Capítulo 42 — Casa

Foi estranho quando pararam em frente de casa.

Era de madrugada, então Claire esperava que nenhum vizinho os visse.

Devido à estadia no Santuário, seu relógio biológico estava um tanto quanto bagunçado. Estava sem sono, e sinceramente, passaram por tanta coisa que duvidava que conseguiria dormir, de qualquer jeito.

Joshua não ligou as luzes da sala. Com as janelas panorâmicas, seria muito visível. Ao invés, ele chamou Claire enquanto subia as escadas.

Ele foi para o escritório do pai deles, e a garota sentiu um aperto no peito. Não entrava lá desde que o pai falecera, e ainda assim não se sentia muito compelida a entrar. Mas ainda assim o seguiu quando o mais velho entrou.

Ficou surpresa quando encontrou o local exatamente do mesmo jeito que era antes. Na parede de fundo tinha a imensa estante separada em cubos, com todos os livros que Abner possuía, além de duas prateleiras na parede esquerda. Sua mesa acinzentada com o computador estava bem no centro da sala, sobre o tapete de lã natural.

— Eu esperava que a mamãe já houvesse... Mexido aqui.

— É. – Joshua respondeu simplesmente, indo em direção à parede direita, que era onde tinha simplesmente um retrato de pintura abstrata. O seu irmão parou em frente à pintura e disse – Línguas de prata, lágrimas de corvos.

A garota pulou quando o quadro se retorceu completamente, suas cores berrantes se misturando e suas formas se tornando discerníveis, até que a pintura se tornou um retrato de uma mulher que aparentava estar em torno de seus vinte anos, sentada meio de lado, olhando para eles. Seu cabelo era de um castanho quase loiro, preso sob uma coroa de rosas negras e um véu prateado. Ela usava um vestido claramente vitoriano, roxo, e sobre seus ombros havia uma capa negra de bordados da mesma cor do véu. Seus olhos verde acinzentados estavam fixos nos dois.

— Bem vindo ao lar. – ela disse numa voz semelhante a uma fita antiga, antes de parte da parede literalmente desaparecer, abrindo para uma escadaria.

— Claire, eu lhe apresento o caminho pro porão.

—... O quadro esquisito do papai é a porta?

— É.

— E a mulher que apareceu?

— Ela é a nossa avó, Serena. É o retrato de casamento dela.

— Ah... – murmurou quando ele começou a descer as escadas. Seguiu-o.

O porão era montado como uma sala. O teto não era muito baixo para ser desagradável, o chão de madeira e s paredes eram um tanto amareladas. Não havia muito no local, apenas uma estante vazia, uma mesa com uma estátua de uma mulher de longos cabelos encaracolados, totalmente negra, um tapete bem semelhante ao do escritório de seu pai e alguns puffs meio mortos.

— Você devia ter visto esse lugar antes do papai morrer. – Joshua suspirou era. – Era... Apinhado de coisas.

— Então o que aconteceu com elas?

— Não sei. Quando criei coragem o suficiente para entrar aqui depois que ele morreu, já estava assim. – Ele tirou Dragan de dentro da mochila. As pernas do lobinho estavam claramente bambas antes dele simplesmente desistir e desabar no chão. Joshua puxou os puffs para que ambos se sentassem. O cabelo de seu irmão estava caindo por sua testa, e a iluminação tornava os tons vermelhos dos fios bem aparentes.

— Outra coisa... A mamãe não te notou sumindo? Marc criou uma desculpa pra mim, a menos que você...

— Ela não liga mais para nós. Querendo ou não, essa é a realidade. – ele bufou. – Mas de qualquer jeito, ela está viajando agora. Não ia perceber nem se quisesse.

— Para onde?

— Não sei. Quando cheguei em casa, ela só estava pondo a mala no carro e foi embora. Não avisou nem quando voltava. Ela ainda não voltou, aliás.

Claire soltou um suspiro pesado. Era um tanto difícil aceitar que as coisas haviam chego àquele nível. Era ainda mais difícil perceber que não estava surpresa. Não era a primeira vez, afinal.

Pegou a sacola que havia conseguido pegar do corvo no Santuário. Era visível que ele havia uma caixa dentro. Retirou-a, revelando-a escura com um corvo prateado entalhado em seu tampo. Era interessante perceber que havia um risco bem no pescoço do pássaro, como se esperando que ele fosse decapitado.

