Coração Inglês
2 Batatas Queimadas, Fofocas, Uma Garota Idiota e Encontros
Notas iniciais
Raven chegou em casa praticamente pulando de alegria.
A Sra. Summer, que estava na cozinha, tentando salvar a batatas fritas que haviam queimado e grudado no fundo da caçarola, desfez a careta de frustração ao ver a filha entrando em casa com tamanha animação. Era algo que ela não via desde que haviam se mudado para São Paulo.
– Oi, filha... – sorriu a mãe – o que aconteceu? Está tão alegre...
– Ah, mammy... – sorriu Raven, jogando a mochila preta na cadeira da cozinha – foi incrível!
– A escola? – indagou a Sra. Summer, surpresa.
– É! Conheci um monte de gente... a Mila, a filha dos donos da vendinha lá perto da praça, o irmão dela... a
Ginevra... a Helena... todos me aceitaram, mãe! – Raven deu um sorriso enorme – pensei que ninguém jamais ia gostar de mim como eu sou... e eles gostaram!
– Que bom, filha – sorriu a mulher, até esquecendo que as batatas estavam ficando pretas de tanto queimar. Raven deu uma mistura de risada e gemido.
– Humm, mammy... é melhor eu ajudar você aí...
– Ah – a Sra. Summer finalmente olhou de novo para a caçarola, que agora cheirava á comida queimada.
– Devia ter colocado mais óleo, mãe... – riu a menina, já pegando a caçarola para lavar e tirar a crosta queimada – as batatas do Brasil não são como as do fish and chips. Foi você mesma que me disse á um tempão!
– Ah, não precisa me fazer parecer uma leiga no assunto... – brincou a mãe, fazendo outra careta – quer saber... esqueça o jantar. Assim que seu pai chegar, vamos sair para comer no Infinity. O que acha?
Raven ficou ainda mais alegre. O Infinity era o único restaurante da região que, soube Raven antes de viajar, era inspirado em um pub londrino e servia apenas pratos da culinária inglesa. Para Raven, era um pedacinho do seu país natal no meio de toda aquela “brasilidade”.
– Ah, mãe! É demais! – a menina abraçou a mãe, e saiu correndo para o quarto.
Chuchundra pareceu estranhar o ar contente da dona, espiando por cima das grades da gaiola com o focinho para cima.
Raven acariciou o topo da cabeça do animal e suspirou. Afinal, parecia que tudo não estava de todo tão ruim como imaginara.
Mal sabia ela que iria passar, em breve, por coisas que jamais sequer havia tido coragem de imaginar.
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– Mamãe...
Dois meses depois do primeiro dia de aula, Raven pensava, com animação, que, salvo o fator “Amanda Silveira”, sua vida nunca fora tão boa.
Durante todo esse tempo, ela estudava com dedicação nas aulas e, nas horas vagas, derivava o prazer da companhia das suas novas e melhores amigas.
Mila se divertia em tentar aprender um pouco que fosse de inglês com a colega, fazendo tentativas tão medíocres que, no fim das contas, a “aula” sempre acabava numa maré de risadas das garotas.
Ginevra e Helena contavam tudo sobre São Paulo para Raven, que, em menos de três dias, já sabia de cor os nomes dos bairros e Zonas da cidade; nesse meio tempo, as meninas aprendiam tudo sobre as tradições inglesas, que, apesar de nunca ter visto na prática, Raven aprendera com seus pais.
A menina passou os dois meses até que de modo muito tranquilo, considerando que havia uma garota que a detestava á apenas cinco carteiras atrás dela e um rapaz que ainda provocava confusão e arrepios na sua cabeça á apenas uma carteira ao lado. Mas se enganou ao pensar que seria assim por muito tempo.
Um dia, Mila caiu na risada ao ver Raven entrando na escola, e, afinal, acabou não sendo a única. Todos ficaram olhando a garota entrar saltitante pelo corredor. Mas quem estranhou mesmo foi a própria menina, quando viu todos a encarando. “Qual é?”, pensou ela. “Não se pode mais pular nesse país?”.
