Narrado por Jacob


Estava sentado no sofá da sala de Billy, com a cabeça entre as mãos. Ainda usava a camisa branca do casamento, agora amassada e suada, com a gravata meio solta. Meu coração pesava como se tivesse pedras dentro. A casa estava silenciosa, até a porta da frente se abrir com um estrondo.

— Jacob Black! — A voz de Billy ecoou como um trovão enquanto ele entrava em sua cadeira de rodas, os olhos faiscando em fúria. — O que você fez?!

Levantei o olhar lentamente. Eu não tinha resposta — não uma que fizesse sentido para ele. Mas precisava dizer.

— Eu tive um imprinting — minha voz saiu baixa, quase como um sussurro.

Billy parou. Ficou imóvel. A expressão de raiva deu lugar a um misto de choque e silêncio. Ele piscou lentamente, como se processasse o que ouviu.

Antes que ele respondesse, a porta se abriu novamente. Charlie entrou com passos firmes, o rosto vermelho como nunca. Ele apontou o dedo pra mim.

— Você tem noção do que fez?! — ele vociferou. — Você humilhou minha filha! Na frente de todos! Se eu tivesse minha arma...

Billy girou a cadeira e se colocou entre nós.

— Chega, Charlie. — A voz dele saiu baixa, mas com autoridade suficiente pra calar qualquer um. — O Jacob teve seus motivos. Ele nunca faria algo assim sem estar preso entre o certo e o impossível.

Charlie olhou pra Billy, surpreso com a defesa.

— Motivos?! Que motivo justifica abandonar a Bella no altar?! Você tá defendendo isso?!

Billy franziu o cenho.

— Você não entende o que está em jogo. Há coisas maiores aqui...

— Eu não quero saber de misticismo, tradições indígenas ou sei lá o quê! Isso foi uma covardia!

— Ela merece alguem que a ame, — murmurei, quase sem força. — essa pessoa não sou eu.

O ambiente ficou pesado. O ar parecia denso de tantos sentimentos misturados — raiva, mágoa, confusão.

Foi então que a porta se abriu de novo.

Bella entrou.

Silêncio absoluto.

Charlie se virou pra ela, mas Bella apenas levantou a mão, pedindo silêncio. O olhar dela estava calmo... e, ao mesmo tempo, devastado.

— Deixem-me sozinha com ele, — ela disse.

Billy assentiu com um suspiro cansado.

Charlie relutou, mas saiu. Antes de cruzar a porta, lançou um último olhar de decepção pra mim. Doeu.

Billy o seguiu, e então ficamos só nós dois.

Bella fechou a porta e ficou ali, parada, me observando. O vestido de noiva parecia pesar mais que qualquer armadura. As flores já estavam murchando em suas mãos.

— Por que, Jacob? — ela perguntou, num sussurro que ainda assim me atingiu como um grito. — Por que você fez isso comigo?

O silêncio entre nós era sufocante. Eu olhava para Bella, ali parada diante de mim, com os olhos cheios de uma raiva contida — mas também de mágoa. A culpa me devorava por dentro.

— Eu… eu tive uma impressão — soltei, minha voz rouca, mal reconhecível até pra mim.

Os olhos dela se arregalaram, e então se encheram de fúria. Ela deu um passo pra trás, como se meu corpo agora queimasse.

— Você prometeu! — gritou, com os punhos cerrados. — Prometeu que isso nunca aconteceria!

— Eu sei… eu sei. — Me aproximei, tentando tocar seu braço, mas ela recuou. — Não foi algo que eu escolhi, Bella. Eu lutei… ainda tô lutando.

— Lutar? Jacob, você saiu do altar! — cuspiu as palavras, como se fossem veneno. — Você me deixou sozinha, diante de todos!

Eu abaixei os olhos, tomado por vergonha.

— Eu não queria… não assim. Eu só… surtei. Mas nós vamos nos casar. Ainda dá tempo. Eu quero isso. Quero você.

Bella deu uma risada amarga, e havia um tom de dor nela que me atravessou o peito.

— Casar comigo? Sabendo que você… que você pertence a outra? — Ela me encarou como se pudesse ver além da minha pele, no fundo da minha alma. — Quem é, Jacob?

Eu desviei o olhar. Não podia dizer. Não pra ela. Não agora.

— Me diz quem é. — A voz dela falhou.

— Não posso. — sussurrei.

Ela permaneceu imóvel por alguns segundos. O silêncio cresceu entre nós, denso como uma tempestade prestes a cair. Então, com os olhos marejados, Bella respirou fundo e disse com firmeza:

— Vai pro inferno, Jacob.

E saiu, batendo a porta com força.

Fiquei ali parado, sozinho, com a sensação de que meu mundo tinha acabado de ruir. E, de algum modo… merecidamente.


Narrado por Renesmee


A música estava animada, e por um instante, me permiti esquecer o caos e a vergonha alheia do altar abandonado. Peguei um pratinho e fui direto na torre de bem-casados — honestamente, a única coisa boa que vi naquele casamento até agora.

