Coração de Porcelana
44 Capítulo 43 - Charadas
Notas iniciais
Capítulo 43 — Charadas
Era difícil de segurar naquela dragoa, para dizer o mínimo.
Ao fim, ela havia concedido o pacto de sangue por livre e espontânea pressão, e agora estavam retornando ao Túmulo. Ela estava tendo pensamentos indecentes que davam a Jim a certeza de que aquela era a versão dos dragões de xingamentos, todos direcionados à Freyr.
Para desviar um pouco os pensamentos dela – não entendia muito bem, mas sabia que sua boca já havia sido lavada com sabão por bem menos -, ele estava repassando todos os nomes que conseguia lembrar. Não demorou muito para perceber que ela era orgulhosa o suficiente para que acabasse preso realmente nos nomes de deusas.
E caramba. Sua cabeça parecia prestes a explodir, como se sua mente estivesse muito esticada. Finalmente entendia o que Vincent quisera dizer.
“Hel? Rainha do Helheim, o submundo?”. Sentiu quando a dragoa o recusou. Já havia literalmente tentado todas as deusas nórdicas que conhecia, assim como deusas greco-romanas. Hora de passar para as celtas. “Andraste, deusa da vitória? Não? Epona... Não, esquece. Morrígan?”.
Sentiu algo muito parecido com uma pergunta, sobre o que era Morrígan.
“A rainha fantasma, deusa da guerra, da vingança, da fertilidade, das premonições, da destruição, da morte em batalha, e da magia. É um grande domínio, mas eu ainda não sei tanto sobre mitologia celta”.
Ela pareceu ficar satisfeita com aquela escolha.
“Morrígan então? Ok”.
Quando chegaram ao túmulo, os cavalos dos soldados se assustaram com os dragões, empinando e correndo, fazendo seus cavaleiros correrem atrás deles. “Outro?!” ouviu alguém exclamar quando Morrígan pousou. Ela soltou um bufo de descontentamento, e Jim admitia estar remotamente aliviado por ela estar culpando Freyr por aquela situação, não ele.
Escorregou de cima dela, literalmente. Suas penas eram muito lisas e já sabia que precisava urgentemente de uma sela como Vincent.
Quando entraram novamente no local, Saga havia saído de sua plataforma e os observava satisfeita. René, Ameen e Anastasiya estavam relativamente próximos de seus cavalos, que pareciam estressados, e viu Victoria falando com a Filha da Floresta negra, que parecia ser uma segundo no comando. Ela parou, assim como relativamente todo mundo, quando a dragoa entrou. Aparentemente, a reação coletiva era justamente essa: “Outro?”.
— Oh sim... – Saga se aproximou, usando seu cajado para andar. Ela parou bem em frente à dragoa vermelha, que para a surpresa de Jim, sentia que a velha era um ser importante, tanto que nem se incomodou com ela se aproximando. – Morrígan, não é? Um nome apropriado, com certeza.
Ela já sabia o nome que ele havia dado.
— O Túmulo irá se abrir, mas vocês não poderão levar os cavalos.
— O quê? – Tanto o garoto quanto os outros exclamaram. Vincent não disse nada porque seu cavalo havia ficado no castelo do Lorde Macbeth.
— Os dragões poderão entrar, assim como a ursa da rainha. Mas para a própria segurança dos cavalos, é melhor que eles não vão.
— Mas o que faremos com eles? Não podemos simplesmente deixa-los aqui, podemos? – Anastasiya questionou. Jim percebeu que ela literalmente havia se abraçado no pescoço de sua égua, que os encarava com inteligentes olhos avelã.
Jim olhou para Niflheim, que parecia com raiva dele por ter encontrado uma nova “amiga”. O elemental já mostrara diversas que era capaz de viajar pelas sombras.
— Talvez Niflheim possa leva-los de volta?
O cavalo virou a cabeça para o lado, com uma expressão totalmente entediada de “sério?”. Bom, ele podia, só que o príncipe percebia que ele estava morrendo de ciúmes. As coisas estavam maravilhosas para Jim, um familiar ciumento e uma dragoa egocêntrica.
— Se simplesmente mandarem os cavalos de volta, podem pensar que alguma coisa deu errado. – René disse. – Se for para mandarem eles com Niflheim, temos que mandar pelo menos uma mensagem.
Ele tinha razão. Tinha certeza que os cavalos se estressariam com uma viajem nas sombras, portanto, se eles chegassem, nervosos, em bando com o familiar de Jim, poderiam muito bem passar a impressão errada.
— Certo... O melhor seria envia-los para Seth ou Elysandra. Ou Bonaccorso. Alguém tem papel? – perguntou.
A Filha da Floresta que falava com Victoria literalmente tirou um rolo de pergaminho do nada e o entregou junto com uma pena de escrever. Parou por um segundo, vendo aquelas coisas, antes de resolver se abaixar no chão para ter uma superfície lisa para escrever.
