Coração de Tinta - Contratempo

1 Prólogo - A Descoberta


'' O fim de tarde estava claro e quieto. As flores brilhavam, vermelhas e douradas: bocas-de-leão e girassóis e nastúrcios que subiam pelas paredes verdes e espiavam pelas janelas redondas. ‘’ A atmosfera reverberou com um estalo, e singularmente à sua volta, um sol imaculado irradiou madre-pérola emitindo longos e reluzentes raios luminosos. Sobre o chão amadeirado, pequenas e excêntricas flores desabrocharam instantaneamente, escalando até as paredes entre ramos verdes.

'' — Como o seu jardim está bonito! — disse Gandalf.

— É — disse Bilbo. — Eu gosto muito dele, e de todo o velho e querido Condado, mas acho que preciso de férias. ''

Uma silhueta cinzenta e desordenada materializou-se do nada, estava em pé e através das sombras rodopiantes podia se ver uma hirsuta barba prateada que lhe chegava até o abdômen.

Ouviu-se o clique da porta, então a figura do pai enfiou-se para dentro.

— Kath, você viu...

A garota fechou abruptamente o livro, virando-se para trás com uma careta sorridente. As formas ainda estavam ali, evaporando-se uniformemente enquanto o quarto voltava ao seu estado natural. Seu pai, ainda perplexo acompanhava tudo estarrecido e boquiaberto entre ela e a fumaça disforme.

— Kath, você — irrompeu o pai, recuperando-se do choque —, você também!

— Como assim, — respondeu Kath, agora tão alarmada quanto o pai — você também?

Uma expressão de terror trespassou o rosto do pai e ele desatou a correr em sua direção, dispersando as sombras cinzentas.

— Conjurou alguma coisa? Trouxe algum deles há vida? Sabe os problemas que poderia ter criado — seu pai falava de forma alucinada, enquanto a abraçava fortemente. — Eu não suportaria perder você, Kath.

— Papai — murmurou Kath. — Do que você está falando?

Seu pai a encarou, contemplando-a com olhos cheios de lágrimas. Por um longo momento ela sentiu vontade de chorar também, não entendia a situação e seu pai apenas estava complicando as coisas.

— Você não entende, não é?

— Entender o quê? Pai, não estou entendendo nada mesmo!

Seus olhos se encontram e ela poderia jurar ter visto um fiasco de compreensão na pupila escura como carvão do seu pai.

— Temos que conversar. — E dizendo isso, segurou sua mão e a puxou porta fora na direção da sala.

— Espere aqui. — disse, já dando meia volta e disparando na direção da cozinha. Segundos depois, retornou com um copo de água e uma aspirina.

— Beba!

— Mas eu não estou com sede.

— Beba! — inquiriu ele, visivelmente trêmulo.

— Pai!

— Tudo bem, então eu bebo. — e depois de colocar a pílula na boca sorveu todo o líquido em dois generosos goles.

— Humpf, você deve estar assustada e aflita isso é compreensível, mas eu asseguro que não há nada com que se preocupar. Tudo irá se resolver, querida, eu prometo...

Em silêncio, Kath o observava pensativa. Nunca tinha visto o pai tão enérgico quanto agora e situações como essa aconteciam na proporção de uma em um milhão. Na verdade, o pai era a pessoa mais racional e complacente que conhecia, nunca tomando medidas drásticas e invariavelmente nunca subindo o tom de voz. Aparentemente, agora, ele estava ascendendo em um dos surtos mais extravagantes que ele já se dera o luxo.

— Pai, eu não estou assustada, apenas um pouco confusa.

De repente ele parou de falar, inspirou profundamente três vezes e logo depois todos os seus músculos pareceram relaxar serenamente.

— Filha — começou ele, em um tom de voz penetrante e intenso —, alguns de nós nascemos com dons; dons que para muitos podem parecer loucura e insanidade, mas no fundo, apenas os mais seletos seres humanos podem tê-lo. Criar vida através da leitura é algo completamente distante do que muitos acreditam ser a realidade do mundo, mas... Você de compreender que existem riscos que podem ser irreversíveis.

Notas finais
Bem, é isso! Ah, e não seria nada mal comentários de quem leu ou sugestões sobre o enredo que irá se desenrolar, obrigado.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.