Coração Inglês
16 As Aves Que Aqui Gorjeiam, Gorjeiam Igualzinho Lá
Notas iniciais
– ... e aí ele disse: “ah, Ginevra, você é a gracinha mais linda que esse neguinho aqui já viu!”
– Ah, só pra sua informação, Ginevra... você contou essa bodega umas vinte vezes pra gente em menos de três minutos – riu Raven.
– Bah. Me deixa viver – bufou Ginevra.
Quando Raven, Josh, Ginevra, Mila e Helena entraram na Hermes, foram recebidos por um silêncio total. Os poucos alunos que estavam perto do portão emudeceram na hora, olhando para eles com uma mistura de assombro e humor.
– Ai... que silêncio macabro é esse? – ciciou Mila.
Uma das alunas veio na direção deles, com um jornal em mãos. Era Ingrid.
– Ah.. oi, Ingrid – disse Helena, parecendo confusa.
Ingrid riu, abriu o jornal e enfiou-o na cara dos meninos.
– Olhem isso aqui. Primeira página do Estado de São Paulo. E uma matéria inteirinha, até a página cinco...
Raven leu a manchete da primeira página, e deu uma mistura de gemido e gritinho antes mesmo de ler o resto.
Seis jovens desmascaram quadrilha de ladrões em SP
Seis alunos da Escola Estadual Hermes, localizada na zona leste de São Paulo, foram os responsáveis pela captura de um grupo de criminosos que há três meses vem roubando objetos de valor de outras escolas da cidade, entre elas uma faculdade e uma escola particular que preferiram manter seus nomes em sigilo. A quadrilha se compunha de um ex-diretor de escola, identificado como André Relaviera Coelho, uma das professoras da Escola Hermes, Maria Chan Chen, entre outros criminosos que já tinham passagem na polícia por roubo e extorsão de dinheiro.
Os seis adolescentes em questão são do 2° ano da escola já citada, e descobriram o sistema empregado pela quadrilha para se infiltrar nas escolas: passagens subterrâneas que ligavam os locais roubados á um depósito de uma fábrica desativada que servia de esconderijo, e que na Hermes foi localizada na biblioteca da escola, escondida por um armário desparafusado da parede.
Por pura curiosidade ou mesmo por preocupação com o caso do roubo em sua escola, estes jovens, segundo o relato dado por eles mesmos, encontraram a passagem e atravessaram-na até entrar acidentalmente no depósito. O que se seguiu foi, segundo uma das garotas que compunham o grupo, uma verdadeira fuga, em que tentaram impedir os criminosos de darem seu próximo passo, e, ao mesmo tempo, salvar suas vidas.
A polícia foi chamada por outra garota do pequeno grupo, que fez uma ligação, escondida do líder da quadrilha, relatando tudo o que ela e os colegas haviam descoberto. Quando as primeiras viaturas adentraram no prédio, encontraram duas garotas no portão, pedindo ajuda. Dentro do saguão, encontraram outra garota caída, aparentemente baleada, e um rapaz na mesma situação. O policial Roberto Paulo imobilizou André Relaviera antes que este atirasse na última garota ainda consciente.
André e sua quadrilha estão presos na 16º DP de São Paulo, de onde serão transferidos após julgamento, e podem sofrer de quatro á doze anos de prisão.
Os adolescentes baleados e inconscientes, até o fechamento desta edição, estavam internados no Hospital Santa Marcelina, e não correm risco de vida.
Havia uma matéria logo abaixo, que atraiu a atenção de todos por apenas uma palavra no título, que pegou Raven de surpresa.
Uma história de coragem, amizade e muito inglês – por Susi Laia
A história de um grupo de estudantes que descobriram o grupo de criminosos responsáveis por vários roubos nas escolas de nossa cidade não é comum. Ah, nem um pouquinho.
Assim que ouvi falar de uma balbúrdia no bairro ao lado de minha casa, onde umas três ou quatro ambulâncias passaram correndo pela minha rua fazendo aquele “uíuíu” irritante, esta colunista aqui quis ir mais á fundo nesse estranho acontecimento, e foi assim que descobri mais, tanto sobre essa notícia surpreendente, quanto dos nossos jovens e pouco conhecidos heróis.