— Acho melhor ser um resumo do que aconteceu até agora. – Vincent sugeriu. – Quer dizer, avise que estamos entrando no Túmulo, mas diga o importante, que passamos em Dhor Faldor, hã, me encontraram, paramos na propriedade do Lorde Macbeth, que Victoria é a nova da Rainha das filhas...
— Os dragões? – Jim questionou.
— Os dragões me parecem bem importantes. – Ameen apontou. – Só que é um pouco difícil de acreditar nisso...
No fim, escreveu uma carta que começava com um “Tio, tia ou Bonaccorso, quem abrir isso” – lhe parecia ser melhor se referir aos dois assim. -, e deu um resumo bem rápido dos eventos. Contou sobre diversos ataques de anjos, os dragões, o incidente com as Filhas, e para ficar mais crível, Victoria lhe deu um ramo da espécie de coroa que estava na cabeça de sua ursa – percebeu que o pequeno galho parecia de cristal e as folhas eram de um verde brilhante como uma pedra. Não conseguiu criar um motivo para não ter percebido aquilo antes. -, completada com uma escama meio solta, azulada, de Freyr e uma pena que Morrígan não ficou muito feliz de entregar.
A Filha lhe ensinou como selar tudo e a entregou para o elementar, que a pegou com a ponta dos dentes.
— É para entregar para o Seth, ou para a Elysandra ou para o Bonaccorso. Mais ninguém, ouviu?
Niflheim deu um jeito de revirar os olhos. Então, logo depois, percebeu que os olhos de todos os outros cavalos se tornaram negros. O seu cavalo correu para a sombra de uma parede, e os outros o seguiram sem pestanejar. Eles a atravessaram, e logo, todos os cavalos haviam se ido.
Respirou fundo. Estava quase acabando.
— Aqui. Abrirei o Túmulo para vocês.
Com um suspiro pesado, eles começaram a seguir a völva, que andava relativamente rápido para alguém de sua idade. As pessoas abriram caminho para eles – mais precisamente, para os dragões – passarem. Olhou-as. Todas tinham olhos marcados e estressados, e não sabia se era paranoia sua, ou eles os olhavam como se perguntassem “vocês não vão fazer nada por nós?”. Sentiu uma grande pontada de culpa por causa daquilo.
As jovens que estavam com ela anteriormente se ergueram e começaram a segui-los. Passaram para depois da sala onde haviam encontrado Saga pela primeira vez, indo parar numa imensa porta. Ela era um semicírculo de pedra na parede, bem em seu centro havendo uma esfera, e disposta envolta dela havia diversos entalhes que variavam entre desenhos nórdicos e constelações. Havia um homem num barco, uma batalha numa ilha, um castelo sendo construído e uma sala repleta de mulheres, todas com pequenas versões de pessoas, claramente crianças.
Saga na esfera, que se acendeu com uma luz azul. As constelações e os desenhos se acenderam, antes da porta se abrir no sentido anti-horário, expondo-se para um vasto e profundo corredor.
Era a hora.
Respirou fundo e aparentemente foi o primeiro a ousar se mexer. O som dos metais de sua armadura se movendo no silêncio sepulcral era enervante. Escutou claramente os passos dos outros entrando atrás de si, e gritantemente o barulho das garras dos dragões raspando ao chão.
Talvez o que o deixasse mais nervoso fosse o fato de Saga ter mencionado armadilhas, o que não saía de sua cabeça mesmo com a imensidão vazia à sua frente. Como se fosse num filme de Indiana Jones, em que mexia numa coisa errada e uma bola gigante aparecia para mata-lo.
Ouviu a porta se fechando atrás deles, e num piscar de olhos, tudo mudou. Primeiro sentiu uma surpresa avassaladora, vinda com uma urgência de reação instantânea. Depois, percebeu que aquilo vinha de Morrígan, e com um estalo, percebeu que tanto ela quanto Freyr haviam desaparecido.
— Onde estão os dragões?! – exclamou, e a ursa de Victoria rugiu. Percebeu que apenas a ruiva se encontrava consigo. Onde estavam todos os outros?
— Onde nós estamos? – a garota questionou, fazendo-o prestar mais atenção em seu entorno.
Depois sentiu como se levasse um soco no estômago.
Estavam na rua de uma cidade pequena, no meio da noite. Não havia ninguém na rua, as casas praticamente grudadas umas às outras, todas fechadas, com as luzes surgindo de suas janelas. Jim reconheceu o lugar. Era a rua em que moraram brevemente em Framlingham.
— Framlingham. – respondeu quase secamente.
Viu quando Victoria se virou para olhá-lo. Ela ainda se lembrava da conversa dos dois enquanto catavam lenha? Sentia-se repentinamente estúpido. Falara sobre o que acontecera para Victoria, mas fora só para ela, e ambos estavam sozinhos. Não se sentia muito a vontade para falar todo mundo, mas como haviam ido parar rua da casa em que a mãe adotiva deles fora assassinada por pessoas que procuravam por eles?
