Coração de loba
27 O casamento
Narrado por Jacob
Sentei-me nos degraus da varanda da casa de Charlie, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto escondido entre as mãos. O sol começava a se pôr, pintando o céu com tons de laranja e rosa, mas tudo que eu via era o vestido branco dela quando a porta se abriu.
Ouvi passos leves e, quando ergui os olhos, lá estava ela. Bella.
Sem véu, descalça, com os cabelos soltos agora, e os olhos inchados de emoção contida.
— Jake… — disse, com a voz baixa, e se sentou ao meu lado.
Por alguns segundos, nenhum de nós falou. O vento bagunçava os cabelos dela e o cheiro do perfume ainda grudava em minha pele.
— Você não atendeu minhas ligações — falei, tentando esconder o peso da mágoa na minha voz.
— Eu precisava pensar — ela respondeu, olhando para o horizonte. — E me acalmar. Você não faz ideia de como me magoou hoje.
Engoli seco.
— Eu achei que… que você estava escondendo algo de mim. Edward… ele sempre esteve entre nós, Bella.
Ela virou o rosto para mim, os olhos castanhos cheios de dor.
— E você achou mesmo que eu te trocaria? Que eu abandonaria tudo o que construímos? Jacob, o que mais eu preciso fazer pra provar que é com você que eu quero ficar?
— Eu só preciso saber se você sente algo por ele ainda — disparei, sem rodeios. — Bella, você ainda ama o Edward?
Ela não hesitou.
— Eu amo.
Meu peito doeu.
Mas então ela continuou:
— Eu amo Edward. Ele foi uma parte da minha vida… mas eu te escolhi, Jacob. Eu amo você. É com você que eu vou casar. Em três dias. E nada vai mudar isso.
Fiquei em silêncio, sentindo o coração desacelerar.
— Você será o pai dos meus filhos — ela sussurrou, com os olhos marejados. — Você é meu lar, Jake. Você é calor, impulso, verdade. O Edward… ele é silêncio, é frio, é passado.
Meus olhos se encontraram com os dela, e por um instante, tudo se acalmou.
— Me desculpa — falei, puxando sua mão. — Eu sou um idiota.
— É — ela sorriu com os olhos ainda úmidos. — Mas é o meu idiota.
Puxei-a para mais perto e beijei seus lábios com a urgência de quem quase perdeu tudo. Ela respondeu com a mesma intensidade. E ali, naquele beijo, entre promessas e mágoas, nos reencontramos.
Era ela. Sempre foi ela. E em três dias, seria minha para sempre.
O reflexo no espelho mostrava um homem arrumado demais pra se sentir tão em pedaços por dentro. A gravata me sufocava e não era só por estar apertada. Era ansiedade, nervosismo, medo. Rachel entrou sem bater, como sempre.
— Deixa que eu te ajudo com isso — disse, se aproximando e tomando a gravata das minhas mãos trêmulas.
Fiquei parado, encarando meu reflexo e me perguntando se aquele cara ali estava pronto. Rachel ajeitava a gravata com cuidado, até demais.
— Tá tremendo por quê? — ela provocou com um sorrisinho de canto. — Casamento é pra comemorar, não pra parecer que vai enfrentar uma execução.
Soltei uma risada baixa, sem humor.
— Não é isso... É só... muita coisa, sabe?
Ela terminou de ajeitar a gravata, alisou minha camisa e se afastou meio passo, me avaliando.
— Você tem certeza disso, Jake?
Franzi o cenho e virei de frente pra ela.
— Por que essa pergunta agora?
— Porque você sabe. — Ela cruzou os braços. — Sam, Quil, Paul, Jared... todos tiveram imprinting. Você vive dizendo que isso é raro, mas… e se acontecer com você?
Suspirei, passando a mão pelos cabelos já bem penteados.
