Coração ao Vento

3 A Pista das Argolas


Meu corpo estava quase completamente curado quando chegamos em casa. Eu já conseguia falar normalmente, mas ia demorar um pouco até que minhas plumas crescessem de modo que eu pudesse voar sem problemas.

De todas as partes do corpo de um leedwee, ossos e plumas eram os que mais custavam tempo para se regenerar. Claro, o tempo levado para a cura completa variava de leedwee para leedwee.

Apesar da dor excruciante que senti, eu estava aliviada por Kris estar são e salvo, não só porque isso significava que eu ficaria bem, mas também pelo fato de que ver meu amo sofrendo me partia o coração, sentimentalmente falando.

O que aconteceu no beco foi algo que só vi em filmes de ação: labaredas de fogo gigantes que surgiam do nada destruindo um prédio inteiro, causando pânico nas pessoas.

Kris esteve perto da morte, e eu de virar cinzas, porém fomos salvos por uma misteriosa rajada de vento que desviou o fogo mortal. Os membros do jornal daquela noite estavam tratando aquilo como um atentado terrorista orquestrado por grupos radicais, provavelmente formados por jovens alienados. Lembro bem do termo usado por eles para se referir a essas pessoas: Anticonformistas.

As palavras da âncora foram que esses jovens se deixaram acreditar em histórias absurdamente mentirosas sobre atrocidades que supostamente ocorrem nos Centros de Domesticação. Eu não acreditei em sequer uma única palavra que aquela mulher de voz robótica fora obrigada a dizer por seus superiores. A cada dia que passava eu sentia mais medo e nojo dos Centros de Domesticação, alguns deles sendo grandes patrocinadores algumas das emissoras de TV mais influentes de nossa nação.

Anticonformista... Essa palavra havia ganhado força nos anos anteriores. Era geralmente usada para se referir às pessoas como a família de Kris, que acreditavam na igualdade entre humanos e leedwees e que achavam piamente que merecíamos direitos humanos. O termo era usado também para aqueles que não acreditavam na existência de Gaia ou Tyr, que consideravam ridícula a ideia de suplicar proteção à estatuas de bronze, que achavam tudo isso uma desculpa muito ruim para maltratar leedwees e que diziam não haver provas concretas de todas as histórias que nos contaram, a não ser livros escritos centenas de anos depois de tudo ter acontecido.

A família de Kris acreditava em Tyr, eram gratos pelo que ela fez pela humanidade, mas crendo que nós não deveríamos ser culpados pelos pecados dos nossos antepassados, muito menos pagar por crimes que nós, descendentes, não cometemos.

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Fomos recebidos por Katia angustiada por me ver naquele estado. Kris explicou o que havia ocorrido no Calçadão Comercial, o fogo, o pânico, a morte certa que nós evitamos. As palavras de Kris deixara sua mãe menos assustada.

Enquanto Kris se preparava para a festa, fiquei descansando na minha cama para acelerar minha regeneração. Até a horário que marcava o início da comemoração meu corpo estava curado.

A festa foi um sucesso. Muitos dos parentes de Kris compareceram, e eu pude reencontrar alguns leedwees que há muito tempo não via. Era muito bom encontrar outros como eu que não estavam acostumados a apanhar de seus humanos, para variar.

Havia muitas coisas gostosas para se provar, brigadeiros, salgados de frango, cachorros-quentes com molho, pipoca doce e salgada, creme de morango com pedacinhos de fruta e, para finalizar, um delicioso bolo de baunilha com recheio de creme. Kris comeu até se empanturrar, e eu, através dele, apreciei o sabor de tudo.

Os amigos de Kris também apareceram, os vizinhos, os colegas da escola, ele também se alegou muito ao ver que ganhara do pai o novíssimo console que acabara de ser lançado. Mas, de novo, algo estava faltando. Meg, assim como na escola, não compareceu à festa.

