Coração Inglês
4 Conversas Entre Irmãos, Beijos Sem Hora Marcada e Gracinhas
Notas iniciais
– Putz... você está de castigo? – gemeu Ginevra.
Raven fez aquela sua expressão enlouquecida de quem ia esquartejar alguém.
– Eu demorei só quatro horinhas á mais. Quatro horas! E o infeliz me bota de castigo por um mês inteiro como se eu tivesse fugido de casa ou coisa parecida. Argh! Eu mereço! Um mês lavando louça e sem o Playstation 2. Era só o que faltava!
– Bom, não posso dizer que você foi uma anjinha... – comentou Helena — você disse que já estaria em casa em uma hora e chegou em outra...
– Tá, Lena, cala a boca – brincou Mila, dando um cutucão de leve no nariz da amiga – mas, mudando de assunto, como é que foi o “passeio”? – completou ela, com uma inconfundível nota de malícia e ironia na voz.
A garota suspirou alto.
– Maravilhoso.
Mila revirou os olhos, com uma expressão irritantemente maliciosa.
– Xi... lá vem...
– Sério – Raven sorriu, relembrando o dia anterior – por outro dia como esse foi, eu jogaria o videogame no lixo.
Mila deixou o queixo cair, olhando para a amiga como se ela estivesse seriamente doente.
– O... que... ele...fez?
– Nada. Só planejou um dia perfeito pra mim. Acho que se toda menina tivesse um namorado desse... – brincou ela.
– Ah, e as beijocas? – quis saber Helena, os olhos saltando das órbitas de curiosidade.
Raven deu um estranho sorriso deliciado, e rodou a cabeça antes de responder.
– Acho que não tenho coisa melhor para fazer do que beijar ele. Não... decididamente não há coisa melhor que isso.
– Falando em coisa melhor pra fazer e coisas não deprimentes... – gemeu Ginevra, girando o pescoço quase uns cem graus, como uma coruja, em direção ao portão da Hermes, e fazendo uma careta de desagrado. — lá vem uma coisa deprimente
– Essa não – ganiu Helena.
– Ai, meu Pai do Céu – Mila engoliu em seco.
Raven também olhou, e sentiu um calafrio na espinha. Amanda estava encostada na grade do portão, com os braços cruzados e a velha sombra de ódio nos olhos, ao olhar para Raven. A menina também arfou; tinha quase certeza que, se houvesse oportunidade, Amanda iria esquartejá-la e esconder os pedaços no forro do banheiro.
– Ah, tá... riu Helena, dando um tapinha de encorajamento no ombro de Raven – lembra, Ray... se ela mexer com você, vai mexer com a gente. Não se preocupe á toa.
Amanda parecia querer resolver aquilo ali e agora, mas nesse momento Josh surgiu atrás de Raven e a abraçou pela cintura, arrepiando-a toda. Amanda amarrou a cara para o rapaz e entrou no pavilhão.
– Oi, Josh – cumprimentou-o Raven, com uma sincera nota de chateação na voz. Josh pareceu perceber.
– O que aconteceu com ela? – o rapaz indagou para Mila, assustado.
– Ah...- Mila fingiu perder o fio do pensamento.
– Você, seu cretino, fez a Ray chegar tarde em casa, e agora ela está de castigo. E a culpa é toda sua, garoto! – respondeu Helena, nervosa, quase enfiando o dedo indicador na córnea do rapaz...
– Helena! – exclamou Raven, indignada – espera, Josh – ela se virou para ele – a culpa não foi sua...
– Foi, sim – Josh suspirou, uma expressão envergonhada e arrependida no rosto – me perdoe, Ray, é que eu só queria te dar um dia legal. Eu não sabia, me desculpe...
– Não, Josh. Você não fez nada de errado – disse Raven para ele, amarrando a cara para Helena – você queria me dar um dia legal, e conseguiu. A culpa é dessa descerebrada que eu sou, que nem tem a decência de usar um relógio quando sai.
Mila e Ginevra riram baixinho. Só Helena parecia aborrecida com o fato de Raven defende-lo.
– Você gostou? Mesmo? – sorriu Josh.
– Eu já menti pra você? Tá, não responde – brincou a menina – foi ótimo, Josh. Meu aborrecimento, vai por mim, é outro – ela completou olhando para Amanda, que ainda estava encarrapitada no portão do pavilhão.
Josh olhou para ela e bufou com uma expressão colérica que assustou Raven.
– Aquela nojenta imprestável – bufou ele – só alguém retardado mesmo como ela jogaria uma colega contra a lousa da sala de aula – o rapaz engoliu em seco como se só a lembrança lhe desse um nó na garganta.
Raven percebeu isso e quase se derreteu de carinho, sentindo o rosto esquentar.
– Ei, cara da marra – brincou a menina – você anda bem mal educado. Nem me deu oi e já vai me abraçando, mané.
– Ah, hum... oi – Josh sorriu, com uma cara tão envergonhada que Raven torceu a boca para não cair na risada.