Não era nada confortável.
— Jim... — Victoria apontou para atrás de si. Jim virou e quase gritou.
Terceira casa a esquerda, a que eles haviam acabado de se mudar. Deu para ver exatamente quando uma das janelas frontais se abriram, Michael caiu para fora e ele mesmo pulou logo atrás. Jim nem se lembrava que estava descalço naquele dia, tamanha sua adrenalina, só viu que agarrou o braço do mais novo, que tremia da cabeça aos pés, e começou a arrastá-lo rua abaixo.
O silêncio que fizeram não deixou as coisas melhores.
— Se nós não precisarmos entrar naquela casa, para mim tudo está ótimo. – conseguiu dizer, mesmo que as palavras parecessem engasgadas em sua garganta.
Porém, tudo remanescia imóvel. Não havia nenhum barulho nas casas vizinhas, e não parecia haver sequer uma corrente de vento. Permaneceram parados ali pelo que pareceu ao garoto uma eternidade. Nada acontecia, dando a certeza de que deveriam entrar ali. As outras casas pareciam cenários inacessíveis, como apenas um fundo imóvel levando a apenas um local.
Maravilha. A ursa os olhava impaciente com seus olhos negros, e enquanto ao mesmo tempo queria gostaria de poder levar aquilo adiante, seus pés pareciam pregados no chão.
Como o Túmulo poderia saber sobre Framlingham? Ele tinha acesso à sua mente?
— Como você está? – Victoria acabou perguntando, tirando-o do inferno mental que havia criado.
— Eu... Eu não sei. Eu não quero entrar na casa. – acabou repetindo. Sentia como se não houvesse ar o suficiente para seus pulmões. – E eu quero saber como isso pode ter vindo aparecer aqui.
A ursa pareceu se cansar dos dois, começando a andar por conta própria. Ela parou quase em frente a casa e se virou para olhar para eles, como se demandasse algum movimento.
Pulou quando sentiu Victoria pegando sua mão, que estava gelada e suada. Nem percebera que estava suando frio.
— Jim, escute... Eu não sei o que você passou dois anos atrás quando vocês fugiram da Inglaterra, mas só pelo que você contou foi algo bem traumatizante. As armadilhas do Túmulo estão ativadas, não estão? Talvez elas mexam exatamente com a sua cabeça.
Ela tinha alguma razão, mas naquele momento, a emoção estava falando mais alto que a razão. Seguir em frente, mas entrar naquela maldita casa.
Argh.
A ursa rugiu impaciente, e conseguiu se obrigar a dar alguns passos, suas pernas como se fossem feitas de gelatina. Nunca se vira como alguém muito dependente, mas acabou sendo como se precisasse de Victoria para andar, assim, acabou não a soltando. Normalmente ficaria bem incomodado com aquela situação, mas a locação o impedia de pensar direito.
Estancou novamente em frente à porta branca da casa. Parecia que veria de novo a Michael caindo da janela e a si mesmo pulando atrás, mas o mesmo não aconteceu.
Nunca parara para pensar o que exatamente ocorrera com Melissa depois que fugiram. Na verdade, se recusara a pensar sobre o que havia acontecido. Sabia que seu corpo havia sido encontrado carbonizado junto com a casa, mas não sabia se ela tinha morrido antes ou se tinha realmente queimado até a morte. O que aqueles homens poderiam ter feito com ela ou se simplesmente a mataram quando os meninos não foram encontrados ali.
Aquilo era sufocante.
— Você quer que eu entre primeiro? – Victoria perguntou.
O “não” e o “sim” surgiram ao mesmo tempo em sua cabeça. Não dava para escutar nada vindo de dentro da casa, mas era impossível saber.
— Não, eu... Eu vou.
Com a mão trêmula, alcançou a maçaneta.
O interior não era da casa de Framlingham. Mas isso não significava que era menos perturbador.
Deram para o saguão de entrada de uma mansão. Normalmente, a atenção certamente deveria ser atraída para a enorme escadaria, mas seu olhar horrorizado foi para o chão.
Para cinco figuras no chão, para ser mais exato.
Estava tão cheio de sangue que sentiu seu estômago se revirar. Havia as manchas de quem se movera bruscamente pela superfície, além de marcas de mãos, pedaços de roupa e cabelos grudados sobre ele.
Reconheceu duas como sendo as gêmeas do porta retrato de sua mesa na mansão, outra era claramente a sua mãe, reconhecível também pela fotografia. Viu também uma mulher que nunca havia visto, claramente sua irmã dois séculos mais velha, Juno, e o seu pai.
Literalmente já sentia o sabor do vômito querendo invadir sua boca. Dava para ver que o rei estava repleto de marcas que deixavam claro que ele fora esfaqueado até a morte, o que já era pavoroso o suficiente. Mas as mulheres... Suas roupas estavam rasgadas, deixando à mostra grande parte dos corpos totalmente manchados de vermelho, haviam marcas de mordidas e arranhões pelas peles expostas como se elas houvessem sido atacadas por algum tipo de animal...