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Meghann Cobalto, ou simplesmente Meg, era uma menina baixinha, magra e loura de 10 anos. Tinha o rosto salpicado de sardas, lábios finos e rosados e olhos azuis. Em sua bochecha direita ela ostentava uma cicatriz vermelha em forma de lua crescente. Como sempre, ela estava sorrindo quando Kris se aproximou. Nas costas ela levava sua mochila lilás e nos braços um embrulho verde na forma de paralelepípedo, envolto em um laço vermelho. Havia nele um selo com os dizeres: "Para Kris, de Meg e Júpiter".

Meg mal esperou Kris chegar e correu para abraçá-lo com um dos braços, o outro segurando o presente. Quando o ônibus escolar partiu os dois foram se sentar juntos.

—Parabéns aniversariante! — disse eufórica — 10 anos! Enfim conseguiu me alcançar! Aqui — disse erguendo o embrulho. Kris sorriu recebendo o presente.

—Você não devia, Meg. Não precisava.

—Não ouse dizer o que posso ou não fazer! Vamos, abra! — disse a jovem, os olhos brilhando.

Meu amo desatou o laço e rasgou o embrulho de papel para ver o que tinha dentro. Era um exemplar de Contos de Fadas, de Enderson Corduroy. Senti que meu amo ficara corado e com o coração acelerado. Meg sorriu de orelha a orelha.

—Eu sei que você gosta de ler e vi que ficou de olho nesse livro quando passamos na frente da livraria do Sr Klay uma vez.

—Meg... Eu adorei! Muito obrigado! Mas esse...

—Não é o livro que vimos na livraria, né? — Meg o lançou um olhar de esguelha com um sorriso como quem dizia "É rapaz, eu sou demais!". Realmente não era o mesmo livro. O outro que vimos era mais fino e tinha a capa mole. Já este era maior e mais grosso, tinha uma capa feita de algo que parecia ser couro tentando imitar livros antigos. As letras eram grandes e douradas. No centro da capa havia uma figura dourada da silhueta de uma mulher com asas de membrana — Esta é uma versão estendida — continuou Meg — tem 102 páginas a mais!

—Uau! É incrível! Nem imagino o quanto deve ter custado! — disse Kris, boquiaberto, não conseguindo conter a emoção.

Meg desfez seu sorriso e lhe lançou um olhar furioso.

—Sério que está pensando em dinheiro? Cara, eu te dei um presente!

Kris imediatamente baixou a cabeça, desejando não ter dito aquilo.

—Ah...! Tem razão, foi indelicado da minha parte, me desculpe.

Meg sorriu e passou o braço pelo pescoço de meu amo.

—Ei, eu tô brincando. Relaxa.

Só naquele momento, com o braço da sua amiga o envolvendo, Kris percebeu que ele estava enfaixado. Meu amo observou melhor e notou que ela também tinha um longo e fino arranhão avermelhado na canela, e um vergão arroxeado no pescoço.

—O que houve? — perguntou preocupado.

—Ah, isso? — ela apontou para o braço enfaixado — Adivinha quem caiu da bicicleta enquanto voltava da livraria com seu presente? — ela riu — Fui desviar de uma pobre tartaruga que estava tentando atravessar a rua e bati em duas lixeiras paradas na calçada. Não é mesmo Júpiter?

—De fato — respondeu com voz pomposa. Só quando Meg se dirigiu a ele, percebi que estava ali, voando por cima dela. Júpiter era o leedwee da Meg. De cabelo e vestes alaranjadas, ele não era o maior exemplo de simpatia e não mostrava interesse em conversar com os outros.

—Bom dia, Júpiter. — Sorri, cumprimentando-o.

—Saudações. — respondeu seco. Ele estendeu um pequeno embrulho verde, do tamanho de uma caixa de fósforos, envolto em um cordão vermelho. Havia um pequenino selo impresso com os dizeres: Para Bluey, de Meg e Júpiter.

—Senhorita Meghann insistiu em lhe comprar um agrado — disse sem olhar diretamente para mim.

Olhei para baixo. Meg sorria.

—Afinal, também é o seu aniversário, certo? — disse a lourinha.

Senti um calor confortável em meu peito, e era uma sensação genuinamente minha. Nunca recebi presentes de pessoas que não eram da família de Kris.

