Coração Inglês
3 Gente Enxerida, Beijos, Passeio e Um Pai Furioso
Notas iniciais
– Não é concebível, gente...– gania Ginevra, pendurada no batente da janela que dava vista para a quadra arborizada e observando a cena, com quase todos os alunos da escola ao seu redor assistindo também – não acredito no que meus lindos olhinhos estão vendo...
O queixo de Mila caía aos pouquinhos enquanto via o irmão abraçando carinhosamente sua melhor amiga, e não sabia se saía correndo pela Hermes, gritando que Josh finalmente desencalhara, ou se interrompia os dois, para avisar que metade da escola estava assistindo o romance nada discreto.
– Ah, não vai, não – Helena puxou a amiga pela gola da camisa quando Mila tentou entrar na quadra – deixe os pombinhos, estraga-prazeres.
– Eu só queria poupar os pombinhos de constrangimento, criatura nefasta, mas se você quer que eles se lasquem...
Nesse momento, Érica, a garota que repetira o ano na sala deles, chegou no corredor e quase morreu engasgada com o suco que bebia quando os viu. Assim que recuperou o fôlego, ela deu um gritinho chocado, que bastou para chamar a atenção de Raven, faze-la parar de abraçar Josh e olhar, surpresa, para o público que reunira.
– Epa – gemeu a garota, olhando constrangida e corada para Josh.
– Uh-oh – sorriu o rapaz, dando as mãos para ela e rindo. Raven riu também, mas não aguentou a vergonha e deitou a cabeça no peito dele, sem ter onde enfiar a cara.
Os alunos também riram, apreciando o susto de ambos, e Mila gargalhou, deliciada com a timidez que se desenhara no rosto de Josh. O rosto de Raven estava tão vermelho que parecia um rubi.
– Coitadinha... – riu Helena – O.K, cambada de inúteis, voltem á fazer o que faziam. Já vai ser bem constrangedor sem um bando de mexeriqueiros se metendo.
Os alunos amarraram a cara para Helena, mas mesmo assim voltaram para o pátio, ainda cochichando sobre o que acontecera, deixando Helena, Mila e Ginevra á sós com Raven e Josh.
– E aí, Raven? – riu Ginevra – Puxa. Nada mal para uma inglesinha apaixonada...
Raven não pôde evitar. Parecia que ia explodir de alegria. Ao ver o sorriso carinhoso de Josh e a expressão alegre das amigas, ela deu o mais lindo dos risos.
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Quem ainda não sabia o que acontecera na quadra logo ficou sabendo. Na penúltima aula, toda a Hermes e até alguns na vizinhança da escola já sabiam da novidade. Os que gostavam de Raven ficaram alegres; os que achavam
na menina uma pobre coitada levaram um grande susto seguido de risinhos solidários, e quem odiava a garota — incluindo as meninas que paqueravam Josh — ficaram indignados e com uma raiva equivalente.
– Que isso, gente... – riu Helena.
Raven estava tão feliz que mal conseguia conter; após o que acontecera, ela ficou exageradamente faladeira e risonha, e só conseguia sorrir quando alguém chamava um dos dois — fosse para brincar, parabenizar ou zombar.
Tudo isso tinha á ver com o rapaz que a abraçava ao seu lado; Josh parecia tão surpreso e feliz quanto ela.
– E então? – sorriu ele.
– O quê?
– Tenho que falar com meu futuro sogro sobre o namoro ou o quê?
– Não – a mera possibilidade de um dia Josh poder chamar seu pai assim a maravilhou; ela deu um largo sorriso, seguido de um espasmo de alegria – eu falo com o coroa.
– Beleza. E quem fala com os meus pais? Eu estou fora – brincou Josh.
Raven fez biquinho e fingiu mágoa. O rapaz balançou a cabeça, rindo gostosamente.
– Coitadinha da minha menina.
Raven congelou e sentiu a boca tremer. “Ele disse que eu sou a garota dele... uau...”.
Josh se assustou ao ver uma lágrima escorrendo pelo rosto da menina.
– O que foi, Ray? Tudo bem? – arfou o garoto, segurando-a.
