Notas iniciais
Oi, gente! Capítulo novo na área. Beijos e Enjoy.

De vez em quando, eu fico um pouco cansada

de ouvir o som das minhas lágrimas

Bonnie Tyler — A total Eclipse of The Heart

Lucas

Ela finge muito bem, o pensamento me ocorreu. Mais não bem o suficiente.

Mesmo que ela tentasse agora aparentar indiferença, eu sabia que Cristal era mais que isso. Vi suas lágrimas, mesmo que por poucos segundos e ainda posso ver a mágoa no fundo de seus olhos. Ela me parecia ser uma garota complicada e… quebrada. O que era de se esperar de uma pessoa que perdeu os pais a tão pouco tempo. Sei como é o sentimento de perder alguém que se ama, como se parte de você tivesse morrido também. Mas é algo com o qual temos que aprender a conviver com o tempo, mesmo que não se supere completamente. Eu ainda não superei minha perda, mas nada me impede de continuar tentando.

Alana se virou e sorriu ainda mais ao ver Cristal ali. Minha irmã é do tipo de pessoa que ou gosta de alguém logo que o vê, ou o odeia completamente, e é preciso muito esforço para mudar sua opinião. O lado bom de tudo isso é que ela está geralmente certa.

– Oi, de novo. Por que está aqui sozinha? – franziu um pouco a testa. – Quer que te mostremos o resto da casa também?

– Não precisa. – Cristal disse se abraçando, quase que inconscientemente. – Vim aqui para pensar um pouco, só isso.

Olhava para Felipe enquanto falava, parecendo querer assegurar-lhe de que ela estava bem. Que não tinha com o que se preocupar. O garotinho estava com as feições dominadas por uma súbita tristeza, a qual não conseguia ocultar tão bem quanto a irmã.

– Alana, que tal você mostrar a sala de jogos ao Lipe? Eu vou logo depois. – sugeri e ela me olhou parecendo estranhar meu pedido, mas assentiu.

– Tudo bem.

Pegou a mão de Felipe e se dirigiu para fora, deixando a mim e a Cristal sozinhos.

– Você está bem? – perguntei após segundos de um incômodo silêncio, nos quais ela somente me encarava com seus olhos de esmeralda.

– Porquê não estaria? – ergueu uma sobrancelha como se estivesse me desafiando a contrariá-la.

– Não sei. – falei andando em sua direção, parando próximo a ela. Pelo modo como me olhava, poderia dizer que o que ela mais queria era a distância. Não que eu fosse realizar esse seu desejo, claro. – Talvez por que você estava chorando, ou porque obviamente preferia estar em qualquer outro lugar do mundo que não fosse essa casa.

– Eu não estava chorando. – me contradisse ignorando minha última afirmação.

– Cristal, eu acredito nisso tanto quanto seu irmão, e quantos anos ele tem quatro?

– Cinco. Quase seis.

– Vai ter que ser um pouco mais criativa se quiser enganar nós dois.

– Não preciso convencê-lo de nada. Deveria se preocupar um pouco mais com sua vida e me deixar em paz!

Garota estressada. Credo.

– Au! – pus uma mão sobre o coração teatralmente. – Sério, garota, você feriu meu orgulho.

– Sempre é bom empurrar um riquinho metido do pedestal e fazê-lo cair na realidade. – disse sem exitar. Estava usando o mesmo tom de voz que usara ao falar com sua avó anteriormente. Frio, venenoso. Tão diferente a doçura com a qual tratava o irmão.

Aquilo inflamou alguma coisa dentro de mim. Peguei seu braço, puxando-a, de modo que ficamos cara a cara.

– Escuta bem garota, você não me conhece e não tem o direito de me julgar – balancei a cabeça. –, não sabe pelo que eu passei para chegar onde estou hoje, então se vai falar merda é melhor ficar calada. Só estou aqui tentando te ajudar, mas se prefere ficar chorando num canto, escondida e sozinha, pode dizer que eu vou embora.

Seus olhos estavam arregalados e ela respirava com dificuldade por entre seus lábios entreabertos. Seus cheios e rosados lábios…

Por um instante me peguei sem conseguir desviar o olhar deles, mas o encanto foi quebrado no momento em que ela baixou a cabeça e deu um pequeno passo para trás. Soltei seu braço delicadamente e me afastei um pouco, sentindo-me culpado por ter explodido com ela e confuso pelo que acabara de sentir.

– Me desculpe. – pedi.

– Não, não, sou eu quem tem que se desculpar. Você tem razão, não deveria tê-lo julgado sem conhecê-lo. Fui uma idiota.

– Claro que não foi, só peguei você em um momento ruim. – sorri e estendi a mão para ela. – Acho que merecemos um recomeço, não? Sou Lucas, e você é…?