A garota ficou tão curiosa que decidiu investigar. Parou um pouco longe de onde Mila e as amigas estavam o suficiente para ouvi-las e fingiu estar lendo um cartaz na parede, tentando ouvir a conversa das colegas disfarçadamente.
– A Ray tá tão estranha ultimamente, não é? – suspirou Helena, piscando seus enormes olhos azul-água para Ginevra.
– É – concordou Mila – ela anda meio aérea, envergonhada...
– É paixão! – riu Ginevra, deixando as colegas surpresas.
– Nem pensar! – as meninas balançaram a cabeça. Mila ergueu uma sobrancelha, certamente escolhendo mentalmente em que hospício iria meter Ginevra.
– Ela anda fazendo corações no caderno, Mila?
– Sim, mas...
– Ela para de fazer o que está fazendo do nada e suspira com a mão no rosto?
– Tá, ela faz, porém...
– Ah, e também fica meio abobada quando seu irmão passa?
– Bom... – ganiu a menina, o queixo caindo lentamente á medida que entendia o que a amiga dizia, antes de gemer, chocada – Sim. Muito abobada.
– Sinto muito, colega – sorriu Ginevra – é paixão. E não é das fracas, não.
– Não brinca – sussurrou Mila.
Raven encostou-se à parede, tentando engolir aquilo. “Então é isso? Estou apaixonada?”, gemeu ela mentalmente. “E todo mundo já sabe?”.
Pior era saber que com certeza alguém ia zombar dela, sem falar do risco de Josh acabar sabendo que a novata inglesa da Hermes estava caída por ele, sem ela própria ter dado um pio sobre isso.
A menina esperou Ginevra e Helena se afastarem para dar um cutucão em Mila e fazer a melhor cara de inocente que pôde.
– Raven! – exclamou a garota, emudecendo ao ver a expressão de Raven.
– Não diz nada, colega – Raven fechou um dos olhos e fez uma careta.
– Ah, não, Raven Summer... – Mila balançou os cabelos loiros e arregalou os olhos para Raven; sua expressão indignada a fazia parecer um passarinho amarelo bem irritado — eu vou dizer, sim senhor, e vão ser poucas e boas! Como pôde esconder isso de mim? Pô, sou sua amiga!
– But... Mila... – ganiu Raven, numa tentativa desesperada e hilária de se defender – nem eu sabia que era isso. Sim, gosto do seu irmão... mas... eu nem sabia que... gostava tanto dele assim. Putz, é sério. E depois... você não ia gostar de saber.
– Não ia gostar? Raven, eu adorei isso! – disse Mila, convertendo a careta de desagrado numa risadinha.
– Sério? – sorriu a menina, surpresa.
– Claro! Aí você ia realmente fazer parte da minha família! – brincou a garota, voltando á expressão simpática — Ah, nem fale. Está com medo de falar com ele sobre isso, não é?
– Medo? Ah, não, eu não tenho medo. Tenho pavor.
– Relaxa, amiga – sorriu Mila – tudo que tiver de acontecer, acontecerá. Tenha paciência.
– Sei... você está parecendo uma sábia. E isso não é um elogio... – suspirou Raven, olhando para o teto, como quem procura um milagre – eu sei disso, e você sabe disso... mas será que ele está sabendo disso?
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A fofoca de que Raven Summer estava cem por cento apaixonada por Josh Santos se alastrou pela escola feito queimada na floresta. Logo, até mesmo os professores cochichavam uns para os outros que a menina britânica da sala no final do corredor teve uma queda pelo favorito dos professores de Educação Física – que, aliás, eram contra o romance, alegando que muitas distrações – ou seja, qualquer distração, no caso — afetaria o desempenho dele no Campeonato que estava por vir.