– Tudo – Raven riu, envergonhada – é que... eu estou feliz.
– Xi... que melosa – brincou Mila.
– Não... é que, sabe... eu nunca tive amigas. Não de verdade, como vocês – Raven fez um gesto para Mila, Helena e Ginevra, sorrindo – é sério! E... nunca... – ela olhou para Josh, e o sorriso aumentou, apesar de ficar meio vacilante – nunca gostei de um garoto. Muito menos desse jeito.
– Nunquinha? – indagou Josh; pela primeira vez, ele parecia abobado e envergonhado ao mesmo tempo.
– Never – a garota riu, e, vencendo a timidez, deu um gostoso abraço no rapaz – I love you very much, know.
– Não entendi, amor – sorriu Josh, confuso.
– Ela disse que te adora, seu jumento – respondeu Mila, revirando os olhos e quase batendo nele. As meninas caíram na risada, mas pararam ao ver a cara séria de Raven, fuzilando Mila com os olhos, e a menina completou – o quê?
– Não xingue ele, Mila.
As meninas se entreolharam e olharam para Raven. Ela não parecia estar brincando.
– Ray... – suspirou Josh, assustado – não precisa disso... ela falou brincando, não faz isso...
Raven se recompôs e percebeu que fora meio longe.
– Desculpa aí, Mila. Foi mal – desculpou-se a menina.
– Não, você tem razão. Eu tenho mesmo que segurar essa minha língua, ou vou acabar no pronto-socorro um dia desses.
– É. E a Ray vai presa – brincou Josh – se um dia você parar no hospital cheia de hematomas, escoriações, ou qual seja o nome da caca, com certeza vai ter sido ela.
– Não acredito – riu Ginevra — esses dois não se conheceram nem um mês e... sinistro...
– Pastel – gemeu Helena, pondo a mão na testa. Todos riram.
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Raven chegou aos pulos em casa, e a primeira pessoa que notou diferença nela foi a Sra. Summer, que barrou a
filha logo que ela entrou.
–What’s happened, Raven?
A menina balançou os braços antes de dizer tudo de uma vez, com um ar todo maroto.
– Boyfriend.
A mulher ficou tão chocada que voltou a falar português.
– Você... arrumou um namorado? – o tom da Sra. Summer era de quem dizia, brincando, “nossa, mas já?”.
– É... ai, mammy... eu estou tão feliz!
– Ah, querida – ela sorriu — que bom que você está feliz com isso.
– Ué... você não vai brigar? – Raven estranhou. Sempre que pensara nos pais e na palavra “namorado” no mesmo cômodo, sempre imaginara que o resultado fosse um sermão sobre responsabilidade, alguns “você é muito nova pra isso”, entre outras coisas de deixar qualquer adolescente louca. Foi um choque para ela ver a mãe aceitando tão tranquilamente a novidade.
– E pra quê, filha? – a Sra. Summer deu um sorrisinho alegre — Você sabe o que é bom para você. Se você gosta dele, eu também vou gostar.
– Sabe, mãe... é que... – a menina suspirou – lembra da Sra. Santos, que você viu na Reunião de Pais da semana passada?
– Sim. Por quê?
– A filha dela é minha amiga... a Mila... e o filho dela... é o meu namorado.
Raven continuou a estranhar quando a mãe riu.
– Você tem ótimo gosto para escolher suas companhias, Ray. Os Santos são pessoas de bem e humildes. Agora eu sei que não tenho que me preocupar.
– Como é a coisa aí?
Bob chegou no corredor, com os olhos na folha de redação de Português que Raven fizera com Josh na escola, que estava nas mãos da menina.
– Estou namorando, Bob.
– Eca – brincou o menino – não chegue perto de mim. Não quero me contaminar.
– Vai tomar banho, pilantra – riu Raven.
– E... você vai contar pro daddy?
Raven mordeu o lábio e se xingou mentalmente, olhando súplice para a Sra. Summer em seguida.
– Mãe...
A mulher revirou os olhos.
– Okay, filha. Eu falo com ele.
