Coração de gelo

2 O Grande portão


Thea

Acordo ofegante e apavorada, esse mesmo sonho me atormenta pelo menos uma vez por mês e não há uma única vez que eu não acorde assustada. Encaro o fundo do beliche acima e desisto de tentar dormir outra vez, estou ansiosa demais para simplismente conseguir dormir. Amanhã será o grande dia, o grande portão central finalmente irá se abrir, em todos os meus anos aqui não me lembro de um único dia em que eu não desejei saber o que havia por trás do grande portão, agora finalmente vou descobrir.

"Posso deitar com você?" Nora pergunta espiando do beliche de cima.

"Não consegue dormir também?" Questiono quando e ela toma seu lugar ao meu lado.

"Está brincando? Eu tive sonhos com este portão." Zomba me fazendo rir ainda que minimamente.

Eu não faço ideia de quando minha amizade com Nora começou, se foi nos meus primeiros anos aqui, se foi antes... Eu sequer me lembro de uma vida antes daqui mas quando olho para o meu passado ela sempre esteve lá.

"Eu estou com medo." Sussurro.

"Não fique." Ela diz entrelaçando os dedos nos meus, esse gesto sempre me acalmou. "Nós ainda vamos ficar juntas."

Com a sua promessa em mente e nossos dedos entrelaçados, eu finalmente consigo adormecer outra vez.

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Tap tap tap.

Tiros.

Eu salto do beliche para longe de Nora, ela e as outras garotas imitam meu gesto quase que simultaneamente, a forma como Ágatha, nossa instrutora nos acorda se tornou um desagradável ritual. Ainda é estranho encarar algumas camas vazias, camas que uma semana atrás eram ocupadas por garotas como Nora e eu.

"Em dez minutos no pátio." Ágatha ordena. "E lembrem-se: Lady Asther odeia esperar."

Dado o recado ela sai e apenas nos deixa aqui como em todos os outros dias, nos questionando se iremos morrer hoje, se iremos embora, quem mataremos... Os dias com a Cúpula são sempre assim: uma caixa de surpresas.

"Dez minutos." Nora me puxa de volta. "Lave o rosto, pegue o punhal."

O punhal.

Durante todos esses anos eu vi as outras garotas trocarem suas armas compulsivamente, até mesmo eu tentei por vezes, mas algo sempre me levava de volta para o punhal, talvez a curiosidade de saber a historia por trás dele. É uma bonita ferramenta com o cabo feito de alguma madeira rara, há algo entalhado nele, as iniciais R.R e a frase, parv sole, uma língua que não entendo mesmo com os cinco idiomas que nos obrigam aprender.

Além de Nora e eu outras dezoito garotas vivem aqui atualmente, gostaria de dizer que nos tornamos companheiras durante todos esses anos afinal estamos no mesmo barco mas a grande maioria delas só está tentando salvar a própria pele, é esse o caso de Malira, ela é quase tão solitária quanto assustadora, nunca se expressa e quando o faz é sempre sobre lutar apenas por si, ela acredita que isso é o que a torna forte. Eu penso exatamente o oposto, Nora não é tão habilidosa fisicamente quanto eu, preciso treinar duro por ela e por mim, é isso que me torna forte. Não que Nora seja fraca, pelo contrário, ela é a melhor estrategista que conheço, sua mente é simplismente brilhante.

Atravessamos o pátio em nove minutos, Lady Asther está aqui o que significa que não é apenas um teste qualquer, ela possui os mesmos traços asiáticos de Malira talvez seja o motivo de ambas me deixarem tão apavorada.

"A missão de vocês hoje é bem simples." Sua voz como sempre é calma, gélida e perfurante como se o mundo inteiro estivesse em suas mãos. "Quando o portão finalmente se abrir vocês terão cinco minutos para trazer um corpo ao pátio, é importante ressaltar que eles possuem a mesma missão."

Isso significa que o que há por trás daquele portão também são pessoas, talvez guardas ou monitores.

"Cinco minutos, vocês sabem que não sou boa em esperar."

Olho para Nora pronta para avançar, diferente de mim ela parece nervosa como se aquilo fosse demais para ela, talvez seja, não sou capaz de entender esse sentimento porque matar é tudo que faço enquanto Nora parece sentir falta de uma vida fora daqui, eu gostaria de ter uma vida fora daqui para sentir falta mas simplismente não me lembro do que deveria sentir falta.

Quando o portão central se abre é tudo muito rápido, vejo o corpo de uma garota despencar ao meu lado quando uma flecha lhe atinge a testa. Nora está paralisada ao meu lado e eu preciso empurra-la para o chão afim de protege-la contra um pequeno canivete, não a culpo por ficar assustada, imaginei que haveriam pessoas do outro lado mas não garotos que pelos uniformes pretos parecem viver exatamente como nós.