— Eu sou Embry. Nós somos a exceção, lembra? Nunca tivemos esse negócio. Nunca aconteceu, nem vai acontecer. Eu escolhi a Bella. Eu a amo. E estou me casando com ela, é isso que importa.
Rachel me olhou por um longo tempo, como se quisesse acreditar, mas ainda com uma pontinha de dúvida nos olhos.
— O “ainda” sempre fica implícito, Jake.
Me aproximei e beijei a testa dela, como fazia quando éramos crianças e ela estava assustada com alguma coisa.
— Está tudo sob controle. Eu tô exatamente onde quero estar. Vai dar tudo certo.
Ela assentiu com um meio sorriso, ainda que não completamente convencida. Pegou sua bolsa e caminhamos juntos até a porta. O sol de La Push estava dourado e quente, mas o vento do mar trazia uma leveza estranha. Fechei a porta da minha casa e seguimos para o carro. Era hora de casar. E eu só esperava que o destino estivesse do meu lado — só dessa vez.
A clareira estava linda.
Montaram um altar rústico, com madeiras claras entrelaçadas por heras e flores brancas silvestres — margaridas, lírios, lavandas. Uma passarela de pétalas levava até o centro, onde bancos de madeira dispostos em semicírculo reuniam os convidados. O céu estava limpo, o ar calmo. Perto dali, a casa de Billy dava um toque íntimo ao cenário.
Os anciões estavam sentados na primeira fileira, em silêncio respeitoso, vestindo suas roupas tradicionais. Sam, Quil, Paul, Jared e Embry já estavam de pé ao meu lado, todos em trajes leves e discretos. Tentei sorrir, mas minhas mãos estavam úmidas e meu coração disparado. Era o dia do meu casamento. E mesmo que a briga com Bella ainda estivesse me corroendo por dentro, eu tentei deixar isso de lado.
Até que Leah apareceu.
— Leah? — franzi o cenho. — Pensei que os Clearwater não viriam.
Ela olhou ao redor, como se checando a área, e depois lançou um olhar na direção oposta.
— Achei melhor vir... e vigiar a irmã da noiva.
— O quê?
Segui seu olhar. Meus olhos encontraram os dela.
Renesmee.
Meu peito explodiu.
Naquele instante, tudo parou. O som dos pássaros sumiu, os sussurros cessaram, o vento estagnou. Tudo se quebrou. Tudo foi apagado. Bella. O altar. Os anciões. O mundo. Só existia ela.
Uma força sobrenatural tomou conta de mim, algo impossível de explicar. Era como se algo maior do que qualquer destino tivesse se encaixado. Eu sentia cada batida do meu coração correr direto até ela. Meu corpo tremia, mas não de nervoso — era reconhecimento. Era certeza. Era imprinting.
Renesmee caminhava devagar, com um vestido preto curto de babados e os cabelos soltos. Linda. Mortal. Irradiando ironia. Mas meus joelhos quase cederam quando ela parou diante de mim.
Seus olhos estavam cravados nos meus. E então ela disse, com um sorriso leve e carregado de sarcasmo:
— Oi, Black. Parabéns pelo casamento.
Eu não consegui responder. Ainda não conseguia respirar. Porque naquele segundo, pela primeira vez na minha vida, eu soube o que era realmente ter uma gravidade. E ela... era a minha.
Narrado por Renesmee
Terminei de ajustar os últimos botões do vestido e me virei de lado diante do espelho. O tecido preto com babados abraçava meu corpo com elegância, mas havia um toque sombrio proposital. Olhei para Salem, que estava deitado preguiçosamente sobre a poltrona. Ele soltou um miado longo, quase como um julgamento silencioso.
— Eu sei, Salem — sorri, passando a mão sobre seu pelo macio. — Mas hoje eu estou vestida como você. Misteriosa. E com garras escondidas.
Saí do quarto com os saltos ecoando pelo corredor. Encontrei Leah e Seth me esperando na sala. Leah usava um vestido vinho escuro que contrastava com sua expressão séria. Já Seth, com um blazer cinza claro e gravata preta, não conseguiu conter a risada ao me ver.