– Valeu, mãezinha! – agradeceu a menina
Raven entrou no quarto e caiu de costas na cama, quase esmagando Chuchundra, que estava no travesseiro roendo uma semente. O hamster virou o focinho para ela como se também estranhasse o ar todo alegre da dona.
– Ah, Chuchundra! Está tudo melhorando agora!
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No dia seguinte, Raven chegou na escola quase dando piruetas de alegria, e foi com essa felicidade que cumprimentou Mila na entrada e abraçou as colegas.
– Uau, Ray... que aconteceu com você, mulher?
– Tá na cara, não é, Helena? – disse Ginevra, risonha – é o coração apaixonado.
– É o coração inglês — completou Mila, rindo.
– Ah, calem-se – sorriu a menina, balançando a mão em sinal de reprovação divertida.
– Falando no diabo... – Helena sorriu alegremente ao olhar para trás – olha seu Romeu ali, Raven.
A menina corou loucamente quando se virou e deu de cara com Josh, que estava atrás dela, a boca dele á meros centímetros da dela.
– Oi, linda.
– Oi... – ganiu a menina, sentindo avermelhar mais ainda.
– Ah, pelo amor de Mel Gibson, Ray... vocês já são namorados e você ainda está com vergonha de dar umas beijocas nele? Tem dó, né? – Ginevra balançou a cabeça — Agarra logo esse estrupício!
– Cala a boca, garota. Não deixa minha gata encabulada – brincou o rapaz.
Porém, para surpresa dele – e de todos que olhavam – Raven o puxou para perto pela gola do uniforme e chapou-lhe um beijo carinhoso na boca. O rapaz ficou tão chocado que a momentânea desorientação o fez retribuir tão exageradamente á ponto de levantar Raven no alto.
As meninas ficaram petrificadas de choque, mas riram logo em seguida, fazendo coro com as risadinhas apreciativas dos outros alunos.
Mesmo quando Josh soltou a garota, Raven continuou abraçada ao rapaz, piscando para Mila, que quase chorava de rir com toda a bagunça.
– Você quer me matar de vergonha, hein? – disse Josh, fingindo chateação.
– Ai... não, Josh... – riu Raven, a voz propositalmente infantil – desculpa, tá bom?
– Não desculpo, não! – brincou Josh, beijando-a levemente outra vez – se eu soubesse que você ia levar o precário comentário dessa pestinha á sério, já tinha dito isso antes. Teria me poupado um bom tempo entre um beijo e outro,
sabe?
Raven revirou os olhos, sorrindo. Mas quando olhou para a entrada da Hermes, arfou audivelmente. As meninas e Josh também olharam.
Amanda estava segurando um balde cheio de água com multiuso e um pano – com certeza, parte de seu castigo.
Quando olhou para Raven, a garota sentiu um frio desagradável e amedrontado na barriga. Ela não disse nada, mas os olhos de Amanda não mentiam; a garota parecia querer pegar a coisa mais pontuda que achasse próxima e enfiar na garganta de Raven.
– Urgh – ganiu Helena, numa careta enojada – eu detesto ela, sabia? Ah, relaxa, colega...- completou ao ver Raven se encolher com a expressão assassina de Amanda – se ela quiser te estrangular, vai ter que passar pela gente primeiro.
A menina sorriu, se reconfortando com a ideia e tomando coragem para mostrar a língua para Amanda, que nessa hora quase largou tudo e correu para cima dela. O inspetor lhe deu um cutucão e escoltou-a para o outro pavilhão.
– E aliás – riu Mila, erguendo a sobrancelha – o seu príncipe cavaleiro não vai deixar ninguém encostar em você.
Raven estreitou os olhos para a amiga, desconfiada.
– Você não está tendo pensamentos ridículos sobre mim e Josh, não é, colega?
– Eu não – Mila deu uma risadinha – só estou sorrindo.
– Sei – Josh deu um sorriso pouco convincente – conheço esse seu “sorriso”, Mila. O sorriso “ah, eu pego vocês no fragrante um dia...”. Aff, que trouxa. Eu sou um covarde, e essa coisa linda aqui (Raven corou quando ele disse isso) é tímida até não poder mais. O nosso namoro é bem diferente, pra ser sincero.
