Coração de Gelo
4 Broken
Notas iniciais
O espelho refletia seu rosto cansado. Há dias não dormia direito e não adiantava a quantidade de água gelada que jogava nos olhos, a expressão abatida parecia não querer desaparecer, assim como toda a dor instalada ali dentro. Regina sai do banheiro de seu escritório na prefeitura arrumando o cabelo atrás da orelha e em seguida tentando esquentar as mãos. Mesmo com o aquecedor ligado no máximo o frio a incomodava muito, principalmente depois do sonho que teve na noite passada: uma mulher desconhecida com olhos frios quebrava um coração de gelo e transformava tudo ao seu redor em uma paisagem gélida de morte, desespero e solidão. Eram sonhos tão reais que sentia como se toda aquela sensação fria viesse de dentro de si; não conseguia dormir, nem pensar ou até mesmo sentir algo que não fosse dor pela perda, pelo frio, por tudo que sacrificou em busca de um final feliz que nunca lhe apareceu.
Nunca mais sentiria seu coração se aquecer de novo como se aquecia toda vez que um certo ‘garoto dos estábulos’ lhe sorria e falava sobre a mais forte magia de todas: o amor verdadeiro. Sim, passara todos aqueles dias com a imagem de Daniel na cabeça, revivendo um passado que não lhe era mais permitido ter, que lhe fora roubado, interrompido e para quê? O pior não era lembrar, mas sim saber que nada poderia ser feito, nem para retornar ao passado nem para se remendar o presente. Se Emma prestasse para alguma coisa e tivesse trazido Daniel ao invés de Marian, mas não; parecia que a loira servia apenas para uma coisa: se meter onde não fora chamada e atrapalhar todos os seus planos, mesmo sem querer, mesmo sem fazer nada diretamente, os acontecimentos pareciam sempre empurrar Emma na direção de Regina.
Respira fundo e volta a sentar-se. Olha no relógio, faltava pouco para terminar o expediente, mas na sua frente ainda havia uma pilha de papéis. “Nada melhor para esquecer que trabalhar, e se fosse após o expediente melhor, assim ninguém iria interromper”, pensa, porém, mal se concentra no primeiro caso a ser resolvido alguém bate na porta.
–Pode entrar. – Fala sem levantar os olhos dos papéis.
–Regina?!
Aquela voz. Era ela.
– O que faz aqui, senhorita Swan? O expediente já terminou tem exatamente... – Faz uma pequena pausa para olhar no relógio, mesmo já tendo feito isso minutos atrás. – dois minutos. – Conclui ainda sem levantar o rosto.
–Preciso falar com você.
–Não estou te impedindo, então...
Emma se impacienta com a atitude nada amigável da outra. Revira os olhos e respira fundo segurando o cós do jeans e colocando o peso do corpo em uma perna.
–Vamos voltar a isso?
–A isso o quê?
–A essa formalidade sem sentido?
Regina desce os ombros deitando a caneta na mesa e finalmente olha para a mulher parada no meio do escritório.
–Creio que não foi sobre isso que veio tratar comigo, xerife. Vá direito ao assunto, faz favor. – Pede de forma seca.
Emma dá uns passos até a mesa.
–Você está bem? – Pergunta de forma calma como se quisesse apaziguar uma possível guerra prestes a explodir naquele pequeno espaço.
A prefeita se desconcerta e se confunde por alguns segundos. Não esperava aquela pergunta vinda de Emma, mas resolve agir com seu sarcasmo de sempre:
–Claro que estou bem, xerife. Há uma semana você trouxe do passado a ex-mulher morta da primeira pessoa de quem eu gostei depois de... – faz uma pausa. Com uma expressão irônica no rosto finge estar contando os anos que passara sozinha. – quantos anos?! Não sei, é tanto tempo que me perdi. — Fala de forma dura e volta os olhos novamente para os papeis sem nenhuma concentração.
A sala entra em silêncio tumular. Emma não sabia o que dizer. Pedir desculpas não seria a melhor ideia. Nada do que ela pudesse falar naquele momento apagaria o que fizera, nem mesmo os dias que passara sentindo-se culpada.
–Se não veio para nada útil pode se retirar, tenho muito trabalho aqui, se ainda não percebeu.
Emma fica mais meio segundo em silêncio e resolve entrar no jogo de Regina. Se a ideia era ser novamente prefeita e xerife em guerra, que assim fosse!
–Não para de nevar e você se trancou em casa todo esse tempo como se não fosse a prefeita dessa cidade. A cidade está um caos, todos estão desesperados por uma solução, estão no meu pé todos os dias e você simplesmente ignora esse fato! Vim aqui exigir uma solução, senhora prefeita!
Regina engole o riso. Há quanto tempo não ouvia Emma falar com ela naquele tom? Mas não deixaria as coisas daquela forma.