Após entrevistar duas das meninas que faziam parte desse grupo de alunos da Escola Estadual Hermes, eu pude remontar a aventura que esses adolescentes viveram.
Logo abaixo havia uma versão resumida e simples de tudo que ocorrera desde a entrada na biblioteca até o final. Raven olhou de soslaio para Mila, que corou ao ver que a amiga não tivera dificuldade de descobrir quem era uma das “informantes” de Susi. Ainda surpresa, Raven continuou lendo.
O mais estranho em toda a história é o próprio grupo de estudantes em si. Muitas diferenças podem identificá-los individualmente, mas o mais surpreendente é que essas diferenças não afetaram em nada a amizade acirrada que estes jovens têm entre si, muito menos durante tão surpreendente a inesperada aventura. Abaixo, resumi em miúdos alguns detalhes sobre cada um de nossos pequenos heróis:
Mila e Josh Santos são dois jovens irmãos, que pareceram a meu ver garotos muito simpáticos. Mila é uma (perdoem a brincadeirinha) aspirante á modelo de cabelos loiros, enquanto Josh é um rapaz de cabelos castanhos (aí é que fica a dúvida... eles são mesmo irmãos? Mistério? Milagre da genética... Quem sabe...). Josh foi o rapaz baleado antes da chegada da polícia, e Mila era uma das garotas que estavam do lado de fora do prédio, chamando por ajuda.
Helena Marques de Sousa Soares Coelho (puxa, querida, que nome comprido!!) é uma encantadora menina, muito simples tanto no jeito de se vestir como nas suas origens. Animadíssima, não parou de falar até entrar na ambulância. Foi a outra garota que pediu socorro, junto com Mila Santos.
Ginevra Pereira é uma ruivinha muito bonita, que me pareceu, até fechar essa coluna, uma das mais bem-humoradas do grupo, pois brincava o tempo todo sobre sua condição, chamando a si mesma de “queijo suíço”. Foi a outra garota baleada no ataque de André aos meninos.
Amanda Silveira, outra loirinha, é uma menina com língua bem afiada, pois não poupou advérbios, adjetivos e palavras de “baixo calão” para xingar André enquanto este entrava na viatura policial, só parando após um policial praticamente implorar á ela por algum respeito. Apesar disso, é uma graça de garota, e pareceu-me bem preocupada quando viu os colegas serem levados até a ambulância. Foi ela a salvadora do grupo, que ligou para a polícia enquanto se escondia dos bandidos.
Enfim, por último, mas não menos importante, eu deixei para o final um ponto alto nessa história. Raven Summer, a adorável menina de cabelos morenos, namorada de Josh, que por pouco não foi outra vítima de André. A maior característica dessa jovenzinha é o fato de ser filha de uma conhecida família de ingleses e ser fluente nas duas línguas, tanto a materna quanto a deste país. É um dos maiores exemplos de laço cultural que temos nessa história, que nos prova definitivamente a possibilidade de um grupo de garotos tão diferentes entre si terem uma amizade tão forte. Pareceu-me ser um tipo de “sol” da turma, pois todos pareciam gravitar ao redor dela. Não a chamo de líder, pois isso implicaria dominação, e esta menina, a qual eu tive a oportunidade apenas de ver e ouvir a descrição sincera de sua figura através das amigas, não parecia ter a menor “tirania” sobre os colegas. É como se eles simplesmente gostassem tanto dela que não conseguissem se separar da amiga. Ela foi encontrada inconsciente dentro do prédio, junto do namorado, e foi resgatada durante o caos que se seguiu.
Enfim, algo que eu aprendi com esses jovens aventureiros é que para se conseguir alcançar o que se deseja, é preciso apenas uma mistura de coragem e união. E, se o destino permitir, uma pitada de inglês.
Raven chegou ao final da linha com os olhos meio úmidos, rindo feito boba, e não era a única.
– Puxa... – ela olhou para os colegas – essa Susi tem toda a razão...
– Esquece a Susi, menina – os olhos de Helena brilhavam, e a menina ria – cara, primeira página do Estadão! Raven, agora nós somos celebridades!
– Beleza... desde que não tenha que aguentar nenhum paparazzi... – brincou Ginevra.