“Na verdade, impossível”, pensou Raven, com carinho. “Mas aconteceu”.
– E aí, Ray... está livre pra sair comigo hoje depois da aula?
A garota engoliu em seco, chocada.
– Sair.. com você? – repetiu ela num fiapo de voz, dizendo “sair” como se fosse uma doença misteriosa — sério?
– Só se você quiser, claro.
– Ah, Josh! – ela sorriu — Claro que sim!
– Beleza. Ás duas e meia, no parque, O.K.?
– Certo. A gente se vê lá, então – Raven deu um rápido beijo na bochecha do rapaz e correu para a sala – tchau!
– Tchau – despediu-se Josh, antes dela virar o corredor.
– Espera um tiquinho, Príncipe Encantado – Helena disse para o garoto, levantando as mãos como quem vai parar um trator – qual é a do encontro no parque?
Josh, em vez de responder, simplesmente sorriu.
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Raven chegou no portão do parque rolando os olhos em todas as direções, procurando Josh, mas não viu ninguém.
Ela deu uma espiada no relógio do celular; já eram duas e trinta e cinco.
A menina sentou-se na beirada de uma passarela de concreto e cruzou os braços, com um medo se agitando fraquinho na garganta.
Após quinze minutos, Raven concluiu, com um nó na garganta, que levara um bolo do rapaz.
– Ray! Ei, Raven!
A garota sorriu, aliviada, e olhou para o portão; Josh vinha correndo em sua direção, e assim que o rapaz chegou até ela, segurou suas mãos num gesto de quem pede desculpas.
– Desculpa, anjo... eu peguei o ônibus para chegar aqui, mas o desgraçado quebrou lá na avenida, e tive que andar até o outro ponto e pegar um micro-ônibus infernal... e como se já não fosse o suficiente, o trânsito está feio hoje.
Desculpa pela demora.
– Tudo bem, Josh – riu Raven, apesar de ainda se sentir meio magoada pelo susto – eu esperaria mil anos, se precisasse.
– Mila tem razão. Você é melodramática – brincou Josh, revirando os olhos – podia ser atriz mexicana..
– Essa Mila ainda me mata. Aliás, aonde nós vamos?
Josh tirou algo preto do bolso de sua calça jeans. Raven olhou de perto e viu que era uma venda.
– Sinto muito, Ray... é que é surpresa — sorriu o rapaz, dando a venda para Raven. A menina sorriu e amarrou-a sobre os olhos.
– Olha, eu estou ceguinha... me segura, pelo amor dos filhinhos que você ainda vai ter...
– Claro, senhorita – Josh riu e puxou-a pela mão para frente.
Após alguns minutos, Raven sentiu Josh parar.
– Pode tirar.
A menina obedeceu; quando viu o lugar, porém, quase chorou.
Raven nunca vira aquela parte do parque; era cercada por plantas e declinada, como se estivesse no fundo de um buraco grande e raso. Um laguinho corria á poucos metros, aonde, na outra margem, um sagui bebia água. Para completar, uma rocha em forma oval estava á beira do lago, rodeada por flores.
– Josh... é lindo!
– Eu descobri esse lugarzinho na semana passada. Achei que era o melhor lugar para começarmos nosso “passeio”.
– E tinha razão – sorriu a menina, admirando aquele pedacinho do parque que ninguém conhecia – é ótimo, Josh!
Ambos se sentaram na rocha, enquanto olhavam o pequeno sagui subir numa árvore e desaparecer de vista.
– Josh... – Raven riu, envergonhada – vai me achar uma tonta, mas... o que nós fazemos em um encontro?
– Fácil – Josh sorriu, um pouco malicioso – só três coisas... beijar, namorar e beijar.
– Ui ..
Ela deu uma risadinha tremida antes do rapaz puxá-la para si e beijá-la. Para seu susto, porém, o beijo que começou inocente ficou aos poucos mais apaixonado e ansioso; á medida em que Josh finalmente a soltou, Raven arfava feito quem disputou uma maratona. Ele também arfou, os olhos brilhando, e riu.
– Estou tonta – disse Raven, com a voz fraca, sorrindo.