Foi com algazarra semelhante que Raven foi recebida na sala de aula – que, para seu alívio, não tinha Josh nela – e com a qual sorriu envergonhada.
Isto, claro, antes de Amanda Silveira entrar em seu campo de visão com um sorriso diabolicamente deliciado e fazer seu coração congelar de medo e raiva.
– Summer... a história mais louca... – gargalhou a garota, com jeito de vilã de novela – a idiota da inglesinha... querendo namorar Josh Santos?! Aah, Mila... e eu pensei que você não podia se afundar mais... e agora deixa o próprio irmão na mira dessa aberração? É patético! Espere só o trouxa do seu irmão saber...
Raven nem sequer pensou antes de agir; ela chegou perto de Amanda e deu um tapa em seu rosto com tanta força que a menina caiu no chão; mas Amanda se recompôs na hora e revidou socando o braço da garota, que cambaleou e bateu com tudo na lousa.
– Raven!! – gritou Mila, mas Raven não conseguiu responder; a garota sentiu uma dor estonteante na cabeça e ouviu vozes altas, antes de tudo escurecer.
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– Caçamba, a pancada foi forte, hein?!
– O que você esperava? Ela foi praticamente esculhambada na parede! Vou te jogar lá pra ver como você fica... -- Roxinha, é lógico. Igual a minha prima quando bateu o traseiro na escada... só melhorou dois dias depois, mas até lá, andou rebolando que nem a Carla Perez...
– Será que ela tá bem?
– Melhor seria perguntar se ela está viva. Poxa, podia ter acontecido de tudo. Traumatismo craniano, perfuração facial, derrame...
– Quer uma dica, Mila? Cala a boca.
– Ah, cala a boca você.
– Vou dar um contravapor em vocês duas, viu? Ah, cale a boca a porcaria do mundo todo, poxa. Tem uma menina apagada e pálida que nem vampira na mesa do diretor. Mais respeito.
Raven ouviu as vozes, mas não teve coragem de abrir os olhos. Só quando a voz de Mila soou, esganiçada, a garota pensou em tentar olhar.
– Será que ela está acordando? – a mão da amiga pousou em sua testa – ela está quente!
– Claro, sua obtusa! – bufou a voz de Ginevra, seguida do som de um tabefe – se ela não estiver quente, ela tá morta. Tinha que ser loira...
– Olha que eu te dou uma cacetada, garota – rosnou Mila.
– Olha a violência! – alertou Helena.
Nessa hora, Raven abriu os olhos lentamente, e deu um sorriso confuso para os rostos que a olhavam. — — E aí, colega? – disse Ginevra, ansiosa – está meio viva ou meio morta?
– Acho que “meio viva” e “meio morta” são a mesma coisa – brincou ela; sua voz soou meio fraca – o que aconteceu?
– Bom, você desceu a mão na Amanda, ela te empurrou e você bateu a cabeça na beira da lousa... e desmaiou.
– Dã – fez Mila.
– É, e aí o Josh te trouxe pra cá, na sala do diretor. Você tá deitada da mesa do dito, sabe – completou Helena, rindo.
– O Josh me trouxe aqui?? – gemeu Raven.
– No colo, ainda por cima – sorriu Mila maliciosamente, se divertindo com o choque dela – ele te viu caída no chão, chamou o diretor, que deu aquele sermão na Amanda, chamou os pais da desgraçada e tudo.
– E a Amanda?
– Ela ganhou suspensão de três dias e uma bela bronca, sem falar do zero que levou na aula de Física.
– Nossa, Ray... você brigou com a Amanda! Isso foi irado! Vão falar sobre isso por anos! – sorriu Helena. -
–Ah...e... – Raven mal ousava levantar a dúvida, constrangida e confusa – o Josh?
– Ah... – suspirou Helena, sem graça.
– O Josh, amiga... bom... é... bem... – Ginevra engoliu em seco.
Mila revirou os olhos diante da expressão das colegas e desabafou.