– Nossa, a Amanda já viu essa manchete? – indagou Ginevra, ainda lendo o “infame” comentário de Susi sobre o “queijo suíço” – ela vai fritar um ovo na cara se ler o que a Susi escreveu sobre ela.
– Ou vai dar á luz uma ninhada de gatinhos pretos – brincou Raven, mostrando a língua.
– É mesmo... cadê a Amanda? – disse Josh.
– Cadê todo mundo? – gemeu Helena, olhando para o pátio.
Ingrid pareceu se cansar de servir de suporte de jornal; entregou-o á Raven e revirou os olhos.
– O diretor pediu pra avisar quando chegassem que é pra vocês irem pro anfiteatro.
Raven e as meninas se entreolharam. Josh deu um sorrisinho misterioso.
– O que ele quer?
– Pergunta besta, Ray... – Amanda surgiu do nada, quase enfartando Ginevra.
– Oi, Manda... – todos a cumprimentaram, timidamente. Ainda não haviam se acostumado com a ideia de Amanda como amiga.
– Como está seu irmão? – perguntou Raven.
Amanda deu um sorriso estranho. Raven quase não reconheceu; era um sorriso de alegria. Nunca tinha visto Amanda sorrir assim, sem rancor nem nada. A menina parecia mil vezes mais bonita.
– Ele acordou... – Amanda olhava de um para o outro, como se quisesse dividir com eles sua felicidade – ainda está no hospital, mas acordou... eu fui visitar ele agora, de madrugada...
– Puxa, Amanda... que legal! – disse Raven; ela ficou feliz ao ver que falava com sinceridade.
– Ainda bem! – sorriu Helena, que pareceu ficar surpresa com o próprio sorriso.
Amanda sorriu mais ainda.
– Bom.. continuando o que você dizia, Manda, partindo do “besta”... – riu Raven.
– Ah, sim... – Amanda piscou, fazendo uma careta – o diretor vai querer dar um baita castigo por termos cabulado as últimas três aulas de ontem, sem choro, nem vela...
– ... e nem besta – completou Ginevra.
Raven engoliu em seco.
– Ai, meu Senhor... sério?
– Deve ser... – respondeu Amanda — por que mais ele ia convocar todo o corpo docente, a diretoria inteira e uns dois representantes do Conselho Tutelar?
– É o quê?? – gemeu Josh.
– Todo o corpo docente? – ganiu Ginevra.
– A diretoria inteira? – gemeu Helena.
– O Conselho Tutelar??? – o queixo de Mila despencou.
Amanda levantou as mãos.
– São os boatos.. vai saber...
Raven gemeu baixinho.
– Bom... só tem um jeito de nós descobrirmos, não é? Temos que ir...
Ninguém discutiu, e todos seguiram Raven até o outro pavilhão.
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Quando todos entraram porta do anfiteatro adentro, não puderam deixar de soltar uma mínima exclamação. Quase todas as segundas e terceiras séries do ensino médio estavam lá, bem como cinco ou seis professores, alguns coordenadores, uma animada “tia” do refeitório e a vice-diretora, assim como o próprio diretor da Hermes.
– Papagaio – gemeu Helena.
– Ouch, ouch – Raven imitou a amiga.
O diretor abriu os braços, para a surpresa dos meninos, como que para dar as boas vindas.
– Ah, aqui estão nossos estudantes! – sorriu o diretor.
Aplausos animados correram pelo anfiteatro, e Raven sentiu-se avermelhar.
A vice-diretora também sorriu.
– Venham, meninos.. subam aqui – ela chamou-os.
Raven olhou para os colegas; Josh sorria envergonhadamente, Helena ficara branca como papel sulfite, Amanda só faltou ficar roxa de vergonha, e Ginevra e Mila se entreolhavam de olhos arregalados. Sem saber o que fazer, a menina guiou os amigos até o palco.
Quando todos já haviam subido, o diretor continuou:
– Estes são os alunos que resolveram o maior caso de roubo que já ocorreu, não apenas em nossa escola, como em várias outras. Apesar de terem, para isso, quebrado algumas regras – o diretor olhou para Raven, que corou mais ainda – todos nós concordamos afinal, que foi por uma excelente causa. E, por isso, não vamos só isenta-los de qualquer punição ou advertência, como a nossa escola decidiu lhes dar um presente por tudo que fizeram!