—Eu fico muito agradecida, Meg — meu rosto corou.

Peguei o presente das mãos de Júpiter e rasguei o embrulho. Era um kit de limpeza de asas. Através da caixa transparente pude ver o que continha: uma escova de cerdas ultrafinas, um frasco de shampoo especial, uma tesoura para aparar e, por fim, uma loção para deixar as plumas macias e brilhantes, tudo em versão miniatura.

—Eu adorei Meg, muito obrigada. — Apesar de eu não precisar tomar banho, gosto muito de cuidar das minhas asas.

Meg tornou a se virar para Kris e disse:

—Por causa do meu pequeno acidente não dei notícias na escola e não pude ir à sua festa ontem. Me desculpa.

—Não tem problema.

Kris disse tentando não transparecer que seu dia só não fora 100% bom por não ter tido a companhia da sua melhor amiga e também porquê...

—Você estava no Calçadão Comercial durante o ataque?! — Meg boquiabriu-se de espanto — E quase foi queimado vivo?!

Kris confirmou.

-Cara, que tenso! Mas foi muito estranho o jeito que você foi salvo.

-Como assim? — Kris questionou intrigado.

-O lugar em que vocês estavam... Na verdade o Calçadão inteiro é cercado por prédios altos. Como uma rajada de vento tão forte que derrubou vocês pôde acontecer num lugar assim?

-Não sei. Estou mais curioso em saber como aquele fogo surgiu do completo nada.

A conversa perdurou até chegarmos a escola, mas nenhuma resposta para a questão veio à tona.

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Enfiei o kit que ganhei de Meg dentro da mochila de Kris e nós quatro seguimos em direção à sala de aula. Durante o percurso num corredor vazio Meg e Kris conversaram bastante sobre o livro novo da minha criança. Meg disse que lera algumas páginas da versão em pdf que ela baixou, e sobre como ficara surpresa e intrigada ao ler as histórias e contos sobre as lendárias fadas. Kris ia dizendo o quanto estava ansioso para começar a ler quando um garoto chegou dando um encontrão em nele, que foi ao chão, derrubando o livro.

—Acredita em fadas, Karino?! — vociferou o garoto. Era Arnon Trox, um dos colegas de turma de meu amo. Um garoto corpulento, quase sem pescoço, de cabelos castanhos e grossos, olhos pequenos e cinzentos e um largo nariz vermelho. Estava sempre implicando Kris por ser menor que a maioria dos garotos. Arnon se adiantou e pegou o livro do chão.

—Devolve! — berrou Meg, enquanto ainda estava de joelhos, ajudando meu amo a se levantar.

—Isto é história para bebês! Por quê lê isso, Karino?

Meg se levantou rapidamente e arrancou o livro das mãos de Arnon — Aprenda a pedir permissão antes de tocar em algo que não lhe pertence, Trox!

—Ah, dane-se! Não quero mesmo ser visto com um livro idiota para religiosos!

—Não é um livro religioso, só conta histórias antigas — disse minha criança.

—Que seja. Por outro lado, adoraria que você me acompanhasse até a sala, Meghann — Arnon abre um sorriso, lança um olhar malicioso e estende a mão esperando Meg aceitar o convite.

Meg bate na mão de Arnon, afastando-o — Não saio com garotos que não respeitam os outros!

—Prefere ficar na companhia desse Zé Ruela? — vociferou indignado.

—Mais Zé Ruela é você, seu brutamonte!

Arnon agarrou o braço da garota, o que não estava enfaixado, e apertou. Meg arregalou os olhos, sua boca tremeu e uma lágrima lhe escapou — Logo será minha, Meghann, não pode resistir a mim por muito tempo — ele a olha fixamente.

—Ora, isto é um absurdo! Pare imediatamente ou serei obrigado a notificar seu comportamento abusivo à uma autoridade da escola! — disse Júpiter em tom superior.

