Coração de Vidro - Trilogia
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Eu sou forçada a fingir um sorriso, uma risada
Todos os dias da minha vida
Meu coração não pode se partir
Quando não estava inteiro para começar
Kelly Clarkson – Because to you.
Cristal
Abri os olhos e pisquei algumas vezes, tentando me adaptar a claridade do quarto. A luz que entrava pela varanda, deixava claro que eu já deveria ter acordado a muito tempo. Puxei de lado parte da colcha que envolvia minhas pernas e me virei, olhando para Felipe ao meu lado, encolhido como uma bolinha.
Na noite anterior ele havia tido outro pesadelo e não hesitei em deixar que viesse dormir comigo. Isso vinha acontecendo muito regularmente e estava me deixando preocupada.
Afastei seus cabelos rebeldes de lado e beijei-lhe a testa suavemente, para depois me levantar e ir em direção ao banheiro.
Fiz minha higiene matinal e voltei ao quarto vestida em um robe. Sentei de frente a penteadeira olhando meu reflexo no espelho. Pele clara, algumas poucas sardas espalhadas ao longo do rosto, cabelos longos e ruivos e olhos verde-esmeralda. Apenas mais uma garota bonita e normal aos olhos de qualquer um. Uma garota superficialmente fria que na verdade almeja mais que tudo a liberdade.
Seis longos meses.
Penteei meus cabelos e os prendi em um coque alto. Levantei-me e fui em direção ao closet e ao entrar, vi as mesmas roupas que tinha visto quando entrei na noite anterior. As roupas que Esther havia comprado. Não entendo o porquê de ela estar tentado me agradar depois de tantos anos sem contato, mas se ela acha que pode me comprar com algumas roupas bonitas, está redondamente enganada.
Peguei um short preto e curto e uma blusa regata branca na seção de roupas que eu havia trazido e me vesti. Ao sair do closet vi que Felipe tinha acabado de acordar e estava sentado na cama, bocejando e esfregando os olhinhos para afastar o sono.
– Bom dia, meu amor.
Sentei ao seu lado e sorri.
– Bom dia. – respondeu e estendeu os braços em minha direção.
Peguei-o e o coloquei sobre meu colo, no mesmo instante Felipe circulou meu pescoço com os braços e deitou a cabeça sobre meu ombro.
– Que horas são? – indagou.
– Já é tarde. Dormiu bem?
Ele assentiu contra meu ombro.
– Sem mais pesadelos. – afirmou baixinho.
– Isso é bom. – virei o rosto e beijei a bochecha dele. – Agora vamos, meu preguiçoso. Vou te ajudar a tomar um banho e depois…
Alguém bateu na porta interrompendo-me e logo ouvi a voz de Mariane, a filha de Iolanda:
– Cristal? Está acordada?
Levantei-me, com Felipe ainda no colo e fui até a porta.
– Bom dia. – eu disse abrindo a porta.
– Sua vó pediu para avisar que se você quiser, já pode descer para tomar o café da manhã.
Assenti.
– Tudo bem, mas primeiro vou ajudar esse garotão aqui no banho.
– Posso fazer isso sozinho. – afirmou ele olhando de mim para Mariane, como se quisesse deixar claro que já era grande o suficiente para fazer tudo sozinho.
– Certo, meu homenzinho. – eu disse com um meio sorriso.
Saí do meu quarto e fui para o dele, que era em frente. Ao entrar, o coloquei no chão.
– Vai escovando os dentes e eu escolho uma roupa para você. – falei para ele.
Felipe anuiu e correu em direção ao banheiro.
– Ele é tão fofo. – comentou Mariane. – Vocês parecem mãe e filho.
– Bem, eu sou a única com quem ele pode contar enquanto estamos aqui. – eu disse indo em direção ao armário.
– Isso não é exatamente verdade. – discordou Mariane. – Esther e Marcus são seus avós. Eles estão tentando, Cristal.
Não respondi. Peguei uma muda de roupas para ele e fechei o armário.
– Sua vó pediu para te entregar isso. – ela disse estendendo a mão para mim. Sobre sua palma estava um objeto fino e retangular. Um celular novo.
– Não quero.
– Mas vai aceitar. Você, por algum motivo, jogou o seu na piscina ontem e agora precisa de um novo.
– Mas isso não significa que…
– Cristal. – interrompeu-me. – Não vai te fazer mal nenhum e nem rancar pedaço.
– Mas…
– Aceita logo. – seu tom era autoritário.
– Ah, quer saber? – dei-me por vencida, embora isso não fosse permanente. – Pode me dar. Faço questão de pagar cada centavo a Esther depois.
Mariane rolou os olhos e me deu o celular.
Lucas
– Me solta, seu neandertal! – gritou Alana se debatendo nos braços de Cássio, o que não surtiu resultado algum, pôs ele apenas riu e pulou com ela dentro da piscina.
