Narrado por Renesmee


O sol da manhã filtrava-se pelas janelas da universidade enquanto eu atravessava o corredor principal com meus livros apertados contra o peito. A semana estava só começando, e eu tinha pela frente mais uma aula de Mecânica dos Materiais, uma das disciplinas mais exigentes do curso de Engenharia Civil. Exigia raciocínio lógico, cálculos estruturais, compreensão de tensões e deformações. E, sinceramente, era uma das minhas favoritas.

Entrei na sala, ocupando meu lugar de sempre — terceira fileira, perto da janela. Gostava de ficar ali, onde a luz natural iluminava a página do caderno enquanto eu anotava. Alguns minutos depois, o professor Hamilton entrou, sempre direto ao ponto.

— Hoje, vamos trabalhar em dupla — ele anunciou, ajustando os óculos sobre o nariz. — Vocês vão analisar um estudo de caso de uma viga submetida a diferentes cargas, calcular as tensões internas e propor melhorias estruturais. Vocês têm uma hora. No final, quero que apresentem uma breve análise escrita.

Suspirei. Não conhecia muita gente naquela turma. A maioria dos colegas já se agrupava com seus parceiros habituais.

Foi quando vi uma sombra se projetar ao lado da minha carteira.

Levantei o olhar e me deparei com um rapaz alto, com cabelos cor de cobre que pareciam brilhar mesmo sob a iluminação artificial da sala. A pele dele era absurdamente clara, como se nunca tivesse tomado sol. Os olhos, de um castanho âmbar estranho, tinham um brilho analítico e, ao mesmo tempo, uma tranquilidade desconcertante.

— Oi — ele disse, com um sorriso educado. — Antony Mansen. Posso fazer dupla com você?

Fiquei por um segundo surpresa. Não era todo dia que alguém novo — e tão peculiar — se aproximava assim.

— Claro — respondi, puxando a cadeira ao lado. — Renesmee Clearwater.

Os olhos de Antony pareceram se estreitar por um breve segundo. Seu sorriso permaneceu, mas havia uma leve tensão em sua expressão agora.

— Clearwater? — ele repetiu, como quem tentava confirmar se ouvira direito.

Assenti, esperando algum comentário. Mas ele apenas pareceu guardar aquela informação, como se ela significasse mais para ele do que eu imaginava.

— Belo sobrenome — disse, desviando o olhar para o caderno. — Vamos ao trabalho?

Começamos o exercício. Para minha surpresa, Antony era brilhante. Dedicado, preciso nos cálculos, enxergava detalhes que eu normalmente levaria mais tempo para perceber. Trocávamos ideias com naturalidade, como se já fôssemos parceiros de longa data. Em menos de quarenta minutos, havíamos feito não só os cálculos exigidos, mas também um esboço de modelo com uma solução mais eficiente para o problema proposto.

Quando entregamos o trabalho, o professor leu rapidamente e ergueu os olhos com um sorriso raro.

— Excelente trabalho, senhorita Clearwater e senhor Mansen. Esse tipo de análise é exatamente o que espero de futuros engenheiros. Parabéns.

Olhei para Antony e sorri, ainda com a curiosidade borbulhando em minha mente.


Saí da sala com Antony ao meu lado. Ele fazia muitas perguntas enquanto descíamos os degraus do prédio da engenharia:

— Você sempre quis cursar Engenharia Civil?

— Na verdade, não — sorri. — Era Medicina, mas mudei de ideia no último ano do ensino médio.

— Imagino que deve ter sido uma escolha difícil.

Dei de ombros, tentando manter o sorriso leve.

— Nem tanto. Descobri que gosto de cálculos estruturais mais do que de bisturis.

Ele riu. Era uma risada baixa e contida, como tudo nele.

— Você é de Forks? — ele perguntou.

— Seattle. Minha mãe faleceu há quase dois anos. Hoje moro sozinha com Salém.

— Salém?

— Meu gato — expliquei, sorrindo com carinho ao lembrar da pequena criatura peluda e ciumenta.

Antony assentiu, como se absorvesse cada informação com interesse genuíno. Quando passamos pelo corredor que levava ao prédio principal, avistei Riley encostado numa das colunas. Ele olhou direto para mim e depois para Antony.

— Oi, Mansen — disse Riley educadamente.

— Biers— respondeu Antony com um aceno breve.

— Posso roubar a Renesmee por uns minutos? — Riley perguntou, me encarando.

— Claro — disse Antony, dando um passo para o lado. — A gente se fala depois, Renesmee.

— Até — respondi, antes de me virar para Riley.

Ele segurou minha mão com suavidade, sem pressa.

— Vamos a lanchonete? A gente precisa conversar.

Assenti. Havia algo diferente no tom dele. Não era ciúmes ou autoridade, mas uma espécie de necessidade contida, quase vulnerável. Seguimos em silêncio por alguns metros até a pequena lanchonete do campus. Eu não fazia ideia do que ele queria dizer, mas no fundo, sabia que não ia sair dali indiferente.