—Solta ela! — num ato de coragem rara e repentina, meu amo se pôs de pé e partiu pra cima de Arnon, lhe dando um empurrão. Nada aconteceu. Arnon era tão grande e meu amo tão menor em comparação, que Arnon seguiu parado segurando o braço de Meg.

Arnon olhou para Kris como um monstro faminto prestes a devorar sua pobre e frágil presa. Ele soltou Meg e se preparou para socar Kris. Meu amo cerrou os olhos, esperando o golpe, mas Trox mudou de ideia.

—Quer saber? Não! Vamos resolver isso de outra forma. Eu te desafio, Karino! Você, eu e nossos ajudantes nos fundos da escola depois da aula para uma corrida! Sua ajudante vai correr contra a Escrava. E é bom você aparecer caso não queira ser partido em dois!

Arnon se retirou em direção à sala de aula.

Quando menos esperávamos, uma leedwee de cabelo e vestes roxas se aproximou.

—Peço mil desculpas pelo comportamento do Mestre Arnon. Ele comeu pouco hoje, por causa da dieta que seus pais lhe impuseram, e está irritado com isso — disse ela com sua voz macia.

—Escrava! Vamos! — o grito de Arnon ecoou pelo corredor.

A leedwee se curvou em reverência para nós e foi em direção ao seu amo. Jujuba era a leedwee de Arnon Trox. Apesar de seu amo ser a criança mais desagradável que já conheci, ela era um amor, sempre prestativa, fazendo de tudo pelo seu humano. Vez ou outra conversávamos durante a aula e por isso ela se tornou uma das minhas melhores amigas. Arnon nunca a tratou bem, pelo menos eu nunca o vi, e um dos seus últimos atos contra ela foi dar-lhe o nome de Escrava. Eu não aceitei tamanha covardia, portanto continuei chamando-a de Jujuba.

Arnon Trox era um dos raros exemplos de anticonformistas que não acreditavam em Gaia, mas que eram maus e cruéis com seus leedwees por prazer, que se achavam superiores a nós por serem maiores e mais fortes. Não havia uma palavra para definir esse tipo de anticonformista mas eu os chamava de idiotas valentões.

Kris foi até Meg quando Arnon sumiu de vista. Ela estava de joelhos no chão, com as mãos sobre a cabeça, soluçando baixinho, os olhos arregalados mirando o nada, em choque.

—Meg? — chamou.

Meu amo a tocou no ombro e instantaneamente Meg recuou berrando:

—Não, por favor!!! Eu vou ser boazinha!!! — ela começa a chorar.

—Meg? O que foi? Sou eu, Kris!

Meg levanta a cabeça e olha para meu amo. Ela pareceu voltar ao mundo real pois ficou de pé num pulo e enxugou as lágrimas com a camisa — Podemos ir para a sala? — disse naturalmente como se nada tivesse acontecido.

—O que houve? Por que você estava chorando?

—Eu estava chorando? Nem notei. Deve ter entrado algo no meu olho, não importa. Arnon Trox é um babaca mesmo, vamos ignorá-lo.

—Mas e a corrida?

—Que corrida?

—Você não ouviu? Arnon Trox me desafiou para uma corrida entre leedwees, e que vai quebrar minha cara se eu não aparecer.

Meg ponderou por alguns segundos.

—Acho que você deve ir mesmo — disse com um sorriso malicioso — Ele é viciado em corridas de leedwees e está fazendo de tudo para entrar no time da escola. Ele sempre treina depois das aulas. A Bluey é a leedwee mais rápida que eu conheço e se ela conseguir vencer o Trox, vai deixá-lo de cara no chão.

O que Meg disse é verdade, eu era muito veloz, mas não consegui deixar de pensar que ela pode ter dito isso para desviar do assunto sobre seu estado de choque pouco tempo antes. Não pensei muito nisso pois tinha que me concentrar em ganhar a corrida!