– Esses dois tem algo. – disse minha mãe com um pequeno sorriso.
Franzi a testa ao observar minha irmã tentando afogar Cássio, enquanto dizia uma série de xingamentos.
– Sim. – concordei. – Uma grande habilidade de irritar um ao outro.
Ela riu.
– Tenho que concordar, mas não é apenas isso. – mudou de posição na espreguiçadeira, virando-se para mim e retirou os óculos de sol, pondo-os no topo da cabeça. – Alana me disse que vocês conheceram a neta de Esther e Marcus ontem.
Assenti. Quando cheguei em casa no dia anterior, nossa mãe ainda não estava em casa. Imagino quanto tempo Alana teve que esperar para as duas conversarem.
– Cristal é uma garota adorável, não é mesmo? – comentou o que me fez estreitar os olhos.
– Vocês se conhecem? – questionei.
– Fui a responsável pelo acordo de transferência da guarda de Cristal e Felipe pra os avós.
– Acordo?
Ela ficou um tempo em silêncio ignorando minha pergunta, mas quando falou já havia mudado de assunto.
– O que você achou dela?
– Cristal roubou o coração do Luc em um piscar de olhos. – disse Alana saindo da piscina. Ela parou em frente a nós e torcendo o cabelo lançou um olhar zangado para Cássio, que continuava na piscina com meus dois irmãos caçulas.
– É sério? – perguntou mamãe.
– Não ligue para o que Alana diz. – falei. – Isso é tudo coisa da cabeça dela.
Minha irmã revirou os olhos e sentou ao lado de nossa mãe.
– Me engana que eu gosto. – resmungou.
– Estou falando sério. Cristal é uma garota linda, mas ela tem muitos problemas e evidentemente não quer entrar em um relacionamento sério agora. – eu não dizia isso pelo fato de querer ou não iniciar um relacionamento com ela, mas porque ela havia acabado um namoro fazia pouco tempo e ainda parecia muito machucada com isso.
– Linda, problemática e não quer um relacionamento sério. – meditou Cássio perto de nós, na borda da piscina. – Essa garota é o meu número.
Alana bufou ao meu lado.
– Não ouse se aproximar dela. – avisei seriamente, sentindo parte daquele instinto de proteção voltar aos poucos.
Ele tirou a atenção de meus irmãos e olhou para mim com certo nível de diversão.
– Ciúmes?
– Não. – neguei. – Mas Cristal é areia demais para o seu caminhãozinho, amigo. Você é um galinha que se diverte com uma e outra por aí, ela merece mais.
– Como você?
Não respondi, pois não adiantaria continuar naquela discussão. Se havia algo que Cássio e minha irmã tinham em comum era a habilidade de insistir em um assunto até que você cedesse e eu já havia notado qual era o joguinho deles ali.
– Que seja. – Cássio deu de ombros. – Se ela não quer, há quem queira.
Vi Alana revirar os olhos e bufar novamente.
– Quem é a peguete da vez? – perguntou ironicamente.
– É a Raquel. – respondeu com um sorriso safado no rosto e minha irmã passou por vários tons de vermelho, aparentemente com raiva.
– Você está saindo com aquela vaca de novo?!
– Olha a linguagem Alana. – observou mamãe, ao mesmo tempo em que Cássio disse em tom de provocação:
– E daí?
– E daí é que aquela garota é uma vagabunda mais rodada que catraca de ônibus!
– ALANA! Há crianças presentes! – alertou nossa mãe com o rosto corado.
Aquilo me fez rir. Minha mãe, Suzana Azevedo, poderia ser uma das advogadas mais duronas e reconhecidas do país, mas ainda tinha a capacidade de corar por bobagens como essa.
– Você não deveria me julgar, já que somos parecidos. – disparou Cássio. – Ao menos eu não saio quebrando os corações de todo mundo por aí. Quando as garotas saem comigo, sabem que tudo que quero é diversão, mas eu não posso dizer o mesmo sobre os caras que tentam te namorar, não é mesmo?
– SEU IDIOTA!
A partir daí, Cássio e Alana continuaram discutindo enquanto minha mãe tentava apaziguar a situação e as crianças observavam tudo de olhos arregalados na piscina. Me desliguei daquela conversa e voltei para dentro de casa. Ao entrar em meu quarto ouvi um zumbido e peguei meu celular em cima da cama. Era uma mensagem de Larissa, a meia-irmã mais nova de minha ex-noiva.
Larissa: Hoje é meu dia de folga, vocês vem ao café?
Eu: Claro. Quando devemos chegar aí?
Larissa: A qualquer momento que quiserem. Vou passar um bom tempo por aqui.
