Coração ao Vento

2 O Edifício Branco no beco


Eu vi meu humano quando abri os olhos pela primeira vez. Estávamos em seu berço e ele dormia serenamente ao meu lado. Foi o meu primeiro dia de vida, mas eu já sabia que aquele garotinho de finos cabelos negros, bochechudinho e de nariz achatado era o meu humano.

Me aproximei devagar, meio desengonçada. Estendi minha mão para tocar seu rosto, mas hesitei, temendo acordá-lo. Para falar a verdade, eu estava com muito sono e acabei adormecendo ali mesmo. Na manhã seguinte despertei com o som do meu humano chorando. Lembro que ver ele triste assim me partiu o coração. Sua mãe logo veio, o tirou do berço e o pôs em seu colo, me ignorando por um momento, mas logo sorriu e estendeu o braço para que eu pudesse subir na palma de sua mão e me levantou até a altura dos seus olhos — Oi pequenina. Não se preocupe, logo aprenderá a voar — vi sobre seu ombro esquerdo um pequeno homenzinho de cabelo e vestes verdes, olhos puxados, orelhas pontudas e medindo mais ou menos a minha altura. Ele pairava no ar com a ajuda de duas asas emplumadas que se agitavam freneticamente. O homenzinho olhou para mim com uma expressão acolhedora e se aproximou.

—Bem-vinda à família! — entoou em alto e bom som abrindo os braços — Meu nome é Birdie — se apresentou apertando minha mão. Consegui sentir a leve brisa que suas asas provocavam — Esta é Cátia — apontou para a mãe do meu humano — Ela é a minha Ama. O bebê que ela está amamentando é o Kris, o seu amo. Acredito que você já saiba das suas obrigações, estou certo? — ele me fez uma pergunta, mas eu não sabia como responder. Nunca havia dito uma única palavra em minha curta vida e não sabia direito como usar os meus lábios. Birdie me olhou por um tempo aguardando uma resposta, mas como não obteve nenhuma continuou a falar — Em todo o caso vou explicar-lhe. Você, assim como eu, é uma Leedwee. Você nasceu junto com o Kris, portanto você é a Leedwee dele. Seu papel nos primeiros anos do garoto é garantir seu bem-estar. Deverá vigiá-lo, aconselhá-lo e comunicar aos pais sempre que algo estiver errado. Acredito que esteja com uma sensação estranha no estômago que causa um certo desconforto, estou certo? — de fato eu estava, então concordei com a cabeça — O nome disso é fome. Se você sente isso então significa que o Kris está com fome e precisa comer, por isso ele estava chorando ainda a pouco. Quando sua mãe terminar de alimentá-lo a sensação de fome no seu corpo irá passar. Tudo o que ele sente, você também sente, mas não se preocupe, você não precisa comer, beber, ou ingerir medicamentos. Kris e você tem uma ligação espiritual, portanto se ele estiver bem você também estará, é simples. A sua voz será a voz dele durante seus primeiros anos. Você entendeu? — tornei a concordar com a cabeça. — Ótimo — ele sorriu em aprovação, mas logo sua feição se tornou mais séria — Mais uma coisa: em hipótese alguma se afaste do seu amo! Se fizer isso seu corpo se tornará cinza e quebradiço podendo até mesmo virar poeira com uma simples brisa. Assim você morrerá e seu amo sofrerá as consequências de perder seu Leedwee. O limite máximo é de 3 quilômetros, mas sugiro que sempre fique no mesmo aposento que seu amo no início, para evitar possíveis complicações. Compreende? — concordei novamente — Muito bem. — Birdie tornou a sorrir. De repente me senti tonta e bocejei. — Cansada, hein? Significa que Kris está pronto para voltar a dormir. — Ele voou até bem perto do rosto de Cátia — Minha ama, creio que vosso filho saciou sua fome e está pronto para retornar ao berço.