– Valeu, Ray! Achei meu celular! – gritou uma menina na plateia, agitando o aparelho no ar. Todos riram.
O diretor revirou os olhos, sorrindo. Nem os professores escaparam, apesar de darem risinhos sem graça.
– Bom, em resumo, nós queríamos presenteá-los com uma condecoração que nos foi cedida pela Polícia Militar.
– Brincou... – murmurou Ginevra.
Uma das professoras, de que Raven só lembrava a fisionomia indígena, apanhou uma caixinha de veludo em cima de uma carteira que estava no palco, e abriu-a diante dos garotos. Aninhadas lá dentro, havia seis insígnias em formato de medalha, com o brasão da Polícia Militar.
Raven pegou a medalha, com as mãos quase tremendo, e pôs ao redor do pescoço. As amigas e Josh também a imitaram, com a mesma hesitação.
– É incrível... – sorriu Raven, emocionada, para os professores e o diretor — Puxa... a gente não sabe como agradecer...
– Ora, menina – riu a vice-diretora – nós é que temos de agradecer por terem recuperado tudo que foi roubado, e, ainda por cima, terem descoberto quem andava fazendo esses roubos.
– E é lamentável – suspirou o diretor – que uma pessoa que trabalhava conosco, em quem confiávamos, como a professora Maria, tenha se envolvido nesses verdadeiros crimes, contra sua própria escola.
Todos assentiram, e, para surpresa de Raven, as amigas choravam baixinho de emoção. Amanda sorria de tal modo que Raven finalmente viu a garota que poderia ter sido sua amiga desde o começo. “Bom, nunca é tarde para recomeçar”, pensou a menina, sorrindo.
– E, como o professor Pedro simplesmente implorou para os coordenadores de sua sala, por ter recuperado aquele, convenhamos, carro horroroso dele – a vice-diretora riu de novo – a nota de todos vocês em todas as matérias aumentou um ponto na média este bimestre.
– Eba! – Mila bateu palmas, mas Amanda suspirou, chateada:
– Grande coisa... minha nota subiu para três....
O diretor olhou para a cara amarrotada de Amanda e sorriu para a menina.
–Ah, sim, e Srta. Silveira... – Amanda pulou de surpresa – andamos conversando com a direção e com os professores, e reconsideramos aquela punição que você havia recebido anteriormente. Por você ter, evidentemente, mudado um pouco seu “proceder”, bem, decidimos anular seu castigo.
Amanda, levou as mãos á boca.
–Então... não vou mais repetir o ano?
– Não, Silveira. Vamos aumentar sua nota também, o equivalente para cada matéria para que você ao menos tire notas azuis.
Raven sorriu para Amanda, que não cabia em si de alegria.
– Parabéns, Amanda! – Raven deu um tapinha no ombro da menina.
– Bom, crianças – Helena revirou os olhos de raiva quando a vice-diretora usou o “termo diminutivo” – isso é tudo. Agora podem ir. Afinal, acho que agora vocês têm uma baita publicidade da qual se desviar, não é?
– Nem me diga, senhora – brincou Raven, rindo, fazendo a linda medalha de condecoração rodar em seu pescoço -Publicidade é meu nome do meio.
Todos também riram.
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Toda a escola – e a São Paulo inteira – pareciam estar lendo os jornais que narravam, citavam ou noticiavam sobre os roubos ás escolas. Na Hermes, porém, pareceu virar regra que todo estudante estivesse lendo exaustivamente mais matérias sobre essa história, pois não se via um aluno que não estivesse de posse de um dos jornais.
Raven adorou ser o centro das atenções durante o tempo em que respondeu várias perguntas sobre toda a aventura, até Helena gritar, dizer que Raven não era um bicho de circo nem um experimento científico para ficarem olhando de boca aberta, e a praticamente arrastar a amiga, risonha, pelo braço, para longe dos curiosos.
– Helena, você precisa tomar umas lições com a Angelina Jolie – riu Raven – primeiro mandamento da AJ: trate bem os fãs.