Estendeu-a pra Joshua que a abriu. Dentro dela havia outras duas caixas, menores, as quais ele puxou ao mesmo tempo. Elas eram compridas demais para normalmente caberem na caixa, mas obviamente, magia estava envolvida. Uma era preta e prateada, enquanto a outra era verde e dourada.

Percebeu os lábios de seu irmão se comprimindo.

— O que foi?

— Pela lógica, uma é do nosso pai, a outra é da minha mãe.

— Qual você vai abrir?

Ele olhou as duas caixas, e com um suspiro, ele pôs a verde no chão, abrindo a preta.

A primeira coisa que Claire viu foi papel. Muito papel.

— Isso são cartas?

Joshua pegou tudo e pôs a caixa no chão. A primeira, Claire via era um nome circulado várias vezes. Se inclinando um pouco mais contra o ombro de seu irmão, o que estava escrito na caligrafia de seu pai: “Fairy Nest Orphanage”, um pouco ao lado estava também sublinhado “costumam levar as crianças do Santuário para serem adotado”, e ainda, sublinhado diversas vezes “falar com Papillon Echo”. Embaixo havia algo numa letra gritantemente diferente escrito: “Falei com Papillon. Ela mandou isso.”.

— Isso é sobre o Drake, não é?

— É um orfanato, faz sentido. – Joshua respondeu. – “Fairy Nest”. É quase tão na cara que passa batido, será que...

Outro papel caiu de dentro, e era claramente uma fotografia. Joshua o pegou e quando o virou, deu pra escutar os dois claramente prendendo a respiração.

Havia uma mulher claramente hippie e sorridente, com seus óculos redondos e cabelos indecisos entre o ruivo e o loiro, compridos, cheios e um tanto desgrenhados, segurando um adolescente pelos ombros como se para se certificar que ele não fugiria da foto. Ele aparentava ter entre treze ou catorze anos, o cabelo castanho praticamente do mesmo tom do de Claire, uma franja um tanto comprida demais, caindo sobre seus olhos, fazendo-o parecer ter quase a cara de uma criança. Seu sorriso estava comprimido e meio de lado, como se ele ao mesmo tempo estivesse tímido e contrariado, e os olhos amarelados encaravam alguém em outra direção.

Mesmo que nunca houvesse pensado naquilo, ele poderia ser muito bem uma versão masculina dela, o que era assustador e desconcertante.

Joshua acabou virando a foto e estava escrito numa letra totalmente rabiscada:

“Esse é o Drake! Drake Silverman, caso pergunte o sobrenome. E tenho certeza que é ele sim, está duvidando da minha memória? Eu entendo que você queria falar com o menino, mas só avisando, ele teve uns... Problemas, com os pais adotivos dele. Tanto que a guarda dele passou para a tia. O menino anda arisco, o que é beeeem perigoso. Ele tem a melhor magia mental que eu já vi, então acidentes podem acontecer muito fácil. Dê um tempinho pra ele, uns dois meses, talvez? Ele ainda nem me contou o que aconteceu!”.

Embaixo, a data constava exatamente três semanas antes do pai deles morrer.

— “Melhor magia mental que eu já vi”?

— Hm... – Joshua virou novamente a foto. Na segunda olhada, a garota percebeu uma sombra roxa em sua face, como se fosse uma pancada que estivesse quase se esvaindo. – Alguma coisa aconteceu...?

Depois disso, Claire teve um estalo em sua cabeça que a fez pular num instante.

— Claire?

— Um instantinho!

Quase tropeçou em Dragan quando passou correndo e foi para seu quarto, que se encontrava exatamente do mesmo jeito em que deixara quando fora viajar. Pegou o CD do Magick sobre a sua escrivaninha, antes de voltar para o porão, onde Joshua lhe esperava com uma sobrancelha erguida.

—... Você foi buscar um CD?

— Espera!

Abriu-o e tirou o booklet de dentro. Havia mexido nele na semana em que esperava pela viagem, portanto sabia que tinha fotos dos membros do Magick ali. Parou na página em que trazia a letra de Pain in Pain. Do lado havia foto bem simples de um garoto com a mão no queixo – e um anel monstruoso de unicórnio — dando um sorrisinho fofo para a câmera.