Não fora um animal.
— Foi aqui que... – A voz de Victoria morreu. Ela largou a sua mão e cobriu a própria boca com as duas.
A respiração dos dois soava insanamente alta. Por que estavam ali? Já era ruim o suficiente saber que toda sua família havia sido assassinada, mas agora... Ver, com os próprios olhos, os corpos e as provas de que sua mãe, suas irmãs – sendo que duas delas tinham treze anos na época – haviam sido estupradas antes de serem deixadas para morrer, aquilo era desumano. Mesmo que aquele fosse um local para registrar a história dos Rockstone, aquilo não era certo, não era certo expor aquilo para ninguém.
Jim não achava nem certo descer o olhar para ver qualquer um deles, principalmente as mulheres, que haviam sido tão brutalmente atacadas. Aquilo era tão errado, tão brutalmente errado...
Mas ainda assim, seus olhos continuaram pregados naquilo.
Percebeu que uma das gêmeas tremia, ela ainda não estava morta. Seu cabelo curto pregado em sangue espalhado pelo próprio rosto, ela estava meio de lado para eles, sendo assim, a mais gritantemente exposta.
Seu irmão falara sobre ela. Seu nome era Claire. A de cabelo curto era Claire e a de cabelo comprido era Alexa. Mas não fora muito, fora apenas que eram as irmãs mais velhas de ambos que viviam brigando e os carregando pelos lugares.
Aquele não era o melhor jeito de conhecê-las.
Olhando mais além, percebeu o ínfimo tremor nos ombros de sua mãe, indicando sua respiração, de que estava viva, mas por um triz.
— Por que... Por que estamos aqui? – Victoria questionou com um fio de voz.
Logo que ela falou aquilo, ouviu o barulho confuso de passos e o som de quem reprimia o choro. Duas portas se abriram na parede sob a escada revelando uma espécie de compartimento escondido.
Numa confusão viu Melissa sair trêmula de detrás de uma delas. Ela estava totalmente diferente, com cabelo ruivo – não castanho – preso em um coque e um vestido azul que parecia ser um uniforme para babá. Ela carregava um bebê que deveria ter uns seis meses, além de puxar pela mão...
Ele mesmo?
Jim não lembrava nada daquilo. Nem mesmo uma mísera dica nas profundezas de sua mente. Viu os próprios olhos azuis indo para a cena, mas claramente tão confusos que não entendiam nada.
Do outro saiu Vincent, e as coisas tomaram outra escala
Os olhos verdes estavam arregalados e histéricos, e havia um rio de lágrimas banhando o rosto que estava ao mesmo tempo uma mistura de amarelado, pálido e vermelho. Ele segurava as duas mãos, e viu seus dedos sangrentos. Algo lhe dizia que ele arranhara alguma coisa até arrancar suas unhas.
Novamente, ele se abstinha de contar muita coisa para ele. Sabia que Vincent morria de medo de serem pegos – essa informação viera depois da descoberta de ser Rockstone e tudo mais -, e que ele tinha medo do escuro. Na verdade, ele era absolutamente aterrorizado com locais escuros, coisa que Jim sempre achara ridícula, mas vendo agora...
O quarto que ele saíra parecia ser totalmente feito por tijolos. Totalmente. E a porta estava fechada, a porta era um pedaço da parede. Deveria ter feito uma escuridão horrorosa lá dentro.
E pela proximidade, ele com certeza ouvira tudo.
De repente, aquilo o fez se sentir bem pior.
Viu a boca de Melissa se entortar totalmente ao ver a cena. Ela queria gritar, mas deu para ver o pavor em seu rosto. A irmã que tremia ergueu tremulamente a cabeça na direção deles, e viu como se toda a emoção sumisse dos olhos de Vincent. Não era como se ele houvesse parado de se importar, dada a situação, era impossível, mas deu para ver que foi como se ele houvesse simplesmente parado.
Era mais que visível que ele havia entrado em um estado de choque. Melissa percebeu aquilo, soltando Jim e pegando o braço do mais velho. Ela o arrastou para a direção em que Jim e Victoria estavam, o do meio os seguindo ainda sem entender, a sua boca aberta como se fosse perguntar algo, mas então a sua irmã estendeu a mão para a frente, tocando o compensado do chão. Viu sua mão brilhar.
As chamas explodiram.
— Jim! – Sentiu Victoria puxando seu braço. Sentiu como se estivesse acordando do pior pesadelo de sua vida. – Jim! Precisamos sair daqui!
Piscou, tentando conseguir alguma reação. Tudo... Fora demais para si. Como não conseguia se lembrar de uma cena daquelas? Como poderia culpar Vincent ou Melissa por esconderem tudo depois daquilo?
À frente deles não havia mais nenhum corpo. Apenas fogo. Muito fogo.
Os estalos do teto não foram muito bons.
— Corra!