– Que mané fãs, o quê... – disse Helena, e Raven sorriu ao ver que a amiga ria – tá brincando, você vai acabar como aquelas atrizes inglesas que são espancadas pela fama e depois fazem bobagem... tipo a Emma Watson, a Emma Thompson, a Sandra Bullock...
– A primeira Emma só fez uma bobagem de nada , a segunda não fez nenhuma que eu saiba, e, credo, Helena, a Sandra não é nem uma molécula inglesa – Raven estava chorando de rir.
– Que seja – Helena deu de ombros, embora risse tanto quanto Raven – você entendeu.
Ginevra não estava gostando tanto da atenção excessiva; saiu de sua revisão para a prova de Inglês entendendo menos do que quando começou, já que metade da sala não parava de lhe fazer perguntas estranhíssimas sobre o roubo. Mila também não gostou nada do seu recém-feito “fã-clube”; a menina ficou tão irritada com o “questionário” que um bando da oitava série lhe fez, que saiu para o intervalo olhando feio para todo mundo, e até chutou um cachorro vira-lata que entrara na escola, fazendo o animal sair ganindo pátio afora.
Quanto á Josh, ele pareceu ficar terrivelmente constrangido com a sua “fama”; o rapaz não parava de ser perseguido por garotas que pareciam ter segundas intenções escondidas nos “parabéns” e “você é tão corajoso” que diziam.
Raven cerrava os punhos e mordia o lábio, como se estivesse tentando não esquarteja-las uma por uma, enquanto Josh lhe dava um sorriso do tipo “desculpa, meu amor” por cima do ombro de uma ruivinha particularmente exaltada. Ela só não iniciou um massacre porque Josh conseguiu sair correndo, arrastando-a pelo braço, após gritar, apontando para o teto: “olha, um disco voador!”.
Raven nem acreditou quando todas olharam para cima, procurando o objeto.
– Ah, que loucura – gemeu o rapaz, depois de se esconder com Raven na sala do 2º G, sentado na carteira da menina.
–Ah, tá... vai me dizer que você não gostou de ter todas aquelas garotas bonitas ao seu redor – Raven fingiu ciúme.
Josh caiu na farsa, e o rosto do rapaz de torceu de choque e indignação. Raven estava despreparada para ver o garoto puxa-la pela cintura e olhar nos olhos dela de um jeito profundo e – ela corou ao notar – ao mesmo tempo, muito carinhoso.
– A única garota bonita nessa escola inteira é você. Na verdade – ele sorriu – bonita é diminutivo.
– Ai – foi só o que ela disse, antes de beijar Josh. Ela riu ao sentir aquela costumeira amnésia momentânea tomar conta de sua cabeça.
– Ah, Santo Deus, vocês não desgrudam, não? – disse uma voz humorada na porta. Josh se separou de Raven tão rápido que quase caiu da carteira.
– Amanda! – exclamou Raven.
– Oi – disse a garota, sorrindo de um jeito nada educado.
– Amanda? Seu projeto de Britney Spears! – brincou Josh, recuperando a pose. Raven sorriu ao ver que o rapaz também não tinha mais nenhum rancor contra ela – o que está fazendo aqui, criatura?
– Vim pegar meu livro d’O Cortiço pra ler no intervalo, e aí vi a ceninha de vocês – Amanda riu. Apesar de ter mudado, de certa forma ela ainda não perdera aquele velho toque irônico que Raven conhecia desde o início do ano.
– Ceninha a cabeça do Fausto!
– O que é que em eu aí? – indagou Fausto, lá do fundo da sala, embora ele praticamente estivesse fazendo a mesmíssima coisa com Mila, lá no seu canto.
– Vocês são doentes – disse Raven. Helena riu tanto que quase derramou o branquinho em cima da atividade de Artes.
Amanda cruzou os braços e abraçou a cintura, sacudindo-se e revirando os olhos, fingindo que estava presa por uma camisa de força. Nem Fausto segurou a risada.
– Ah, Manda, você sempre foi doida mesmo – riu Raven — claro que ia imitar direitinho.
Todos deram risadinhas. Amanda revirou os olhos, mas, pela primeira vez ao ouvir um comentário irônico de Raven, deu um sorriso sincero.