– Somos dois. Mas eu não vou parar por aqui, não... – Josh a puxou de volta e a beijou outra vez. Raven estava alerta dessa vez e reagiu abraçando o rapaz com toda a força que pôde. Josh gargalhou quando os dois caíram.
– Qual é? – riu a menina, deitando na rocha ao lado de Josh, ambos de mãos dadas.
– Está gostando, é?
– É o melhor passeio que já fiz. É perfeito, Josh – sorriu Raven para ele.
Josh avermelhou quando ela disse isso.
– Não foi nada de mais... já vinha planejando, sabe...
Raven tocou o nariz dele, e o rapaz pareceu ficar ainda mais vermelho. A menina sorriu, feliz de saber que não era a única envergonhada e indecisa.
– Então, Senhor Galã, aonde nós vamos agora?
Um sorrisinho ardiloso apareceu no rosto dele.
– Espere só pra ver...
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– Miau... – riu Raven – que lugarzinho mais... chique.
Josh fez uma careta divertida, olhando para o teto.
A próxima parada era em um restaurante, que, percebia Raven, não era nada barato. Com isso, a menina se sentiu culpada por saber que Josh estava gastando dinheiro com ela só para vê-la feliz.
Numa tentativa humilde de não abusar da bondade dele, a menina tentou recusar todos os pratos possíveis, mas Josh, sorrindo, queria pedir mesmo assim quase tudo que estava no cardápio para ela.
– O que vão querer, meninos? – indagou a garçonete.
– Uma pratada de filé de frango para mim, e... o que vai querer, Ray?
– Nada, não — Raven encolheu os ombros e tentou achar a coisa mais barata do cardápio — Talvez uma saladinha de alface – ela completou com uma vozinha humilde e modesta. Josh revirou os olhos, sorrindo.
– Uma pratada pra ela também, com a salada, no capricho. E dois copos de milk-shake de morango, por favor.
– Certo. Aguardem um pouquinho – sorriu a mulher, saindo da mesa deles.
Raven esperou a garçonete se afastar para lançar um olhar venenoso para Josh.
– Que foi? – riu o rapaz.
A menina fingiu estrangular a voz, como quem vai pirar.
– Você... pediu... uma... pratada. Seu mané – brincou Raven – com o dinheiro do preço da pratada desse restaurante, eu faço as compras de um ano no shopping. Oh, Deus... – ela suspirou, meio chateada – não gaste dinheiro comigo, Josh. Não precisa disso.
Josh torceu a boca, mas não disse nada. Em vez disso, pegou a carteira e abriu-a, mostrando para Raven o que havia lá.
A menina gemeu: dois maços enormes de cédulas de cinquenta reais estavam aninhados no bolso da carteira.
– E tem mais de onde esse aqui veio – o menino deu uma piscada travessa.
– E o que é isso no outro bolso? – Raven indicou o bolso ao lado do que tinha o dinheiro.
O rapaz puxou o que havia lá e mostrou para ela. Raven gemeu de novo.
– A minha foto?
– É – Josh sorriu outra vez – quero me lembrar de você onde quer que eu esteja, sabe. Me dá um alívio saber que essa belezinha aqui na foto é minha e de mais ninguém...
A menina não se controlou e beijou o rapaz. Os dois só pararam quando as pratadas chegaram, enquanto a garçonete assistia com gosto o beijo deles.
– Desculpe atrapalhar, pombinhos – a mulher brincou, sorrindo – aqui estão os pratos.
– Obrigado – agradeceu Josh, envergonhado e vermelho de falta de ar.
– Ai, ai, ai – bufou Raven – é a segunda vez que eu quase mato você de te beijar...
– Me mata, então – Josh sorriu, com um ar meio agitado e malicioso.
– Sem graça – a garota revirou os olhos, rindo, e deu uma garfada no frango. Josh a olhou enquanto comia, com uma expressão estranha no rosto. Raven notou e parou de comer.
– O que eu fiz? – “só faltava eu ter feito algo errado”, gemeu ela mentalmente.
– Nada – o menino deu um sorrisinho meio encabulado – só estou vendo como você trucida o pobre frango.