Conseguiu saltar para a frente, bem direto sobre o fogo. Suas botas de couro esquentaram furiosamente antes de pular para o primeiro degrau da escada, a tempo de ouvir as telhas caindo bem sobre onde estavam antes.
— Não tem como voltar agora!
A única saída era a escada. E não parecia muito inteligente correr por uma escada em chamas num prédio em chamas. Mas era a única coisa que tinham.
Parte do forro caíra no caminho para a esquerda, então foram parar num corredor que dava para uma sala com uma imensa janela, só que não dava para ver o que tinha do lado de fora por causa do fogo.
O ar estava ficando bem escasso, e a fumaça bem densa.
— Para onde?! – Victoria exclamou.
A ursa rugiu, antes de correr pela escada do canto, que levava a mais um piso superior.
— Devemos confiar nela?! – Jim questionou por cima do ruído do fogo.
— Acho que sim!
Ela o arrastou com ela enquanto subiam, e era possível sentir a madeira se vergando perigosamente quando pisavam. A fêmea ia na frente, o fogo reluzindo em seu pelo, virando para um corredor à esquerda.
Jim gritou quando o chão cedeu bem embaixo de si, e acabou se segurando em Victoria, quase a levando junto consigo. Por pouco, conseguira manter se manter praticamente do peito para cima ainda no piso, mas conseguia sentir os estalos que ele emitia. Suas pernas balançavam no vazio; pelo calor que subia, sabia que havia um mar de fogo lá embaixo, e que se caísse, provavelmente seria seu fim.
Victoria o agarrou e com uma boa dose de esforço conseguiu puxá-lo, fazendo-o levantar aos tropeços.
— Você é mais pesado do que aparenta! – ela reclamou.
Para variar, as pernas de Jim ainda estavam tremendo. Conseguiu, porém ir atrás da ursa, que os esperava impaciente. Ela correu e literalmente atravessou uma porta, arrancando-a das dobradiças.
Aquilo era claramente um quarto de uma adolescente. Ainda havia os resquícios de tintura rosa na parede, que era repleta de pôsteres flamejantes. Havia uma caixa de som cheia de CDs espalhados no chão, e uma escrivaninha com um computador muito antigo.
A ursa chamou sua atenção, virada para a cama.
Sobre o objeto de mobília, entre um pôster dos Backstreet Boy e das Destiny's Child, estava escrito na parede em letras flamejantes:
“Do nada ele nasce, crescendo até que tudo ocupe,
Como uma simples faísca, que depois consome tudo.
O que eu sou?
— Uma charada?! – exclamou raivoso. — Sério?!
Tanto ele quanto Victoria gritaram quando o forro desabou na porta, deixando-os presos no quarto, a temperatura perigosamente alta e o fogo vibrando aos seus pés. O ar era escasso, e o cheiro de fumaça, somado à sua corrida, deixava o ar escasso.
— Temos que responder isso para sair daqui!
Jim olhou, tentando manter a calma, mas era difícil manter a calma quando se estava sufocando.
“Como uma simples faísca, que depois consome tudo”. Bom, eles estavam numa mansão pegando fogo, e pelo que vira fora sua irmã que o iniciara para desviar a atenção da fuga dos sobreviventes. Mas fora isso, sua mente realmente não estava...
— Amor?! – Victoria exclamou.
Eles literalmente foram arremessados.
Foi como se estivessem sobre uma plataforma que os atirou para frente, só que ao invés baterem na parede, um clarão se fez e Jim só foi perceber que batera num chão de terra, rolando ainda por um tempo antes de parar.
A primeira coisa que conseguiu fazer foi tossir. Seus olhos queimavam, seu nariz queimava, tudo ardia. Sentia como se houvesse fumaça em seus pulmões, o que tornava mais difícil respirar.
Victoria estava praticamente ao seu lado, e não estava numa situação muito melhor. Seu rosto estava bem vermelho, e o de Jim deveria estar semelhante. Acabou se virando de peito para cima para ver se conseguia respirar melhor. Sabia que tudo estava doendo, como se houvesse levado uma surra.
Deveria ser por culpa de seu sedentarismo.
Sentia Morrígan louca em sua mente. Ela claramente sentira tudo e estava confusa, e voava para algum lugar. Tentar olhar em sua mente deixava a de Jim ainda mais confusa.
— Ok, não estavam mentindo quando disseram que o Túmulo poderia nos matar. – Constatou. – E como você chegou àquela conclusão?
— Você está bem? – ela perguntou, ignorando totalmente sua pergunta.
— O quê? Depois que eu quase caí lá...
— Não é disso que eu estou perguntando. – a garota o cortou.
Calou-se. A imagem se formou novamente em sua mente, fazendo suas entranhas se contorcerem. O incêndio fora o suficiente para desviar sua atenção momentaneamente, mas mesmo que Victoria não houvesse trazido o assunto à tona, sabia que ele iria assombra-lo eventualmente.
E não, não se sentia bem.