Eu ia responder, mas uma outra mensagem dela chegou:
Larissa: Aproveita e traz sua amiga também. ;)
Balancei a cabeça sem acreditar e disquei seu número.
– Olá. – atendeu.
– Você andou conversando com Alana?
– Bem… – seu tom não deixava espaços para dúvidas.
Fechei os olhos sentando sobre a cama.
– Quando vocês vão parar de tentar me arrumar uma namorada? – indaguei impaciente.
– Quando você finalmente aceitar que Amanda morreu e que deve seguir em frente. Ela gostaria disso. – disse de forma suave, mas, ainda assim, aquilo me feriu. Eu não gostava de lembrar sobre a morte de Amanda e tudo que levou aquilo. Era… doloroso demais. Mesmo que um ano já tivesse se passado. – Mas eu não mencionei nada sobre uma namorada. Eu disse amiga, Luc. Amiga. Alana disse que ela parece ser legal, apesar de um pouco estranha e estou louca para conhecê-la.
– Seus atos dizem mais que suas palavras, Larissa. Não quero levar Cristal e ver Alana forçando a barra com ela. Você sabe que minha irmã não consegue ser nem um pouco sutil e se diverte ao ver as pessoas em conversas constrangedoras.
– Lucas, sejamos adultos. Você já é bem grandinho e obviamente não se deixaria manipular por ninguém. Deixe Alana comigo, eu a controlarei e tentarei fazer com que ela não fale besteiras. Cristal acabou de se mudar e deve estar louca para sair e se divertir – eu não acreditava nem um pouco nisso. –, então pegue seu violão e convide a garota, afinal, como eu já disse antes, hoje é meu dia de folga, então não o estrague. Ter que aguentar Tereza já foi a gota d'água para mim essa manhã. Um tempo entre amigos seria um verdadeiro alívio agora. Por favor.
Suas últimas palavras tinham o tom quase apelativo e foi aquilo que me fez ceder.
– Tudo bem, pirralha.
– Obrigado. – ela parecia aliviada. – Vou estar esperando por vocês. – disse e desligou.
Nunca entendi a relação dela com a madrasta que pareceu apenas piorar depois da morte de Amanda. Apesar de estar sempre pronta para oferecer um ombro amigo, Larissa sempre foi muito fechada e por vezes parece uma verdadeira incógnita para mim. Nunca posso dizer quando ela está triste e isso me preocupa. Quando viva, Amanda me dizia que ela é muito mais frágil do que parece e talvez seja por isso que sinto a obrigação de protegê-la.
Ao menos se ela desse espaço para isso…
Cristal
Marcus já tinha saído para a empresa quando descemos e Esther já havia tomado o café da manhã, então eu e Felipe comemos sozinhos. Quero dizer, não exatamente sozinhos, porque Mariane estava sentada a mesa conosco, tagarelando o tempo todo e rolando uma maça sobre a mesa. De certa forma aquilo me trouxe conforto. Aquela casa já era fria por si só e se não houvesse alguém para animar os ânimos ali, seria ainda pior.
– E foi isso. – ela disse cabisbaixa. Tínhamos voltado ao meu quarto e estávamos sentadas uma de frente para a outra em minha cama. Felipe tinha ficado na sala assistindo TV. – Eu não podia pedir para ele ficar.
Suspirei tentando definir um julgamento certo para sua situação.
– Não, você não podia. – concordei. – O intercâmbio foi uma boa oportunidade para ele e seria injusto de sua parte pedir que ele desistisse. – falávamos de seu namorado que havia viajado e passaria três meses fora. – Além disso, seria o mesmo que dizer que não confia nele.
– Eu sei, mas é que…
– Você é insegura. – completei e ela anuiu. – Mais não acho que isso seja necessário. Não precisa ter medo se sabe que ele te ama.
Se bem que não sou a pessoa mais indicada para dizer algo assim, sendo que meu namorado me traiu.
– Foi o que Pedro me disse.
– Pedro? – indaguei.
– O irmão de Lucas.
– Ah, eu o vi com você ontem.
– Aham. Ele é meu melhor amigo. Foi o primeiro que fiz quando minha mãe veio trabalhar aqui na sua casa.
– Então o escute. Além do mais, você e seu namorado não perderam o contato.
– Mas namoro a distância é um saco. – Mariane enterrou o rosto em um dos meus travesseiros e gritou, então voltou a posição ereta novamente com a expressão mais calma. – Tá certo, acabou o momento depressão. Vamos nos divertir agora. – ergui uma sobrancelha sem compreendê-la. – Quero te ver dançando.
Franzi os lábios.
– Eu não tenho dançado muito desde a morte de meus pais. – admiti.
– Então é hora de tirar o atraso.
Levantando-se ela foi em direção ao meu closet e pouco depois saiu de lá com um dos meus pares de sapatilha.
– Vamos descer para o estúdio. – disse ela.
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