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Eu não costumava conversar muito durante as aulas. Ainda que nós leedwees não precisássemos prestar atenção no que era explicado pelos professores, eu fazia questão de aprender tudo para auxiliar Kris nas tarefas de casa. Contudo não nos era permitido dar dicas durante provas, tanto que nessas ocasiões os professores nos mandavam para uma saleta que ficava na própria sala de aula. Entrávamos por uma portinhola em um espaço de cerca de dois metros cúbicos onde havia mini poltronas e versões em miniatura de jogos de tabuleiro para passarmos o tempo. Foi numa dessas ocasiões que conheci as corridas de leedwees. Kris tinha 5 anos na época e estava ocupado com um teste sobre cores e formas, enquanto isso fiquei num canto com os acompanhantes dos outros alunos. Eu conhecia a maioria dos presentes, mas não mantinha conversa com nenhum. Eu estava simplesmente sentada perto deles quando eles começaram a falar. As corridas eram parecidas com o atletismo dos humanos, com a diferença de que voamos e em vez de saltar obstáculos, precisávamos passar por dentro de minúsculas argolas espalhadas pelo percurso. Também há o adendo de que um leedwee chegar em primeiro não significa necessariamente que ele vá ganhar. Vencia aquele que somasse o maior número de pontos. Cada argola cujo leedwee conseguia atravessar sem bater ou errar valia 5 pontos. O leedwee que terminasse o percurso primeiro ganhava 50 pontos a mais, o segundo 40 e assim sucessivamente.

O esporte sempre foi muito popular, tendo até mesmo competições internacionais e chamando a atenção de apostadores. Claro, corridas clandestinas também ocorriam. Muitos amos se aproveitavam do fato de leedwees serem quase imortais para incluir obstáculos mortíferos, tais como argolas em chamas, pêndulos com lâminas afiadas, argolas eletrificadas, túneis estreitos com espinhos nas paredes, entre outros. Até mesmo davam objetos, como pedras, para os expectadores tentarem atingir e derrubar o corredor que eles menos gostassem. Tudo isso para deixar mais interessante para quem assiste, segundo eles. Uma crueldade sem escrúpulos. Sim, não podíamos morrer por causa desses obstáculos, mas sentíamos dor, muita dor.

A crueldade contra Leedwees infelizmente era algo muito comum no nosso país. Muitas pessoas ruins pensavam que podiam nos fazer mal simplesmente porque sim! Usavam a desculpa de sermos quase imortais para fazerem as coisas mais desumanas conosco. Já ouvi muito sobre casos de leedwees que foram torturados por puro prazer. Horrível... Horrível.

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Nos fundos da escola, em volta da pista de atletismo para humanos que ficava em volta do campo de futebol estava a pista para corrida de leedwees. Havia varias argolas de ferro com o mesmo diâmetro de uma bola de golfe, erguidos por finas barras de diferentes tamanhos, variando de 5 centímetros a 2 metros. Ao meu lado estava Kris, com uma coragem incomum, decidido a vencer Trox. Meg assistiria a tudo do alto da arquibancada com Jupiter, que estava com uma cara de quem chupou um limão. Bem a nossa frente estava ele, Arnon Trox, em toda a sua malevolência.

—Muito bem, Karino! Aqui está, um percurso oval de 700 metros com argolas a cada 10 metros! Eu pretendia não te bater hoje, mas meus pais idiotas me mandaram um sanduiche vegano pro lanche em vez do meu habitual hambúrguer, então me deu vontade de enfiar a mão em alguém. Portanto se eu vencer, te dou uma surra.

Senti minha criança suar frio e engolir seco. Apesar disso ele tentou manter a postura.

—E se eu vencer? — disse Kris.

—Você se livra de uma surra, simples assim. Vamos começar!

Jujuba e eu nos posicionamos no ar nas raias 3 e 4 respectivamente para dar a largada. Cerrei os olhos para me concentrar. Respirei fundo e me concentrei no objetivo: vencer. Deixaria meu amor por Jujuba de lado para evitar que meu amo se machucasse.

—Três...! Dois...! Um...! Vai!!!