Não somos as únicas.

"Ela só precisa de um corpo." Digo á Nora. "Vamos, você já fez isso antes."

Ela agarra minha mão e se levanta, acho que ela entende que nem sempre eu vou estar aqui para protege-la, que talvez eu seja o próximo cadáver.

Aperto meu punhal entre os dedos e decido que isso deve ser rápido e indolor, há um garoto loiro á minha esquerda, ele parece bem confiante sobre si, eu não gosto disso. É quase como um instinto quando o punhal escapa da minha mão e voa em alta velocidade prendendo-se entre suas sobrancelhas, seu corpo imóvel e sem vida se choca contra o chão causando um barulho que já se tornou familiar.

Agarro o corpo do garoto para arrasta-lo ao pátio e me viro para checar Nora, ela está pronta para carregar um corpo mas há um garoto empunhado de uma katana indo em sua direção, meu corpo se move quase que involuntariamente e de repente estou entre eles, o barulho de metal contra metal quando paro o movimento da sua katana com meu punhal é ensurdecedor. Meus simples olhos verdes que parecem mais duas azeitonas estão presos nos olhos daquele garoto, olhos de um castanho que eu nunca vi igual, talvez porque nunca tenha olhado tão fundo nos olhos de alguém, parece algo muito intimo.

"Cain!" Algum garoto grita o que o faz recuar para longe de Nora e direcionar seu ataque á uma garota que reconheço como Karen.

"Você está bem?" Me volto para Nora.

Ela concorda com a cabeça. "Obrigada."

Logo Nora e eu nos juntamos ás pessoas que completaram a prova, vinte no total. Dou uma breve olhada nos rostos ao redor, entre eles, Malira, como sempre sua presa está impecável, não há vestígios de sangue. Piper, a única garota que consegue arrancar mais de duas palavras dela garante que Malira é hemofóbica, que com o passar dos anos e o treino duro da Cúpula ela aprendeu a conviver com qualquer sangue ao seu redor mas se torna irreconhecível caso lhe toque a pele, isso é apenas um boato, não acho que Malira possa ter alguma fraqueza, ela parece invencível. Eu nunca a enfrentei mas a vi lutar inúmeras vezes, em nenhuma delas foi derrotada, seu estilo de luta é único e infalível, diferente de todas nós Malira não usa armas mas a forma como luta com os palmas abertas seus dedos parecem mais afiados que adagas, caso acerte pontos vitais pode ser mortal.

"Vejo que se preocuoparam com o tempo." Lady Asther parece satisfeita. "Apartir de agora uma nova fase começará na vida de vocês, por isso foi preciso separar os fortes dos fracos."

Ela está sempre com os olhos sob mim como se eu fosse um troféu e também sob Malira, eu tenho medo que a razão pela qual nunca estivemos na mesma tabela de luta seja porque ela espera que lutemos até a morte algum dia e atualmente é óbvio para todos que eu não posso vencê-la.

"Apartir de hoje o portão não mais se fechará, vocês garotos e garotas terão que aprender a conviver, comer, treinar e dormir juntos, esse será de longe o maior teste em prol do bem maior."

Lady Asther está sempre falando sobre o bem maior e como devemos honrar nossas companheiras que deram suas vidas por ele e é por ele que eu luto.

"Estão dispensados por hoje, usem o tempo livre como bem desejarem mas eu sugiro que descansem."

Me viro para voltar aos dormitórios e dou de cara com o garoto de antes, não gosto da forma como ele me olha mas confesso que há algo em seus olhos que me atraem como um magnetismo, uma certa paz o que é totalmente oposto de toda guerra que tenho aqui dentro de mim.

"É aquele garoto de antes." Nora comenta ao meu lado. "Ele tem olhos bonitos, não acha?"

"Ele tentou te matar, Nora." Murmuro.

"Por falar nisso, você não tem sempre que me proteger."

"Você me protege e eu te protejo, lembra?" Recordo-a, não faço a minima ideia de quando começamos com isso mas a necessidade de transmitir isso á ela sempre esteve lá.

"O único problema nessa promessa é o fato de que eu não posso cumpri-la." Nora rebate.

"Do que está falando?" Questiono. "Você tem o cérebro de um gênio e um raciocínio que me salvou mais vezes do que posso contar."

Não estou mentindo, todas as vezes que estive em apuros, incapaz de ver uma saída ela estava lá para nos salvar.

Eu vou protege-la, não importa como.

Notas finais
Espero que estejam gostando, até o próximo!