Narrado por Renesmee


A viagem na viatura foi silenciosa. Charlie não era de muitas palavras, e, sinceramente, eu também não estava no clima para conversa. Salém dormia tranquilo dentro da caixinha sobre meu colo, enquanto eu observava a estrada familiar que levava até a casa do meu pai.

Não parecia certo estar ali. Não depois de tudo.

Assim que chegamos, Charlie desligou o motor e deu a volta para pegar minha bolsa. — Pode deixar que eu levo — disse, e eu não discuti. Peguei apenas a caixinha de Salém, e seguimos para a varanda.

A porta se abriu antes mesmo de batermos. Bella.

Ela forçou um sorriso ao me ver, mas seus olhos denunciavam nervosismo.

— Bem-vinda, Nessie. A casa é sua.

Assenti, sem muito entusiasmo. — Obrigada.

— Você fica no meu quarto — disse Charlie, já entrando. — Eu vou dormir na garagem. Preparei tudo lá.

— Charlie, não precisa—

— Precisa sim. Quero que se sinta confortável — interrompeu ele, indo direto até a escada com minha bolsa nos ombros.

Fiquei parada ali, encarando Bella. Ela parecia ter se esforçado para me agradar. A sala estava arrumada, flores frescas em um jarro, e um cobertor sobre o sofá. Tudo exalava acolhimento, mas eu sabia que não era natural. Era encenação.

— Eu só aceitei vir porque é o Charlie — disse, direta. — Ele é o único parente que me resta.

Bella baixou o olhar por um segundo, antes de se recompor. — Foi ideia minha. Eu pedi ao Charlie para trazer você.

Arqueei as sobrancelhas. — Por quê?

— Porque... — ela suspirou — você está em perigo. E não tem como a matilha e os Cullen proteger a nós duas se estivermos afastadas.

— Acho que entendi — rebati. — Se algo acontecer, pelo menos saberão onde estou.

— Em uma semana vai acontecer uma guerra— disse Bella, calma. — Estar aqui é o mais seguro para você.

Revirei os olhos e apertei a caixinha de Salém contra o peito. A casa tinha cheiro de madeira antiga e lembranças que não eram minhas. Eu não sabia se conseguiria ficar ali por dois dias sem sufocar.

Mas, por enquanto... era o que restava.

— Tudo bem — murmurei. — Uma semana. Só isso.

Bella assentiu com um pequeno sorriso. — Uma semana...

E eu subi as escadas com Salém nos braços, tentando ignorar o nó apertado no peito.


A primeira noite na casa de Charlie foi mais silenciosa do que eu esperava. Não desci para jantar. Não que eu estivesse com raiva... só não queria fingir que estava tudo bem.

Fiquei deitada na cama dele — agora minha, por tempo indeterminado — olhando para o teto e ouvindo o som abafado da televisão vindo da sala. Alguns minutos depois, ouvi passos no corredor. A porta se abriu devagar e Bella apareceu com uma caixa de papelão nas mãos.

— Trouxe uns pedaços de pizza — disse ela com a voz calma, deixando a caixa em cima da cômoda. — Charlie saiu. Ah... e tem vigilantes lá fora. É seguro.

Assenti em silêncio.

— Obrigada... mas não tô com fome — murmurei, mesmo que o cheiro da pizza estivesse tentador.

Ela hesitou por um instante, como se quisesse dizer algo, e depois se sentou na poltrona ao lado da cama.

— Edward sabe onde o Riley está? — perguntei, encarando minhas próprias mãos.

Bella me olhou, surpresa.

— Infelizmemte não. Você o ama não é?

Pensei por alguns segundos, encarando o teto outra vez.

— Sim. — Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. — Amo. Talvez sempre vá amar.

Bella fez um gesto quase imperceptível com a cabeça.

— E o Jacob?

Suspirei e sorri de canto.

— Eu o amei muito... mas não amo mais. — Meus olhos arderam, mas não chorei. — Parte de mim sempre vai respeitar o que tivemos. Mas amar? Não mais.

Bella ficou em silêncio por um tempo, e depois perguntou:

— Você sabe... como eu perdoei o Jacob?

Virei o rosto pra ela, curiosa.

Ela sorriu com tristeza.

— Tem coisas que acontecem pra nos guiar pro que é certo pra gente. Se eu tivesse me casado com Jacob... eu nunca teria sido feliz. Não como sou com o Edward. Sempre foi ele. Sempre.

— Então por que você se envolveu com o Jacob? — perguntei, a voz cheia de uma dor que nem sabia que carregava.

Bella encarou o chão.

— Estupidez — respondeu, sincera. — Uma mistura de medo, carência e ilusão. Eu me perdi por um tempo... e talvez eu tenha feito o mesmo com você, quando deveria ter te protegido.

Ela levantou-se com cuidado, caminhando até a porta.

— Espero que um dia... você me perdoe.

E então saiu, deixando a porta entreaberta.

Fiquei ali por um tempo, imóvel. Depois me levantei, caminhei até a janela e encarei a noite do lado de fora. As luzes da varanda acesas. A silhueta dos vigilantes imóveis nas sombras.