Com o impulso das minhas asas, cortei o ar como um jato. Atravessei a primeira argola recolhendo minhas assas para que não colidissem na borda. Evitei olhar para trás para não perder o foco e continuei o mais rápido que pude... Na verdade tive que reduzir um pouco a velocidade pois quase errei uma argola logo depois de atravessar a anterior. Com agilidade eu atravessava todas as argolas. Estava na metade do percurso e não havia errado sequer 1 argola. Ainda nenhuma Jujuba a vista. Avistei a última argola e fui com tudo, finalizando a partida com o placar perfeito de 400 pontos!

Após uma breve comemoração, parei para olhar em volta. Jujuba ainda estava na metade do percurso e do jeito que Arnon estava ralhando, ela errara algumas argolas.

Arnon Trox estava com o olhar de alguém que não pôde acreditar no que acabou de presenciar. Ele olhava para mim completamente surpreso, boquiaberto, assim como meu amo. Após sair de seu estado de choque, Trox fechou a cara e lançou um olhar furioso para a minha criança.

—Trapaceiros! — Trox agarrou Kris pelo colarinho e o ergueu — Você viu o que aconteceu! Sua criada atrapalhou a Escrava! Não valeu!

—Mentira! Bluey não fez nada! Ela saiu na frente e ficou em primeiro a corrida toda, como pode ter atrapalhado? — disse Kris.

—Não é óbvio?! Não viu a rajada de vento que atingiu a Escrava quando a sua criada largou?! Isso a desestabilizou!

—Isso nem faz sentido! Ela é pequena demais para provocar um vento tão forte! Deve ter sido uma ventania comum!

—Impossível! Além disso, viu como ela foi rápida?! Isso é descomunal! A Escrava é a mais rápida da escola e bateu o recorde dessa pista com uma corrida perfeita de 42 segundos! E a sua criada a terminou em 23! Admita que está dando anabolizantes para ela!

—Isso é ridículo! Aceite que perdeu, Arnon!

Arnon Trox berrou de fúria. Largou Kris e correu até Jujuba que nem havia terminado o percurso. Ele a agarrou no ar e atirou-a contra uma árvore — Sua inútil!!! — vociferou. Jujuba bateu no tronco com um baque e soltou um gemido de dor, em seguida caiu na grama.

—Jujuba! — gritei. Voei até ela é a tomei em meus braços — Jujuba? Você...?

—Vou ficar bem — disse rouca.

Senti que suas costas estavam moles e ela estava com dificuldades para respirar. Concluí que todas as suas costelas haviam quebrado. Isso era ruim.

Arnon me olhou com tamanha fúria que confesso que achei que ele fosse me partir ao meio.

—Você...!!! Como ousa chamá-la de Jujuba!!! O nome dela é Escrava!!! Eu sou o mestre dela, portanto todos devem se dirigir a ela pelo nome que eu escolhi!!! Principalmente a sua raça!!! Coloque-se no seu lugar, sua escória alada!!! Escrava! Levante voo imediatamente!

—Mas ela está ferida! — tentei.

—Silêncio!!! Tem sorte de não ser minha criada, se não... Escrava eu lhe dei uma ordem!!!

Jujuba se mexeu em meus braços. Sua feição era a de alguém agonizando de dor.

—Tudo bem, Bluey. Estou bem.

Jujuba pôs-se de pé com dificuldade e tentou bater as asas. Seu corpo tremia e estava se avermelhando. Com o máximo de esforço que pôde, ela voou, gemendo de dor. Foi até Arnon e disse rouca e fraca:

—Estou ao seu dispor, mestre...

—Ande logo que o torneio é hoje a noite, então trate de ficar boa logo se não quiser correr com os ossos quebrados!

—Isso já é demais, Arnon! Ela está sentindo dor! — disse meu amo.

—Cala a boca, Karino! Você diz como se elas não fossem imortais! Se meta com a sua criada insolente, e ensine-a a aceitar seu lugar como inferior a nós!

Meg tentou correr até nós para fazer algo, mas Arnon já havia saído quando ela chegou.

Senti algo estranho em meu peito. Algo que nunca senti. Uma dor que me preenchia completamente. E não era Kris quem estava sentindo. Era um sentimento genuinamente meu.