– Disse pra cuidarmos de você e avisar, quando acordasse, que ele está te esperando lá na quadra arborizada.
Helena e Ginevra ficaram boquiabertas e arfaram, entreolhando-se; mas não estavam mais chocadas do que Raven, que aos poucos voltava á raciocinar direito.
“Josh quer falar comigo á sós... céus, e agora?"
– Você não está falando sério, Mila Santos... – ganiu a menina.
– Ah, estou – riu Mila – ele disse que quer conversar com você num lugar privado, só os dois. Alone. Solo.
– Que romântico – brincou Helena, rindo.
– Cala a boca, Lena – riu Raven, envergonhada.
– Deixa disso, amiga. Todos sabem que vocês foram F.U.P.O.
– F.U.P.O? – indagou a menina, confusa. Helena riu.
– Feitos Um Para o Outro!
– Aff...- Raven revirou os olhos.
– Essa é boa – disse Ginevra.
– Essa é besta – riu Mila.
– Não posso dizer que inventei. Vi num filme da Barbie.
– Você... ainda... assiste...? – gemeu Mila, chocada.
– Cale-se, pamonha – bufou Helena. As meninas riram.
– E aí, amiga? Vai lá! – encorajou Ginevra – é o Josh, e não o Exorcista.
– Tem razão – Raven respirou fundo e desceu da mesa, enquanto Ginevra gemia algo que parecia soar como “Uia” – é agora ou nunca.
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Mas quando Raven chegou na quadra aberta, cercada por cerejeiras e plantas, ela sentiu um frio na barriga sufocante, que quase a fez voltar aos berros para a diretoria. Foi quase na ponta dos pés que a menina caminhou até as árvores e parou em frente de uma das maiores do jardim. Deu uma olhada ao redor, mas não viu ninguém. — Devo estar pirando...
– Raven?
A garota quase ficou sem ar ao ouvir a voz do rapaz. Lentamente, ela se virou em sua direção; mas quando parou, Josh já estava á apenas alguns centímetros dela. A menina balbuciou baixinho. — Josh?
– Você está bem? – indagou ele; parecia realmente preocupado com a resposta.
– Eu... estou... sim – arfou Raven.
Josh balançou a cabeça, as sobrancelhas contraídas; a expressão no rosto dele era de alguém que queria descobrir um mistério.
– Por que você brigou com a Amanda?
Raven mordeu a língua antes de responder.
– Ela te xingou.
– Eu sei disso... a Mila disse pra mim – suspirou o rapaz, dando um pequeno sorriso que fez o coração de Raven dar uma cambalhota – mas e daí? Eu não ligo, sem falar que não é um motivo tão forte pra você sair batendo em todos que me xingam por aí. Podia ter se machucado seriamente, sabia? Se quiser brigar, pegue alguém do seu tamanho, e não a jumenta da Amanda. Ao menos não vai se machucar.
– Eu... não pude evitar – a garota uniu toda a coragem que ainda lhe restava para dar um sorriso constrangido – ela não tinha o direito nem mesmo de dizer seu nome.
– E depois... é verdade o que eu ouvi?
O choque foi tão forte que Raven chegou a ficar enjoada. “Ele descobriu... E agora?”.
– O que é verdade? – engrolou Raven.
Josh pareceu sem graça antes de suspirar outra vez.
– Que você gosta de mim?
A garota mordeu a língua outra vez com força e não respondeu.
Raven fechou os olhos, envergonhada; mas quando os abriu, Josh estava colado nela, abraçando-a pela cintura, e isso bastou para a menina amolecer nos braços dele de susto e começar á arfar feito louca.
Mas ela definitivamente parou de respirar quando Josh beijou-a na boca.
O choque foi tanto que Raven não conseguiu fazer outra coisa senão abraça-lo com mais força ainda e retribuir.
A cabeça dela martelava e ela não respirava direito.
Mas a última coisa que Raven queria ali era parar.
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