— Onde você está, Riley? — sussurrei.

Mas o vento lá fora não me trouxe resposta nenhuma.


Narrado por Jacob


A dor no olhar de Leah ainda queimava em minha memória, mesmo dias depois do velório de Harry. O velho era durão, mas ninguém estava preparado para perdê-lo, muito menos os filhos. Leah se fechou, como sempre fazia quando o mundo lhe arrancava algo importante. Mas dessa vez, algo nela se rompeu — ou talvez, tenha finalmente despertado.

A transformação dela e de Seth aconteceu na mesma madrugada, como se o luto tivesse sido o gatilho final. Dois novos lobos em nossa matilha. Dois corações partidos. Dois jovens mergulhados em raiva e incerteza.

— Eles vão precisar de tempo — comentei com Sam, observando Leah vagar sozinha pelas árvores, a respiração pesada, tentando entender quem era agora.

— E vamos precisar deles prontos — respondeu Sam, seco, mas preocupado.

Horas depois, partimos juntos. Os limites do território nos aguardavam, e além deles, os Cullen. Nunca foi fácil para Sam confiar neles. Para ser sincero, nem sempre foi fácil pra mim também. Mas em tempos como esses, a sobrevivência fala mais alto que o orgulho.

Carlisle estava lá, junto de Edward. O médico sempre mantinha aquela calma irritante, como se estivesse um passo à frente de todos.

— O exército de Victoria está pronto — disse ele, direto. — O ataque vai ocorrer em sete dias.

Sete dias. Respirei fundo. Tínhamos pouco tempo.

Sam assentiu. — A matilha estará pronta.

Edward se adiantou, olhando diretamente para mim. — Os recém-criados são diferentes. São fortes, instáveis, e quase impossíveis de prever. Precisamos treinar juntos. Jasper pode ajudar vocês.

Sam lançou um olhar desconfiado. — Lutar ao lado de vampiros… Isso ainda me parece errado.

— Eu sei — disse Carlisle. — Mas temos um inimigo em comum agora. E precisamos de vocês tanto quanto vocês precisam de nós.

Houve um momento de silêncio. E então, para minha surpresa, Sam assentiu.

— Muito bem. Aceitamos o treinamento.

Edward me chamou de lado antes de partirmos. Seu olhar era mais tenso que o normal.

— Renesmee está na casa de Charlie.

O nome dela caiu sobre mim como um raio silencioso.

— O quê? — perguntei, contendo o impulso de fazer perguntas demais.

— Bella a levou até lá. Conseguiu convencer Charlie. Emmett, Rosalie e Alice estão de guarda. Ela está segura… por enquanto.

Assenti em silêncio, a mandíbula travada. Parte de mim queria correr até Forks naquele instante. Parte de mim sabia que era melhor não.

Me virei e segui Sam. O tempo estava contra nós. E eu precisava manter minha cabeça no campo de batalha. Mesmo que meu coração já estivesse a quilômetros dali… com ela.

A noite havia sido longa, tortuosa, daquelas em que você fecha os olhos, mas a mente insiste em não descansar. As lembranças, os medos, as decisões erradas — tudo desfilava sem pedir licença. Quando o sol finalmente apareceu no céu, como uma punição dourada, eu já estava em pé.

A matilha estava reunida. Os rostos sérios de Sam, Jared, Embry e os mais novos refletiam a tensão no ar. Partimos juntos rumo à clareira onde os Cullen haviam marcado o primeiro treinamento. Um lugar afastado, cercado por árvores altas e silêncio. Silêncio demais para quem sabe que a guerra está por vir.

Quando chegamos, vi Jasper ao centro, já em posição. Ao seu lado estavam Emmett, Rosalie, Alice… e, para minha completa surpresa, Bella. E Nessie.

Ela estava ali. Ao lado da irmã, vestindo roupas leves, os cabelos presos em um coque malfeito que deixava escapar alguns fios rebeldes. Estava mais magra, os olhos um pouco fundos. Mas ainda linda. Ainda ela.

Por que ela está aqui? — perguntei, em pensamento, já transformado.

Edward respondeu antes mesmo de Jasper dar o primeiro passo.

— Como todos estariam aqui, Bella e Renesmee tiveram de vir. Não podíamos deixá-las sozinhas. Estão protegidas.

Na minha forma de lobo, caminhei alguns passos, observando Nessie. Ela também me olhava. Não havia raiva no seu rosto. Nem carinho. Apenas curiosidade. Como se estivesse tentando entender o que eu era agora. Quem eu era agora.

E eu não sabia se me sentia envergonhado ou aliviado.

A distância entre nós parecia pequena, mas na verdade era um abismo inteiro. Um abismo feito de palavras não ditas, promessas quebradas e um amor que já não morava mais do mesmo lado.

Eu queria dizer que ela não precisava estar ali. Que eu ainda podia protegê-la. Mas não disse nada. Não adiantaria.

Jasper nos chamou para a primeira simulação. A guerra estava cada vez mais próxima.