— Não. Eu não... Acho que aquele é o tipo de coisa que deva ser mostrada. Para mim e para ninguém. Não é só porque é minha família, é que... – respirou fundo novamente, o cheiro de fumaça infernizando suas narinas. – Mais pela memória dos mortos. Eu não iria gostar disso.
A garota havia sentado, sua cascata de cachos ruivos caindo sobre seu ombro direito. Os olhos verdes encaravam Jim atentamente.
Ficou surpreso quando ela pegou seu rosto, curvando-se sobre ele e o beijando. Fora mais um selar de lábios demorado, mas ainda assim o pegando desprevenido. Ainda mais porque nunca fizera nada parecido. Acabou sentindo o sangue correndo para seu rosto, e se amaldiçoando por ser tão pálido o que o faria parecer um pimentão.
— Hã... Por quê? – Acabou perguntando quando ela se afastou.
— Eu sei que não é o melhor momento, mas você estava com a cara de um filhotinho que caiu da mudança. Não resisti.
Levantou-se com algum esforço. A ursa já estava de pé, sacudindo as cinzas do pelo. Pelo modo que ela os guiara pela casa em chamas, talvez fosse confiável segui-la.
Mas agora estava também preocupado com os outros. Será que haviam sido separados, mas no fim viam as mesmas coisas? Depois daquela cena, estava sinceramente preocupado com Vincent. Para si mesmo já fora chocante o suficiente – como não se chocar? -, porém não lembrava nada daquele dia, o que era exatamente o contrário para o seu irmão.
Para desviar sua mente, decidiu olhar envolta. Eles estavam no meio de uma floresta, com árvores altas e verdejantes, a grama batendo em seus tornozelos. Estava quente com uma brisa agradável batendo, e era possível ouvir o som da água correndo em algum lugar próximo. Era quase o cenário de um filme de fantasia.
— Certo... Agora onde estamos?
— Não faço a mínima ideia. – a garota respondeu.
A ursa começou a andar, como se soubesse que eles a seguiriam. Era uma boa mudança, considerando a cena da casa em chamas, da sua família...
Precisava sinceramente desviar sua atenção daquilo.
O animal os guiou por um caminho de árvores que Jim não fazia a mínima ideia para onde estava indo. Tudo parecia igual à área que andara há um segundo. Os olhos azuis olharam para cima, e o céu parecia quase completamente coberto pela cobertura verde das folhagens.
Quando percebeu, chegaram ao rio que escutava a tanto tempo.
E claro, teve que ser algo bem desagradável.
Havia corpos ali. Muitos e muitos corpos. Homens e mulheres com os mais diversos ferimentos. Tinha queimaduras, ferimentos claramente de espadas, alguns pareciam meio esmagados, uns traziam formas retorcidas e secas, outros traziam um olhar vazio como se... Estivessem vazios. Não sabia como descrevê-lo.
Havia armaduras de metal e couro como a que usava, mas havia outros que estavam com armaduras bem mais estranhas. Pareciam, primariamente, usar robes pretos, com sobreposições de tecidos, couro ou penas, deixando-os mais geométricos. Havia peças de armaduras prateadas, com entalhes de caveiras, ossos, e aparentemente, algumas cenas, embora não conseguisse as ver com clareza.
— Necromantes...? – Victoria sugeriu, chamando sua atenção.
— Oi?
— Essas armaduras, elas eram usadas pelos rebeldes da rebelião dos Necromantes no século XVI, durante o reinado do rei Augustus. – respondeu. – Estamos agora... Revivendo isso?
A ursa rugiu, chamando a atenção dos dois para outra coisa. Havia musgo sobre a água. Sob os corpos, para ser mais exato. E que era alguma coisa demoníaca e com dentes, mastigando o ferro das armaduras e arrancando grandes nacos de carne a olho nu.
— Maravilha. – Gemeu. – Maravilha!
— O que é isso?!
A ursa correu para a área mais distante o possível dos corpos, onde aquele musgo não crescia. Acatou a sugestão sem reclamar, atravessando a água o mais rapidamente o possível. O problema é que quando puseram os pés dentro, deu para ver aquela coisa começando a se mover lentamente.
O nível não era muito alto, então deu para passarem relativamente rápido. Não sabia se eram seus ouvidos, mas aquela coisa soltava alguns gemidinhos e grunhidos totalmente desagradáveis.
E logo depois travou.
Enroscadas nos troncos das árvores, estava o pesadelo talvez de qualquer um. Plantas carnívoras gigantes, curvadas para baixo, como imensos sacos vermelhos sangue com dentes brancos e pontiagudos em suas extremidades abertas, e o chão estava coberto por aquele musgo que chiava e grunhia para eles, mostrando compridas línguas verdes e dentinhos de tubarão.
O dia de Jim estava cada vez melhor.
— Não tem outro caminho? – Victoria perguntou num tom exasperado.
A ursa reclamou, apontando para o lado e demonstrando que aparentemente toda a extensão da floresta daquele lado do riacho.
O que diabos era aquilo.