Cristal ergueu sua mão de unhas bem cuidadas e apertou a minha.

– Cristal. – ela também sorriu. Um sorriso que a iluminou por completo, transformando-a de forma surpreendente. – É um prazer conhecê-lo.

Cristal

Há momentos que mudam sua vida de forma irreparável e eu tinha a sensação de que esse era um deles. Inicialmente supus que Lucas fosse apenas mais um riquinho que conseguia tudo que queria na hora que lhe fosse apropriada, mas agora… não sei, seus olhos revelavam tristezas que ele talvez gostasse de deixar para trás. Talvez não conseguisse.

Há tantas possibilidades, mas nunca parece haver escolhas o suficiente. As pessoas dizem: Siga em frente, mas tudo que você consegue é olhar para trás. Quando olho em um espelho, tudo que eu consigo ver é a sombra que um passado recente deixou em meus olhos.

Lucas inclinou a cabeça para um lado quando soltei sua mão.

– Você é um mistério para mim. – ele disse.

Sorri, torcendo para que ele perdesse o interesse nesse mistério rapidamente, mas meu sorriso caiu quando meu celular começou a tocar. Peguei-o com receio e suspirei quando vi o nome na tela: Gabriel.

– Você não vai atender? – Lucas perguntou e desviando o olhar do pequeno aparelho, olhei para ele, temendo que visse as lágrimas queimando em meus olhos. Pela sua expressão, creio que tenha visto.

O celular parou de tocar e senti a tensão se esvair de meus ombros, mas logo voltou a tocar de novo e tudo voltou. Aí estava, o passado me atormentando novamente.

– Cristal, quem é? – Lucas tocou meu rosto olhando dentro de meus olhos, no entanto pareceu repensar o ato e a retirou dali, franzindo a testa. Deveria ter receio de ter me incomodado. Não me incomodei. Foi reconfortante. Não havia malícia em seu ato, parecia ter sido apenas um reflexo de sua óbvia preocupação. – Quer que eu cuide disso?

Balancei a cabeça negativamente. Tinha que pôr um ponto final nisso sozinha. Atendi.

– Onde você está? – questionou Gabriel, sem ao menos um 'Oi'.

– Gabriel…

– Porque não atende aos telefonemas? Sabe que odeio ser ignorado.

– Por que eu não atendo? – perguntei com raiva. – Por acaso você tem memória seletiva? Não lembra do que fez?

– Eu sinto muito, Cris… você precisa entender…

– Eu já entendi tudo. Não fui o suficiente…

– Mas você é! Eu preciso de você, sabe disso. – sim, pensei que soubesse, mas isso foi quando eu era aquela garota boba.

– Não. Você apenas acha que precisa. – suspirei fechando os olhos. – Gabriel, por favor, me esquece. Não me liga mais.

Desliguei.

– Seu namorado? – indagou Lucas cuidadosamente.

– Não mais. – respondi e passei por ele, saindo pela porta por onde Alana e Felipe haviam saído.

Olhei de um lado para o outro, percebendo que a estufa ficava no caminho entre o jardim e a piscina. Me encaminhei para a piscina, sentindo meu celular tocar e vibrar em minha mão por todo o caminho. Me ajoelhei na borda da piscina, consciente dos três pares de olhos me encarando. Lucas que havia me seguido, mais uma garota e outro garoto que eu não conhecia.

– Cristal – disse Lucas se ajoelhando ao meu lado. –, o que você vai fazer?

Fitei meu reflexo na água por um momento, então o vi distorcer quando soltei o celular e observei-o afundar lentamente. O toque já não podia mais ser ouvido.

– Vamos atrás de Felipe e Alana. – disse me levantando. – Sua irmã já deve estar impaciente.

Lucas

O quebra-cabeças que Cristal era, tinha acabado de perder peças, mas também encaixara algumas outras no lugar correto. Ela tinha um namorado com quem obviamente havia terminado o relacionamento, mas… porquê? O que ele poderia ter feito a ponto de forçá-la a odiá-lo daquela maneira? E porque eu me sentia tão incomodado com isso?

Por algum motivo eu sentia algo diferente próximo a Cristal, mesmo que tenha acabado de conhecê-la. Como no momento em que toquei seu rosto, era como um sentimento de cuidado excessivo. Preocupação. Proteção. Tudo aquilo estava me deixando extremamente confuso.

Meu irmão e Mariane me encaravam do outro lado da piscina em total descrença, sem realmente entender a cena que acabara de se desenrolar diante de seus olhos e a pergunta que ambos queriam fazer estava bastante clara: O que diabos tinha acabado de acontecer ali?