—... Está de brincadeira, não é? – Joshua comparou a foto do CD com a que tinha em mãos.

Não havia dúvida, era a mesma pessoa. Ele estava mais velho, com a franja mais estilosa, numa foto de estúdio e com todo o poder da maquiagem e Photoshop para retirar qualquer imperfeição de seu rosto, mas era definitivamente a mesma pessoa.

— Ele é um cantor agora. Maravilha. Podemos nos passar como os parentes que só querem ser reconhecidos como parentes agora que ele está ficando famoso.

— Nossa, como você é pessimista. Mas... – Claire pôs a mão no queixo, encarando a foto.

Comprara aquilo no dia de seu aniversário. Vendo tudo o que acontecera desde então, tudo parecia uma sequência de coincidências absurdas. Nunca imaginaria que estaria comprando um CD em que o seu “irmão gêmeo perdido” seria um dos artistas. Mas também nunca imaginara que encontraria um boneco que se transformaria em humano, que seu gato era um bruxo e tudo o que acontecera desde então.

Dragan trotou, e os dois pularam quando ele repentinamente voltou para sua forma angelical, caindo praticamente de cara no tapete, sua asa boa sobre o seu corpo como um travesseiro.

— Ei você está... – a garota começou, mas seu irmão se aproximou e mexeu um pouco justamente na asa boa do anjo, dando melhor visão de seu rosto. — Ele está... Dormindo?

— Parece mais que ele desmaiou.

— Outra pergunta, Joshua. Nós trouxemos um anjo para casa. O que nós fazemos com ele?

— Não sei. Ele disse que não conseguia voltar de sei lá onde ele veio por enquanto. Acho que ele vai ficar até a asa dele ficar melhor.

— Acha?

— Sinceramente, nós o encontramos no meio de uma batalha de anjos, de armadura e ele foi bem arisco conosco no começo. Duvido que ele tenha interesse em se tornar um familiar.

Ele tinha um ponto. Dragan poderia até ter trocado de roupa agora, mas ainda era um tanto difícil de esquecer tanto a armadura quanto a situação.

Assim como tudo o que acontecera antes de irem embora do Santuário. Os olhos de Near eram apavorantes, e a sensação que o que quer que fosse aquilo que ele havia feito. Necromancia, mexer com os mortos. Além de toda aquela conversa estranha de Markus com Haydée.

— E sobre Near, lá no Santuário...

Joshua suspirou, passando a mão no cabelo, que o fez ficar ainda mais bagunçado.

— Eu sinceramente ainda não consegui digerir tudo. Já é difícil o suficiente com os Rockstones meio mortos, agora terem as outras famílias mexendo com magias que são tão... Proibidas, para dizer o mínimo. Além do mais, o anão largou a gente no meio do nada.

— Ele realmente não queria ser envolvido.

— É. E o que mais me incomoda mesmo é aquele cara albino, o Markus. Ele sabe muito sobre tudo isso.

— Bom, ele já sabia sobre os príncipes e sobre a família do Near não ter sido exterminada.

— Pois então. Ele falou que “viveu disso” por muito tempo. Não sei, tipo, quando ele está com a namorada dele, ele parece ser o tipo de pessoa que é facilmente esquecida. Mas quando ele começou a falar aquelas coisas... Sei lá, ele me deu uma sensação esquisita, pra dizer o mínimo. Quase errada.

— Markus não fez muita questão de esconder que já se envolveu com magia negra. – admitiu.

— É... Mas também ele não parece que vai fazer nada... Quer dizer, ele é rodeado de Rockstones, e eles confiam nele. Embora eu não posso dizer que eles estejam num parâmetro normal. – ele bufou. – Agora temos príncipes dos condenados, um cara querendo recuperar o poder que tinha, além dos príncipes Rockstone. Que bagunça você se meteu, hein?

— Eu?!

— Foi você que os conheceu primeiro, não eu. Mas agora resta a pergunta: Near foi parar na sua cama. Como?

— Eu já me perguntei isso várias vezes. E não dá para saber.

Ela olhou para o anjo dormindo no tapete.

— Agora o jeito é esperar, não é? Para ver o que acontece.

— É o mínimo que podemos fazer.