–Sinto lhe informa xerife que não posso fazer nada. A única coisa que poderia ser feita seria contatar o estado, mas creio que não queira ver todos dessa cidade num laboratório. – Fala irônica levantando o olhar para a loira.
Emma olha de volta fazendo um bico de irritação e se mexendo como se não soubesse como se apoiar no próprio corpo. Brincar de gato e rato mais uma vez não era algo que queria fazer, sabia que se irritaria com aquilo, pois Regina parecia levar a sério. Será que realmente a estava odiando mais uma vez?
–Não faz ideia do que pode causar isso?
–Por acaso tenho cara de garota do tempo, Xerife?
–Definitivamente não, elas costumam ser simpáticas, sabe.
Regina não retruca, apenas levanta uma das sobrancelhas e volta sua atenção ao trabalho, mas a concentração já havia ido pro espaço. Levanta-se visivelmente irritada mexendo nos cabelos o arrumando a saia social. Arruma a pilha de papéis e guarda tudo na bolsa. Toma postura e segue batendo os saltos pelo escritório até a porta ignorando completamente a outra.

–Vai ficar aí parada? Preciso trancar a porta, creio que não seja muito confortável passar a noite aí dentro. – Fala com sarcasmo parada no portal de entrada.
Emma caminha lentamente até próximo de Regina. Olha a morena tranquilamente. Quantas oportunidades já teve para olhá-la de perto se não quando transbordava ódio? Aquele momento era diferente. Conseguia ver o quanto ela estava quebrada e se sentia quebrada também.
–Regina, — Fala baixo e pacientemente. – Não podia deixá-la lá. Você..., a Rainha Má ia matá-la. Deixar alguém pra morrer, seja quem for, vai contra tudo que penso, contra tudo que sou. – Faz uma pausa. — Sei que você entende isso e só está me odiando agora porque dói. – Conclui.
As palavras entraram pelos ouvidos da morena como uma letra de música que nos revigora nos momentos mais difíceis. Porém, se tratando de Regina Mills, com o coração partido pela segunda vez, não seria fácil deixar entrar mais um sentimento:
–O que você quer? Por que está sempre se metendo na minha vida? Por que você sempre tem que aparecer, sempre tem que se meter em tudo, sempre tem que fazer algo que me atinja e depois sai como se nada tivesse acontecido? Por quê? – Pergunta de forma impaciente sem esperar por respostas. Eram perguntas que estavam entaladas na garganta desde o dia em que Swan chegou em Storybrooke e virou sua vida de cabeça para baixo.
–Também poderia te perguntar exatamente a mesma coisa.
–Não sei do que está falando.
–Nunca tive família, isso não é segredo pra ninguém. Passei toda a minha vida procurando. Sei como é estar só por tanto tempo. Sei como é ter o coração partido mais de uma vez. Sei como é se sentir quebrada. Sou uma das poucas pessoas nessa cidade capaz de entender você, por isso não faria nada para atrapalhar sua felicidade, Regina, mas..., assim como eu me meto na sua vida sem querer você também se mete na minha. Não é coincidência demais ter adotado justo o meu filho?
–Nosso filho. – Corrige a xerife de forma dura.
–Nosso filho! – Confirma se aproximando mais da morena enquanto a olha nos olhos.
Um vento frio corta o pequeno espaço entre as duas. Emma se arrepia. Era um frio que doía no íntimo como se devastasse os bons sentimentos deixando apenas um infinito de gelo por dentro.
Olha para Regina assustada.
A mulher estava gélida e em seus olhos um brilho de azul esbranquiçado passa quase despercebido.
–Regina o que... – Antes de terminar a frase a morena desmaia em seus braços levando a mão esquerda ao peito.

–Minha rainha. Trago notícias. – Fala o soldado de neve tirando o elmo de gelo e fazendo uma reverência exagerada.
–Prossiga. – Diz a mulher em frente ao espelho refazendo a trança em seu comprido cabelo loiro.
–Descobriram o feitiço de proteção do castelo. Temos alguma posição, majestade?
–Não. – Leva a mão ao ar e uma imagem aparece no espelho. Algumas pessoas conversavam na floresta quase na saída da cidade. Tocavam numa parede invisível e pareciam se questionar sobre o que encontrariam do outro lado.
–Finalmente nos encontraram, Olaf!
–Isso é bom, majestade?
–É ótimo. – Fala levando a mãos no ar mais uma vez fazendo desaparecer as imagens. – Apenas uma coisa me preocupa. – Diz pensativa enquanto anda até a varanda do grande aposento.
–O que, minha rainha?
–A rainha má. Não imaginei que ela fosse forte o suficiente para resistir a maldição. Isso pode atrapalhar nossos planos.
–Ela é um problema, minha senhora?
A mulher olha séria para o soldado.
–É claro que não! Não existe ninguém aqui que possa me parar agora. — Sorri friamente e desaparece numa nuvem de fumaça azul.
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