Não me lembro de muito mais daquele dia, nem dos dias subsequentes. Assim como Kris, passei a maior parte do tempo dormindo no berço. As vezes acordava num pulo por meu amo estar com fome ou ter molhado a fralda, mas logo comunicava aos pais de Kris. Nas semanas seguintes, enquanto meu amo se distraía assistindo ao DVD de canções infantis de domínio público, Birdie se dedicou a me dar aulas de voo. Tive dificuldades no início, cheguei a levar quedas bem feias que seriam fatais para um humano normal, mas como Leedwee sofri poucos arranhões que se curaram quase que imediatamente. Na terceira aula consegui me manter parada no ar sem despencar. No quinto dia eu conseguia me mover pela sala, ainda que bem devagar. Na décima aula eu podia voar com mais velocidade e desviar de alguns obstáculos. Duas semanas depois da primeira aula eu já dominava totalmente o dom de voar. Minhas asas batiam freneticamente quase que automaticamente, então eu conseguia me concentrar em outras coisas sem correr o risco das minhas asas pararem me fazendo ir de encontro ao chão. Birdie elogiou meu desempenho dizendo que ele levara pouco mais de três meses para voar perfeitamente, e que aprender a voar era equivalente à experiência de um humano com sua primeira bicicleta.

Birdie me explicou o motivo de eu ainda não ter um nome. Me contou que apenas meu amo pode me nomear, e que até ele conseguir falar e ter capacidade para entender que precisava me batizar, eu seria um Leedwee sem nome. Então por alguns anos eles me chamaram de Azulzinha, referente à cor do meu cabelo e do meu vestidinho, uma cobertura natural de queratina que reveste o corpo de todos os Leedwees, que é da mesma cor que seus cabelos e que parecem vestidinhos.

Quando meu amo tinha três anos ele me batizou. Passarinha. Sim, esse foi o meu nome por um tempo, até que Kris mudou de ideia e passou a me chamar pelo meu nome atual: Bluey.

Por essa regra dos humanos nomearem seus Leedwees desde pequenos, alguns de nós acabam com primeiros nomes toscos.

Alguns anos atrás, uma prima distante de meu amo veio passar o Natal na cidade e tive a oportunidade de conhecer o Leedwee dela. Ele tinha cabelos e vestes marrons, o que me fez entender o porquê de seu nome ser Cocô. Senti pena dele. Dava pra ver sua expressão de vergonha e desconforto quando sua ama de 4 anos o chamava perto das pessoas.

Não demorei a fazer amizade com os Leedwees da família de Kris. Bolly, que pertencia ao pai de Kris tinha cabelos brancos, era esguia e adorava se sentar para assistir a esportes com seu amo. Já Karlito, de cabelos e vestes negras, era da irmã mais velha de Kris. Não costuma falar muito comigo, mas é um cara legal, na maioria das vezes. Também conheci o Velho Jack que pertencia a avó do meu amo, mas infelizmente ele virou cinzas quando a avó de Kris faleceu. Suas cinzas foram postas em uma pequena urna e enterradas junto com ela. Na lápide está escrito "Aqui jaz Hebe Karino, amada esposa, mãe e avó, e Velho Jack, seu eterno companheiro". Os amigos de Kris também possuíam companheiros muito amigáveis, mas não vou falar deles agora.

¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤

Levantei-me eufórica naquela segunda-feira pois eu queria ser a primeira a desejar feliz aniversário para o meu amo!

Tirei os dois protetores de asas que impediam que minhas plumas fossem arrancadas caso eu me mexesse muito durante a noite, e comecei a arrumar minha cama.

Eu dormia em cima do criado mudo ao lado da cama de Kris. Lá eu tinha uma pequena réplica do quarto de meu amo. Tinha a minha mini cama de 10 centímetros de comprimento onde eu cabia perfeitamente, meu miniarmário guardando meus minis lençóis e cobertores, e meu mini guarda-roupa onde estavam minhas roupinhas, apesar de eu não precisar delas. Do lado da minha cama até tinha um mini criado mudo com uma réplica menor ainda do quarto com uma bonequinha de 1 cm de mim mesma. Eu gostava de brincar com ela, a chamava de mini Bluey.