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No dia seguinte, o peso da fama dos garotos pareceu diminuir até sumir. Com as provas de final de bimestre chegando e o caso do roubo indo para o escalão de “menos importante” na vida dos alunos, Raven, as amigas e Josh finalmente pareciam ter recuperado um pouco de paz e sossego. Mas a menina sabia muito bem que ninguém ia esquecer uma aventura incrível dessas tão cedo.
Ninguém entendia ainda como Amanda e Raven haviam se tornado, de inimigas mortais, à melhores amigas, da noite para o dia. Havia até gente que ficasse boquiaberta ao ver as duas jogando xadrez na aula de Educação Física, ou atazanando Helena enquanto ela lia As Mil e Uma Noites, passando um raminho de ipê na cara dela até ela berrar e dizer que bullying em dobro era injustiça. Mas o que se sabia era que ali estava o começo de uma boa amizade.
Foi a própria Amanda que disse á Raven, nessa mesma manhã, aos risinhos, que ela havia começado um namoro há pouco tempo.
– Puxa – Raven sorriu – e qual é o nome do galã?
Amanda deu uma risada um tanto maliciosa antes de murmurar “Alex”.
Raven quase caiu do banquinho do pátio.
– Alex? Alex Souza? – gemeu Raven, rindo — O campeão de xadrez do 2°G?
O sorriso de Amanda dobrou, e ela assentiu.
– Ah, é... depois de uma partida particularmente dolorosa para mim – disse Amanda – ele detonou meu rei.
– Ah, Amanda... – a voz de Raven diminuiu – ah, você sabe que o Alex vem de família alemã, não é?
Amanda deu um sorriso amarelo.
– Ora, Raven – Raven sorriu ao ver Amanda trata-la pelo nome – eu não tenho mais nada contra isso... tudo o que vem acontecendo me fez pensar no que eu venho fazendo com você, sabe...
“Quando fiquei sabendo do acidente com o João, fui correndo para o hospital. Quando eu o vi na maca, todo machucado, comecei á chorar. Mas foi aí que eu pensei: e se não fosse ele? E se fosse outra pessoa? Eu iria chorar também? E mesmo se eu não fosse, alguém, com certeza, choraria por essa pessoa. Foi aí que eu pensei em você. Peguei-me perguntando á mim mesma... por que eu te odiava? Só por que você não nasceu aqui? Só por que você era diferente, ou porque eu te invejava? Foi aí que eu entendi. Venho odiando alguém pelo motivo mais estúpido e inútil do mundo. Foi ele que me cegou. Tudo que aconteceu comigo... bom, menos o acidente do João... foi bem merecido.”
– E que motivo era esse? – Raven sabia a resposta, mas quis ouvir Amanda dize-la.
Amanda fez uma careta chateada, e falou num tom de voz de quem fala um palavrão:
– Preconceito. E eu pensei que isso era coisa da porcaria da aula de Filosofia...
Raven riu. Amanda sorriu, sem graça.
– Agora você entendeu.
– Desculpa, Raven... por tudo... pelo Concurso de música, pela sabotagem do Campeonato... eu sinto muito mesmo...
– Não, Manda... eu também peço desculpas... não tinha motivo para também ter tratado você do jeito que venho fazendo...
Para a surpresa de Raven, Amanda abraçou-a. Raven sorriu, e retribuiu o abraço.
Enquanto isso, Raven imaginou como é que todos estariam naquele momento se ela não tivesse entrado na Hermes.
Ela não teria conhecido Mila e as meninas. Nunca teria encontrado Josh. Nem ia ter dado um jeito na personalidade anteriormente desprezível de Amanda. Também não teria tido aquela semana incrível de viagem em sua terra natal, as divertidas tardes em sua casa com as amigas, nem mesmo ganhado o Concurso Musical ou descoberto a fonte dos roubos na escola. Isso sem falar que nunca teria achado Snow, e nunca teria passado aqueles maravilhosos momentos com Josh. Sua vida seria completamente diferente. E, sinceramente, nunca teria sido tão incrível.
“O destino é um carinha engraçado...”, pensou a menina, rindo mentalmente ao sorrir para a nova amiga.
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