— Nessie... — ele balançou a cabeça. — Vão pensar que você tá indo pra um velório.
Cruzei os braços e dei um meio sorriso.
— Essa é exatamente a intenção.
— Você está querendo provocar — Leah falou, o olhar preocupado. — Tem certeza disso? Você pode mudar, usar algo mais suave... Você é linda, não precisa fazer esse tipo de declaração.
— Leah, seria um absurdo a irmã da noiva não comparecer — respondi firme, passando por ela. — Principalmente uma irmã que teve o coração esmagado pelo noivo.
Ela segurou meu braço, gentil, tentando me impedir de seguir.
— Nessie... isso vai doer. Não só pra ele. Vai doer em você também.
Soltei um suspiro profundo, sem desviar o olhar.
— Eu quero que ele me veja. Quero que saiba que eu não me escondo mais. Nem dele, nem dos sentimentos dele, nem dos meus.
Leah e Seth trocaram olhares silenciosos. No fundo, sabiam que eu não mudaria de ideia. E também sabiam que alguma coisa estava prestes a acontecer. Talvez não do jeito que todos esperavam.
— Então vamos — declarei, pegando minha bolsa. — O show está prestes a começar.
Salem miou outra vez, como se fizesse parte do coro silencioso da tragédia.
E eu apenas sorri.
O local estava decorado com luzes suaves e flores brancas. Tudo parecia tão... feliz. Como um daqueles contos de fadas que sempre acabam com finais que não eram meus. Suspirei fundo antes de dar o primeiro passo.
Leah e Seth me acompanhavam em silêncio. Talvez soubessem que qualquer palavra agora seria em vão. Meu vestido preto balançava levemente ao ritmo dos meus passos, como se fizesse parte da provocação silenciosa que eu estava prestes a encenar.
Assim que atravessamos a clareira, avistei Billy, sentado em sua cadeira de rodas perto do altar. Os olhos dele se arregalaram ao me ver. Uma mistura de surpresa e talvez... preocupação.
— Renesmee? — ele disse, franzindo o cenho. — Você aqui?
— Oi, Billy — respondi com a educação que minha mãe me ensinou, ainda que o nó na minha garganta me obrigasse a engolir mais do que o orgulho. — Eu não perderia o casamento do Jacob por nada.
Ele assentiu devagar, ainda processando minha presença. Dei um passo para o lado e avistei Leah alguns metros adiante, conversando com... ele.
Meu coração disparou no mesmo instante. Três anos. Três longos anos sem vê-lo. E agora ele estava ali. Diferente. Tão diferente que por um segundo meu peito se esqueceu de doer.
Jacob estava mais alto. Mais forte. O terno ajustado revelava um corpo que o tempo esculpiu como uma estátua viva. O rosto não carregava mais os traços suaves do jovem que um dia foi meu. Ele era um homem agora. Um homem completo.
Senti os joelhos fraquejarem.
— Você consegue, Nessie — murmurei para mim mesma, endireitando a postura. As palavras saíram quase como um feitiço.
Respirei fundo e caminhei até ele.
Os olhos dele me encontraram no meio da multidão. E, naquele segundo, o tempo parou. O mundo silenciou. Tudo o que existia era o olhar de Jacob sobre mim. O olhar que eu tanto sonhei e tanto temi rever.
Mas eu não recuei.
Ele piscou, como se tentasse ter certeza de que era real. E eu sorri — um sorriso carregado do tipo de dor que o tempo não apaga.
— Oi, Black — minha voz saiu firme, com um toque de escárnio. — Parabéns pelo casamento.
Ele demorou um segundo para reagir, como se minhas palavras tivessem atingido mais fundo do que deveriam.
Mas eu não me importava.
Eu ainda carregava cicatrizes. E aquela era a minha forma de mostrar que elas estavam abertas.
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