E se faltasse... ele me avisaria.
Saí da sala e encontrei Embry e Quil perto das máquinas de refrigerante.
— Ei — falei, tentando parecer casual. — Vocês viram o Jake hoje?
Eles se entreolharam por um segundo. Quil encolheu os ombros.
— Não, não vi não. — disse ele, tomando um gole de suco. — Talvez ele só tenha tirado o dia de folga da escola.
— Ele não disse nada pra vocês?
Embry balançou a cabeça.
— Ninguém sabe de nada. Talvez... — ele hesitou —... talvez esteja com o pai?
Assenti, mas algo dentro de mim apertou. Jacob sempre falava comigo. Sempre.
E hoje… silêncio.
Na hora do almoço, liguei pra ele.
Sem resposta.
Mandei mensagem.
Visualizada. Não respondida.
Tentei não surtar.
Quando a aula terminou, caminhei direto para a casa dele. A casa de madeira rústica que já me era familiar. Bati na porta.
Nada.
Dei a volta e olhei pela oficina, mas não havia sinal do Rabbit vermelho, nem da blusa cinza manchada de óleo que ele usava.
Foi quando uma ideia me bateu como um estalo.
A oficina Nova.
Apressei os passos até a garagem nova, a que ele usava quando queria espaço e peças melhores.
A porta de ferro estava aberta. Ouvi vozes.
— Hahaha! Jake, você ainda lembra disso?
Era uma voz feminina. Familiar.
Me aproximei devagar. Meu coração batia tão alto que achei que iam ouvir.
Ali, entre ferramentas, peças e uma moto velha com o tanque aberto, estavam Jacob e Bella.
Rindo. Juntos.
Ela estava sentada no banco da moto, os cabelos presos em um coque bagunçado, com graxa na bochecha e a blusa amarrada na cintura.
Ele, ao lado dela, com as mãos sujas e um sorriso largo.
Meu corpo congelou.
— Você é um desastre com ferramentas, Swan — ele dizia, tirando uma graxa da testa dela com o polegar.
Ela riu. Aquela risada... quase íntima.
— Por isso tenho você, Black.
Fiquei parada ali por segundos que pareceram eternos. A respiração presa. O estômago revirando.
Eu deveria ter ido embora sem dizer nada. Mas minhas pernas se moveram por conta própria.
— Jacob.
Ele se virou na hora, como se meu nome fosse uma descarga de realidade.
— Nessie?!
Bella também se virou, surpresa.
— Eu… — engoli seco, encarando os dois — Fiquei preocupada por naonter ido a escola. Achei que você estivesse com algum problema.
Ele se aproximou de imediato.
— Eu ia te mandar mensagem… eu só… me perdi no tempo aqui.
— É. Eu percebi.
Minhas mãos tremiam, mas segurei firme. Não ia chorar na frente dela.
— Bom… aproveitem.
— Nessie, espera...
Mas eu já estava de costas, caminhando o mais rápido que podia antes que minha voz entregasse tudo o que meu coração gritava.
O ar da floresta era úmido e frio, mas eu mal sentia. Corria sem direção certa, só queria fugir. Dos sons. Das imagens.
Deles dois. Rindo juntos.
Como se eu... não existisse.
— Nessie! Espera! — a voz de Jacob soou atrás de mim.
Mas eu não esperei.
A trilha de terra parecia me engolir enquanto meus passos esmagavam as folhas secas. Meu peito doía. Meu coração batia descompassado.
E antes que eu pudesse acelerar de novo, uma mão firme segurou meu braço e me puxou com força.
— Ei! — ele disse, me virando de frente. — Você vai se machucar correndo assim!
— Me solta, Jacob!
— Renesmee…
— Me solta!
Tentei me soltar, mas ele não cedeu. Seus olhos estavam intensos, aflitos. E eu... eu estava à beira do colapso.
— O que você tá fazendo? — ele perguntou.
— Eu? O que você tá fazendo, Jacob?
Ele não respondeu. Respirou fundo. Eu ri, sem humor.
— É por causa dela, não é?
— Do quê você tá falando?
— Da Bella! — gritei. — Desde que ela voltou, você me evita. Não responde, não liga, some. Eu te procurei, esperei, me preocupei! E você tava lá... com ela. Rindo, consertando motos, como se nada mais importasse.
Ele fechou os olhos, como se minhas palavras doessem.
— Não é assim, Nessie...
— É exatamente assim! — explodi. — Você não me disse nada, Jacob. Você me deixou no escuro. E agora eu fico aqui, segurando as pontas, fingindo que tá tudo bem... enquanto você corre de volta pra ela.
— Eu não corri pra ninguém. Ela apareceu. Eu só... somos amigos. Ela tá passando por um momento difícil, Ness.
— E eu? Eu não tô passando por um momento difícil? Você esqueceu que faz apenas alguns meses que eu perdi minha mãe? Que você era a única coisa boa acontecendo na minha vida?
Ele engoliu seco. Seus olhos estavam marejados, mas o orgulho o impedia de deixar as lágrimas caírem.
— Eu nunca quis te machucar.
— Mas tá machucando. — disse mais baixo, com a voz falhando. — Eu me sinto como... uma segunda opção.
Ele soltou meu braço, devagar, como se percebesse o quanto apertava.
— Você não é uma segunda opção.
— Então por que eu me sinto como uma?
Silêncio.
O vento soprou entre as árvores.
— Você pode dizer o que quiser, Jacob. Mas o que você faz... grita muito mais alto. — murmurei, me virando. — Eu te amo, mas não posso continuar me diminuindo pra caber no espaço que sobrou ao lado dela.
E antes que ele pudesse responder, caminhei de volta para casa.
Deixando-o ali.
Sozinho.
Fale com o autor