A ursa rugiu e bateu as patas, impaciente.
— Como você quer que nós atravessemos isso?!
Jim olhou para as duas coisas. Claramente, se fossem atravessar correndo, as plantas carnívoras os pegariam. Se não, aquele musgo demoníaco os comeria lentamente.
Mas e se...
— Victoria, você é uma Allaway. Você acha que consegue suspender essa... Coisa, sobre nós? Bom, as plantas são claramente plantas carnívoras, mas se tiver outra coisa sobre a gente, talvez...
— Não sei. – ela respondeu. – Eu meio que me acostumei a praticamente nada me responder no Santuário. Só que como estamos no Túmulo, talvez...
Ela estendeu a mão, seu cabelo assumindo um tom único de verde pastel, bem claro. Com chiados, a coisa se levantou em diversos filamentos, mais como cipó do que musgo em si. Reparou também que elas eram muito mais densas, e que parte delas jazia sob a terra, sendo exposta por terem sido erguidas.
Victoria bufou. A coisa não havia sido erguida muito além da altura de sua cabeça, e contando com as inúmeras bocas cheias de dentes, aquilo era um problema. Ainda mais para Jim, que era uns dez centímetros mais alto que a garota.
— Isso pesa.
— Você acha que consegue?
— Temos outra alternativa?
Realmente, não havia outra visível ali.
— Vamos rápido. – ela disse, e ele acatou.
Como sempre, a ursa de Victoria foi à frente. Jim teve que se abaixar, as boquinhas chiando e balançando suas línguas para ele, fazendo-o perceber que elas também possuíam lábios verdes e carnudos e oleosos.
Nojento.
Victoria entrou atrás dele, se abaixando um pouco para que as línguas daquele negócio não grudassem em seu cabelo. As bocas de vez em quando deixavam cair o que parecia saliva, mas na verdade era seiva.
Escutou diversos estalos acima deles. Um calafrio passou por sua espinha quando lhe veio à mente que as plantas carnívoras estavam os seguindo do mesmo jeito.
— Vamos! – Victoria exclamou atrás de si.
Ela ia levantando as coisas progressivamente enquanto andavam, e era um pouco difícil para Jim. Simplesmente inclinar a cabeça para frente ou o tronco era desconfortável e seu senso de equilíbrio não era bom o suficiente para que confiasse nele, então andava com os joelhos flexionados, o que os fazia doer, junto com a suas coxas.
Progressivamente, escutou a respiração de Victoria ficando mais pesada. Ela estava realmente ficando cansada. Olhou para trás e a viu com a testa franzida e os lábios comprimidos numa clara expressão de esforço.
— Você precisa de ajuda?
— Se você soubesse controlar plantas, talvez. – respondeu. – Falta muito?!
A ursa soltou um grunhido que Jim não sabia distinguir se era um “sim” ou “não”.
Uma língua apareceu bem diante dos olhos de Jim, que bufou e se desviou. Como se não fosse já desesperador terem que passar escondidos de plantas carnívoras sob coisas que queriam os comer do mesmo jeito. E além disso, sentia Morrígan mandando suas ondas de nojo para ele, o que não ajudava na situação em si.
Depois de um tempo, percebeu que estavam subindo. O chão sob eles não era mais terra, e sim, pedra. Parecia... As paredes brancas de alguma construção, decoradas com entalhes que sinceramente não estava em muitas condições de prestar atenção.
A ursa rugiu antes de ir para frente, pulando no que parecia que antes era uma janela.
Jim pulou atrás, indo pousar na parede oposta, suas pernas tremendo pelo esforço, e logo atrás, Victoria pulou. Ela estava claramente exausta e totalmente suada, e a ajudou a levantar. O musgo-cipó se estendeu sobre a janela, mas não conseguiu adentrar o prédio, que era tranquilizante.
— Bom, as coisas demoníacas ficaram para trás. E agora?
No momento em que falou isso, com um estrondo, a torre em que estavam vergou para frente. Fora tão repentino que ambos não tiveram nem tempo de tentar se segurar em nada, simplesmente caíram e escorregaram para baixo numa velocidade alucinante como um escorregador mortal. Sentiu como se seu estômago se fechasse e o desespero chegasse no topo de sua garganta, os olhos azuis tão arregalados que sentia o vento ardendo contra eles.
Foram acabar caindo numa fonte profunda de água, e o impacto foi quase como concreto. Levou um ou dois segundos para conseguir reagir e nadar para a superfície.
Haviam literalmente, caído numa fonte. A ursa já estava subindo em sua borda quando emergiu, e viu que estavam num local aberto.
Subiu também, sua armadura pesando por causa daquilo. Não que fosse uma imensa lata de metal sobre ele, a maior parte dela era couro, na realidade, mas... Sempre era assim para sair da água afinal.
Victoria tirou o seu tartan, que pingava água. Aquele negócio molhado, porém, deveria pesar mais do toda a armadura de Jim junta.