Me pus a 1 metro de altura de Kris. Ele estava com muito sono, pois eu estava sonolenta apesar da euforia. Olhei para o relógio digital em cima da cabeceira da cama marcar 06:59AM. Ele apitou ao dar 7 horas e eu voei como uma bala em direção ao rosto de Kris, abraçando-o. Ele acordou na hora, levantou-se espantado, me catapultando para frente. Consegui me recompor no ar e abri os braços e um largo sorriso para dizer:

—Feliz aniversário!

Kris esfregou os punhos nos olhos.

—Oi Bluey — ele respondeu com um leve sorriso, ainda tentando acordar direito. Ele levantou devagar e caminhou arrastando os pés até o banheiro no fim do corredor. Eu não o segui pois Kris não gostava que eu o assistisse fazendo suas "coisas", embora eu conseguisse sentir quando ele fazia força ou quando seu corpo é envolvido pela água morna do chuveiro.

Eu não tomava banho. Não que eu detestasse me lavar, o caso é que eu não precisava. Como meu corpo não produzia fluídos malcheirosos, como suor, eu apenas me limpava no início e no fim do dia com lenços umedecidos.

Enquanto Kris estava no banho, tentei arrumar sua cama. Fiz força e bati minhas asas mais rápido para colocar o cobertor em seu lugar. Para mim era difícil lidar com trabalho braçal, afinal era pequena e mal conseguia mover um décimo de um cobertor. Acho que a coisa mais pesada que já consegui levantar até então tinha cerca de 300 gramas.

Como falhei na tarefa de arrumar a cama, meu amo o fez quando voltou do banheiro, enrolado numa toalha.

Kris, já arrumado com o uniforme branco da escola, desceu as escadas e se virou para entrar na cozinha, onde todos já estavam acomodados, com exceção da Sra. Cátia que mexia em panelas no fogão. Eu o segui.

Cumprimentei a todos.

O Sr Pet Karino, um homem grande e corpulento de cabelos castanho e aspecto a princípio ameaçador, lia o jornal quando chegamos. Quando encontrou as palavras cruzadas ele sacou uma caneta do bolso do seu uniforme policial e começou a preencher os quadradinhos com letras. Bolly se sentou no ombro do Sr Pet para lhe dar dicas, conforme ele solicitou.

Tryna, a irmã de meu amo, uma adolescente esguia, de longos cabelos negros e amante de maquiagens com sombras escuras sempre estava com a cara num aparelho eletrônico, seja seu smartphone ou notebook. Karlito sempre estava ao seu lado para aconselhá-la a ler um livro, mas como ela não gostava, ele se rendeu e passou a ajudá-la a editar suas fotos e opinar sobre "De 0 a 10, o quando essa garota parece piranha?". Como o seu colégio não tinha uniforme, ela sempre ia de preto ou com a camisa de alguma banda de rock ou punk.

Enquanto a Sra. Cátia cozinhava, Birdie lia em uma pequena prancheta todos os compromissos que sua ama teria no dia. Me animei quando ele anunciou que às 6 da tarde teríamos uma pequena festa de aniversário para Kris.

Todos cobriram o garoto de amor quando o viram. O Sr Pet deu um forte abraço e alguns cascudos carinhosos no garoto. Eu consegui sentir.

Tryna milagrosamente largou o celular para beijar seu irmão na bochecha. Kris desesperadamente passou a mão onde fora beijado, alegando que aquilo era nojento.

A mãe de meu amo preparou um super café da manhã de aniversário para ele, o que sempre foi tradição na casa. O aniversariante sempre tinha tudo o que gostava de comer no café. Por isso a Sra. Cátia serviu para Kris um prato com ovos mexidos com pedaços de bacon formando o número 10. No restante da mesa tinha uma jarra com suco de laranja, um pote com torradas, melão cortado, café, leite, omeletes de queijo e meio bolo de cenoura. Eu fiquei ansiosa para provar a comida. Apesar de não comer, eu sentia o gosto das coisas que Kris comia.

Kris aproveitou o café. Comeu de tudo. Pegou um pedaço de bolo e o enfiou na boca quando o ônibus escolar buzinou o chamando.