Nos sentamos em uma mesa no canto da lanchonete. O movimento era leve, com alguns estudantes espalhados, mastigando distraídos ou presos em seus celulares. Riley pediu dois cafés e um brownie para dividir, como sempre fazia.

Ele me olhou por alguns segundos antes de falar, como se procurasse a melhor forma de começar.

— Eu consegui a bolsa pra Harvard.

Demorou um segundo até as palavras se encaixarem dentro de mim. Meu rosto se iluminou.

— Riley! Isso é incrível! — segurei suas mãos sobre a mesa. — Você trabalhou tanto pra isso! Eu tô muito, muito feliz por você.

Ele sorriu, mas não era um sorriso completamente leve.

— Obrigado… Mas tem um porém.

Soltei devagar as mãos dele.

— Qual?

— Eu tenho só três dias pra pedir transferência. Se eu não fizer isso até sexta, perco a vaga e a bolsa.

Engoli em seco. O café ainda nem tinha chegado, mas senti um amargo subir pela garganta.

— Três dias?

— É. E... eu vou. Já decidi.

Assenti lentamente, forçando o sorriso de antes a permanecer no rosto.

— Claro. É o seu sonho. Você merece isso.

Mas dentro de mim, algo começava a se desmanchar. Uma mistura estranha de alegria e tristeza, como sol e chuva no mesmo céu. Eu estava feliz por ele, de verdade. Mas ao mesmo tempo… doía.

— A gente pode se ver nas férias — ele disse, tentando soar otimista. — Falar por videochamada, trocar mensagens... não precisa mudar nada.

Assenti outra vez, mas agora sem sorrir.

— É… pode ser.

Por fora, eu parecia calma. Mas por dentro, eu sabia. Sabia que seria diferente. Que nada mais seria igual. Riley estava partindo para um novo mundo, e eu ficaria pra trás.

Ele tocou minha mão de novo.

— Eu não quero te perder, Nessie.

Olhei para ele, sentindo o nó se formar na garganta.

— Eu sei. Mas às vezes a vida não pergunta o que a gente quer. Ela só... leva.

O silêncio entre nós disse tudo o que as palavras não conseguiam. E naquele instante, entre cafés que esfriavam e um brownie intocado, entendi que talvez fosse o começo do fim da nossa história.


O restante das aulas passou devagar, mas eu me esforcei para manter o foco. Engenharia de Estruturas exigia atenção, e apesar dos pensamentos insistentes sobre a partida de Riley, consegui terminar o dia sem perder nada importante.

Quando desci para o estacionamento, já anoitecia. As luzes dos postes se acendiam uma a uma, refletindo nas latarias dos carros. Caminhei até meu veículo, mas parei ao ver Antony encostado no capô de um carro preto, exatamente à minha frente. Ele sorriu ao me ver.

— Oi, Renesmee — disse ele, ajeitando a alça da mochila no ombro. — Estava te esperando.

— Me esperando? — franzi o cenho, sem esconder a surpresa.

— Achei que talvez pudesse te dar uma carona pra casa.

Sorri de leve, achando a proposta gentil.

— Eu estou de carro — respondi, erguendo as chaves.

— Claro, imaginei — disse ele, rindo suavemente. — Mas minha educação falou mais alto.

Antes que eu pudesse responder, ouvi passos apressados se aproximando. Uma garota apareceu ao lado de Antony. Ela era incrivelmente bonita. Pequena, cabelos curtos bem penteados como se tivesse acabado de sair de um editorial de moda. Seus olhos brilhavam e havia algo etéreo em sua presença... como se fosse uma fada saída de um conto.

— Achei que ja tinha ido embora— disse a garota para Antony, batendo de leve no braço dele. Depois, olhou para mim com curiosidade. — E quem é sua amiga?

— Essa é Renesmee Clearwater — disse ele. — Renesmee, essa é minha prima, Alice Whitlock.

Ela sorriu largo e estendeu a mão rapidamente, como se já me conhecesse há anos.

— Pode me chamar somente de Alice. Adorei seu nome! Tem apelido?

Sorri, contagiada pela energia dela.

— Pode me chamar de Nessie — disse, apertando sua mão delicada.

— Nessie! Eu amei! — disse ela com entusiasmo, girando sobre os próprios pés. — Você vai com a gente?

Antes que eu pudesse responder, Antony interveio:

— Não, Alice. Ela está com o carro dela.

Alice fez um biquinho, como se estivesse decepcionada.

— Que pena! Ia adorar conversar com você no caminho.

Antony riu, depois olhou para mim.

— A gente se vê amanhã, Nessie?

Assenti.

— Claro. Até amanhã.

— Foi um prazer, Nessie! — disse Alice, acenando enquanto os dois se afastavam em direção ao carro preto.

Fiquei observando os dois por alguns segundos, o modo como eles andavam lado a lado. Antony era um mistério, e agora com a chegada de Alice, eu sentia que mais peças estavam entrando nesse tabuleiro.

Suspirei, destravei meu carro e entrei, ligando o motor. O dia ainda ecoava dentro de mim — e a noite prometia trazer mais perguntas do que respostas.