— Até agora, parece que estamos em algum ponto de Desventuras em Série. – Ela bufou, espremendo partes do tecido. Acabou a ajudando para irem mais rápido.
Estavam na base de outro prédio que aparentemente havia colapsado, mas parecia mais como se toda a parte superior dele houvesse sido arrancada e sumido do mapa. Saíram pelo que sobrara da porta e foram dar para uma imensa plataforma branca e circular.
Ele estava bem de frente para o por do sol. E sobre ela, havia um homem que andava nervosamente de um lado para o outro, claramente falando sozinho, batendo no próprio rosto, se arranhando e tendo um ataque como se fosse louco. Ele era – ou estava – doentiamente pálido, uma palidez cinzenta. Seus cabelos curtos como os de uma estátua romana eram cor de mel, e ele usava uma armadura como as dos necromantes, porém bem mais completa. Ela trazia uma couraça de uma prata... Esquisita, quase iridescente, sobre túnicas pretas. Sob suas ombreiras estavam presas uma capa roxa de borda dourada.
A ursa cutucou Jim com o focinho, o assustando. Quando a olhou, ela maneou com a cabeça em direção ao homem.
— Hein?
Logo depois uma imensa sombra surgiu, fazendo-o olhar para cima.
Era um dragão, ainda maior que Freyr. Ele era totalmente prateado, brilhando na luz, com uma crista pontiaguda, suas escamas parecendo pesadas. Ele passou de rasante, e alguém pulou de cima dele, pousando bem em frente a aos adolescentes, antes do dragão voar e sumir.
O homem se levantou. Ele era alto, com armadura prateada repleta de fuligem e sangue. Ele retirou o capacete, revelando um cabelo relativamente curto, tão loiro que era praticamente branco. A pele estava avermelhada e suja, os olhos dourados, como os de Michael, como os de seu pai, faiscavam.
Aquele era o rei Augustus.
— Cassius. – ele chamou, desembainhando a espada que Jim reconheceu como sendo a que ele próprio levara a Dhor Faldor. Seu tom de voz era sério e cauteloso, contido. Como se houvesse muito mais do que apenas... Dever, por trás dela. Era difícil dizer.
O outro homem, Cassius, tremia, mas não era aquele tremor de medo. Era o tremor que já via representado em séries e videogames, o tremor de um homem louco.
Ele se virou lentamente. Ele estava com um sorriso insano. Seu olho direito e parte da sua face eram cobertos por um tecido roxo, como um tapa-olho, e as maçãs de seu rosto eram bem pronunciadas. Os lábios finos pareciam meio roxos e secos, se partindo, e dolorosamente esticados num sorriso insano. O único olho exposto, o esquerdo, trazia profundas olheiras, e também era dourado, totalmente insano.
Só então percebeu também que ele trazia algo em sua mão esquerda. Era um cajado. Ele era comprido, maior que Cassius. Sua ponta inferior era a de uma lança do mesmo material de sua armadura, e na ponta superior, havia uma águia romana, com as duas asas estendidas.
Ele começou a se aproximar com passos lentos e arrastados. Seu rosto sangrava em alguns pontos em que havia arranhado, e ele andava de maneira trôpega.
Augustus manteve-se imóvel, olhando-o impassível. Jim não conseguia ler nada em seu rosto. Cassius largou o seu cajado, que caiu com um estrondo metálico ao chão, parando bem em frente a seu avô. Porém, seu rosto se virou na direção dos dois.
— O sangue chama, unindo dois mundos. Risos, lágrimas, gritos e ódio. No furor da batalha, a hesitação traduzida no grito de uma mãe enlutada. O que eu sou?
Outra charada?
O mesmo havia acontecido na mansão, então se estava se repetindo, queria dizer que para no fim, a fim de escapar de cada armadilha, teriam que completar alguma charada.
Parecia que o mundo havia parado ao redor deles. Nem uma brisa, nem um som, nem um movimento dos dois homens à sua frente.
Jim olhou para Cassius, e então para Augustus. Ambos eram pálidos e altos, com claras diferenças, mas também claras semelhanças. Os olhos dourados era o mais gritante, eram do mesmo tom.
Mesmo tom...?
“O sangue chama, unindo dois mundos.”. Victoria dissera algo sobre a Rebelião dos Necromantes. Necromancia era magia negra, era proibida, e seus praticantes haviam tentado fazer algo com ela.
Fora no reinado de Augustus. Uma rebelião de magia negra durante o reinado de um rei que usava magia branca.
“A hesitação traduzida no grito de uma mãe enlutada”.
— Irmãos. – Acabou constatando. – Vocês são... Irmãos?
Foi como se o mundo voltasse a se mover. O sorriso de Cassius aumentou, e ele pegou a mão de Augustus que trazia a espada, encostando a lâmina em sua garganta. Viu nos olhos de seu avô que aquilo o pegara totalmente desprevenido, chocando-o. O outro, porém, apenas riu, antes de dizer:
— Mate-me, irmãozinho.
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