Meu amo correu apressado antes que o grande ônibus amarelo o abandonasse. Ele chegou a tempo, mas o motorista fechou a porta e partiu antes de eu entrar. Por sorte consegui passar por uma janela aberta. Não quero me gabar, mas eu era realmente veloz quando queria. Poderia facilmente ultrapassar um humano correndo.

¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤

O dia letivo de Kris fora perfeitamente normal. Ele teve prova de matemática. Eu, acompanhada dos leedwees das outras crianças, esperei do lado de fora da sala de aula, pois não nos era permitido dar dicas durante os testes. Kris tirou 850 de 1000.

Ainda que tivesse ficado feliz com as felicitações que recebera de seus colegas e professores, a pessoa de quem Kris mais gostava não havia aparecido na escola: sua melhor amiga Meg. Talvez por estar doente, ou por algum outro motivo. Kris não se preocupou muito. Meg faltava às aulas vez ou outra, mas ela sempre dava algum bom motivo, apesar de eu sempre achar que ela se ausentava o suficiente para chamar a atenção de alguma autoridade da escola.

¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤

—Bluey, você se lembra qual a cor do corante que a mamãe pediu pra gente comprar? — perguntou Kris.

—Lembro sim. Ela pediu corante azul marinho, mais especificamente da marca Akuaberry. — Respondi ao mesmo tempo que tentava desviar dos coloridos Leedwees de dezenas de outras pessoas que por ali passavam.

Chegando no movimentado centro da cidade, entramos numa área conhecida como Calçadão Comercial, uma longa avenida para pedestres com dezenas de lojas e comércios de todos os tipos que iam até onde a vista alcançava, e um fluxo intenso de pessoas.

—Vamos no mercadinho do Sr Yorg, acho que lá deve ter. — ao ouvir isso me senti mal. Eu não gostava de ir lá. Sempre me alegrava quando Kris resolvia não passar por ali. Não, eu não tinha nada contra o senhor Yorg ou o seu mercadinho. Pelo contrário, ele era um senhor muito simpático com uma leedwee adorável. O que me incomodava é o que estava bem ali do lado.

Kris apertou o passo pois não queria se atrasar para a sua própria festa de aniversário. Sendo pequeno e magro, ele passava com facilidade entre dois corpos. Tive que voar alto para acompanhá-lo. De lá de cima tive uma vista completa do calçadão comercial. Dezenas de lojas com os mais variados produtos. Os comércios iam de food-trucks e petshops até imobiliárias e consultórios médicos particulares. Passamos em frente à uma loja de colchões onde havia o que eu considerava a mascote de loja mais ridículo do mundo: Uma mulher humana vestida de leedwee com um traje verde extremamente curto e apelativo, uma horrível peruca de mesma cor e asas falsas feitas com penas de galinha. Em seu ombro estava seu ajudante vestido de humano, com uma camisa de praia escondendo suas asas, um short claro e uma mini peruca de cabelos negros. A mulher dançava de forma provocativa, atraindo olhares, e repetindo a mesma patética frase "Venha na Gigante Sonhos com a Gigante Leedwee para conhecer descontos maiores ainda!". Vez ou outra lançava uma piscadela para algum pervertido, sensualizando com suas asas falsas. Não sei quanto aos outros, mas eu considerava aquilo um tanto quanto ofensivo. Podia ver no rosto do ajudante em seu ombro que ele não estava nem um pouco feliz com o que o obrigaram a fazer. Não foi a primeira vez que vi humanos usando nossa imagem de forma pejorativa para vender produtos. Todos conheciam o Bobby Bobo, uma mascote que vinha estampado em caixas de cereal, sempre acompanhado de uma frase autodepreciativa e vestindo alguma fantasia ridícula. Meu peito doía sempre que eu via algo assim, e uma sensação de vergonha e injustiça me preenchia, sentimentos genuinamente meus. Claro, existiam mascotes humanos, a questão é que sempre... sempre, sem exceção, fomos mostrados como sendo burros e insignificantes.