– Cretino – murmurou Helena, bufando com vontade.
Raven revirou os olhos. Foi pega de surpresa quando Josh a pegou no colo e beijou seu rosto. A menina deu um gritinho divertido e fingiu se debater para escapar dos braços dele.
– Socorro! Polícia! Me solta, seu doido! Alguém me ajude!
Josh deu uma risada gostosa antes de calar os fingidos pedidos de socorro da garota com um beijo carinhoso e demorado.
Quando finalmente a pôs de volta no chão, Mila revirava os olhos, Helena ainda estava com cara de peixe morto e Ginevra dava risadinhas descontroladas.
– Ei, aurora da vida do Josh... dá pra ter um mínimo de compostura? Quantas bilhões de vezes vou ter que implorarpara vocês não se agarrarem em público, cacilda!?
– Vai se lascar, Mila – Josh amarrou a cara para a irmã, chateado.
– Detesto dizer isso, Mila, mas concordo com o Jojo.
Josh fez uma careta dramática e hilária, fingindo repulsa. Ele arregalou os olhos para Raven.
– Jojo? Jojo?? Tenha dó, Ray!
As meninas riram. Raven deu um sorriso envergonhado.
– Ei, gatinha, não precisa corar... estou brincando. Me chama do que você quiser.
– Até de “Joshinho”? – brincou Ginevra.
Helena estava começando a ficar púrpura de tanto rir.
– Não exagera – respondeu o rapaz calmamente – quer saber... “Jojo” é bem mais romântico.
– Bom... – Raven suspirou num inconfundível ronronar que podia bem se passar por sedutor – posso achar algo mais chique, se você quiser.
O menino riu com gosto, fingindo se encantar loucamente com o jeito dela.
– Sua t... – riu Mila, por pouco gritando algo nada inocente.
– Dá pra parar com o papo aí? Temos que ir pra sala, povo! – ralhou Ginevra.
– Estraga-prazeres – resmungou Raven ao ouvido de Josh. O rapaz riu e a abraçou pela cintura, enquanto ia em direção á sala de aula.
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– Oi, Maria do Castigo.
– Vai tomar banho, Bob.
Raven estava olhando sonhadoramente para seu PlayStation 2, certamente imaginando quantos milênios ficaria sem jogá-lo.
Bob sentou do seu lado, com uma expressão meio aborrecida e ao mesmo tempo brincalhona.
– Well... – riu ele em inglês — is true? You have a boyfriend? (Bom, é verdade? Você tem um namorado?)
– Yes – respondeu a menina, com um leve ar desdenhoso e aborrecido — why? (Sim... por quê?)
– He is... – Bob ficou um pouco sem graça de perguntar – he is cool? (Ele é... ele é legal?)
– Not just cool – Raven suspirou, deixando claro que Josh era mais que um menino legal – he is handsome... .wonderful... (Não apenas legal... ele é bonito, maravilhoso...)
– O.K, he is a god... for you, of course. If he is the love of your life, I no will go say what this is lie (OK, ele é um deus... para você, é claro.Se ele é o amor da sua vida, eu não vou dizer que isso é mentira). – completou Bob, se servindo das torradas que haviam na mesinha ao lado.
– Thanks, Bob. Is good having a comprehensive brother like you (Obrigada, Bob.É bom ter um irmão compreensivo como você.). – brincou a garota, também pegando uma torrada.
– Oh... daddy said what you can... play the PS2 (Ah... papai disse que você pode... jogar o PS2.). – avisou ele.
A menina ficou tão chocada que voltou a falar português.
– Ele disse que eu posso sair do castigo?
– É – Bob fez uma estranha careta – os dois discutiram sobre você hoje. “Ela está vivendo o primeiro amor dela, Jay. Não pode impedi-la. E daí que ela se atrasou um pouco?” Daí papai deu aquele sermão, falando que só se preocupa com seu bem estar e com o do seu namorado. Sério. “Nove horas da noite, sozinhos, indefesos, o pior poderia acontecer, Cindy!” Mamãe disse o como você gosta dele, coisa e tal... mas quando ela falou que ele era da família da sua amiga, ele se acalmou na hora. Disse o cara depois que não estava mais preocupado e que foi injusto com você, pois nem deixou você se explicar. “Eu confio nos Santos. O filho deles, pelo que vi, é um bom rapaz. Tem razão, Cindy. Ele cuidou e vai cuidar bem dela”. Enfim, eles se entenderam, tua ficha e a do seu namoradinho estão limpas, você saiu do castigo e pode ir pra onde quiser com esse tal moleque com cara de Ralph Fiennes que tem problemas de pontualidade.
Raven revirou os olhos.
– O Josh não tem problemas de pontualidade, cabeção. Fui eu que fiz o coitadinho se atrasar.
– Que seja – Bob balançou os ombros, e olhou em seguida para o videogame –ei, Ray... vamos jogar uma partida deTest Drive? Quem perder paga um sorvete pra quem ganhou!