Dei de ombros, pois aquilo era algo que nem mesmo eu compreendia completamente e fui atrás de Cristal, que se afastava a passos rápidos.

– Presumo que não tenha sido uma separação amigável? – perguntei, quando consegui alcançá-la.

Cristal riu secamente.

– Descobri que ele estava me traindo com uma vadia no pior dia da minha vida. – respondeu. Em seus olhos não havia mais qualquer vestígio das lágrimas que quisera derramar outrora. Em seu lugar fora deixada apenas a chama do ódio, que queimava forte e vivamente. – Foi como se minha vida inteira tivesse desmoronado de uma só vez. Jamais o perdoarei por isso.

– E com razão. – falei comigo mesmo, após alguns segundos. – O cara era um idiota.

Deixei passar o olhar curioso que ela me deu. Sabia que não era comum julgar alguém que não conhecia com base apenas em afirmações de outra pessoa, principalmente depois da conversa que tivemos antes, mas o pensamento já estava fixo. Apenas um idiota seria capaz de fazer o que ele fez. Cristal era uma garota linda e por baixo de toda aquela armadura na qual por vezes se confinava, parecia haver uma pessoa doce e frágil. Eu não conhecia esse Gabriel, e não tinha a menor vontade de conhecê-lo, mas achava que tudo que Cristal dissera, era mais do que o suficiente para julgá-lo.

– Você realmente o amava? – aquela pergunta era algo que parecia tê-la pego de surpresa, mas era algo que eu precisava entender.

Era certo que ele a havia traído, mas todo aquele ódio parecia vir de mais algum lugar. Algo, de certa forma, mais profundo. O modo como ela falava, deixava claro que não tinha sido apenas um simples namoro de adolescência.

A chama de ódio se apagou gradativamente e ela se abraçou daquele jeito tão característico dela, de maneira quase inconsciente a qual eu já havia notado antes. Não era apenas com lágrimas que demonstrava fragilidade, mas também naqueles momentos, como se tentasse construir mais uma barreira para se proteger de todas as verdades da vida.

– Eu não sei. – respondeu com o olhar vago, após muito refletir. – Antes eu pensava que sim, mas se assim fosse, a decisão de deixá-lo não teria sido tão fácil. Acho que uma hora ou outra nós terminaríamos de qualquer forma, mas eu sabia que ele precisava de mim. As vezes o pensamento de deixá-lo era inconcebível. Mas haviam momentos em que parecia-me tentador.

Cristal

Quando paro para pensar, percebo que eu talvez não o amasse. Eu me sentia bem com Gabriel e ele sempre dizia que precisava de mim. Aquilo sempre me pareceu tão doce, mas agora não sei realmente o que pensar disso.

Nós conhecemos quando eu estava no primeiro ano do ensino médio, quando ele foi transferido para o colégio onde eu estudava. Tínhamos gostos parecidos e ele foi rápido em fazer amizade com meu círculo de amigos. Nossa aproximação foi rápida e natural. Até ali eu não sabia o quanto a vida dele era complicada e quando finalmente entendi, não tive forças suficientes para me afastar.

Eu deveria saber melhor.

Ao entrarmos na sala de jogos, a primeira coisa que vi foi Alana curvada sobre uma mesa de sinuca com um taco na mão. Ela explicava pacientemente as regras do jogo para Felipe, que a observava atentamente.

– Sentiu minha falta, maninha? – Lucas perguntou pondo um braço sobre os ombros dela, que ergueu-se em posição ereta.

– Nenhum pouco. – afirmou Alana, deixando o taco sobre a mesa. – Lipe é um rapazinho adorável, nem lembrei de você.

Sorrindo olhei para Felipe e ele parecia mais relaxado do que quando saiu da estufa, após me ver chorando. Com um pequeno sorriso caminhou em minha direção e ao passar por Lucas ele disse meigamente:

– Obrigado.

Lucas assentiu compreendendo e trocou um olhar comigo. Aquela simples palavra queria dizer muito mais do que aparentava.

Obrigado por cuidar da minha irmã. Obrigado por assumir o controle da situação. Obrigado por fazê-la sorrir novamente.

Peguei meu irmão em meus braços, sentindo-me em paz, mesmo depois de tudo aquilo. Felipe sempre teve mais maturidade do que era considerado normal para um garotinho de sua idade e embora aquilo me deixasse por vezes confusa, era algo pelo qual eu sempre agradeci muito. Explicar para uma criança de cinco anos que seus pais nunca voltarão já é ruim o suficiente, mas seria ainda pior se ele fosse uma criança totalmente dependente.

Ele era o meu motivo. O pilar que ainda me mantinha erguida. E eu faria tudo por esse garoto.