Eu não era de reclamar. Sempre fui muito bem tratada pelo meu humano e sua família, e eu sabia que aquilo não era o padrão. Historicamente leedwees eram considerados seres inferiores que vivem para servir. E se não servirmos, somos castigados. Já cansei de ver leedwees serem castigados por seus amos, sofrendo danos físicos severos, mortais para qualquer um, mas para nós irrelevantes. Se aproveitavam da nossa "imortalidade" para nos torturarem, mas apesar de não morrermos por absolutamente nada enquanto estivéssemos perto dos nossos humanos, a dor era real e excruciante. Leedwees sentem a dor de seus amos, mas eles não podiam sentir a nossa. Sentíamos a fome deles, a tristeza deles, as aflições, a angústia, o desespero, mas apenas nós sentíamos nosso próprio sofrimento. Eu era grata por ter Kris, um garoto que me respeitava, que me tratava como uma igual, que nunca levantou um dedo para me ferir, e por sua família que o educou assim. Por isso eu decidira proteger Kris, a minha amada criança até o último dia de nossas vidas

Perto do centro do Calçadão havia uma grande fonte circular que jorrava água para todos os lados. No meio dela, erguida por um grande pedestal, havia uma estátua de bronze de 5 metros de uma mulher jovem nua de cabelos longos e lisos, segurando com as duas mãos o que parecia ser um cristal multifacetado no formato de coração. No pedestal encontrava-se uma placa de bronze com os dizeres: "Tyr, a humana, libertadora da humanidade". Havia muitas dessas espalhadas pelo mundo, umas 30 só na nossa cidade, uma em cada bairro, e uma gigantesca em frente ao palácio real. Ao pé da fonte vi um pai com seu filho, explicando como Tyr havia os libertado das mãos das terríveis fadas, e como seus descendentes leedwees deveriam ser eternamente responsáveis por pagar essa dívida sem fim.

Vivíamos em Vetch, capital da grande nação de Neander, uma das maiores do mundo, e a que tinha o maior número de centros históricos, por ser o epicentro da evolução humana após a libertação. Com o passar dos séculos a humanidade foi se dividindo em grandes porções de terra que foram chamando de países, depois que eles inventaram uma coisa chamada política, que eu nunca entendi direito.

Viramos uma esquina e entramos num beco pouco movimentado. O mercadinho ficava bem no final dele. Ao chegarmos perto, vi aquilo que mais me causava repulsa: o Centro de Domesticação. Nunca entrei num deles, mas já ouvi diversas histórias sobre as coisas que aconteciam lá dentro. Oficialmente, o Centro de Domesticação era um lugar onde as pessoas levavam seus ajudantes para um curto período de treinamento, onde eles aprendiam seus deveres como um bom leedwee e eram instruídos a fazer determinada ação sob determinada situação. Enquanto isso seus humanos eram levados a outra parte do prédio, onde ficavam numa espécie de spa enquanto aguardavam o retorno de seus ajudantes. Bom, o que alguns afirmavam ser a verdade sobre os Centros de Domesticação não era tão simples e inofensivo como as empresas marketavam. O que diziam era que o lugar foi feito para alienar leedwees agressivos, teimosos, arrogantes, petulantes, que se recusam a obedecer ou que não reconhecem seu verdadeiro lugar perante os humanos, ou seja, abaixo. Apesar da tortura e outros métodos para forçar leedwees ao trabalho, muitos ainda se rebelavam, e diziam que os Centros de Domesticação serviam para resolver isso. Outros afirmavam o mesmo, com o adendo de que um leedwee podia acabar nesse lugar mesmo não tendo feito absolutamente nada, apenas porque seu humano desejava um ajudante menos falante. As histórias mais detalhadas também não eram daquelas que uma mãe contaria a seu filho antes de dormir. Uma que, particularmente, me dava arrepios era a que explicava os métodos de alienação. Ela dizia que o leedwee era preso a uma pequena cadeira, colocavam-lhe um minúsculo aparelho que impedia que suas pálpebras de fechassem e lhe passavam vídeos que não vou nem mencionar. Ainda acrescentavam outros tipos de torturas psicológicas, até mesmo físicas, injetavam algumas substâncias alucinógenas e outras que provocavam dores agonizantes. O tratamento era eficaz. Bastava uma vez no Centro de Domesticação e pronto. Um ajudante entrava de um jeito e saía como todos os outros: um robô, uma casca sem sentimentos treinada para obedecer a qualquer tipo de ordem, seja qual for, sem questionar, um ser que não pensa, que não sente nada, que vive apenas para servir. O servo perfeito.