– Demorou. Vai pegando seu dinheirinho, neném – riu a menina, já com o controle nas mãos. Bob riu antes de colocar o CD no videogame.
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Raven chegou com uma expressão absurdamente feliz na escola, no dia seguinte. Tal era sua alegria que Mila e as garotas logo a cercaram, esperando a colega contar a novidade.
– O que foi, Ray? Está toda alegrinha hoje...
– Saí do castigo – Raven foi logo contando – e posso namorar o Josh em paz, agora.
– O que tem eu aí? – riu uma voz no seu ombro. A garota riu, á tempo de sentir Josh abraçando-a por trás.
– Ei, moleque. Adivinha só.
Josh deu um sorrisinho, e fingiu se concentrar como um vidente tentando adivinhar algo.
– Minha bola de cristal está sem pilha. Sinto muito – brincou ele.
– Engraçadinho... – Raven deu um risinho baixo — O.K., enfim, papai disse ontem que não estou mais de castigo. Com isso, presume-se que... dois pontos!
O rapaz deu um sorriso encantador de esperança e animação.
– Ele aprovou nosso namoro de uma vez? – disse ele, os olhos dilatados.
Raven segurou o rosto dele entre as mãos, sua boca á centímetros da dele.
– Leia os meus lábios para não correr o risco de não acreditar, cara. Sim, ele deixou a gente mandar ver.
A expressão de felicidade dele era tão linda que Raven quase ficou tonta de ternura.
– Eca – riu Ginevra, olhando a “conversa” visual dos dois – dá um tempo, gente.
Helena bufou, revirando os olhos, quando Josh beijou Raven. A garota, porém, levou um susto; aquele beijo estava tão animado e carinhoso que ela se sentiu tentada á ficar lá o dia todo; foi como se seu cérebro tivesse sofrido um backuptotal enquanto se beijavam. Ela se surpreendeu, quando se separaram, ao vê-lo tonto e arfante.
– O que... – riu Josh, sorrindo tontamente -... foi isso?
– E você me pergunta?? – gemeu Raven num ganido sufocado – você que me agarra feito um prendedor e eu é que vou saber que pedrinhas aconteceram com você?
A cara envergonhada do rapaz quase fez a menina agarrá-lo de novo.
– Dá licença, casalzinho feliz? – brincou Helena – vamos para a sala? Tem prova de Química hoje.
– Essa não! – Raven bateu a mão na testa – eu não estudei birosca nenhuma.
– Como se precisasse – Mila revirou os olhos – você é a mais inteligente da sala!
– Até parece – Raven deu um soco de brincadeira no ombro da colega. Todos deram risinhos, antes de irem para a sala de aula.
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Depois de uma longa aula de avaliação, da qual certas perguntas cabeludas quase faziam Raven sofrer um colapso nervoso devido ao ataque “eu-sabia-disso-mas-esqueci”, o sinal tocou, para alívio geral.
– É zero – bufou a menina, com uma expressão chateada.
Ginevra trazia no rosto aquela expressão orgulhosa que sempre irrita quem vê.
– Foi moleza.
Josh amarrou a cara para ela, que engoliu em seco.
– E você, xodó? – indagou Raven para o rapaz – quanto acha que tirou?
O menino fez um zero com os dedos, revirando os olhos, como quem está agonizando.
Helena se recusava com todas as suas forças á entregar a folha de avaliação para a professora.
– Espera, professora, só falta a fórmula daquela porcaria do césio, pelo amor de Deus!! Mila, por sua vez, tinha um sorriso esperançoso de quem acha que se deu bem.
– Tenho quase certeza que acertei aquela questão da tabela periódica.
– É bom mesmo – comentou Josh, com uma expressão assustada que fez Raven rir, de tão bonitinha; ele parecia uma criança consciente de que ia levar uma baita surra quando chegasse em casa – não precisamos de mais um zero. Papai já vai berrar bastante só com o meu. E ele vive dizendo que não cria antas em casa...
– Oh, bem – Raven deu um beijinho de consolação no rosto dele – não fica assim. Você não é nenhuma anta.
– Ih... – começaram as meninas, rindo.
– Não, não é... – zombou Mila – ele não lembra nem o que comeu ontem!
– Credo – gemeu o rapaz, observando Raven rir; a menina mal teve tempo de buscar ar para dizer que não ria dele, pois foi nesse exato momento que Josh a puxou para a própria carteira, aninhou-a no colo e a beijou.
Raven começou a sentir o cérebro martelar agradavelmente e o rosto esquentar feito um fogão; mas a menina decididamente teve uma síncope de carinho e vergonha quando ele sussurrou no seu ouvido:
– Adoro você, Raven.
Reunindo a pouca coragem que lhe sobrava, a garota também sussurrou:
– Eu também...
– Pare com isso, meu – gemeu Ginevra. Todos riram.
– Cale-se – murmurou Raven, puxando Josh para si outra vez.
Ginevra parecia prestes a ter um ataque do coração, mas quando viu as colegas rindo, acabou só revirando os olhos.
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