— Hmm... — murmurei ao dar a primeira mordida. — Isso aqui sim valeu a pena.

Coloquei mais alguns no prato, satisfeita, quando ouvi uma voz conhecida às minhas costas.

— Parece que você está se divertindo bastante — disse Renée, com aquele sorriso passivo-agressivo que ela fingia ser amável.

Virei para encará-la, ainda mastigando.

— Liberaram a comida, né? Melhor comer do que deixar estragar — respondi com um sorrisinho debochado.

Ela arqueou as sobrancelhas, surpresa com minha resposta.

— Mesmo assim... a Bella é sua meia-irmã. Talvez fosse bom você ir até lá. Ela está...

— Não — cortei com firmeza, colocando outro bem-casado na boca. — Bella não pensou em mim quando foi pra cama com o Jacob. E naquela época ele ainda era meu namorado.

Renée arregalou os olhos, visivelmente chocada com a revelação.

Sorri com doçura, limpando os dedos num guardanapo.

— Com licença — falei, antes de me virar e sair com meu pratinho, dançando levemente ao som da música que voltava a tocar mais alto. A batida me embalava, e aquela leveza momentânea era tudo o que eu precisava.

Leah se aproximou com um copo de refrigerante nas mãos e riu ao me ver comendo mais um doce.

— Você está se vingando nos bem-casados? — ela brincou.

— Eu chamo isso de justiça poética — respondi, sorrindo. — Vai querer um?

Ela negou com a cabeça, rindo, e continuou dançando ao meu lado. Eu estava prestes a pegar uma taça de champanhe que passava numa bandeja prateada quando ouvi uma voz grave e familiar atrás de mim.

— Renesmee.

Virei devagar, me deparando com Charlie. Ele parecia tenso, mas com um brilho gentil nos olhos.

— Estava querendo te ver desde que soube que tinha voltado.

— Engraçado — respondi, tomando um gole do champanhe. — Eu fui atrás de você, lembra?

Ele baixou os olhos, sem saber o que dizer. Antes que pudesse responder, Renée apareceu de novo, puxando Charlie pelo braço com um olhar carregado.

— Precisamos conversar — ela disse a ele, como se estivesse arrancando-o da minha frente.

Suspirei aliviada com a interrupção, voltando a focar na música e dando outro gole na bebida.

Mal tive tempo de aproveitar o sabor do champanhe quando parei abruptamente. Bella estava diante de mim, parada, com o vestido de noiva impecável... e os olhos cravados nos meus.

O silêncio entre nós duas foi mais alto que a música.

Segurei a taça com mais firmeza e esperei que ela falasse.

— Está se divertindo, Renesmee? — ela perguntou, com um sorrisinho falso no canto da boca.

Levei a taça aos lábios com calma, degustando o champanhe como se fosse resposta.

— A comida está ótima — respondi, pegando mais um bem-casado do pratinho em minha mão. — Principalmente os bem-casados. São realmente deliciosos.

Bella me encarou em silêncio por um segundo, depois desviou o olhar como se juntasse as peças de um quebra-cabeça cruel.

— É claro… — murmurou. — Por isso ele não disse nada…

Franzi o cenho, confusa.

— O que você tá falando, Bella?

Ela deu um passo à frente. A raiva escorria pelos olhos.

— Você conseguiu o que queria, não é? Acabou com o meu casamento. Essa era a sua vingança por tudo o que aconteceu entre mim e Jacob. Você queria me humilhar, e conseguiu.

Revirei os olhos e abri outro bem-casado com calma, mastigando lentamente antes de responder.

— Você está fora de controle, Bella. Sério. Respira. Talvez devesse sentar, beber uma água com açúcar…

— É sua culpa! — ela explodiu. — Você apareceu aqui só pra isso!

Charlie se aproximou às pressas, visivelmente constrangido.

— Bella, já chega. A Nessie não tem nada a ver com isso.

Bella virou para ele, indignada.

— Tem sim! Ela veio ao meu casamento só pra assistir tudo desmoronar. Está feliz, Renesmee?

Segurei o riso. O drama dela era digno de novela das oito. Me virei lentamente para ela, ainda com o bem-casado na mão.

— Me vingar do quê, Cherrie? — olhei para ele e depois encarei Bella novamente. — De você ter ido pra cama com meu namorado?

O silêncio caiu como uma bomba no meio do salão. Bella ficou imóvel.

— Você me convidou. E eu vim. — Dei de ombros. — Mas sabe… ainda bem que foi você. Sério. Me salvou da vergonha de continuar com alguém que faria comigo exatamente o que fez com você.

Dei mais um gole no champanhe, agora sem pressa, e virei de costas para ela.

Leah me olhou divertida do canto, segurando a risada, Seth também segurou o riso.

— Vamos pra casa — falei a ela com um sorriso leve. — Nosso Harry precisa de nós.

E saí do salão, deixando o gosto do champanhe e dos bem-casados misturado ao gosto doce da minha própria liberdade.