Entramos no mercadinho e Kris comprou o corante que sua mãe solicitou. O Sr Yorg nos cumprimentou com um sorriso e saímos do lugar. Mais uma vez eu olhei para o prédio do Centro de Domesticação, um edifício muito branco de uns quatro andares. O que me intrigava era o fato de somente o andar térreo e o primeiro andar possuírem janelas. O resto era apenas uma grande parede com o letreiro "CENTRO DE DOMESTICAÇÃO URSO BRANCO". Até então eu nunca havia conhecido um leedwee que tivesse passado por um desses centros, mas me recordo de algumas vezes que cruzei com alguns ajudantes que agiam de maneira muito estranha, esses com olhares vazios mirando o nada. Cheguei a esbarrar em um assim. Virei e me desculpei com ele, mas ele seguiu voando sem olhar para trás. Não sei até onde ia a veracidade das histórias que contavam sobre esses lugares, o fato é que eu sentia muito medo e tristeza quando passava em frente a algum. Decidi não olhar mais para aquele prédio, mas assim que dei as costas para o Centro, senti calor, senti... Dor... Senti minhas costas queimando! Berrei de dor quando fui atirada ao chão com meu corpo em chamas. Kris, que estava bem a frente quando aconteceu, voltou correndo para me socorrer. Rolei no chão tentando apagar o fogo que me queimava, e para desviar das inúmeras pessoas que passavam por mim correndo e gritando, desesperadas. Vi Kris se aproximando, gritando meu nome, esbarrando em todos que corriam por suas vidas.

Olhei para cima e gritei:

—Cuidado!!!

Um pedaço de concreto do tamanho de uma lata de lixo despencou do alto do prédio do Centro de Domesticação, e meu amo estava correndo bem para o lugar onde o objeto iria pousar. Com o meu grito Kris parou bem a tempo de ver a coisa cair bem na sua frente. Ele se recuperou do choque e continuou vindo em minha direção. Àquela altura eu já conseguira apagar boa parte das chamas em mim. Meu amo se abaixou em minha frente e soprou-me, livrando-me de vez do fogo.

Como minhas asas foram quase completamente consumidas pelas chamas, Kris me pôs em suas mãos, me perguntando mil vezes se eu estava bem. Apesar da dor latejante em quase todas as partes de mim, eu iria sobreviver desde que Kris estivesse bem. Eu queria dizer a meu amo para sairmos dali o quanto antes, mas minha voz não saía. Me esforcei tanto para alertar Kris sobre o bloco de concreto que acho que feri meus pulmões, isso explicava a sensação de que eles haviam explodido. Foi minha falta de voz que me impediu de alertar meu amo novamente, desta vez sobre a enorme labareda que vinha em nossa direção. Eu era apenas uma leedwee ferida nas mãos de meu humano que iria morrer por não notar a língua de fogo que vinha como um raio para atingi-lo nas costas.

"Meu humano vai morrer... Kris vai morrer... Tudo porque ele voltou para me ajudar... Por favor... Ele não... Eu o amo... Eu tenho que ter forças para avisá-lo...!"

Fiz um esforço tremendo para forçar o ar a sair de meus pulmões, não importasse a dor insuportável que me afligisse... Mas não consegui... Eu havia falhado... Tudo o que pude fazer foi erguer a mão na direção do rosto da minha amada criança.

De repente senti uma rajada de vento tão forte que nos derrubou no chão e atingiu a labareda, desviando seu caminho a fazendo atingir o Centro de Domesticação, que ardia da base ao topo.

Kris se recompôs, me pegou novamente e saiu correndo dali.

Das mãos de meu amo, pude ver o prédio do Centro de Domesticação ser atingido com outras labaredas que surgiam do nada, e desabar em chamas. Após o desabamento os ataques cessaram. O Calçadão Comercial estava praticamente vazio quando chegamos no ponto de ônibus.