A menina estreitou os olhos, pouco convencida.
– Josh...
– Ah, está bem – ele riu – nossa, isso está entalado na minha garganta desde que eu te conheci, e agora não sei como dizer sem ficar piegas. Ai, céus... isso, sem a mais remota dúvida, vai sair piegas. Mas vou ter que desembuchar...
O lábio de Raven tremeu. A garota o olhou, assustada, e tentou se distrair tomando o leite com morango. Ela murmurou pelo canudinho:
– O quê?
– Bom – Josh pareceu avermelhar, envergonhado – olha... eu adoro você, Ray. Tipo... eu acho que te amo.
Raven tentou segurar, mas não pôde; sentada ao lado de Josh, a menina enfiou-se no ombro do rapaz, com carinho.
– O que, Raven? – arfou Josh, abraçando-a.
– Isso era o que eu rezava para ouvir desde o começo do ano – ela murmurou, rindo.
– Ei, ei – o rapaz a afastou devagar, para que Raven o olhasse – não é o fim para você, é?
– Fim? Fim? – a garota agora gargalhava – ah, Josh... é só o começo..
– Está bem, Srta. Timidez – sorriu ele – coma logo, já está esfriando. Aliás, o que vai ser de sobremesa?
A menina olhou para a carteira dele, com um estranho ar de desdém. Josh notou na hora.
– Sim, mocinha – brincou o rapaz – eu vou pagar, e não há nada que a donzela pode fazer para impedir esse extremo ato de crueldade monetária, com uma cédula novinha de cinquenta reais.
– Que horror – Raven fingiu choque e desolação, colocando a mão no rosto – aliás, Josh, aonde você descolou essa grana? – havia uma leve e fingida nota de cobiça na voz dela — Roubou o Banco Central?
O menino riu.
– Papai ganhou um bônus de dois mil reais no emprego. Deu duzentos só para mim. A Mila ficou com cinquenta. Ah, Mila, se lascou. Você tinha que ver a cara dela quando viu minhas notas.
– Coitadinha – Raven sorriu, alegre, e deu uma facada exagerada no filé. Josh pegou sua mão livre e a segurou. A menina abriu ainda mais o sorriso e suspirou. “Que dia...”.
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– Uau, aquela torta de morango era divina – Raven deu um tapinha divertido na barriga e fingiu lamber os beiços — Valeu, Josh.
– Imagine – o rapaz abriu aquele seu sorriso aliviado e alegre.
– O.K., e como eu vou para casa? Ai, ai, eu não conheço aqui...
– Ora, ora! – ele riu, fazendo uma expressão surpresa – e quem disse que o passeio já acabou?
Raven fez uma careta de choque.
– Não acabou, não?
– Nem pensar...
Raven passou o dia ao lado de Josh, indo á lojas, observando vitrines, correndo com ele loucamente pelas praças e assistindo peças de teatro, apresentação de street dance e de música que aconteceram nas ruas em que passavam.
Na altura em que voltaram para casa, já estava anoitecendo e ambos ainda devoravam o segundo sorvete do dia.
Os meninos desceram do ônibus e foram para a casa de Raven. Á porta da residência, a menina se virou para ele com o melhor sorriso que pôde dar.
– O passeio foi maravilhoso, Josh. Obrigada.
– Não. Eu que devia agradecer.
– Por quê? – indagou ela.
– Por poder ter ficado ao meu lado. Eu também adorei... sair com você.
A menina ficou muito corada, mas se controlou e o abraçou, desta vez sem desespero e com calma. O rapaz retribuiu e levantou seu rosto com a mão. Raven aproveitou para beijá-lo demoradamente; assim que se separaram,
Josh sussurrou “até amanhã!” ao seu ouvido, virou-se para a rua sorrindo e desapareceu no escuro.
Raven entrou em casa, alegre, despreparada para ver o pai com os braços cruzados e uma expressão condizente com a de quem levou uma lambada de uma mula.
Ela olhou, mordendo a língua, para o relógio; eram nove horas, quatro a mais do que o horário em que já devia estar em casa.
– Para o seu quarto. JÁ!!
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